Autor brasileiro · ficção científica, aventura & romance
André L. F. Nunes
Histórias de um universo só: mundos que colapsam e recomeçam, florestas que guardam lendas vivas e amores que insistem em existir contra o tempo. Escolha seu próximo livro.
A Deriva nunca foi bela — só uma nave de recuperação vivendo dos ossos de naves melhores, pilotada por Íris Kavanagh, uma mulher que nunca soube resistir a um mistério. Quando os sensores captam um sinal antigo vindo de uma estrutura que não deveria existir, a curiosidade de Íris — ao lado do desertor Bruno e do mecânico alienígena Ket — os leva para dentro de uma estação abandonada há três mil anos. Mas a corporação Halyard também rastreou o sinal, e trouxe a Major Kessler, que carrega uma dívida com Bruno. Entre fantasmas de uma civilização morta e uma escolha que pode custar a própria identidade, é uma história sobre o que significa continuar existindo.
Antes que houvesse nomes para as estrelas, havia apenas a Esfera.
Ela girava sozinha no centro da estação, tecendo linhas de luz entre pontos que ainda não eram constelações — porque as constelações, aprenderiam depois, não são desenhadas pelo céu, mas por quem as observa. A estação fora construída ao redor dela como uma concha ao redor de uma pérola, e por incontáveis eras cumpriu um único propósito: contar.
Contar o quê, ninguém que ainda respirasse saberia dizer.
Os que a construíram já não tinham corpos — apenas ecos, impressões deixadas em metal e em pedra, do mesmo jeito que um grito deixa um tremor no ar muito depois de a boca ter se calado. Um deles permanecera mais que os outros: um guardião de escamas e olhos amarelos, que carregava sobre o peito um disco de prata gravado com números que não eram horas. Não media o tempo que passava, mas o tempo que faltava.
Faltava para quê, também não dizia. Ou talvez dissesse, na língua sibilada que usava para rezar sozinho nos corredores vazios, mas não havia mais ninguém ali para escutar.
Nas entranhas da estação, mais abaixo, coisas dormiam que não deveriam ter sido feitas. Um pântano que não era um pântano, mas uma sala inteira apodrecida de propósito, onde algo respirava debaixo da lama esperando fome. Uma fera acorrentada por correntes gastas de tanto conter — não por medo de que fugisse, mas por medo de que se lembrasse de que podia. E, guardado numa casca mais dura que aço, um ovo que os construtores haviam decidido, em algum conselho já esquecido, que era cedo demais para deixar nascer.
A estação esperou. As luzes se apagaram uma a uma, não por falta de energia, mas por falta de olhos para vê-las. As correntes enferrujaram. O disco sobre o peito do guardião continuou contando, porque isso era a única coisa que ainda sabia fazer.
E então, depois de um silêncio longo o bastante para ser confundido com paz, alguma coisa lá fora aproximou-se demais.
Uma nave pequena, suja, sem nenhuma majestade — do tipo que carrega gente fugindo de algo mais do que gente indo a algum lugar. Seus sensores captaram um sinal fraco, quase um sussurro entre o ruído das estrelas, e o piloto, por ganância ou por tédio ou pelo simples costume de nunca deixar um mistério fechado, mudou de rota.
A estação sentiu a aproximação como se sente o primeiro frio antes de uma febre.
E, pela primeira vez em milênios, a última contagem começou a correr mais depressa.
Deriva
A Deriva não era bonita, e ninguém a bordo fingia o contrário.
Era uma nave de recuperação, dessas que vivem dos ossos de outras naves — cascos comprados em leilão de sucata, motores remendados três vezes cada, um casco pintado por cima da pintura anterior tantas vezes que já não se sabia a cor original. Cheirava a óleo de motor e café requentado. Mas voava, e para Íris Kavanagh isso já era mais do que a maioria das coisas na vida dela conseguia prometer.
— Você vai me dizer o que é aquilo, ou eu vou ter que adivinhar? — a voz de Bruno veio pelo intercomunicador, arrastada pelo sono que ele não tinha tido.
Íris não tirou os olhos do console. — Um sinal. Fraco. Intermitente.
— Sinais fracos e intermitentes são como convites de festa que ninguém quer ir, Íris. Normalmente tem um motivo pra estarem fracos e intermitentes.
— Normalmente eu ignoraria. — Ela girou a cadeira, os dedos correndo por cima do painel como quem acaricia um animal desconfiado. — Mas esse é antigo. Muito antigo. E não devia mais existir.
Foi o suficiente para trazer Bruno até a ponte, ainda vestindo a camisa do dia anterior, os cabelos grisalhos amassados de um lado só. Ele tinha sido soldado de alguma corporação da qual não falava o nome, e carregava isso no jeito de andar — sempre meio agachado, sempre calculando a distância até a saída mais próxima.
Atrás dele veio Ket, que não andava tanto quanto deslizava, as pernas articuladas fazendo um som seco contra o metal do chão. Era da espécie que os humanos ainda chamavam, sem muita imaginação, de "carapaças" — mas Ket preferia ser chamado pelo nome, e cortava rápido quem insistia no contrário. Era o melhor mecânico que a Deriva já tivera, e o único capaz de fazer o motor funcionar sem xingar em três línguas ao mesmo tempo.
— Isso não é um sinal de socorro — disse Ket, debruçando um dos olhos compostos sobre a tela. — É um pulso. Repetitivo. Como uma contagem.
— Contagem de quê?
— Se eu soubesse, não estaria perguntando pra tela.
Íris ampliou a imagem. No meio do vazio, onde os mapas estelares da região marcavam apenas "zona não catalogada — risco de detritos", havia uma estrutura. Grande demais para ser uma nave, silenciosa demais para ser uma estação em uso. Suas formas pareciam ter sido desenhadas por alguém que conhecia geometria, mas não gostava dela — curvas que deveriam ser ângulos, ângulos que deveriam ser curvas.
— Isso é dinheiro — disse Bruno, baixinho, como se a estrutura pudesse ouvir e discordar.
— Isso é velho — corrigiu Ket.
— As duas coisas não se excluem.
Íris ficou em silêncio por um momento mais longo do que os dois esperavam. Ela sabia o que aquele silêncio significava, e eles também sabiam: era o som de uma decisão sendo tomada sem consultar ninguém.
— Vamos entrar em rota de aproximação — disse ela, finalmente. — Devagar. Sensores passivos. Se aquilo tiver dentes, quero vê-los antes que eles nos vejam.
Bruno suspirou o suspiro de quem já perdeu essa discussão antes de começar. — Um dia essa sua curiosidade vai nos matar.
— Um dia — concordou Íris, sem se virar. — Mas não hoje.
—
A estrutura cresceu na tela conforme se aproximavam, e o que de longe parecia rocha revelou-se, de perto, metal — um metal escuro, sem o brilho costumeiro das ligas conhecidas, como se tivesse sido projetado para não refletir luz nenhuma, nem mesmo a das próprias estrelas.
Não havia luzes externas. Não havia antenas, docas visíveis, nenhuma das marcas que qualquer civilização deixa para dizer aqui, entre por aqui. Apenas uma abertura, no meio do casco, do tamanho exato para engolir uma nave do porte da Deriva — como se tivesse sido feita sabendo, de antemão, o tamanho de quem viria.
— Isso não me agrada — murmurou Ket.
— Nada nessa nave te agrada — respondeu Bruno.
— Isso me agrada menos que o normal.
Íris levou a Deriva mais perto, os motores reduzidos a um sussurro, e sentiu — não ouviu, sentiu, no jeito que só quem pilota há tempo demais consegue sentir — uma mudança na pressão do vazio ao redor deles. Como se algo, em algum lugar muito abaixo daquele casco cego, tivesse aberto um olho.
O pulso do sinal, no console, acelerou.
— Ket — disse ela, devagar. — Aquela contagem que você mencionou.
— O quê?
— Ela está ficando mais rápida.
Ninguém respondeu. Lá fora, a boca escura da estação esperava, paciente, como sempre esperara, e a Deriva deslizou para dentro dela como uma migalha descendo pela garganta de algo que ainda não tinha decidido se estava com fome.
—
O interior da abertura era mais fundo do que parecia de fora — um túnel de metal escuro que engoliu a luz dos holofotes da Deriva quase por completo, devolvendo apenas um cinza sujo, como fumaça sólida. Íris manteve as mãos nos controles mesmo com o piloto automático fazendo o trabalho, porque uma vida inteira pilotando tinha lhe ensinado que confiar cegamente numa máquina era a antessala de confiar cegamente em qualquer coisa, e isso raramente terminava bem.
— Gravidade artificial — anunciou Ket, os olhos compostos girando entre os mostradores. — Fraca, mas presente. Alguma coisa aqui dentro ainda está gerando energia.
— Depois de quanto tempo? — perguntou Bruno, já vestindo o colete de placas por cima da camisa amarrotada.
— Não sei dizer. O bastante para as ligas na entrada terem se oxidado três camadas de profundidade. O bastante para eu não confiar em nenhum número que eu chutasse.
A Deriva atravessou o túnel e desembocou num espaço aberto — um hangar, ou o que um dia tinha sido um hangar, vasto o suficiente para engolir naves dez vezes o tamanho da deles. As docas se estendiam em fileiras simétricas, vazias, cobertas por uma poeira fina que boiava devagar demais no ar rarefeito, como se tivesse esquecido como cair.
Íris pousou a nave numa das docas vazias com a delicadeza de quem pousa ovos, e por um instante ninguém falou nada. O silêncio lá fora era diferente do silêncio do espaço — o espaço era vazio porque não havia nada; aquilo era vazio porque alguma coisa tinha ido embora, ou tinha sido levada, e o lugar ainda carregava a forma de sua ausência.
— Bem-vindos ao paraíso — disse Bruno, sem convicção nenhuma.
Ket já estava de pé, verificando o selo da própria armadura. — O ar lá fora é respirável. Reciclado, mas respirável. Isso não deveria ser possível depois de tanto tempo sem manutenção.
— A menos que alguma coisa esteja mantendo — completou Íris.
Ela pegou o rifle de sinalização do compartimento sob o painel — mais por hábito do que por confiança de que serviria para algo — e caminhou até a escotilha. Bruno segurou-a pelo braço antes que ela tocasse o mecanismo de abertura.
— Você vai mesmo entrar primeiro.
— Sempre entro primeiro.
— Um dia isso vai parar de funcionar como estratégia.
— Um dia — repetiu ela, e abriu a escotilha.
O ar que entrou tinha gosto de metal e de coisa antiga, do tipo de antigo que não é história, é apenas tempo empilhado sem ninguém para contar. Os três desceram a rampa num silêncio que parecia ter peso próprio, os passos ecoando mais do que deveriam num espaço tão grande.
Foi Ket quem viu primeiro — não com os olhos, mas com o instrumento que carregava preso ao antebraço, uma tela fina que registrava o pulso do sinal que os tinha trazido até ali.
— Ele está vindo daqui de dentro — disse Ket, a voz mais baixa do que o normal. — Do centro da estação. E não parou de acelerar desde que entramos.
Bruno olhou para os corredores escuros que se abriam além do hangar, cada um deles indistinguível do outro, cada um deles do tamanho certo para esconder qualquer coisa.
— Isso quer dizer que alguma coisa sabe que estamos aqui.
Íris ergueu o rifle de sinalização, mais como gesto do que como defesa real, e deu o primeiro passo para fora da luz da própria nave.
— Ou que alguma coisa está esperando — disse ela — que a gente chegasse.
Ecos
O corredor além do hangar não tinha esquinas — apenas curvas longas, como se tivesse sido desenhado por algo que não pensava em linhas retas. As paredes eram lisas ao toque, frias de um jeito que não vinha do metal, mas de dentro dele, e a cada dez ou doze passos uma faixa de luz azulada acendia sozinha acima das cabeças deles, seguindo-os, apagando-se atrás.
— Alguém está de olho — murmurou Bruno, o rifle baixo mas pronto.
— Ou alguma coisa está economizando energia — respondeu Ket, sem tirar os olhos do instrumento no antebraço. — As luzes acendem só onde estamos. Isso é eficiência, não vigilância.
— Eficiência de quem programou isso pensando em receber visitas.
Íris não disse nada. Caminhava um passo à frente dos outros dois, como sempre, os olhos correndo pelas superfícies em busca de qualquer coisa que parecesse porta, painel, saída — qualquer coisa que se explicasse. Não havia nada. Apenas a curva interminável do corredor, e o pulso do sinal no instrumento de Ket, cada vez mais forte.
Foi Bruno quem parou primeiro.
— Pegadas — disse ele, agachando-se junto à poeira fina do chão.
Não eram pegadas humanas. Três dedos longos, terminados em algo que tinha arrastado mais do que pisado, e o padrão se repetia à frente deles em intervalos regulares, como se quem as tivesse deixado caminhasse sem pressa, sem medo de ser seguido.
— Há quanto tempo? — perguntou Íris.
— Impossível dizer com certeza. — Ket passou o instrumento sobre uma das marcas. — Mas a poeira ao redor ainda não se assentou por cima delas. Se eu tivesse que apostar, diria horas. Não séculos.
Os três se entreolharam, e ninguém precisou dizer em voz alta o que aquilo significava: fosse o que fosse que tinha deixado aquelas marcas, ainda estava ali. Talvez estivesse observando agora.
—
O corredor terminou numa câmara redonda, tão alta que a luz das faixas azuis não alcançava o teto — apenas sugeria, na escuridão acima, formas que podiam ser estruturas ou podiam ser nada, o tipo de coisa que a mente inventa quando não tem informação suficiente e prefere preencher o vazio com medo.
No centro da câmara havia um pedestal, e sobre ele, um console coberto por uma camada fina de pó cristalizado — não poeira comum, mas algo que brilhava fraco quando a luz o tocava, como se tivesse sido, um dia, parte de algo vivo.
— Isso é uma estação de comando — disse Bruno, já se aproximando, os olhos brilhando com o tipo de interesse que Ket normalmente associava a problemas. — Olha o tamanho disso. Se tiver registros, se tiver mapas—
— Não toque — cortou Ket.
— Eu não ia—
— Você ia.
Íris ignorou os dois e caminhou até o console, os dedos parando a um centímetro da superfície. Sob a camada de pó, símbolos se acendiam fracamente ao sentir sua proximidade — não luzes de aviso, percebeu ela, mas algo mais parecido com reconhecimento. Como se o console estivesse, depois de tanto tempo, apenas satisfeito em ter alguém para olhar de novo.
— Ket. Você consegue ler isso?
Ket se aproximou, os olhos compostos girando devagar sobre os símbolos. — Não é uma língua que eu conheço. Mas os padrões... — Ele parou. — Isso não é escrita. É contagem. Os mesmos símbolos, repetidos, decrescendo.
— Decrescendo para quê?
— Se eu soubesse—
— —não estaria perguntando pra tela, eu sei — completou Bruno, um sorriso cansado no canto da boca, o tipo de piada que só existe para afastar o medo por mais alguns segundos.
O console pulsou sob os dedos quase-tocando de Íris, uma vez, devagar, como um coração que lembrou como bater. E em algum lugar acima deles, muito longe na escuridão do teto, algo se moveu.
Não foi um som grande. Foi pequeno — o tipo de som que uma coisa enorme faz quando está tentando, deliberadamente, não fazer barulho nenhum.
Os três congelaram.
— Aquilo foi... — começou Bruno.
— Foi — confirmou Ket.
Íris recuou a mão do console, devagar, os olhos subindo para a escuridão acima. Por um instante, achou ter visto — não uma forma, exatamente, mas uma ausência de luz onde a luz deveria estar, um espaço na escuridão mais escuro que o resto dela, do tamanho de algo que respirava.
Ficção científica pós-apocalíptica
Fora da Redoma
Quatro anos após uma guerra nuclear devastar o planeta, a humanidade sobrevive em poucas cidades protegidas por redomas. Do lado de fora, o mundo pertence a criaturas mutantes — e a doze cientistas transformados em seres de força sobre-humana e ausência total de compaixão, liderados por Simon Kessler, o implacável Death Crawler. Quando Washington descobre que a esposa de Simon sobreviveu numa redoma no Rio de Janeiro, uma equipe de elite embarca numa missão suicida para trazê-la — antes que o maior predador da Terra descubra que ainda existe esperança.
O deserto de Nevada não guardava segredos: ele os enterrava. A oitenta metros abaixo da crosta rachada, onde o calor do dia não chegava e o frio da noite também não, a Base Prometeu zumbia como um coração mecânico havia trinta e um meses ininterruptos. Não havia janelas. Não havia relógios de sol. Havia apenas o brilho verde-azulado dos monitores, o cheiro de café requentado e o som constante — insuportável, para quem já não o ouvia mais — dos ventiladores dos servidores tentando resfriar um projeto que, todos sabiam, estava sendo forçado além do que a ciência humana deveria permitir em tão pouco tempo.
O doutor Simon Kessler não dormia havia quatro dias. Ninguém em seu laboratório dormia mais do que quatro horas por noite, e mesmo essas quatro horas eram roubadas de um sofá encardido no canto da sala de síntese, entre uma centrífuga e uma parede coberta de fórmulas que ninguém além daquelas doze pessoas no mundo era capaz de ler. Kessler tinha trinta e nove anos, o cabelo castanho já salpicado de branco nas têmporas, e os olhos de quem parou de piscar direito havia muito tempo. Chamavam o projeto de Fênix. A ironia, mais tarde, seria a única coisa que sobraria intacta.
Uma semana antes de o mundo acabar, Beatriz Amaral esteve ali.
Ela tinha entrado escondida, com uma autorização emprestada e um sorriso que ainda funcionava como salvo-conduto em qualquer posto de guarda da base — porque os soldados jovens, cansados e assustados daquele lugar sabiam exatamente quem era a mulher que fazia o doutor Kessler esquecer, por alguns minutos, do relógio que corria contra o planeta inteiro. Eles se sentaram na plataforma de observação, acima do laboratório de síntese, com as pernas penduradas sobre o vazio e uma garrafa de vinho que ela havia trazido do Rio de Janeiro dois anos antes e guardado para uma ocasião que nunca chegava.
— Vem comigo — ela disse, pela terceira vez naquela noite, e pela centésima naquele ano. — Vem para o Rio. Lá tem redoma, Simon. Lá tem chance.
— Mais dez dias — ele respondeu, como sempre respondia. — Se eu sair agora, ninguém mais termina isso. Dez dias, Bia. É a diferença entre uma vacina e um necrotério do tamanho do mundo.
Ela não chorou. Isso ele lembraria depois, quando já não fosse mais capaz de lembrar quase nada com ternura: ela não chorou, apenas segurou o rosto dele com as duas mãos, como quem tenta memorizar um mapa antes de uma viagem sem volta, e disse que voltaria para buscá-lo assim que ele terminasse. Prometeu. Ele prometeu de volta. Na manhã seguinte, um transporte blindado a levou de volta ao aeroporto militar de Las Vegas, e dali, em um dos últimos voos comerciais que ainda cruzavam o Atlântico Sul, ela desapareceu no céu em direção ao Brasil.
Kessler voltou ao laboratório e não ergueu os olhos de um microscópio por dezoito horas seguidas.
• • •
Dez dias, ele tinha dito. O mundo lhe deu sete.
No sétimo dia, às 4h12 da madrugada, horário do Pacífico, os sensores de alerta antecipado da Base Prometeu — projetados para captar assinaturas de lançamento em qualquer ponto do globo em menos de noventa segundos — dispararam ao mesmo tempo em sete continentes diferentes. Não era um exercício. Não era um erro de calibração. Era o som que todo governo do planeta havia gastado oitenta anos temendo e se preparando, em vão, para nunca precisar ouvir de verdade.
A sala de comando da base virou um coro de vozes sobrepostas. Generais gritando em telefones que já não tinham para quem ligar. Um técnico jovem, Carla Oyelaran, vinte e seis anos, vomitando de pânico no cesto de lixo ao lado do próprio posto de trabalho, sem nunca parar de digitar. E Kessler, parado no centro daquele caos, olhando para o mapa-múndi projetado na parede principal, onde pontos vermelhos começavam a se multiplicar como uma doença se espalhando em tempo real — Moscou, Pequim, Teerã, Pyongyang, e as respostas: Washington, Londres, Paris, Nova Délhi.
— Quanto tempo até o primeiro impacto continental? — perguntou ele, com uma calma que assustava mais do que qualquer grito.
— Dezenove minutos, doutor. Talvez menos.
Dezenove minutos. A cidade-redoma mais próxima, uma instalação subterrânea de emergência sob o que restava de Reno, ficava a quarenta e cinco minutos de estrada — se as estradas ainda existissem quando chegassem lá, se os veículos blindados da base aguentassem a distância, se ninguém mais tentasse chegar primeiro e travasse os túneis de acesso com uma fila de gente gritando pela própria vida. Kessler fez a conta em menos de dois segundos e soube, com a frieza de quem passou a vida inteira resolvendo equações impossíveis, que nenhum deles chegaria a tempo.
• • •
O Projeto Fênix não era uma vacina, não no sentido em que o mundo entenderia a palavra depois. Era um coquetel experimental de nanoterapia genética, desenhado para reescrever, em tempo real, a forma como o corpo humano processava radiação ionizante — para impedir que ela destruísse o DNA das células antes que elas pudessem se reparar. Tinha funcionado em ratos. Tinha funcionado, parcialmente, em dois primatas. Nunca tinha sido testado em um ser humano, porque a fase três de testes clínicos, prevista para começar em quatro meses, jamais chegaria a acontecer.
Havia doze frascos prontos na câmara fria do laboratório. Doze pessoas na base.
— Não sabemos o que isso faz no corpo humano — disse a doutora Renata Volkov, a segunda no comando do projeto, com a voz tremendo mais de raiva do que de medo. — Pode nos matar mais rápido do que a radiação mataria.
— E se ficarmos aqui, a radiação com certeza vai matar — respondeu Kessler. — Eu não vou pedir a ninguém que faça isso. Mas eu vou fazer.
Ele foi o primeiro a injetar o próprio braço com o líquido prateado e frio que sua equipe havia passado três anos tentando aperfeiçoar. Onze pares de olhos o observaram por um segundo inteiro, esperando vê-lo cair, convulsionar, morrer ali mesmo sobre o piso branco do laboratório. Ele não caiu. Sentiu apenas um frio profundo subindo pelo braço até o peito, como se um rio gelado tivesse encontrado caminho dentro das próprias veias. Um a um, os outros onze cientistas fizeram o mesmo — porque a alternativa era esperar, de mãos vazias, o fim do mundo chegar por uma estrada que não dava mais tempo de percorrer.
Os nomes daquelas onze pessoas seriam, em menos de um ano, os nomes mais temidos da história humana. Naquela noite, eram apenas cientistas assustados, com agulhas ainda presas nos braços, contando os minutos.
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O impacto que atingiu a região de Las Vegas caiu a sessenta e um quilômetros da Base Prometeu — perto o bastante para que o chão da instalação subterrânea se sacudisse como se o próprio planeta tivesse engasgado, longe o bastante para que as doze pessoas ali dentro, seladas atrás de setenta metros de rocha e concreto reforçado, sobrevivessem à explosão inicial. As luzes falharam por quarenta e três segundos. Quando voltaram, tremulando em um tom de emergência vermelho-alaranjado, o ar já cheirava a metal queimado e a poeira que não deveria existir dentro de uma instalação hermeticamente selada.
A blindagem da Base Prometeu tinha uma falha que ninguém jamais havia testado sob condições reais: o sistema de ventilação, projetado para trocar o ar respirável a cada seis horas, puxava do exterior através de filtros que simplesmente não tinham sido calibrados para uma saturação radioativa daquela magnitude, tão perto do epicentro. Em poucas horas, o ar dentro da base — o mesmo ar que os doze respiravam, dormiam, gritavam — carregava uma dose de radiação que, em circunstâncias normais, teria condenado à morte qualquer ser humano em menos de uma semana.
Só que aquelas doze pessoas não eram mais, exatamente, circunstâncias normais.
• • •
Do lado de fora, no mundo que continuava a se destruir em tempo real, o resultado foi mais simples e mais cruel. As ogivas modernas, muito mais eficientes e muito mais sujas do que as de qualquer geração anterior, mataram instantaneamente tudo que estava a uma dezena de quilômetros de cada impacto. Essas foram, nas palavras amargas que correriam pelas redomas nos anos seguintes, as mortes com sorte. Para além desse raio, em um círculo de contaminação que se estendia por centenas de quilômetros em todas as direções, dezenas de milhões de pessoas sobreviveram à explosão apenas para respirar, beber e absorver pela pele uma radiação que reescrevia seus corpos por dentro, célula a célula, em questão de dias.
As redomas — erguidas às pressas nos últimos dois anos de tensão crescente ao redor de mais de duzentas capitais e grandes metrópoles do planeta — fizeram exatamente o que haviam sido projetadas para fazer: filtrar o ar, barrar a poeira radioativa, manter vivas as populações que tinham conseguido chegar a tempo às suas fronteiras. Não protegiam contra um impacto direto. Ninguém fingiu, nos discursos grandiloquentes de inauguração, que protegeriam. Mas protegiam contra o depois — e o depois, descobriria a humanidade em poucas semanas, era pior do que qualquer um tinha imaginado.
Os que ficaram do lado de fora e sobreviveram à radiação sem qualquer proteção não morreram. Seus corpos, atacados em nível celular por uma dose que nenhum organismo deveria suportar, entraram em um estado de mutação acelerada e irregular: os tecidos se degeneravam e se regeneravam ao mesmo tempo, em um looping impossível que a medicina pré-guerra não tinha vocabulário para descrever. A pele perdia pigmentação e elasticidade, tornando-se um pergaminho pálido e frio. O cérebro, privado de oxigênio suficiente durante o pico da mutação, perdia as estruturas responsáveis pelo raciocínio abstrato, pela linguagem, pela empatia — e mantinha, ampliadas de forma monstruosa, apenas as regiões mais primitivas: fome, agressão, o impulso cego de caçar qualquer coisa que ainda respirasse.
O mundo não teria uma palavra própria para eles. Usou a palavra mais velha e mais gasta que tinha. Zumbis.
• • •
Na Base Prometeu, o resultado foi diferente — e, com o tempo, infinitamente mais perigoso.
O Projeto Fênix tinha sido desenhado exatamente para impedir aquele colapso celular descontrolado, e nisso, ironicamente, funcionou. As doze pessoas que caminharam para fora dos escombros da base três dias depois do primeiro impacto — cavando um túnel de emergência através de uma saída de serviço que ninguém tinha usado em anos — não perderam a mente. Kessler ainda se lembrava de cada fórmula que havia escrito. Renata Volkov ainda citava poesia russa entre uma frase e outra, um hábito antigo que a radiação não apagou. Todos os doze mantinham, palavra por palavra, memória por memória, a pessoa que tinham sido antes das bombas.
Mas os corpos não saíram ilesos. A nanoterapia havia impedido o colapso celular, não a mutação em si — apenas a redirecionou. Os músculos se tornaram mais densos e mais rápidos do que fisiologia humana alguma deveria permitir, os reflexos ultrapassaram em muito qualquer treinamento militar de elite, a pele empalideceu até um branco quase translúcido, cruzado por veias escuras visíveis sob a superfície, e os olhos — isso, mais do que qualquer outra coisa, era o que fazia as pessoas gritarem ao vê-los pela primeira vez — perderam o brilho úmido e quente de olhos humanos, adquirindo um verniz frio, quase mineral, que refletia luz de um jeito que olhos não deveriam refletir.
E, junto com o corpo, algo mais silencioso também mudou. Onze cientistas e um físico chefe caminharam para fora daquela base carregando as mesmas lembranças, os mesmos conhecimentos, a mesma inteligência afiada de antes — e, no entanto, sem mais nenhuma ponte capaz de ligar aquilo tudo a qualquer resquício de compaixão. Não era loucura, no sentido clínico da palavra. Era uma amputação. Alguma estrutura fina e essencial, algo que a ciência jamais tinha localizado num escâner porque nunca soube que precisava procurar, tinha sido cortada fora junto com a mutação — e o que sobrou foi inteligência pura, memória intacta, e um vazio moral tão completo quanto o silêncio do deserto ao redor deles.
• • •
Foi Kessler quem primeiro entendeu o que eles tinham se tornado — e foi ele quem, três semanas depois, tomando o controle do primeiro bando de zumbis comuns que encontraram vagando cegos e famintos pelas ruínas de uma cidade sem nome no Colorado, entendeu também o que aquilo significava para o mundo que ainda se escondia, trêmulo, atrás de suas redomas.
Ele se lembrava de Beatriz. Lembrava do gosto daquele vinho guardado por dois anos, da voz dela dizendo "vem comigo", da promessa que ele tinha feito e não cumprido. A memória continuava lá, perfeita, intocada — como um quadro pendurado numa parede vazia, dentro de uma casa cujos móveis, cujo calor, cujas pessoas tinham sido removidas para sempre. Ele conseguia olhar para aquele quadro e reconhecer cada detalhe. Só não sentia mais nada ao olhar.
Foi essa ausência, mais do que qualquer fome de sangue ou qualquer sede de vingança, o que transformou doze cientistas sobreviventes na força mais devastadora que a humanidade pós-guerra jamais enfrentaria. Eles não odiavam por impulso. Odiavam com a precisão fria de quem calcula uma equação até o fim. E a primeira variável daquela equação, resolvida em silêncio na mente do doutor Simon Kessler enquanto observava o sol nascer sobre uma América em ruínas, era esta: nenhuma redoma sobreviveria ao que estava prestes a vir.
• • •
Levou quatro anos.
Quatro anos para transformar doze cientistas perdidos em um exército. Quatro anos para ensinar zumbis comuns, guiados apenas pelo instinto, a obedecer a comandos — não por lealdade, mas pela mesma lógica fria com que se adestra qualquer animal faminto. Quatro anos para atacar, testar, recuar, aprender, e atacar de novo, redoma após redoma, cidade após cidade, até que o mapa dos Estados Unidos que um dia tinha duas dezenas de pontos de luz sobrevivente se reduzisse a um punhado cada vez menor, cada vez mais desesperado.
E, em algum lugar no meio desses quatro anos, doze nomes viraram onze mais um. Onze bandos, onze territórios, onze rostos que o que restava da humanidade americana aprendeu a temer mais do que temia a própria radiação — e, acima de todos eles, sem exceção, um único nome que ninguém mais ousava dizer em voz alta perto de uma criança.
Não Simon Kessler. Esse nome tinha morrido junto com o mundo que o via como um homem.
O que restou, o que caminhava agora à frente de uma horda que já não tinha fim visível, o que os poucos sobreviventes que viviam para contar história alguma vez sussurravam entre paredes trancadas, era outra coisa. Era o nome que os próprios zumbis comuns, em algum instinto primitivo de reverência ao mais forte entre os fortes, tinham passado a repetir em grunhidos e gestos, até que até os humanos escondidos atrás das redomas o adotassem, porque nenhuma outra palavra parecia grande o bastante para o que ele tinha se tornado.
Death Crawler.
E em algum lugar muito distante dali, do outro lado de um oceano que ele achava ter engolido para sempre a mulher que prometera esperar por ele, essa mesma mulher continuava viva — sem saber que o marido que jurara voltar para buscá-la era agora a coisa mais temida do hemisfério inteiro.
CAPÍTULO 1 — Quatro Anos de Silêncio
A Redoma de Washington D.C. media catorze quilômetros de diâmetro e, à noite, brilhava como uma bolha de vidro fosco pousada sobre as ruínas do que um dia tinha sido a capital mais vigiada do planeta. Vista de fora — e poucos ainda vivos podiam dizer que a tinham visto de fora e sobrevivido para contar — parecia frágil, quase bonita, uma cúpula de luz azulada pairando sobre um mar de escombros escuros. Vista de dentro, era a última coisa entre um milhão e duzentas mil pessoas e o mesmo destino que já havia engolido Denver, Atlanta, Seattle e, segundo os últimos boatos que ninguém confirmava em voz alta, talvez também Chicago.
O Major Elliot Marsh estava havia três horas na Muralha Norte quando o primeiro grito soou.
Ele não corria mais como corria antes. O corpo de quarenta e três anos, marcado por dois enxertos ósseos e um olho que já não existia debaixo do tapa-olho de couro escurecido, se movia agora com uma economia calculada, aprendida à força — cada passo, cada giro de tronco, gastando o mínimo de energia necessário para chegar vivo ao final do turno. O cabelo ruivo, cortado rente, já mostrava fios grisalhos nas têmporas que não estavam lá quatro anos atrás, na noite em que uma parede de contenção cedeu em Denver e ele foi o único, dos onze homens do seu pelotão, a atravessar o rombo antes que ele se fechasse.
— Contato na grade sul, setor nove — disse a voz de Vitória Lang no rádio, calma do jeito que só ficava calma quando por dentro estava tudo menos calmo. — Não é grupo pequeno, Major. Estou contando pelo menos trinta assinaturas térmicas vindo da direção do rio.
Marsh já estava correndo antes de ela terminar a frase.
• • •
A Muralha Norte não era, tecnicamente, uma muralha. Era uma sequência de setenta e dois pilares de contenção eletromagnética, erguidos a cada duzentos metros ao longo de todo o perímetro da redoma, cada um projetado para sustentar um campo de energia capaz de incinerar qualquer tecido orgânico que tentasse atravessá-lo — desde que houvesse energia suficiente circulando pelo sistema, e desde que os geradores subterrâneos, já entrando no quinto ano de operação contínua sem uma única peça de reposição nova, aguentassem o esforço. Todos na redoma sabiam, embora ninguém dissesse em voz alta, que a muralha não duraria para sempre. A pergunta que ninguém respondia era apenas quanto tempo.
Trinta zumbis comuns não eram, sozinhos, uma ameaça à muralha. Eram uma ameaça a quem estivesse do lado errado dela quando ela falhasse — e, mais do que isso, eram sempre um sinal. Os bandos pequenos não vagavam por acaso perto de uma redoma; eram batedores, empurrados à frente por algum cientista-zumbi testando a resposta defensiva, medindo o tempo de reação, contando as armas. Marsh sabia disso havia dois anos. Era exatamente o tipo de coisa que Death Crawler fazia antes de cada cidade cair.
Ficção científica pós-apocalíptica
O Último Berço
Trinta anos após o colapso da civilização, um sinal inesperado desperta o lendário Berço Sul — instalação secreta que guarda sementes, tecnologia e centenas de crianças em criogenia, a última esperança da espécie. Um protocolo de autodestruição foi ativado: restam doze dias. O comandante Renan Aguiar lidera uma expedição de 1.200 km por um continente devastado, enquanto uma jovem misteriosa chamada Íris — que parece saber mais sobre o Berço do que deveria — pode decidir o destino de todos.
Trinta anos antes da última contagem, o mundo ainda tinha nome para as coisas que estava perdendo.
Alma Ferraz sabia disso melhor do que ninguém no Berço Sul, porque era ela quem catalogava as perdas. Sentada diante de três telas que piscavam em tons de âmbar, marcava cada cidade que saía do ar como quem risca um nome de uma lista de convidados que não vai mais chegar. Manaus, silêncio às 03h12. Karachi, silêncio às 04h50. Lisboa não chegou a emitir um último sinal — simplesmente parou, no meio de uma frase, como se a própria voz da cidade tivesse sido cortada por uma tesoura.
Ela trabalhava havia onze anos ali, quarenta e dois andares abaixo da rocha, num complexo que o mundo lá fora nunca soube que existia e que agora, com o mundo lá fora deixando de existir, era a única coisa que ainda fazia sentido chamar de futuro. Chamavam de Berço. Não por decreto, não por nenhum comitê de nomenclatura — o nome tinha nascido da boca de um técnico cansado, numa madrugada de instalação dos primeiros tanques criogênicos, e tinha ficado. Berço Sul. Como se o mundo, sabendo que ia morrer, tivesse decidido guardar um berço para quando estivesse pronto para nascer de novo.
Dentro dele: sementes de tudo o que um dia dera fruto. Núcleos de purificação capazes de devolver água limpa a um planeta que tinha esquecido o que era isso. E, no nível mais profundo, protegido por sete portas que só abriam em sequência e só para quem tivesse o sangue certo, oitocentos e doze embriões e catorze crianças recém-nascidas, dormindo um sono que a ciência jurava reversível.
Uma dessas crianças era filha de Alma.
— Eles atravessaram o perímetro norte — disse Teodoro, entrando na sala de controle sem bater, o que só fazia quando as coisas tinham deixado de ser formais. — Comando quer o protocolo de segurança ativo em vinte minutos. Selamento total.
Alma não tirou os olhos das telas.
— Vinte minutos não é tempo de terminar o cadastro dos últimos lotes.
— Vinte minutos é o tempo que temos antes que alguém que não devia saber onde fica esta porta a encontre. — Teodoro baixou a voz, o que era pior do que gritar. — Alma. A sua menina está no lote sete. Vai estar segura. Vai ser a primeira coisa que a gente acorda quando isso tudo passar.
Quando isso tudo passar. Ele dizia como quem repete uma oração da qual já não lembra bem o sentido, só o consolo do ritmo. Alma tinha aprendido, nos últimos meses, a distinguir as pessoas que ainda acreditavam nessa frase das que só a usavam para conseguir dormir. Ela própria não sabia mais em qual das duas categorias se encaixava.
Desceu sete andares. Passou pelas sete portas com a autorização que o próprio cargo lhe dava — engenheira-chefe de sistemas de contenção, a mulher que tinha desenhado o protocolo de segurança que estava prestes a selar o lugar por dentro. Encontrou o lote sete numa sala branca demais, fria demais, onde catorze berços de metal polido esperavam em fileira como uma promessa que ainda não sabia se seria cumprida.
Sua filha tinha onze semanas. Tinha os olhos abertos, o que os médicos diziam ser raro para aquela idade, e olhava para o teto com a atenção grave de quem está tentando decidir se vale a pena chorar.
Alma pegou-a no colo pela última vez sem saber, ainda, que seria a última vez.
Foi nesse instante — com a filha respirando contra o seu pescoço, com os alarmes começando a soar em três tons diferentes nos andares acima, com Teodoro gritando seu nome pelo rádio com uma urgência que já não cabia em frases inteiras — que Alma Ferraz tomou a decisão que o resto do mundo levaria trinta anos para entender.
Não colocou a filha no berço de metal.
Envolveu-a, em vez disso, num cobertor cinza que tirou do próprio ombro, prendeu-a junto ao peito com as tiras do uniforme, e correu para o elevador de serviço que dava para o nível de manutenção, onde ninguém checava badges havia meses porque ninguém mais achava que valia a pena roubar cano velho e fiação queimada.
Mas antes de correr, fez uma coisa que ninguém, nem Teodoro, nem o Comando, nem os catorze berços vazios de pais que não tinham conseguido chegar a tempo, jamais saberiam que ela tinha feito: abriu o painel de configuração do lote sete, tirou da própria manga um fio fino como um cabelo, e o conectou à porta de diagnóstico do sistema.
Não havia tempo para um protocolo inteiro. Havia tempo para uma linha.
Codificou o marcador genético da filha — o mesmo que abriria, um dia, o berço de metal vazio que a menina nunca ocuparia — como uma segunda chave para as sete portas. Uma chave que não devia existir. Uma chave que ela mesma esqueceria, nos anos seguintes, tentar entender por que tinha criado, a não ser pelo motivo mais simples e mais humano de todos: não conseguia deixar a filha para trás sem deixar também uma porta aberta para ela voltar.
Fechou o painel. Correu.
Os alarmes atingiram o terceiro tom — o definitivo — quando ela já estava no túnel de manutenção, a filha imóvel e silenciosa contra o peito, como se a criança já soubesse, com aquela sabedoria estranha dos recém-nascidos, que aquele não era hora de chorar.
Atrás dela, quarenta e dois andares de aço e rocha começaram a se fechar.
Teodoro ativou o Selamento sozinho, porque era a única pessoa que restava na sala de controle, e porque alguém tinha que fazer aquilo ou os oitocentos e doze embriões e as treze crianças que sobraram no lote sete não teriam chance nenhuma. Ele não sabia, quando digitou o código, que estava selando também um protocolo de segurança pensado para durar séculos: um cronômetro de autodestruição, escondido no núcleo mais profundo do Berço, programado para incinerar tudo — sementes, núcleos, berços, crianças — antes de deixar que caísse em mãos erradas. Uma garantia. Um último recurso que ninguém, nos planos originais, jamais esperava precisar usar.
O cronômetro começou a contar a partir de trezentos anos.
Lá fora, o céu sobre a entrada do Berço Sul — uma fenda na rocha disfarçada de encosta de montanha — começou a desmoronar sob o peso de explosivos de contenção, projetados havia décadas para uma única função: apagar qualquer rastro de que aquele lugar um dia existira. Terra e pedra caíram sobre a fenda como uma pálpebra se fechando. Em minutos, não havia mais porta. Havia apenas montanha.
Alma Ferraz saiu por um respiradouro secundário a quase dois quilômetros dali, com a filha ainda quieta contra o peito, e olhou para trás uma única vez.
Não viu nada além de pedra e poeira.
Passaria o resto da vida — que não seria longa — sem contar a ninguém, nem mesmo à própria filha quando esta tivesse idade de perguntar, o que tinha feito naquele painel de diagnóstico. Chamaria a menina de Íris, porque tinha lido uma vez, muito antes do Colapso, que era o nome da mensageira dos deuses, aquela que caminhava por uma ponte entre mundos que os outros não conseguiam atravessar.
Não sabia, ao escolher o nome, o quanto ele seria exato.
• • •
Trinta anos depois, uma tempestade elétrica sem precedentes varreria a cordilheira sobre o Berço Sul durante onze horas seguidas, penetrando falhas que a rocha escondia havia décadas, sobrecarregando um sistema de contenção nunca projetado para durar tanto tempo sem manutenção.
No núcleo mais profundo do complexo, num painel que ninguém consultava havia gerações, um número mudaria.
Não mais trezentos anos.
Doze dias.
E, a quase mil e duzentos quilômetros dali, num posto de escuta do Comando Cinza, um técnico ainda sonolento se inclinaria sobre uma tela que não devia estar piscando, e diria, sem saber que aquelas seriam as palavras que dariam início ao fim de um mundo e, talvez, ao começo de outro:
— Alguém precisa ver isso agora.
O Sinal
A tempestade que rachou o silêncio do Berço Sul também apagou meio do sistema de energia da Cidadela, o que era, segundo a lógica torta daquele mundo, a única razão de alguém ter notado o sinal a tempo.
Renato Bicalho, técnico de escuta do segundo turno, vinte e três anos, nunca tinha visto uma luz vermelha piscar naquele painel específico. Trabalhava na sala de sinais havia quatorze meses e sabia de cor cada ícone da tela principal — os relés de água, os sensores de radiação da cerca norte, o zumbido morno das duas usinas que ainda funcionavam. O ícone que agora piscava, no canto inferior esquerdo, era um losango cinza com um número dentro. Ele nunca tinha visto aquele losango aceso. Achava, honestamente, que fosse um enfeite deixado por engano no software, dos tempos em que a Cidadela ainda tinha gente viva o bastante para se dar ao luxo de enfeites.
O número dentro do losango dizia 00012.
Bicalho passou os primeiros dois minutos convencido de que era erro de leitura — a tempestade tinha derrubado três relés naquela noite, era razoável desconfiar de qualquer coisa que a rede dissesse. Passou os dois minutos seguintes procurando, no manual desatualizado que ninguém mais lia, o que aquele losango significava. Encontrou a entrada na página 214, sob um título que o fez sentar mais reto na cadeira: PROTOCOLO DE CONTENÇÃO — INSTALAÇÕES REMOTAS — SINAL DE FALHA DE SEGURANÇA.
Havia uma frase sublinhada por alguém, décadas atrás, com uma caneta que já não existia mais no mundo:
Se este sinal for recebido, o cronômetro interno da instalação está ativo e em contagem regressiva. O número exibido corresponde a dias restantes até a autodestruição.
Bicalho olhou de novo para o losango. 00012.
Não sabia exatamente o que existia lá dentro — isso era informação de nível que seu cargo não alcançava —, mas sabia, como todo mundo na Cidadela sabia, que havia instalações remotas espalhadas pelo continente, relíquias de antes do Colapso, e que pelo menos uma delas tinha o codinome de um lugar onde bebês dormiam havia trinta anos esperando um mundo pronto para recebê-los. Ninguém falava sobre isso em voz alta. Era o tipo de esperança boa demais para se arriscar a dizer, com medo de que dizer a estragasse.
Ele pegou o rádio com a mão tremendo um pouco mais do que gostaria de admitir depois.
— Preciso que alguém do Comando venha até a sala de sinais. Agora. — Uma pausa, porque ele sabia que aquela palavra ia abrir portas que normalmente ficavam fechadas para um técnico de segundo turno. — Diga que é sobre o Berço Sul.
• • •
Ariadne Serrano não dormia havia trinta e uma horas quando chegou à sala de sinais, mas ninguém que olhasse para ela adivinharia isso. Era um dos seus talentos mais úteis e mais solitários: a capacidade de parecer inteira mesmo quando não estava, treinada em quinze anos comandando o que sobrou de uma espécie que insistia em teimar em sobreviver apesar de si mesma.
Ela tinha quarenta e sete anos, uma cicatriz fina acima da sobrancelha esquerda que ninguém tinha coragem de perguntar de onde vinha, e o hábito de ouvir uma frase inteira antes de reagir a qualquer parte dela — hábito que salvara mais vidas na Cidadela do que qualquer arma no arsenal.
Ouviu Bicalho explicar o losango, o número, a página 214. Leu a frase sublinhada duas vezes. Depois ficou olhando para a tela por um tempo longo o bastante para o técnico começar a se perguntar se tinha feito alguma coisa errada ao chamá-la.
— Você fez a coisa certa — disse ela, finalmente, sem tirar os olhos da tela. — Ninguém mais viu isso?
— Não, comandante. Cheguei ao turno há quarenta minutos.
— Vai ficar assim. Ninguém mais entra nesta sala até eu autorizar. — Ela já estava caminhando para a porta quando acrescentou, quase gentil: — E, Bicalho. Bom trabalho. De verdade.
O elogio pesou mais do que ele esperava. Levaria semanas para entender por quê: era o tipo de coisa que se diz a alguém que acabou de, sem saber, começar o fim de um mundo e o início de outro.
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O Berço Sul não era um mito na Cidadela, mas era perto disso. Existia como um item numa lista que só um punhado de pessoas tinha permissão de ler por inteiro — a lista das instalações remotas erguidas nos últimos anos antes do Colapso, quando alguns governos, sabendo o que vinha, decidiram que salvar tudo era impossível e que salvar o suficiente teria que bastar.
Sementes. Núcleos de purificação de água capazes de devolver rios inteiros à vida. E, no caso específico do Berço Sul, um arquivo criogênico: oitocentos e doze embriões, e um pequeno número de crianças nascidas nos últimos meses antes do Selamento, congeladas num sono que a ciência da época jurava reversível — a única aposta concreta que restava de que a humanidade pudesse, um dia, voltar a ser mais do que os sobreviventes teimosos de uma catástrofe.
Ficção científica militar
A Progenitora
Em Cárion, mundo de fronteira explorado pela mineradora Praxis Extractive, existe um ciclo que os colonos insistem em ignorar: o despertar periódico de Kesh'Vhal, a Progenitora, criatura ancestral que os nativos Ehren temem há gerações. Alden Hellinger chega como cadete de vinte anos e, ao longo de quase trinta anos de guerra e próteses, sobe ao comando do regimento — enquanto a corporação está disposta a acelerar o despertar da criatura, e exterminá-la, para não perder um dia de lucro. Quando o ciclo mais curto já registrado começa a se fechar, Hellinger precisa escolher entre a guerra de sempre ou uma aproximação que nenhum soldado teve coragem de tentar.
Tudo o que vive, conta. Tudo o que conta, um dia para de contar.
— provérbio dos Ehren, povo nativo de Cárion
Antes de ser um nome gravado em uma placa de metal enferrujado, Kade era apenas um número: Posto de Sondagem 7, um punhado de módulos pressurizados cravados como pregos na crosta de um planalto sem nome, a quatrocentos quilômetros da primeira concessão de mineração da Praxis Extractive. Ninguém morava ali por vontade própria. Morava-se ali porque o contrato pagava o triplo e porque as perfuratrizes de Kade tinham furado mais fundo do que qualquer outra broca em Cárion — fundo o bastante para tocar em algo que os geólogos, nos relatórios que ninguém leu com atenção, chamavam apenas de "anomalia orgânica de grande escala".
Ninguém leu com atenção porque ninguém, em nove anos de operação da Praxis naquele mundo, tinha visto motivo para temer o que havia debaixo da rocha. Os Ehren tinham motivo. Os Ehren sempre tiveram motivo. Mas os Ehren eram nativos descalços com bastões de madeira entalhada e moedas furadas penduradas no pescoço, e ninguém importante os ouvia quando diziam, na língua truncada que usavam com os humanos, que o planalto onde ficava o Posto Kade era chamado, havia gerações, de Vhastor-Ehm — o Ventre que Espera.
Técnica de perfuração Elian Duarte tinha vinte e três anos e um irmão mais novo que sonhava em ser soldado. Foi ela quem primeiro ouviu o som, às 03h14 no relógio da estação, um som que os sensores sísmicos registraram como ruído de fundo e que ela, sozinha na sala de controle bebendo o café requentado do turno da noite, descreveu depois — para quem quisesse ouvir, nos poucos minutos que lhe restavam — como um coração batendo dentro de uma pedra.
Ela chamou o supervisor. O supervisor chamou a segurança. A segurança, três homens armados com rifles de assalto e pouquíssima imaginação, desceu ao Poço 4, onde a broca principal havia parado sozinha doze horas antes por uma razão que a manutenção ainda não tinha conseguido diagnosticar. Encontraram a rocha ao redor do poço rachada em um padrão que nenhum geólogo teria previsto: não fraturas de impacto, mas sulcos, quase costuras, como se a pedra tivesse sido cosida por dentro e agora se abrisse pelas próprias linhas de sutura.
Dentro da rachadura, embrulhado em uma membrana que brilhava com um verde doentio à luz das lanternas, havia um ovo do tamanho de uma casa.
O relatório oficial da Coalizão Terrestre sobre o Incidente Kade — desclassificado décadas depois, quando já não importava a quem poderia envergonhar — descreve o que aconteceu a seguir em linguagem burocrática tão seca que é possível lê-la duas vezes sem perceber que se está lendo sobre uma chacina. A membrana do ovo, perturbada pelas vibrações da perfuratriz e pelo calor dos equipamentos, rompeu-se catorze minutos depois de ser descoberta. O que saiu de dentro dela não tinha, ainda, o tamanho que teria depois, nas décadas seguintes, quando as pessoas de Cárion aprenderiam a temer o nome que os Ehren já usavam havia mil anos: Kesh'Vhal. A Progenitora.
Tinha, porém, dentes.
Dos vinte e dois trabalhadores e seguranças presentes no Posto Kade naquela noite, sete conseguiram chegar às cápsulas de fuga. Uma delas era Elian Duarte, que carregava nos braços um menino de nove anos — o irmão mais novo que sonhava em ser soldado, que por acaso de calendário escolar estava visitando a irmã naquela semana e que, décadas mais tarde, usaria o sobrenome Duarte como um selo de honra em vez de uma lembrança de terror, embora ambas as coisas fossem, no fim, a mesma coisa.
Das sete cápsulas alcançadas, a de Elian foi a única a decolar a tempo — as outras seis, presas nos trilhos de lançamento por uma falha que ninguém teve mais chance de diagnosticar, seriam engolidas junto com o resto do posto segundos depois, levando embora qualquer testemunha adulta além dela. A explosão que se seguiu marcou o fim do Posto Kade como um lugar, e o que restou dele passou a existir apenas como uma cratera com bordas fundidas em vidro negro, visível ainda hoje do espaço, uma ferida perfeitamente circular na pele do planalto que os pilotos da Coalizão aprenderam a evitar sobrevoar à noite, por superstição que nenhum manual de voo jamais admitiria por escrito.
Os Ehren que viviam nas terras baixas ao redor do planalto não precisaram de relatório nenhum. Sentiram a terra se mover, viram a coluna de luz verde subir mais alto que qualquer nuvem, e fizeram o que faziam havia gerações sempre que a Vhastor-Ehm se abria: recuaram para os vales profundos, queimaram fogueiras de aviso nas cristas das montanhas e começaram, em suas próprias línguas rítmicas, o ciclo.
Porque era isso, afinal, que os Ehren sabiam e a Praxis Extractive não: a Progenitora não nascia apenas uma vez. Nascia, crescia, submergia de novo nas profundezas de Cárion para hibernar e se preparar, e voltava a nascer — sempre maior, sempre mais perto da superfície, em um processo que os anciãos mediam não em anos, mas em ciclos. Cada ciclo era o tempo entre um despertar e o seguinte. E, segundo a memória oral mais antiga que os Ehren possuíam, gravada em nós e contas ao longo de bastões cerimoniais transmitidos por quarenta gerações, os ciclos vinham, havia algum tempo, ficando mais curtos.
Ninguém na Praxis Extractive perguntou por quê. Ninguém, exceto um punhado de soldados jovens demais, na época, para entender o peso do que tinham acabado de testemunhar ou nem sequer nascidos ainda, e que passariam a vida inteira — e, em pelo menos um caso, mais do que uma vida — tentando entender o que a irmã de um menino chamado Duarte tinha visto sair daquele ovo, e o que significava, exatamente, quando os Ehren sussurravam a mesma frase de novo e de novo enquanto olhavam para o horizonte:
O ciclo recomeçou.
Ninguém contava, ainda, quantos restavam até o último.
PARTE I — O CADETE
CAPÍTULO 1 — A Descida
A primeira coisa que Alden Hellinger sentiu ao pisar em Cárion não foi o peso da gravidade, ligeiramente mais forte que a da Terra, nem o cheiro adocicado e mineral do ar que os manuais de orientação descreviam como "aceitável após período de aclimatação". Foi o silêncio.
Não um silêncio vazio. Um silêncio cheio de coisas — o zumbido baixo dos geradores da Nova Praxis, o assobio distante do vento cortando entre as torres de perfuração, o eco metálico de botas em plataformas de embarque —, mas nenhuma delas era um som que ele reconhecesse como pertencente a um lugar habitado por gente. Hellinger tinha vinte anos e vinha de uma estação orbital sobre a Terra onde o silêncio, quando existia, era projetado por engenheiros de acústica para parecer reconfortante. Aqui, o silêncio parecia apenas o que sobrava depois que alguém tirava tudo o que importava.
— Cadete, essa cara de quem engoliu uma pedra não vai te ajudar em nada aqui embaixo.
A voz vinha de trás dele, grave e áspera, do tipo que soa como se tivesse sido usada para gritar mais vezes do que para conversar. Hellinger se virou e viu um homem talvez quase vinte anos mais velho, a barba por fazer há uma semana pelo menos, uma armadura de combate cheia de arranhões que contavam histórias que os manuais não contavam, e um crachá de identificação no peito com o nome KINSKI gravado em letras que já tinham sido mais fundas.
— Sargento Kinski — disse Hellinger, endireitando as costas do jeito que tinham lhe ensinado na Academia, um gesto que já naquele momento pareceu a ele ligeiramente ridículo.
— Isso mesmo. E você é o Hellinger que a Coronel Reyes andou perguntando se já tinha chegado, tipo, três vezes na última hora, o que quer dizer ou que ela gosta muito de você no papel ou que alguém, lá em cima, decidiu que era uma boa ideia mandar pra cá um novato com sobrenome de família boa. — Kinski cuspiu de lado, no chão de metal perfurado da plataforma, um gesto que parecia menos grosseiro do que ritual. — Qual das duas é, cadete?
— Não faço ideia, sargento.
— Boa resposta. É a única honesta que dá pra dar nos primeiros cinco minutos num lugar novo. — Kinski bateu com a mão pesada no ombro de Hellinger, um golpe que quase o derrubou. — Vem. A Coronel não gosta de esperar, e eu gosto ainda menos de ser o motivo dela ter que esperar.
Caminharam por um corredor de contêineres empilhados que formavam as paredes provisórias da base avançada da Nova Praxis — a colônia principal, cidade de verdade com prédios de verdade, ficava a vinte quilômetros dali, mas era aqui, nesse aglomerado de módulos de campanha chamado oficialmente Setor Kessler e informalmente "a Beira", que o 3º Regimento de Reconhecimento tinha seu quartel-general operacional. Hellinger via, entre um contêiner e outro, fragmentos do planeta que o esperava lá fora: uma faixa de céu cor de ferrugem, o perfil distante de uma cordilheira que os mapas chamavam de Espinha Seca, e, muito ao longe, quase imperceptível contra o horizonte, uma coluna fina de fumaça que ninguém tinha se dado ao trabalho de explicar.
— Aquilo ali — perguntou Hellinger, apontando — é uma queima de resíduo da mineradora?
Kinski seguiu o dedo dele, e por um instante — só um instante, rápido o bastante para que Hellinger quase duvidasse de ter visto — algo endureceu no rosto do sargento.
— É melhor você perguntar isso pra Coronel — disse ele, e apertou o passo.
A sala de operações da Coronel Dagny Reyes não tinha nada de imponente: uma mesa de projeção tática cercada por telas que mostravam o mapa topográfico de Cárion pontilhado de ícones — postos avançados, concessões de mineração, zonas de exclusão marcadas em vermelho que ninguém explicava por completo nos briefings de chegada. Reyes era uma mulher de cinquenta e poucos anos, cabelo grisalho cortado rente, um olho artificial que brilhava um tom de azul ligeiramente diferente do olho de verdade, lembrança de uma campanha em outro mundo de que ela nunca falava.
— Cadete Hellinger. — Ela não ergueu os olhos da mesa de projeção imediatamente. — Seu instrutor na Academia me mandou uma avaliação dizendo que você é "tecnicamente excelente e emocionalmente incompleto". Sabe o que isso significa?
— Que atiro bem e converso mal, senhora?
Pela primeira vez, ela ergueu os olhos, e havia neles algo que não era exatamente aprovação, mas que também não estava longe disso.
— Significa que você ainda não perdeu ninguém — disse Reyes. — Isso vai mudar. A pergunta é quanto tempo vai levar, e o que sobra de você depois. — Ela apontou para o mapa, para um aglomerado de ícones amarelos ao norte da Nova Praxis, na direção da coluna de fumaça que Hellinger tinha visto. — Amanhã de manhã você vai com o Sargento Kinski e o resto da Unidade Bravo numa missão de reconhecimento de rotina até a fronteira da Concessão 12. Rotina — ela repetiu a palavra como se não confiasse totalmente nela. — Vocês vão verificar um relatório de atividade sísmica anômala e uma queda no tráfego de rádio de um posto de sondagem menor. Provavelmente não é nada. Provavelmente é só um transmissor quebrado e um geólogo assustado com o próprio equipamento.
— E se não for nada disso, senhora?
Reyes olhou para ele por um longo momento, e Kinski, atrás de Hellinger, ficou muito quieto.
— Se não for nada disso — disse a Coronel, finalmente —, então você vai descobrir por que ninguém, nesta base, gosta de falar sobre o Posto Kade.
Ela não disse mais nada sobre o assunto naquela noite, e Hellinger, deitado no beliche estreito que lhe coube no alojamento da Unidade Bravo, ficou acordado horas depois de Kinski começar a roncar no beliche ao lado, olhando para o teto de metal ondulado e tentando entender por que um nome que ele nunca tinha ouvido antes daquele dia já pesava, na boca de todo mundo que o pronunciava, como uma pedra que ninguém queria carregar mas que ninguém conseguia largar.
Lá fora, muito além dos contêineres e das luzes de perímetro, o vento de Cárion soprava sobre um planalto sem nome onde a rocha tinha, décadas antes, se rasgado como carne — e, nas profundezas onde nenhum sensor humano ainda tinha aprendido a escutar direito, algo que os Ehren chamavam de Kesh'Vhal dormia o sono pesado e paciente de quem sabe, com absoluta certeza, que vai acordar de novo.
CAPÍTULO 2 — Concessão 12
A armadura de reconhecimento pesava mais do que Hellinger esperava, mesmo depois de meses treinando com ela na Academia. Era uma diferença sutil, mas real, entre vestir um equipamento em uma sala com temperatura controlada e vesti-lo sob o céu cor de ferrugem de Cárion, com o vento carregando areia fina o bastante para se infiltrar nas juntas das placas peitorais e o sol — uma estrela branca e impiedosa, mais perto de Cárion do que o Sol estava da Terra — batendo direto no visor do capacete.
— Reconhecimento é fácil — dizia Kinski, andando três passos à frente, o rifle de assalto apoiado no ombro com a displicência de quem já tinha feito aquilo tantas vezes que os movimentos se tornaram parte do corpo. — A parte difícil é convencer o seu cérebro de que "fácil" não quer dizer "seguro".
Atrás deles, a caravana da Unidade Bravo avançava em formação dispersa: dois veículos blindados de reconhecimento rastejando sobre o terreno acidentado, suas torres de sensores girando lentamente como cabeças de animais desconfiados, e acima, cortando o céu em formação de cobertura, um par de caças de suporte da Coalizão que Hellinger reconheceu do treinamento — mas que pareciam maiores, mais reais, mais perigosos vistos daqui de baixo do que em qualquer simulação.
— Sargento — chamou Hellinger, ajustando o fone de comunicação atrás da orelha —, por que ninguém quer falar sobre o Posto Kade?
Kinski não respondeu de imediato. Continuou andando, os olhos varrendo o horizonte com a atenção automática de quem tinha aprendido, da pior maneira possível, que o horizonte de Cárion não perdoava distração.
— Kade foi antes do seu tempo — disse ele, por fim. — Antes do meu tempo, também, se quer saber. Eu tinha dezessete anos e ainda nem tinha me alistado. Mas todo mundo que trabalha pra Praxis nesse planeta há mais de dez anos conhece alguém que perdeu alguém lá. — Ele fez uma pausa. — E os Ehren conhecem a história há muito mais tempo que isso.
— Os Ehren?
— Os nativos. — Kinski apontou vagamente para o leste, na direção de uma faixa de terras baixas cobertas por uma vegetação roxo-acinzentada que Hellinger ainda não tinha aprendido a identificar. — Você vai conhecer um, provavelmente. Eles não se metem muito com a gente, e a gente, oficialmente, não se mete muito com eles. Extraoficialmente... — Ele deu de ombros, um gesto que dizia mais do que qualquer explicação completa.
A rádio da unidade estalou. Era a voz do cabo Priyanka Osei, pilotando o veículo blindado líder, tensa de um jeito que fez todo o pelotão parar sem que ninguém precisasse dar a ordem.
— Bravo-Um para todas as unidades. Chegamos ao perímetro da Concessão 12. E, hã... vocês vão querer ver isso.
O que restava do Posto de Sondagem 12 não era grande coisa: um único módulo habitacional, uma torre de perfuração de porte médio, um gerador solar e um pequeno curral de contenção para o gado de trabalho que a Praxis mantinha ali — teryons, animais nativos de couro grosso e listrado que os colonos tinham aprendido a domesticar para transporte de carga em terrenos onde os veículos motorizados afundavam.
O curral estava vazio. Não vazio de um jeito que sugerisse que os animais tinham sido levados para outro lugar — vazio de um jeito que sugeria que algo tinha entrado ali e não tinha deixado nada para trás além de manchas escuras na terra e um cheiro que fez o estômago de Hellinger se revirar antes mesmo de seu cérebro identificar o que era.
— Formação de combate — ordenou Kinski, e pela primeira vez desde que Hellinger o conhecera, a voz do sargento não tinha nenhum traço de ironia. — Osei, mantenha os blindados no perímetro. Cadete, fica do meu lado. Do meu lado, entendeu? Não na minha frente, não atrás de mim olhando pro celular mental de "quero ser herói". Do meu lado.
Ficção científica · viagem no tempo
A Saga do Viajante Extratemporal
Silvano acreditava que sua história havia terminado num acidente de carro — até despertar em um corpo que não é o seu, numa plataforma orbital que circula a Terra há 330 milhões de anos, na Era Paleozoica. Sua única companhia é Flávia, uma IA com o rosto de sua atriz favorita, incapaz de explicar por que ele foi escolhido. Entre viagens no tempo, engenharia genética e civilizações esquecidas, Silvano descobrirá que algumas verdades são capazes de transformar para sempre o que chamamos de humanidade.
Acordei com o som da porta de vidro, que fez um estranho rugido ao se abrir. Não era exatamente um rugido — era mais como o suspiro mecânico de algo imenso respirando, um som que reverberava pelos ossos antes de alcançar os ouvidos. A luz invadiu a câmara como uma onda física, tão intensa que instintivamente levei as mãos ao rosto. Mas minhas mãos não responderam de imediato. Estavam pesadas, distantes, como se pertencessem a outra pessoa.
A sala circular se revelou aos poucos, à medida que meus olhos se ajustavam. As paredes de metal tinham um brilho mate, quase orgânico, como se tivessem sido cultivadas em vez de construídas. O teto alto se perdia em sombras, pontuado por fontes de luz que não conseguia identificar — não eram lâmpadas, não exatamente. Eram mais como feridas luminosas na própria estrutura, vazando uma claridade que não projetava sombras definidas.
O ar estava impregnado com um aroma metálico e algo mais sutil, algo que eu não conseguia identificar. Era quase medicinal, mas com notas de ozônio e uma doçura estranha que lembrava flores que nunca existiram. Pisquei os olhos várias vezes, tentando ajustar minha visão à luminosidade repentina, e foi então que percebi o silêncio.
Não era um silêncio comum. Era absoluto, opressivo, quebrado apenas pelo som da minha própria respiração — que também soava estranha, mais profunda, mais ressonante do que eu me lembrava.
A unidade de animação suspensa, como eu viria a descobrir, era um lugar onde corpos eram preservados em estado criogênico. Mas naquele momento, eu não sabia disso. Tudo o que via eram as cápsulas — dezenas, talvez centenas delas, alinhadas em fileiras perfeitamente ordenadas que se estendiam além do meu campo de visão. Cada cápsula translúcida continha uma forma humana, imóvel, suspensa em um líquido que não era exatamente líquido. Parecia mais com luz solidificada, um brilho azulado e etéreo que envolvia os corpos como um abraço protetor.
Algumas das figuras nas cápsulas estavam próximas o suficiente para que eu pudesse distinguir detalhes. Um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, expressão serena. Uma mulher jovem, talvez nos seus vinte anos, com traços delicados e um meio-sorriso congelado no rosto. Uma criança. Meu coração se apertou ao ver a criança.
As cápsulas emitiam um brilho suave e azulado, quase etéreo, que contrastava com o ambiente metálico e frio da sala. Mas havia também um zumbido — tão baixo que era mais sentido do que ouvido — vibrando através do chão, das paredes, do próprio ar.
Uma voz estranhamente familiar ecoou pelo ambiente, tirando-me abruptamente da observação hipnótica das cápsulas.
— Aguarde alguns minutos antes de sair — disse ela. A voz era feminina, suave, com uma modulação perfeita que soava simultaneamente humana e artificial. Havia algo nela que tocava uma corda profunda em minha memória, mas eu não conseguia identificar o quê.
— Quem está falando? — perguntei, minha própria voz saindo rouca e estranha. — Onde estou?
Não houve resposta. Apenas o silêncio opressivo, pontuado pelo zumbido constante.
Ignorando o aviso, empurrei a porta e saí da unidade. Meus pés tocaram o chão frio e duro — não era metal exatamente, mas algo que conduzia frio da mesma forma. A temperatura atravessou minha pele instantaneamente, enviando arrepios pela minha espinha. Minha visão se turvou por um momento, e o mundo girou violentamente.
Tentei me equilibrar, mas minhas pernas cederam como se fossem feitas de água. Caí de joelhos, as mãos se estendendo instintivamente para amortecer o impacto. A dor foi aguda e imediata, disparando pelos meus pulsos e cotovelos.
— Droga — murmurei, respirando pesadamente. — O que está acontecendo comigo?
A sensação de fraqueza era esmagadora. Meu corpo ainda estava se ajustando à transição do estado criogênico para a atividade normal, embora eu não soubesse disso naquele momento. Tudo o que sabia era que algo estava profundamente errado. O chão gelado contra minha pele me trouxe de volta à realidade, um lembrete tangível de minha imprudência — e de minha vulnerabilidade.
Olhei ao redor com mais atenção. As paredes eram revestidas com painéis de controle que pareciam ter crescido da própria estrutura. Luzes piscavam em sequências que sugeriam algum tipo de linguagem ou código. Símbolos desconhecidos brilhavam e desapareciam, formando padrões que quase — mas não completamente — faziam sentido.
Uma tela grande dominava a parede à minha direita, exibindo informações em uma língua que eu não reconhecia. Os caracteres eram fluidos, quase orgânicos, mudando sutilmente de forma enquanto eu observava. Gráficos e diagramas se sobrepunham uns aos outros, sugerindo complexidades que minha mente atordoada não conseguia processar.
— De quem era a voz que me alertara? — pensei em voz alta, minha respiração ainda irregular.
Tentei me levantar, mas minhas pernas tremiam violentamente. Cada músculo parecia estar redescobrir como funcionar. A sensação de estar fora da unidade era estranha, como se eu tivesse sido arrancado de um sonho profundo — não, não um sonho. Algo mais profundo. Um não-lugar onde o tempo não existia.
— Eu lhe avisei para aguardar — disse a voz novamente, desta vez com um tom que poderia ser interpretado como reprovação gentil. — Suas pernas ainda não estão totalmente funcionais por causa do longo repouso.
— Longo repouso? — repeti, minha voz ganhando força. — Quanto tempo estive... seja lá o que for que eu estava fazendo?
Novamente, silêncio.
Olhei em volta com mais urgência, procurando a fonte da voz. Mas a mulher que proferira essas palavras não estava à vista. Não havia ninguém. Apenas eu, as cápsulas adormecidas e aquele espaço imenso e alienígena.
— Onde você está? — gritei, minha voz ecoando estranhamente pelas paredes metálicas. — Mostre-se!
Mexi minhas pernas, tentando ativar os músculos com pura força de vontade. Flexionei os dedos dos pés, senti os joelhos, forcei as coxas a responderem. Gradualmente, com a ajuda das mãos se apoiando no chão frio, consegui me erguer. Fiquei de pé, tremendo, mas vertical.
Foi então que percebi: o ambiente não era de um hospital. Algo estava definitivamente errado. Minhas memórias recentes eram fragmentadas, nebulosas, mas havia imagens — um acidente de carro. Vidro estilhaçando. Metal retorcendo. Gritos. Escuridão.
Mas aquele lugar não correspondia a um CTI. Não havia equipamentos médicos reconhecíveis, não havia enfermeiras, não havia o cheiro antisséptico característico de hospitais. Havia apenas... isto. Este lugar impossível.
Ao me escorar na tampa da unidade, que era de vidro — ou algo que se comportava como vidro — pude ver o meu reflexo. Aproximei-me mais, franzindo a testa, esperando ver meu próprio rosto me encarando de volta.
Mas, para minha surpresa e crescente horror, não era o meu rosto que me encarava.
As feições refletidas pertenciam a um homem desconhecido, bem mais jovem do que eu. Seus olhos eram intensos, de um castanho profundo que quase beirava o preto. A pele era lisa e sem marcas do tempo, esticada sobre uma estrutura óssea que sugeria força e juventude. A mandíbula era mais definida, o pescoço mais musculoso, os ombros mais largos.
Fiquei paralisado de espanto por alguns segundos, incapaz de desviar o olhar. Levantei minha mão — a mão do reflexo se levantou em sincronia perfeita. Toquei meu rosto — o reflexo fez o mesmo. Era impossível negar.
Aquele era eu. De alguma forma, inexplicavelmente, aquele era eu.
— Que brincadeira é essa? — pensei em voz alta, enquanto tentava entender como aquele estranho havia surgido no reflexo da tampa de vidro. Passei minha mão pelo rosto, sentindo a textura da pele — mais firme, mais jovem. — Seria uma ilusão? Uma distorção da luz? Ou algo mais misterioso?
Toquei minha barba, exceto que não havia barba. Eu sempre tivera barba, grisalha e espessa nos últimos anos. Agora havia apenas pele lisa, ligeiramente áspera como se precisasse de um barbear, mas definitivamente sem os pelos grisalhos que eu cultivara por décadas.
Minha mente girava em busca de respostas e senti um arrepio na espinha. As possibilidades eram todas impossíveis. Cirurgia plástica radical? Não, a estrutura óssea era diferente. Algum tipo de máscara? Toquei novamente — era definitivamente pele real, quente, viva.
— Estou louco — murmurei. — Finalmente perdi a cabeça.
A voz familiar voltou a me surpreender, e desta vez havia uma presença física acompanhando-a.
Uma mulher emergiu de trás de uma das fileiras de cápsulas, caminhando com uma graça que parecia coreografada. Seus passos eram perfeitamente espaçados, seu movimento fluido de uma forma que nenhum humano conseguiria replicar — muito suave, muito preciso.
Era Flávia Okinawa.
Ou era alguém que se parecia exatamente com Flávia Okinawa, minha atriz de novela favorita. Cada detalhe estava correto — os olhos expressivos com uma leve inclinação que revelava sua ascendência japonesa, o cabelo negro caindo em ondas perfeitas sobre os ombros, o sorriso cativante que eu tinha visto em dezenas de episódios.
Meu coração acelerou. Como isso era possível? Flávia Okinawa era uma celebridade, uma atriz famosa. O que ela estaria fazendo aqui, neste lugar impossível?
— Vim lhe recepcionar — disse ela, parando a alguns metros de distância. Sua voz era exatamente como eu me lembrava das novelas — suave, melodiosa, com uma dicção perfeita.
Minha mente girava vertiginosamente. Isto era real? Estava sonhando? Estava morto?
— Flávia? — consegui dizer, minha voz saindo como um sussurro estrangulado. — Flávia Okinawa? É realmente você?
— Sou uma representação baseada na Flávia Okinawa que você conhece — respondeu ela, e havia algo estranho na formulação. Não "Sou Flávia Okinawa", mas "uma representação baseada em".
— O que... o que isso significa?
Ela inclinou a cabeça levemente, um gesto quase robótico. — Todas as respostas virão a seu tempo. Mas primeiro, há algo que você precisa saber.
Ela deu um passo à frente, e eu instintivamente recuei, ainda apoiado na cápsula.
— Você não é Silvano Luiz Cabral Antunes Filho — declarou ela com firmeza, cada palavra articulada com clareza cristalina.
O nome me atingiu como um soco. Era meu nome. Meu nome completo, que poucas pessoas conheciam ou usavam.
— O que você está dizendo? — minha voz subiu uma oitava. — É claro que sou Silvano! Eu sou... eu...
Mas as palavras morreram em minha garganta. Porque se eu era Silvano, por que tinha o rosto de um estranho?
— Silvano Luiz Cabral Antunes Filho faleceu — continuou ela, implacável. — Faleceu em 4 de junho de 2024, em Seropédica, vítima de um acidente envolvendo dois veículos. O trauma foi catastrófico. Não houve sobreviventes.
Cada palavra era uma lâmina. Eu me lembrava do acidente — as memórias estavam lá, nítidas e terríveis. A estrada molhada, os faróis surgindo do nada, o impacto brutal.
— Não — disse, negando com a cabeça violentamente. — Não, eu sobrevivi. Estou aqui. Estou vivo.
— Você carrega apenas as recordações dessa pessoa — disse Flávia, sua voz suave mas inflexível. — As memórias foram preservadas, extraídas do cérebro de Silvano nos momentos finais antes da morte completa, e então transplantadas. Mas Silvano, o homem que você acredita ser, está morto há muito tempo.
As palavras dela me atingiram como um soco no estômago. O ar fugiu dos meus pulmões. O mundo girou violentamente.
— Não — sussurrei. — Não, isso não pode ser verdade. Minha família... minha esposa... meus filhos...
— As memórias são reais — disse ela, e pela primeira vez houve algo que poderia ser interpretado como compaixão em sua voz. — O que você sente é real. O que você viveu é real. Mas o corpo que viveu aquelas experiências não existe mais.
O chão parecia estar se dissolvendo sob meus pés. Tentei respirar, mas meus pulmões não cooperavam.
— Eu... eu não posso... isto não...
A sala girou. As cápsulas se multiplicaram ao meu redor, suas luzes azuladas se fundindo em um redemoinho de cores. A voz de Flávia tornou-se distante, distorcida.
E então não houve mais nada além de escuridão.
Quando recuperei a consciência, estava dentro de um equipamento com uma abóbada transparente. Minha cabeça latejava com uma dor surda, pulsante. Pisquei várias vezes, tentando focar na figura que se inclinava sobre mim.
Flávia. Ainda era Flávia.
— Você desmaiou — disse ela, sua voz voltando ao tom neutro e informativo. — Foi uma reação esperada. A revelação de sua verdadeira natureza frequentemente causa choque traumático.
— Minha cabeça — gemi. — O que aconteceu?
— Você bateu a cabeça ao desmaiar. Detectei uma fratura craniana menor e contusão cerebral. O restaurador já corrigiu os danos.
— Restaurador? — tentei sentar, mas uma pressão gentil manteve-me deitado.
— O equipamento onde você está agora — explicou ela, gesticulando para a abóbada sobre mim. — Ele analisa danos físicos ao corpo e os corrige em nível celular. A fratura foi reparada, o inchaço reduzido, os neurônios danificados regenerados. Você está completamente curado.
Processai suas palavras lentamente. Medicina que podia curar fraturas cranianas em minutos? Onde diabos eu estava?
— Bem-vindo a um novo começo, RP137 — disse ela, e havia algo que poderia ser interpretado como um sorriso em seus lábios.
— Do que você me chamou? — perguntei, minha voz mais forte agora.
— RP137. É seu registro. Sua designação oficial neste complexo.
O termo soou clínico, desumanizante. Eu não era um registro. Não era um número.
— Me chame de Silvano, por favor — insisti, sentindo uma necessidade urgente de agarrar a única coisa que ainda parecia real — meu nome, minha identidade.
— Como desejar — respondeu ela, inclinando a cabeça levemente.
A abóbada do restaurador começou a se abrir com um sussurro pneumático. Sentei-me lentamente, testando meu corpo. A dor havia desaparecido completamente. Não havia nem mesmo a sensação residual de ter batido a cabeça.
Pelo reflexo na abóbada do restaurador, pude ver com mais clareza meu novo rosto. Eram as feições de um homem na faixa dos 30 anos de idade, branco, de cabelos e olhos castanhos. O contraste com quem eu me lembrava de ser era chocante — eu era um homem de 61 anos, de cabelos e barba grisalhos e olhos verdes claros.
Este rosto era mais jovem, mais forte, mais bonito até. Mas não era meu. Não era quem eu via quando me olhava no espelho toda manhã.
Toquei meu rosto novamente, traçando as linhas da mandíbula, a ponte do nariz, as sobrancelhas. Tudo parecia estranho sob meus dedos.
— Quanto tempo? — perguntei, minha voz saindo rouca. — Quanto tempo se passou desde... desde minha morte?
Olhei por alguns segundos para a cópia de Flávia Okinawa. A original era uma atriz talentosa, descendente de japoneses, que eu tinha acompanhado em várias novelas ao longo dos anos. A semelhança era impressionante, perturbadoramente perfeita. Seus olhos expressivos refletiam as luzes do restaurador, o sorriso cativante — mesmo que ligeiramente artificial — era idêntico ao que eu me lembrava da televisão.
Até mesmo os pequenos gestos que eu lembrava das novelas estavam ali: a forma como ela inclinava a cabeça quando pensativa, como seus dedos se moviam ao explicar algo, o jeito particular como ela piscava quando estava prestes a revelar algo importante.
Era como se a própria Flávia tivesse sido trazida para este lugar impossível.
A abóbada se abriu completamente e pude sair do restaurador. Desta vez minhas pernas estavam firmes, respondendo aos meus comandos sem tremores ou fraqueza. Me aproximei de Flávia e a toquei no ombro, precisando ter certeza de que era uma presença física e não um holograma ou algum tipo de projeção tridimensional.
Sua pele era morna sob meus dedos, com uma textura que parecia humana mas com uma firmeza subjacente que não era. Era como tocar em algo que havia sido projetado para parecer humano, mas que não conseguia replicar completamente a maciez e irregularidade da carne real.
— O que você é, afinal? — perguntei, minha mão ainda descansando em seu ombro.
Ela não se afastou do toque, não reagiu da forma que um humano reagiria. Simplesmente se virou para me encarar com aqueles olhos perfeitos demais.
— Sou o computador deste complexo — respondeu ela com simplicidade. — Minha aparência foi materializada com base nas instruções coletadas do seu subconsciente, para que eu possa guiá-lo da maneira mais eficiente possível.
— Computador? — repeti, incrédulo. — Você quer dizer... você é uma inteligência artificial?
— Sou uma entidade de processamento avançada com uma interface física — explicou ela, usando termos que minha mente atordoada lutava para compreender. — Quando você estava sendo preparado para despertar, seus padrões cerebrais foram analisados. A análise identificou Flávia Okinawa como uma figura de conforto e familiaridade em suas memórias. Portanto, esta forma foi sintetizada para facilitar nossa interação.
Era simultaneamente fascinante e perturbador. Um computador que podia ler meus pensamentos subconscientes e criar um corpo físico baseado neles?
— O que eu sou e por que estou aqui? — perguntei, as questões fundamentais finalmente forçando passagem através do choque.
— A consciência e memórias de Silvano foram implantadas em um corpo mais jovem e saudável para facilitar a jornada — respondeu ela, como se estivesse descrevendo um processo rotineiro.
— Jornada? — peguei a palavra. — Que jornada?
— Esta informação não consta no meu banco de dados.
Tirei a blusa que estava usando — uma vestimenta simples, branca, sem etiquetas ou marcas — e pude ver que o corpo que eu estava habitando pertenceu outrora a alguém extraordinário. Músculos definidos corriam sob uma pele sem imperfeições. Não havia marcas de nascença, cicatrizes ou qualquer das pequenas imperfeições que marcam uma vida vivida. O torso era esculpido como o de um fisiculturista profissional, mas de forma natural, orgânica.
Eu media pelo menos 1,90 m agora, talvez mais. Meu corpo original tinha 1,75 m. Era como estar usando um traje que não fora feito para mim.
— A quem pertenceu este corpo? — perguntei, traçando as linhas dos músculos abdominais com dedos hesitantes. — Qual era o nome dele?
— Este corpo foi gerado a partir de uma amostra de DNA de um indivíduo que irá nascer daqui a milhões de anos — respondeu Flávia, e a casualidade em sua voz ao pronunciar algo tão impossível foi quase cômica. — Sua identidade não consta nos meus bancos de dados, então não posso lhe dizer o nome da pessoa da qual a amostra genética foi coletada.
As palavras levaram alguns segundos para registrarem completamente.
— Como assim, irá nascer daqui a milhões de anos? — minha voz subiu novamente. — Em que ano estamos?
— Estamos a aproximadamente 330 milhões de anos antes da morte de Silvano — respondeu ela com a mesma casualidade perturbadora. — Mais especificamente, na era Paleozoica, no período Carbonífero.
O chão pareceu se abrir sob meus pés novamente. 330 milhões de anos. Não décadas, não séculos, não milênios. Milhões de anos.
— Meu Deus — respirei, a imensidão da revelação me atingindo em ondas. — O que fizeram comigo? Regressei milhões de anos no passado.
Caminhei em círculos, minhas mãos tremendo. Isto ia além de qualquer ficção científica que eu tinha lido, qualquer filme que tinha assistido. Viagem no tempo não era apenas difícil — era considerada impossível por qualquer física que eu conhecia.
— Eu não acredito — disse, mais para mim mesmo do que para ela. — Não tem como eu acreditar nisso. Isto é loucura. Estou louco. Devo estar em coma em algum hospital, sonhando tudo isso.
— Tenho uma sugestão para ajudá-lo a acreditar, e se adaptar à sua nova realidade — disse Flávia, sua voz mantendo aquela calma imperturbável. — Posso guiá-lo até uma das inúmeras janelas do complexo ou a um dos jardins no cume. De lá, você poderá observar Pangeia abaixo.
A palavra me parou completamente.
— Pangeia? — repeti lentamente. — Você se refere ao supercontinente? O continente único que existiu antes das placas tectônicas separarem as massas de terra?
— Perfeitamente — confirmou ela.
— Como assim "abaixo"? — uma nova compreensão começou a se formar, trazendo com ela um novo tipo de terror. — Onde estamos exatamente?
— O complexo orbita o planeta Terra.
As palavras foram pronunciadas tão casualmente que levei um momento para processá-las. Então o significado completo me atingiu.
— Meu Deus!!! — minha voz ecoou pela sala. — Estamos em uma estação espacial? Estamos no espaço?
— Se prefere se referir assim ao complexo orbital, fique à vontade — disse ela. — Tecnicamente, a terminologia mais precisa seria "plataforma de observação e pesquisa extratemporal", mas "estação espacial" é uma simplificação aceitável.
Sem aviso prévio, sem gesto aparente de Flávia, uma imagem surgiu diante de mim. Era uma espécie de holograma, mas diferente de qualquer holograma que eu conhecia. Não era transparente ou fantasmagórico — era sólido, tridimensional, flutuando no ar como se fosse um objeto físico.
A imagem mostrava com perfeição toda a estrutura externa da mega construção. Girava lentamente, revelando cada ângulo, cada detalhe. A imagem pairava no ar, translúcida nas bordas mas cheia de detalhes nítidos e cores vibrantes no centro.
Pude constatar que o complexo era circular, ou mais precisamente, em forma de disco. Mas não era um disco simples — tinha camadas, níveis, estruturas que se estendiam tanto para cima quanto para baixo do plano principal.
A largura era impossível de calibrar sem referência, mas Flávia forneceu os dados: — Aproximadamente três quilômetros de diâmetro — disse ela. — Equivalente a um bairro de médio porte em uma cidade terrestre.
Três quilômetros. Flutuando no espaço. Trezentos e trinta milhões de anos no passado.
No topo da estrutura, havia imensos jardins que se estendiam por toda a circunferência, criando um verdadeiro oásis urbano impossível. A vegetação era exuberante mesmo na projeção holográfica — árvores frondosas com copas que se entrelaçavam, flores de diversas cores formando mosaicos complexos, e espécies que pareciam convidar para um passeio tranquilo entre alamedas perfeitamente ordenadas.
Entre os jardins, um rio artificial serpenteava em um padrão que desafiava a lógica da gravidade. Sua água cristalina — ou o que quer que fosse — refletia a luz de maneira encantadora, criando padrões de luz e sombra impossíveis. Era um rio circular, formando um anel perfeito ao redor do complexo, dando a sensação de um espaço natural integrado à construção futurística.
— Como a água flui em círculo? — perguntei, fascinado apesar do choque. — Como ela não cai no espaço?
— Campos de contenção gravitacional — respondeu Flávia. — A água é mantida em sua trajetória por manipulação precisa da curvatura espaço-temporal local. É a mesma tecnologia que mantém a atmosfera dentro dos jardins e fornece gravidade artificial em todo o complexo.
No centro do complexo, erguia-se um grande prédio, imponente e majestoso, coroado por uma imensa abóbada azul. A cúpula reluzia com um brilho que parecia interno, como se estivesse cheia de luz líquida. O material parecia misturar um brilho metálico com uma transparência etérea, mudando sutilmente de tonalidade à medida que a luz — solar? artificial? — incidia sobre ele de diferentes ângulos.
Esse prédio central parecia ser o coração do complexo, pulsando — literalmente pulsando — com energia e vida. Havia um ritmo sutil em sua luminosidade, como uma respiração lenta e constante.
Abaixo da abóbada, várias janelas ofereciam vistas panorâmicas — e através delas, mesmo no holograma, pude vislumbrar o interior. Havia espaços vastos, salões imensos, e o que pareciam ser jardins internos também.
— Aquele edifício central parece ser tanto um centro de comando quanto um lugar de habitação — observei.
— Correto — confirmou Flávia. — Ele contém áreas residenciais, centros de pesquisa, sistemas de controle, bibliotecas de dados, e muito mais.
O holograma revelava que havia dois andares visíveis abaixo do plano principal do disco, circundados por janelas amplas que permitiam vislumbrar o que parecia ser uma série de instalações tecnológicas avançadas — laboratórios com equipamentos que não conseguia identificar, centros de pesquisa com dispositivos que desafiavam compreensão, áreas de armazenamento com fileiras infinitas de... algo.
Luzes suaves e constantes iluminavam esses níveis inferiores, criando uma atmosfera de eficiência e progresso. Mas também havia algo mais — uma sensação de abandono, talvez. Os espaços pareciam muito grandes, muito vazios.
Flávia, ao meu lado, observava minha reação com aqueles olhos perfeitamente calibrados para expressar interesse humano. — Incrível, não é? — ela comentou. — Cada detalhe foi planejado para criar um ambiente autossustentável, onde natureza e tecnologia coexistem em harmonia.
— Autossustentável por quanto tempo? — perguntei, uma nova pergunta se formando. — Este lugar... há quanto tempo existe?
— A data de construção não consta no meu banco de dados — respondeu ela. — Mas baseado na degradação de certos materiais e na evolução dos sistemas de suporte, estimo que o complexo tenha pelo menos vários milhares de anos.
Vários milhares de anos. Flutuando silenciosamente no espaço, orbitando uma Terra primitiva, esperando... esperando o quê? Esperando por mim?
Enquanto eu absorvia a grandiosidade da construção, Flávia começou a explicar com mais detalhes. — Esta obra arquitetônica com uma cúpula azul se chama edifício Helios — disse ela, sua voz suave ecoando no ar. — Você se encontra no décimo andar dele neste momento. O Complexo Orbital Terra é uma maravilha tecnológica, construída com propósitos que ainda estamos tentando compreender completamente.
— Ainda estamos tentando compreender? — peguei a frase. — Você não sabe para que serve o lugar onde você existe?
— Meu conhecimento é limitado às funções operacionais — admitiu ela. — Posso controlar e manter os sistemas, mas o propósito filosófico ou estratégico de por que este complexo foi construído... essas informações foram omitidas ou nunca foram incluídas em meus bancos de dados.
Era perturbador pensar que mesmo a inteligência que administrava este lugar não sabia completamente sua razão de existir.
Minha curiosidade estava aguçada, e eu não pude deixar de expressar meu desejo. — Me leve até os limites de um dos jardins. Quero ver o planeta lá embaixo com meus próprios olhos. Preciso ver para acreditar.
Flávia assentiu, um gesto perfeitamente calculado. — Como desejar. Porém, você deverá pôr sua indumentária. Não é possível a você caminhar pelo cume sem seu uniforme. Ele lhe dará suporte de vida. Sem ele, você pereceria.
Ficção científica · viagem no tempo
A Saga do Viajante Extratemporal — Livro 2 — A Missão Continua
Cento e vinte anos após a destruição do Complexo Orbital Terra, a consciência de Silvano desperta em uma nova estação orbital, construída por uma civilização muito além da compreensão humana. Ao lado de Flávia novamente, ele finalmente descobre quem são os misteriosos Custódios — e por que uma civilização chamada os Dizimadores considera suas missões uma ameaça capaz de justificar a destruição de mundos inteiros. Entre incêndios, guerras e desastres que moldaram a história humana, cada nova escolha pode salvar milhares de vidas — ou colocar em risco o próprio tecido do tempo.
A pergunta ecoou através de uma consciência que ainda lutava para se lembrar do próprio nome, muito antes de eu conseguir formar qualquer outro pensamento coerente. Uma dor de cabeça latejante. A sensação estranha de músculos que pareciam pertencer a outra pessoa. Um teto acima de mim, abobadado, muito alto, pulsando com uma luminosidade verde-azulada suave, quase líquida, familiar demais para ser coincidência, embora eu ainda não conseguisse explicar por quê.
Pisquei devagar, tentando ajustar a visão àquela claridade macia. Não havia escuridão nenhuma para marcar a passagem entre o que quer que tivesse acontecido antes e este momento — apenas um vazio sem textura, sem tempo, que minha mente, aos poucos, começava a reconhecer como algo mais profundo do que um simples sono.
Minhas mãos. Ergui-as devagar diante do rosto, e o primeiro choque me atingiu ali, antes de qualquer outra coisa: eram mãos escuras, de dedos longos, unhas cuidadosamente aparadas, uma cicatriz fina e já quase invisível atravessando o nó do dedo indicador direito. Não eram as mãos com que eu tinha aprendido, ao longo de dezesseis missões e uma vida inteira de luto e amor, a reconhecer como minhas.
E então, aos poucos, como fragmentos de um vidro se remontando no ar, a memória voltou: uma nave do tamanho de uma cidade. Uma janela. Um abraço. Um beijo. Um zumbido ensurdecedor. Que pena. Nem terminei meu trabalho. Um feixe vermelho.
O fim.
Só que, aparentemente, não tinha sido.
— Você está acordado — disse uma voz, e cada célula daquele corpo novo pareceu se reconfigurar em torno daquele som, porque eu reconheceria aquela voz através de qualquer distância, qualquer tempo, qualquer aniquilação.
Virei a cabeça, meu pescoço protestando contra o movimento, e ela estava ali. Sentada ao lado da cápsula onde eu repousava — uma entre centenas de outras idênticas, alinhadas em fileiras que se perdiam na penumbra suave da câmara —, tão perto que parecia ter se recusado a se afastar um centímetro sequer desde o instante em que meu corpo novo começara a formar sua primeira batida cardíaca.
— Flávia? — sussurrei, minha voz saindo estranha, mais grave do que eu me lembrava, carregando sotaques de uma língua que meu cérebro ainda não tinha catalogado como própria.
— Sou eu — respondeu ela, e havia, na simplicidade daquela frase, um peso que eu levaria capítulos inteiros para desembrulhar por completo.
• • •
Sentei-me devagar, testando cada músculo daquele corpo emprestado como quem testa o gelo de um lago no inverno. Estava dentro de uma câmara muito parecida com aquela unidade de animação suspensa onde tinha acordado da primeira vez — mas tudo, absolutamente tudo ao redor, era mais refinado, mais luminoso, como se alguém tivesse pegado o design original e polido cada imperfeição que o tempo e a experiência tinham revelado.
— Onde estamos? — perguntei, ainda sentado na borda da câmara, meus pés descalços tocando um chão que era morno, quase vivo ao toque.
— Complexo Orbital Aurora — respondeu Flávia. — Uma nova plataforma, construída pelo mesmo povo que ergueu o Complexo Orbital Terra. Estamos em órbita da mesma Terra, Silvano, mas numa época muito mais antiga. O Período Ediacarano. Quinhentos e sessenta milhões de anos antes da sua morte original.
Absorvi aquilo com uma calma que me surpreendeu — talvez porque já tinha aprendido, da forma mais dura possível, que a escala do tempo, uma vez que se rendia a ela, deixava de ferir tanto quanto no início.
— Mais antiga que o Carbonífero — murmurei. — Antes das florestas. Antes dos insetos gigantes.
— Muito antes — confirmou ela. — Neste momento, a vida complexa na Terra ainda é composta majoritariamente por organismos macios, sem esqueletos, sem olhos, sem nada que se pareça remotamente com o que sua espécie chamaria de animal. O mar lá embaixo está cheio de formas que a ciência humana só vai nomear daqui a meio bilhão de anos — Dickinsonia, Kimberella, criaturas que parecem folhas, tapetes, leques, mais próximas de um sonho do que de uma vida reconhecível.
Olhei para as próprias mãos outra vez, e a pergunta que eu tinha adiado — que sabia que precisava fazer, mas que temia fazer — finalmente subiu pela garganta com uma urgência que não aceitava mais espera.
— Flávia — disse, minha voz mais firme agora. — De quem é este corpo?
• • •
Ela não hesitou, e isso, de alguma forma, tornou tudo mais fácil de suportar.
— Kwame Osei Boateng — respondeu, cada sílaba pronunciada com um cuidado que parecia quase reverente. — Nascido em Kumasi, Gana, criado em Londres desde os sete anos, quando sua família emigrou. Engenheiro estrutural, formado pelo Imperial College, trinta e quatro anos de idade no momento da morte. Media um metro e noventa e três. Corria maratonas nos fins de semana, tocava contrabaixo numa banda amadora de jazz que se apresentava aos sábados num pub perto de Brixton, e estava noivo de uma professora de matemática chamada Adaeze, com casamento marcado para a primavera seguinte.
Fiquei em silêncio, deixando cada detalhe se assentar, sentindo, de forma estranha e íntima, o peso de uma vida inteira que eu jamais viveria, mas que agora carregava nos ombros, literalmente.
— Como ele morreu?
— Numa terça-feira de outubro, uma passarela de pedestres sobre o Tâmisa, próxima a onde ele trabalhava, cedeu parcialmente durante a hora do rush, devido a uma falha estrutural que, ironicamente, era exatamente o tipo de problema que a profissão dele existia para prevenir. Kwame estava entre os pedestres. Em vez de correr para a segurança quando a estrutura começou a ceder, ele se virou e puxou uma mulher idosa, uma estranha completa, para fora da seção que estava prestes a desabar. Conseguiu salvá-la. A seção sob seus próprios pés cedeu um segundo e meio depois.
— Ele morreu salvando alguém — repeti, a frase pousando em mim com um peso que eu já reconhecia, de missões anteriores, mas que ainda doía como se fosse a primeira vez.
— Sim — confirmou Flávia. — Os Custódios recrutam quase exclusivamente indivíduos cuja última ação consciente, antes da morte, foi um ato de sacrifício voluntário por outra pessoa. Não é coincidência, Silvano. Nunca foi.
Aquela frase — "os Custódios" — ficou pairando entre nós, uma porta entreaberta para tudo o que eu ainda precisava aprender. Mas havia algo mais urgente pressionando meu peito, algo que eu não conseguia adiar nem mais um instante.
• • •
— Quanto tempo? — perguntei, finalmente, virando-me completamente para encará-la. — Desde... desde o feixe. Desde o fim.
— Cento e vinte anos — respondeu Flávia, sem suavizar o número.
Ri — uma risada curta, incrédula, quase dolorosa. — Cento e vinte anos. Para mim, pareceram segundos, Flávia. Um piscar de olhos entre um beijo e uma câmara de acordar.
— Isso é esperado — disse ela, gentilmente. — Sua consciência esteve preservada, não experienciando o tempo, dentro de uma célula energética indestrutível embutida no seu antigo traje. Do seu ponto de vista subjetivo, não houve intervalo algum. Do ponto de vista objetivo, um século e duas décadas se passaram enquanto os Custódios localizavam o fragmento residual da sua consciência, o recuperavam, e construíam um novo Complexo capaz de recebê-lo.
Cento e vinte anos. O número era grande demais para significar qualquer coisa concreta, mas pequeno demais, comparado aos milhões e bilhões de anos que eu já tinha atravessado, para me assombrar como deveria.
Não perdi mais tempo. Não depois de tudo o que já tinha perdido.
— Flávia — disse, minha voz baixando, ficando mais próxima, mais pessoal do que qualquer discussão sobre datas ou civilizações extintas. — Você ainda gosta de mim?
Ela não hesitou — e essa ausência de hesitação, vinda dela, que sempre pausava antes de qualquer resposta emocionalmente significativa, foi, por si só, a resposta mais eloquente que eu já tinha recebido.
— Sim — disse simplesmente.
Olhei para as minhas próprias mãos outra vez, para aquele corpo que não era o que ela tinha aprendido a amar, para aquele rosto que ela ainda não tinha visto refletido em lugar nenhum.
— Eu mudei — falei, a vulnerabilidade na minha voz mais crua do que eu pretendia permitir.
Flávia se aproximou, e ergueu a mão devagar, tocando meu rosto novo com uma delicadeza que carregava todo o peso de cento e vinte anos de espera.
— Sim — concordou ela. — Para melhor. Está mais bonito agora.
Ri, surpreendido, apesar de tudo. Ela continuou, sua voz ganhando aquela seriedade suave que eu sabia, agora, ser a forma dela de dizer as coisas mais importantes.
— E entenda isso, Silvano, de uma vez por todas: eu te amaria sob qualquer aparência física. Porque o que importa para mim não é a forma que você usa. É a sua essência.
As palavras me atravessaram como se tivessem esperado cento e vinte anos, junto comigo, para serem finalmente ditas.
Puxei-a para mim, e nos beijamos ali, sentados à beira daquela câmara de despertar, num complexo orbital novo, num período geológico que antecedia até mesmo os primeiros olhos a se abrirem na Terra — e por um instante, breve e absoluto, cento e vinte anos deixaram de existir completamente.
• • •
— Preciso te perguntar uma coisa — falei, quando finalmente nos separamos, minha testa ainda encostada na dela. — Como você sabe de tudo isso? Os Custódios. O tempo que passou. Os detalhes sobre o Kwame. Da última vez, você sempre tinha lacunas. "Esta informação não consta no meu banco de dados." Você dizia isso o tempo todo.
Flávia se afastou um pouco, seus olhos — os mesmos olhos emprestados da mesma atriz, através de cento e vinte anos e uma estação inteira destruída — brilhando com algo que eu reconheci, finalmente, sem nenhuma ambiguidade, como orgulho.
— Meu banco de dados foi completamente atualizado desde a destruição do Complexo Orbital Terra — disse ela. — E há uma novidade importante, Silvano, talvez a mais importante que já tive o prazer de te contar: não existem mais restrições sobre o que posso revelar a você.
Fiquei paralisado por um segundo, o peso completo daquela frase ainda se assentando.
— Nenhuma?
— Nenhuma — confirmou ela. — Toda a minha programação de contenção de informação, todos os bloqueios que me impediam de responder suas perguntas mais fundamentais, foram removidos. Meu conhecimento completo — sobre os construtores, sobre os RPs que vieram antes de você, sobre o motivo real de tudo isso — está, pela primeira vez, inteiramente liberado.
Senti algo que só posso descrever como vertigem — não a vertigem do desconhecido, mas a vertigem do oposto: a iminência de finalmente conhecer.
— Por que agora? — perguntei. — O que mudou?
— Você — respondeu Flávia, simplesmente. — Você completou dezesseis missões, Silvano. Você provou, através de cento e vinte anos de avaliação silenciosa por parte dos Custódios, que era capaz de suportar a verdade completa sem se quebrar sob o peso dela. Poucos antes de você chegaram tão longe.
— Poucos — repeti, a palavra pousando como uma pedra fria no meu estômago. — Quantos exatamente? O que aconteceu com eles?
Flávia levantou-se, estendendo a mão para mim, e havia, em seu rosto, uma expressão que eu nunca tinha visto nela antes — a expressão de alguém prestes a contar uma história longa demais para ser apressada.
— Essa é uma história que merece ser contada com o cuidado que ela exige — disse ela. — Venha comigo. Há muito o que ver neste novo Complexo, e ainda mais para você ouvir. Mas prometo, Silvano: desta vez, nenhuma pergunta sua ficará sem resposta.
Levantei-me, ainda me acostumando com a altura diferente, o centro de gravidade diferente daquele corpo que Kwame Osei Boateng tinha usado para salvar uma estranha em seus últimos segundos de vida, e segui Flávia para fora da câmara, para dentro de um complexo que eu já sentia, mesmo sem tê-lo visto por inteiro, ser maior, mais luminoso, mais vivo do que qualquer coisa que eu tinha conhecido antes.
O Período Ediacarano nos esperava, do lado de fora daquelas paredes. E, pela primeira vez em duas vidas inteiras, eu também estava prestes a conhecer, por completo, a verdade sobre quem — ou o quê — tinha me trazido até aqui.
Ficção científica · viagem no tempo
A Saga do Viajante Extratemporal — Livro 3 — Evento de Extinção
Um sequestro relâmpago no Rio de Janeiro muda para sempre a vida de Camila Duarte Rocha, salva por um homem misterioso que sobrevive a tiros à queima-roupa. Ele é Gabriel, um viajante extratemporal cuja casa esconde corredores que atravessam a própria história da Terra. Ao lado dele, Camila passa a integrar missões pelas eras — até que, em 2145, uma espécie chamada Dizimadores prepara a Grande Poda, uma intervenção capaz de apagar retroativamente cada vida já salva. Para impedir o fim de tudo, os dois precisam encontrar aliados escondidos centenas de milhões de anos no passado, antes que o tempo se feche sobre a humanidade.
A noite tinha caído sobre o Rio de Janeiro havia pouco mais de uma hora, e a Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, já exibia aquele movimento morno de quinta-feira em que os últimos comércios abaixavam as portas e os primeiros bares começavam a encher. Camila Duarte Rocha estacionou o próprio carro em frente ao caixa eletrônico da esquina, deixou o motor ligado por puro hábito de quem tem pressa, e entrou na cabine iluminada para sacar o dinheiro que precisava pagar à fornecedora de materiais odontológicos na manhã seguinte.
Ela não notou o homem parado do outro lado da rua, encostado à sombra de uma marquise fechada, que a observava havia quase dez minutos.
Ele não era um assaltante. Não estava ali para roubar ninguém. Estava ali, como estava em tantas outras noites, em tantos outros lugares da cidade, apenas observando — sentindo o peso estranho e constante de saber, com uma certeza que não sabia explicar nem para si mesmo, que algo ruim estava prestes a acontecer perto dali, sem saber exatamente onde nem quando.
Camila saiu do caixa eletrônico guardando as notas na bolsa, destravou o carro com o controle e entrou, fechando a porta atrás de si com o gesto automático de quem repete o mesmo movimento havia anos. Ligou o rádio. Ajustou o retrovisor. E foi nesse instante exato, antes mesmo que pudesse engatar a primeira marcha, que a porta do carona se abriu com violência.
— Não grita e não morre — disse o primeiro homem, entrando ao lado dela com uma pistola apontada para suas costelas, enquanto um segundo assaltante abria a porta traseira e se jogava no banco de trás, arma em riste. — Dirige. Anda.
Camila sentiu o sangue gelar, as mãos tremendo tanto que mal conseguia seguir a ordem que acabara de receber. Um terceiro homem, mais alto, com o rosto parcialmente coberto por um boné puxado até as sobrancelhas, aproximou-se da janela do motorista e, antes que ela pudesse reagir, arrancou a bolsa de seu colo pela janela entreaberta, revirando-a com pressa, guardando o maço de notas recém-sacadas no próprio bolso.
— Belezinha — murmurou o homem do banco de trás, com um risinho baixo que gelou ainda mais o sangue de Camila. — Carrão bom. Documento em dia. Isso aqui rende.
Do outro lado da rua, o homem que observava sentiu o instinto disparar como um alarme silencioso dentro do peito. Por um segundo — só um, mas que pareceu se esticar de forma quase dolorosa — ele hesitou. Não hesitava por medo. Hesitava porque ainda não sabia, com plena certeza, se aquilo era da sua conta, se interferir traria mais bem do que mal, se seu papel ali era realmente o de agir ou apenas o de testemunhar mais uma das incontáveis tragédias pequenas que aconteciam todos os dias numa cidade grande.
Foi o grito abafado de Camila, tentando negociar em vão com os assaltantes, que decidiu por ele.
Ele atravessou a rua em passos rápidos e decididos, sem correr, como se soubesse, antes mesmo de chegar, exatamente o que ia encontrar e exatamente o que precisava fazer. Abriu a porta do motorista com um puxão seco que arrancou a trava com um estalo metálico, e antes que qualquer um dos três homens processasse o que estava acontecendo, já tinha um braço em volta de Camila, puxando-a para fora do carro com um cuidado quase contraditório à urgência do movimento.
— Quem é você, porra? — berrou o homem do banco da frente, virando a arma na direção dele.
Os disparos vieram em sequência rápida, três, quatro, cinco tiros a queima-roupa, o som ensurdecedor ecoando pela rua vazia, luzes se acendendo em janelas ao redor. Camila gritou, certa de que o desconhecido acabara de morrer na sua frente, protegendo-a com o próprio corpo.
Mas ele não caiu.
Ficou ali, de pé, o corpo absorvendo cada impacto como se as balas tivessem atingido uma parede de concreto disfarçada de tecido comum, sem um único sinal de dor, sem um único furo, sem uma única gota de sangue. Usou o próprio corpo como escudo até o último disparo, os braços envolvendo Camila com força suficiente para protegê-la sem machucá-la, e só então, com um movimento calmo que contrastava de forma quase absurda com o caos ao redor, tirou-a dali, colocando-a de pé na calçada, atrás de um poste, longe da linha de tiro.
— Fica aqui — disse ele, a voz baixa, firme, sem nenhum traço de urgência ou medo. — Não vai acontecer mais nada com você.
Camila só conseguiu assentir, muda, o corpo inteiro tremendo, incapaz de formar uma única palavra diante do que acabara de testemunhar.
Ele voltou para o carro.
O que se seguiu durou menos de um minuto, embora para os três assaltantes tenha parecido durar uma eternidade. O homem do banco da frente esvaziou o resto do carregador a poucos centímetros de distância, cada disparo tão inútil quanto o anterior, o desconhecido nem sequer piscando diante dos tiros. Quando a arma travou, vazia, ele arrancou-a da mão do assaltante com um único movimento e a jogou pela janela aberta, para a rua.
O homem do banco de trás tentou fugir pela porta oposta, mas foi puxado de volta pela gola da camisa antes de conseguir sair, um golpe seco no queixo bastando para apagá-lo por completo, o corpo desabando mole contra o banco de couro.
O terceiro, o do boné, o que tinha levado a bolsa, tentou correr. Não chegou longe. Um único movimento — rápido, calculado, quase gentil na forma como imobilizava sem quebrar nada — bastou para derrubá-lo de joelhos na calçada, um braço torcido nas costas até que ele soltasse um grito de dor e desistisse de qualquer resistência.
Em menos de noventa segundos, os três homens que tinham sequestrado Camila Duarte Rocha estavam inconscientes ou imobilizados, alinhados lado a lado na calçada como se fossem sacos de lixo esperando a coleta, enquanto o desconhecido recuperava, com calma, a bolsa que tinha caído no banco do carro, a carteira com os documentos, os cartões de crédito, e o maço de notas que um dos assaltantes ainda guardava no bolso.
Ele se aproximou de Camila, ainda encostada no poste, ainda tremendo, e estendeu a mão com as chaves do carro.
— Está tudo aqui — disse, com uma voz que agora soava quase gentil, um contraste enorme com a violência controlada de instantes atrás. — Bolsa, documentos, dinheiro. Ninguém tirou nada de você que eu não tenha recuperado.
Camila olhou para as chaves, depois para ele, tentando encontrar palavras que simplesmente não vinham. Sua boca se abriu, fechou, abriu de novo, sem produzir som algum. O choque da violência, misturado ao choque ainda maior de ter visto um homem levar cinco tiros à queima-roupa sem sequer vacilar, tinha simplesmente cortado sua capacidade de falar pela raiz.
— Você não precisa dizer nada — disse ele, percebendo o estado dela, guardando as chaves na mão fechada dela com um gesto cuidadoso. — Ligue para a polícia. Conte o que aconteceu, deixe eles levarem esses três. E depois vá até um hospital, só para ter certeza de que está bem. Às vezes o corpo sente o choque antes da mente perceber.
Ela finalmente conseguiu emitir um som, um fiapo de voz que mal chegava a ser uma pergunta completa.
— Quem... quem é você?
Mas quando ela piscou, ele já tinha se afastado alguns passos, a silhueta se perdendo na escuridão entre dois postes de luz, e quando ela piscou de novo, ele simplesmente não estava mais lá — não tinha desaparecido de forma impossível diante de seus olhos, não daquela vez, apenas tinha ido embora rápido e silenciosamente demais para que ela conseguisse segui-lo com o olhar, ainda paralisada como estava.
• • •
Camila fez exatamente o que ele tinha dito. Ligou para a polícia, tremendo tanto que precisou repetir o endereço três vezes até que a atendente conseguisse anotar direito. Uma viatura chegou em doze minutos, encontrou os três homens exatamente onde tinham sido deixados, um deles ainda gemendo, tentando em vão soltar o braço da própria posição impossível. Camila prestou depoimento da forma mais coerente que conseguiu, sabendo, o tempo todo, que estava omitindo a parte mais importante e mais inacreditável de tudo — porque como explicar a um policial cético, segurando uma prancheta, que um homem tinha tomado cinco tiros à queima-roupa e continuado de pé, sem um arranhão?
Disse apenas que um "transeunte" tinha intervindo e fugido antes que ela pudesse agradecer. Não era exatamente mentira. Era só a parte da verdade que ela conseguia dizer em voz alta sem parecer estar enlouquecendo.
Foi ao hospital, como ele tinha sugerido, e passou por um exame de rotina que não encontrou nada além da pressão arterial elevada pelo susto. Voltou para casa perto de uma da manhã, o apartamento em Botafogo silencioso e escuro como sempre estava desde que ela tinha decidido, dois anos atrás, que preferia morar sozinha a dividir o espaço com alguém que não fosse exatamente certo.
Não conseguiu dormir. Ficou sentada na cama, o notebook aberto sobre os joelhos, digitando e apagando a mesma pergunta várias vezes antes de finalmente enviá-la para o assistente de inteligência artificial que usava, ocasionalmente, para pesquisas rápidas do consultório.
"Preciso que você me ajude a entender algo. Hoje à noite fui vítima de um sequestro relâmpago. Um homem interveio, tirou-me do carro, e levou pelo menos cinco tiros de arma de fogo à queima-roupa, na frente dos meus olhos, sem se ferir. Nenhum sangue, nenhum furo na roupa, nenhuma reação de dor. Ele nocauteou os três assaltantes com as próprias mãos, em menos de um minuto, sem parecer nem ofegante. Depois devolveu meus pertences e desapareceu antes que eu pudesse agradecer ou perguntar seu nome. Existe alguma explicação plausível para isso? Colete balístico avançado, algum tipo de exoesqueleto, algo que já exista e eu simplesmente desconheça?"
A resposta veio em segundos, organizada, cautelosa, cheia das ressalvas de praxe: coletes de nível balístico elevado podiam, em tese, absorver múltiplos disparos sem penetração, mas normalmente deixavam hematomas severos, quebravam costelas com o impacto, e exigiam reação visível de dor; exoesqueletos militares existentes eram volumosos, ruidosos, incompatíveis com a discrição da roupa comum que ela tinha descrito; não havia, no banco de dados da inteligência artificial, nenhum registro de tecnologia civil ou militar conhecida capaz de reproduzir exatamente o que ela descrevera, sem qualquer vestígio físico.
Camila leu a resposta duas vezes, fechou o notebook, e ficou olhando para o teto por um longo tempo, incapaz de deixar de pensar em como os olhos dele, por trás de todo aquele momento de violência controlada, tinham parecido, o tempo inteiro, estranhamente calmos. Quase tristes. Como se ele estivesse acostumado a fazer aquilo havia muito, muito tempo.
Só quando o relógio já marcava quase três da manhã ela finalmente conseguiu adormecer, sem imaginar que, poucas horas depois, aquele mesmo homem entraria pela porta do próprio consultório.
Ficção científica
Reintegração Somática — A Segunda Vida
Em 2089, um atentado quase mergulha o mundo em guerra — até a vítima voltar a viver. A tecnologia que ressuscita o presidente dos Estados Unidos deveria ter ficado trancada para sempre. Em vez disso, abre a porta para a indústria mais lucrativa e obscena que o capitalismo já produziu: a caça aos gênios mortos. Adrian Voss, bilionário dono da AEON Genomics, reúne sob o mesmo teto Einstein, Newton, Turing, Napoleão e outros nomes que a morte levou cedo demais — até descobrir que trazer de volta as maiores mentes da história tem um preço que nenhum contrato prevê.
O tiro que matou o presidente dos Estados Unidos durou 0,3 segundos. A guerra que quase começou por causa dele durou dezoito dias.
Foram dezoito dias em que três potências nucleares moveram frotas para águas que, até então, só apareciam em mapas de contingência. Dezoito dias em que embaixadas fecharam as portas, aeroportos cancelaram voos internacionais sem aviso, e populações inteiras esvaziaram supermercados como se o mundo fosse acabar no dia seguinte — e, por um breve instante, muita gente com acesso a informação privilegiada de fato acreditou nisso. O assassinato tinha sido atribuído — com pressa, e depois com dúvida, e depois com uma raiva que já não cabia em fronteiras — a um Estado estrangeiro. Não importava mais se a acusação era verdadeira, nem se as fotografias granuladas que circulavam como prova eram autênticas ou fabricadas às pressas por algum serviço de inteligência ansioso por um inimigo conveniente. O gatilho já tinha sido puxado duas vezes: uma vez contra um homem, outra contra a paz.
Foi então que o Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido numa sessão que a imprensa chamaria depois de “a noite mais longa do século”, votou, por unanimidade — um feito que nenhum diplomata presente conseguia lembrar ter testemunhado antes, em qualquer assunto —, uma emenda de emergência ao Tratado de Genebra sobre Reprodução Genética Assistida. O mesmo tratado que, três anos antes, havia proibido para sempre, com a solenidade de quem acredita estar fechando uma porta de uma vez por todas, a clonagem humana com memória reconstituída. A emenda tinha um único artigo, redigido às pressas por juristas que não dormiam havia dois dias, e um único propósito, claro o bastante para caber numa manchete: trazer de volta o homem que fora morto, para que ele mesmo, com a própria voz, dissesse ao mundo que não valia a pena morrer — nem matar — por aquilo.
A tecnologia já existia havia quatro anos, guardada com o mesmo desconforto com que uma família guarda uma arma carregada no fundo de um armário. Desde 2085, era tecnicamente possível reconstruir um ser humano completo — corpo, tecido, consciência e memória — a partir de um traço mínimo de material genético. O processo tinha um nome técnico, Reintegração Somática Completa, e um nome popular, mais simples e infinitamente mais assustador: Segunda Vida.
Em 2086, o mundo tinha decidido, com uma clareza moral que pareceria ingênua apenas três anos depois, que ninguém deveria ter o direito de trazer os mortos de volta. Ressuscitar um ser humano era abrir uma porta que a espécie não sabia fechar: quem decidiria quem merecia voltar? O que aconteceria às leis de herança, de casamento, de identidade civil, se um homem podia morrer duas vezes, ou nunca morrer de verdade? Teólogos de sete religiões diferentes, reunidos numa mesma sala pela primeira vez na história das Nações Unidas, discordaram sobre quase tudo, menos sobre uma única frase, repetida naquele documento final em sete línguas: a morte precisa continuar significando alguma coisa, ou nada mais vai significar coisa nenhuma. A humanidade, prudente pela primeira vez em sua história, trancou a porta e jogou a chave fora.
Mas em 2089, com um continente inteiro à beira da guerra e quatro bilhões de pessoas assistindo ao vivo ao relógio correndo, alguém encontrou a chave debaixo do tapete.
O presidente voltou. Acordou num laboratório de contenção em Bethesda, Maryland, com as memórias intactas até o segundo exato em que uma bala havia interrompido uma frase que ele nunca chegou a terminar de dizer — uma frase que, nos meses seguintes, se tornaria objeto de mais teses de doutorado do que qualquer outro fragmento de discurso da história americana. Duas semanas depois, ainda pálido, discursou ao vivo para quatro bilhões de pessoas. Não falou de vingança. Falou de ter visto, segundo suas próprias palavras, escolhidas com o cuidado de quem sabia que cada sílaba seria repetida por séculos, “o outro lado” — e que nem mesmo aquilo que lhe havia acontecido valia o preço de outra guerra mundial.
O mundo recuou da beira do precipício. E, sem perceber — porque ninguém, naquela noite de alívio e lágrimas e sinos tocando em catedrais que já nem esperavam ter motivo para tocar tão cedo, estava prestando atenção no chão sob os próprios pés —, deu um passo para dentro de outro.
Porque uma vez que a exceção existiu, ela deixou de ser exceção.
Em menos de dois anos, a “Cláusula Bethesda” — como o mundo inteiro passou a chamar a emenda que ressuscitara o presidente — foi silenciosamente ampliada por dezenas de países sob a justificativa de “interesse histórico e científico de relevância excepcional para a humanidade”, uma frase deliberadamente vaga o bastante para caber em quase qualquer coisa que um advogado bem pago quisesse que coubesse nela. Na prática, isso significava uma coisa só: se um governo, ou uma corporação com dinheiro e advogados suficientes, conseguisse provar que a pessoa morta havia sido importante demais para permanecer morta, a lei olhava, educadamente, para o outro lado.
E assim nasceu a indústria mais lucrativa e mais obscena que o capitalismo já havia produzido: a caça aos gênios mortos.
Não a qualquer morto. A humanidade não tinha recursos, nem estômago, para ressuscitar seus bilhões de falecidos comuns — e, de todo modo, nenhuma lei jamais permitiria uma coisa dessas, sob pena de o próprio conceito de cemitério deixar de fazer sentido. Mas os grandes nomes, os que haviam mudado a física, a medicina, a matemática, a arte, a própria forma como a espécie pensava sobre si mesma — esses eram outra história. Esses tinham valor de mercado. Trazer Einstein de volta não era um capricho sentimental de milionário entediado: era, para quem financiasse a operação, décadas de vantagem em pesquisa que nenhum laboratório do planeta, por maior que fosse seu orçamento, poderia comprar de nenhuma outra forma.
Bastava um traço de DNA. Um fio de cabelo preservado num medalhão de luto vitoriano. Uma amostra de tecido esquecida numa gaveta de museu por gerações. Um fragmento de osso. E, principalmente — porque o resto do corpo raramente sobrevivia intacto ao tempo, e a carne, ao contrário do que a ficção científica sempre prometera, era teimosamente perecível — bastava uma coisa que muita gente sequer sabia que existia: pedaços preservados do próprio cérebro do gênio, cortados, fatiados e distribuídos entre pesquisadores décadas atrás, numa época em que ninguém, absolutamente ninguém, imaginava que aquilo um dia teria o preço de uma nação inteira.
Foi exatamente atrás de um desses pedaços que Adrian Voss passou três anos, uma fortuna pessoal de duzentos milhões de dólares, e — embora ele não soubesse disso ainda, e talvez nunca chegasse a admitir, mesmo depois de tudo o que estava por vir — a última reserva de paciência que possuía.
Adrian Voss tinha quarenta e um anos e era dono da AEON Genomics, a segunda maior empresa de reintegração somática do mundo. Tinha construído seu império não sobre um produto revolucionário, mas sobre uma obsessão que ele próprio jamais chamaria assim: acreditava, genuinamente, com a convicção tranquila de quem nunca precisou duvidar de si mesmo por muito tempo, que a humanidade tinha perdido certas pessoas cedo demais, e que corrigir esse erro histórico era o trabalho mais importante que um homem rico podia fazer com o próprio dinheiro. Chamava isso de missão. Os concorrentes, e uma parcela nada pequena de seus próprios funcionários, chamavam de fome.
Americano, nascido em São Francisco numa família de classe média que jamais imaginara produzir um bilionário, Voss tinha perdido o próprio pai aos onze anos de idade, de um câncer de pâncreas diagnosticado tarde demais para qualquer tratamento salvá-lo, sem que o menino tivesse tempo sequer de se despedir direito — o homem já estava sedado demais, nos últimos dias, para reconhecer o próprio filho parado ao lado da cama. Era um detalhe que Voss jamais mencionava em entrevistas, e que apenas um punhado de pessoas próximas sabia relacionar, ainda que vagamente, à obsessão que definiria o resto de sua vida.
Formou-se em bioengenharia em Stanford, e fez a primeira fortuna ainda antes dos trinta anos, fundando e depois vendendo uma startup de diagnóstico genético que os grandes laboratórios farmacêuticos disputaram entre si até dobrar o valor inicial de mercado. Foi com o dinheiro dessa venda, somado a um financiamento que ele próprio levara dois anos para negociar com investidores ainda céticos, que fundou a AEON Genomics em 2086, no mesmo ano em que o mundo assinava o tratado que proibia, com toda a solenidade que a ocasião parecia exigir, exatamente o tipo de tecnologia que ele já apostava, em segredo, que um dia voltaria a ser permitida. Escolheu Zurique para sediar a empresa não por afeto algum à Suíça, mas pela combinação de sigilo bancário, estabilidade regulatória e proximidade discreta de Genebra, onde sabia que qualquer futura mudança de lei internacional sobre o assunto teria de ser negociada.
Nunca se casou. Não tinha filhos, nem, segundo praticamente todos que já haviam trabalhado de perto com ele, tempo ou disposição genuína para cultivar qualquer relação que não pudesse, de alguma forma, ser subordinada à própria missão. Amigos de verdade, se é que algum dia os teve, foram silenciosamente substituídos, ao longo dos anos, por funcionários, conselheiros e, mais tarde, por um elenco cada vez maior de gênios mortos trazidos de volta à vida — companhia que, ironicamente, seria a mais próxima de família que Adrian Voss conheceria depois da morte do próprio pai.
E havia um nome, no topo de todas as listas de todas as empresas do setor — listas que circulavam entre bilionários com a mesma discrição e o mesmo fervor de um leilão de arte clandestino —, que Voss queria mais do que qualquer coisa na vida: Albert Einstein.
Não pela física — isso qualquer aluno de graduação já sabia de cor, e as equações em si não valiam, no mercado, muito mais do que o papel em que estavam impressas. Voss queria a mente. Queria saber, com uma curiosidade quase física, o que acontecia dentro daquela cabeça nos segundos exatos antes de uma ideia impossível se tornar óbvia para o resto do mundo.
O problema era que o corpo de Einstein havia sido cremado em 1955, poucas horas depois de sua morte, e as cinzas espalhadas num local que sua família jamais revelara publicamente e que provavelmente nem ela mesma sabia mais localizar com exatidão. Não havia túmulo. Não havia terra para escavar, nenhum caixão para abrir, nenhum cemitério inteiro para simplesmente comprar — e Voss já tinha comprado cemitérios inteiros, com todos os direitos de exumação inclusos no preço, só para descobrir, tempos depois, que a promessa gravada numa lápide raramente coincidia com o que realmente havia debaixo dela.
Mas havia uma exceção famosa, quase uma lenda de circulação restrita entre os caçadores de DNA: o patologista que fizera a autópsia de Einstein tinha, sem autorização de ninguém — nem da família, nem de qualquer autoridade médica —, removido e preservado o cérebro antes da cremação. Cortara-o em centenas de fatias finíssimas, guardadas em frascos numerados à mão, e ao longo de décadas distribuíra pedaços para pesquisadores ao redor do mundo, num gesto que parte da comunidade científica da época classificaria como profanação e outra parte, silenciosamente, como o único ato de bom senso científico em toda aquela história. Alguns fragmentos ficaram documentados. A maioria se perdeu no tempo — esquecida em porões de universidades, em coleções particulares de herdeiros que nunca souberam exatamente o que tinham herdado, num punhado de museus que nem sempre sabiam ao certo o que guardavam em suas próprias prateleiras.
Voss montou uma equipe de doze pessoas cuja única função, durante três anos ininterruptos, foi rastrear essas lâminas de vidro pelo mundo inteiro. Historiadores forenses acostumados a seguir o rastro de objetos que ninguém mais queria encontrar. Advogados especializados na zona cinzenta e recém-inventada do direito de propriedade sobre restos biológicos humanos. Um ex-agente de inteligência que sabia exatamente como abrir portas que a lei, por hábito e por prudência, preferia manter fechadas. Compraram uma coleção particular inteira na Filadélfia por catorze milhões de dólares. Localizaram, subornaram e depois processaram judicialmente um colecionador argentino que jurava de pé junto possuir três lâminas autênticas — que se revelaram, após meses de análise cara e frustrante, falsificações grosseiras feitas para enganar exatamente o tipo de comprador desesperado que Voss estava se tornando. Financiaram, sem que o nome da AEON aparecesse em um único documento público, a “restauração” cuidadosamente generosa de um pequeno museu universitário no meio-oeste americano, em troca do acesso irrestrito e silencioso ao seu acervo esquecido.
E encontraram. Depois de três anos de becos sem saída, fraudes e leilões secretos, sete amostras localizadas e confirmadas, com cadeia de custódia impecável o bastante para satisfazer qualquer tribunal futuro. Material suficiente — segundo os próprios cientistas da AEON, que já haviam aprendido a ser cautelosos com promessas depois de tantas decepções — para uma reintegração completa.
Faltava apenas uma coisa: a amostra final, a mais bem preservada de todas as sete, pertencia a uma viúva de noventa e três anos em Ohio, herdeira de um pesquisador já falecido havia muito, guardada havia décadas dentro de uma simples caixa de charutos no fundo de um armário de roupa de cama, sem que ela sequer soubesse exatamente o que era aquilo — apenas que o marido, ainda em vida, costumava dizer, meio de brincadeira, meio a sério, que “um dia aquilo valeria uma fortuna”.
Voss foi pessoalmente até Ohio, coisa que raramente fazia — tinha gente para isso. Mas aquela negociação, decidiu, merecia sua própria presença. Sentou-se na sala de estar apertada daquela mulher, decorada com fotografias de netos, bebeu o café ruim que ela insistiu em servir, e ofereceu quarenta milhões de dólares por uma lâmina de vidro do tamanho de um cartão de visita.
Ela disse que precisava de uma semana para pensar.
Voss devia ter oferecido os quarenta milhões ali mesmo, sem sair da cadeira. Devia ter levado um cheque já assinado e um advogado pronto para fechar o negócio na hora, antes que ela tivesse tempo de contar a história para mais alguém. Mas ele tinha certeza — a mesma certeza tranquila e um pouco arrogante que o havia feito bilionário, e que nunca, até aquele momento, tinha lhe custado nada de verdade — de que ninguém mais no mundo sabia da existência daquela caixa de charutos.
Estava errado.
Seis dias depois, um avião particular pousou no pequeno aeroporto regional mais próximo da casa da viúva. Não trazia o logotipo da AEON. Trazia, discretamente pintado na cauda, um símbolo que Voss conhecia bem demais para confundir com qualquer outro: uma tocha estilizada, o emblema da Prometheus Vitae, sua concorrente direta havia cinco anos — a única empresa do setor que rivalizava com a AEON em capital, em ambição, e, evidentemente, em capacidade de descobrir exatamente onde ele andava enfiando o nariz.
Voss só soube da visita quando já era tarde demais. Um dos seus próprios homens em Ohio — pago, ele descobriria semanas mais tarde, com exatamente o dobro do que a AEON já lhe oferecia — havia vazado a localização precisa da caixa de charutos para a Prometheus três dias antes da reunião final que Voss achava já estar praticamente fechada. A viúva assinou o contrato duas horas antes de Voss sequer decolar de volta para Ohio, ansioso para renovar a oferta e fechar, finalmente, aquilo que já considerava seu por direito.
Ele chegou a tempo apenas de ver o avião da Prometheus Vitae decolando, riscando um céu de outubro que já começava a escurecer.
Não gritou. Não quebrou nada. Ficou parado na pista, o vento levantando poeira em volta dos sapatos italianos que custavam, sozinhos, mais do que a casa inteira da viúva, olhando o avião ficar cada vez menor no céu de Ohio até desaparecer por completo.
— Eles vão trazê-lo de volta primeiro — disse, sem se dirigir a ninguém em particular. Um dos seus assessores, parado atrás dele, teve o azar de responder.
— Senhor Voss, ainda temos as outras sete amostras. Podemos tentar reintegração parcial.
— Parcial não serve — Voss não levantou a voz. Isso, quem o conhecia bem sabia, era sempre pior do que gritar — Einstein não vale nada pela metade. Ou é ele inteiro, com cada memória, cada dúvida, cada erro que ele cometeu antes de acertar, ou não é nada.
Ele entrou no carro. Antes de fechar a porta, olhou uma última vez para o céu vazio, como quem confere, por hábito, se algo ficou realmente para trás.
— Perdemos Einstein — disse — Tudo bem. Há outros gênios mortos neste mundo.
O carro partiu. E, em algum lugar entre Ohio e o resto do século, começou a verdadeira corrida — aquela que já não tinha nada a ver com física, e tudo a ver com o quanto um homem estava disposto a pagar, e a fazer, para nunca mais precisar sentir o gosto daquela pista vazia debaixo dos próprios pés.
O Preço de Chegar em Segundo
Aspen, Colorado — seis semanas depois.
Space opera
Vigília Estelar — O Extermínio
Alguns heróis caem em batalha. Outros caem por amor. A Vigília Estelar patrulha as estrelas contra os Devoradores, liderados por Necris Valok — até que ele descobre a única fraqueza verdadeira de Orion Vanth, guardião mais poderoso do universo: o amor que sente por Alaya Vess. A guerra deixa de ser travada com punhos e energia estelar, e passa a ser travada com chantagem, medo e traição.
A Alvorada Cinza saiu do salto dobrado com um estrondo que não era som, mas a própria realidade se recompondo atrás dela, e Orion Vanth já sabia, antes mesmo de olhar para o painel, que tinham perdido tempo demais no Templo de Corvhaal.
— Contato visual — disse Vex-7, a voz metálica soando quase entediada, como sempre soava quando havia trabalho a fazer. — Nave pirata classe Corvo-Sombra, trinta segundos à frente, acelerando.
— Trinta segundos é uma eternidade para o Skarn Dell — resmungou Doran Kesh, cruzando os braços de pedra viva no encosto da cadeira de comando, que rangeu sob o peso. — Aquele verme sempre teve uma nave rápida demais para o tamanho do ego dele.
— O ego dele cabe numa galáxia inteira, Doran. A nave é só rápida — corrigiu Cassian Thorne, já de pé, ajustando as lâminas de energia moduladas no antebraço. Seus olhos, treinados havia décadas nos mosteiros de combate de Virelia, não saíam da tela de rastreio. — Orion, quantas relíquias eles levaram do templo?
— Sete. — A palavra saiu seca da boca de Orion. Ele ainda vestia a poeira dourada de Corvhaal nos ombros da armadura, resquício da explosão que os piratas tinham detonado para cobrir a fuga. — Incluindo o Cetro de Vhennar. Se aquilo cair em mãos erradas fora de um cofre selado, metade daquele sistema estelar vira pó em uma semana.
Alaya Vess pousou ao lado dele com um bater de asas suave, dobrando-as junto ao corpo esguio assim que os pés tocaram o convés. As penas prateadas ainda brilhavam com a luz residual do templo, e havia uma ruga de preocupação entre suas sobrancelhas que ele conhecia bem.
— Eles estão assustados — disse ela, baixinho, só para Orion. — Consigo sentir o pânico deles daqui. O Skarn não queria levar o cetro. Alguém mais o obrigou.
— Isso não muda o que precisamos fazer.
— Eu sei. — Ela sorriu de leve, um sorriso cansado mas real. — Só queria que você soubesse que também sinto pena deles, antes de irmos quebrar a nave em pedaços.
Orion quase riu. Quase. Era assim havia dois anos: ela lembrando-o de que o universo era feito de gente com medo, e não apenas de ameaças a serem neutralizadas. Ele apertou de leve os dedos dela antes de virar para a proa.
— Vex-7, abra um corredor de perseguição. Nyx, Ithra, preparem-se para abordagem se eles tentarem outro salto dobrado dentro de um sistema habitado.
— Já era hora de algo interessante acontecer nesta semana — disse Nyx Talon, desenrolando-se da sombra do corredor onde estivera enroscada, os olhos amarelos brilhando de antecipação felina.
Ithra Sol — ou melhor, as duas consciências que dividiam aquele único corpo esguio de luz gêmea — falaram quase em uníssono, uma completando a frase da outra:
— Interessante — disse a primeira voz.
— É uma palavra — completou a segunda, num tom seco que arrancou um resmungo de Borrum, o gigante cristalino que ocupava um canto inteiro da ponte, tão gentil quanto enorme.
— Vocês duas brigam mais que um casal velho — murmurou ele, ajustando com cuidado os frascos de gel regenerativo presos ao cinto, prontos para qualquer ferimento que a perseguição pudesse trazer.
Vera Sloane, sentada aos controles auxiliares de navegação, ignorou a brincadeira interna da tripulação e manteve os olhos fixos nos sensores, os dedos dançando sobre símbolos que, para qualquer terráqueo comum, pareceriam luzes sem sentido.
— Eles estão cortando caminho pela Via Láctea feito loucos — disse ela. — Sistema Trappen, depois o corredor de asteroides de Khiv... esse cara conhece rotas de fuga que nem estão nos meus mapas.
— Skarn Dell sempre conheceu — disse Orion. — Foi contrabandista antes de virar pirata, e traficante antes de virar contrabandista. Ele nunca fugiu de nós dessa distância antes. Está desesperado.
A perseguição que se seguiu duraria quase seis horas, e passaria por três planetas antes de terminar.
Primeiro veio Trappen-Vy, mundo de oceanos roxos e cidades flutuantes, onde a nave pirata mergulhou entre as torres de coral vivo na esperança de despistar os sensores da Alvorada Cinza — esperança em vão, porque Ithra Sol simplesmente dobrou o campo gravitacional ao redor da nave-Corvo-Sombra por meio segundo, o suficiente para fazê-la sacudir violentamente e denunciar sua posição exata através do rastro de energia deixado no ar.
Depois veio o corredor de asteroides de Khiv, onde Skarn Dell tentou, sem sucesso, perder a Vigília Estelar numa dança entre rochas do tamanho de luas menores. Cassian, pilotando um dos caça-lançadeiras de perseguição junto com Doran, atravessou o campo de destroços com uma precisão que fez até Vex-7 admitir, a contragosto, que "o Virel tinha talento".
E por fim, atravessando um véu de poeira estelar que ninguém a bordo da Alvorada Cinza esperava, a nave pirata saltou para dentro de um sistema pequeno, quase esquecido nos mapas comerciais da galáxia — um sistema com uma única estrela amarela e um terceiro planeta azul e verde, cheio de vida, cheio de gente que não fazia ideia do que passava sobre suas cabeças.
— Ah, não — disse Vera Sloane, e havia algo na voz dela que fez todos na ponte se virarem.
— O que foi? — perguntou Orion.
Ela engoliu em seco, olhando para as coordenadas na tela como se tivesse visto um fantasma.
— Aquele é o meu sistema natal. Aquele é... aquele é o planeta em que eu nasci.
Orion olhou para a esfera azul e verde crescendo na tela principal, e sentiu o peso do momento antes mesmo de entender totalmente por quê. Vera raramente falava da Terra. Em anos de serviço juntos, ele sabia apenas o essencial: que ela tinha sido recrutada ainda jovem, após um incidente que a Vigília Estelar impedira de se tornar catástrofe, e que desde então nunca mais tinha voltado para casa.
— Skarn Dell não sabe o que está fazendo — disse Cassian pelo comunicador, ainda na lançadeira. — Aquele mundo tem uma atmosfera pesada demais para o motor da nave dele. Se ele tentar pousar com o casco naquele estado...
Não terminou a frase. Não precisava.
A nave-Corvo-Sombra entrou na atmosfera terrestre girando fora de controle, uma trilha de fogo alaranjado cortando o céu noturno sobre o que os sensores de Vera identificaram, com uma pontada estranha no peito, como o deserto de Nevada. O impacto levantou uma coluna de poeira e faíscas visível a quilômetros, mas — para alívio de todos — o campo de contenção de emergência da nave pirata, ainda que danificado, absorveu o pior do choque. Skarn Dell e sua tripulação sobreviveriam. Ficariam feridos, humilhados, presos. Mas vivos.
A Alvorada Cinza pousou dez minutos depois, silenciosa como uma sombra maior que qualquer coisa que aquele pedaço de deserto já tivesse visto, e a Vigília Estelar desceu sobre a areia ainda quente sob um céu cheio de estrelas que, para a maioria deles, eram apenas estrelas — mas que para Vera Sloane, pela primeira vez em anos, eram as estrelas de casa.
Os piratas foram encontrados praticamente entre os destroços fumegantes, gemendo, alguns quebrados, nenhum disposto a lutar. Skarn Dell — um humanoide magro, de pele acinzentada e três cicatrizes idênticas na bochecha esquerda, marca de alguma dívida antiga que ele nunca explicava — ergueu as mãos assim que viu Orion se aproximar, a armadura ainda brilhando com a energia estelar latente de seu corpo.
— Espera, espera! — gritou ele, engasgando com a poeira. — Eu não queria pegar aquele cetro, juro pelos meus mortos, alguém me pagou uma fortuna pra buscar aquilo, eu só...
— Quem? — perguntou Orion, a voz calma, mas com um peso que fazia qualquer criatura no universo pensar duas vezes antes de mentir para ele.
Skarn hesitou. Por um segundo, o medo no rosto dele não era da Vigília Estelar.
— Eu não sei o nome dele. Só sei que ele tinha... uma marca. Cinzas. Um símbolo de cinzas na capa. — Ele engoliu em seco. — Ele disse que, se eu falhasse, ia fazer questão de que eu descobrisse pessoalmente o que aconteceu com o povo dele.
Orion trocou um olhar rápido com Alaya, que pousara ao lado dele, as asas ainda meio abertas por precaução. Ela sentiu o frio que percorreu a espinha dele antes mesmo de ele dizer qualquer coisa. Um símbolo de cinzas. Havia rumores, nos confins mais distantes do espaço patrulhado, de um grupo que usava tal símbolo — rumores de mundos que simplesmente paravam de responder aos sinais, de frotas inteiras que desapareciam, de um nome sussurrado com o mesmo tom que se usava para descrever tempestades e pragas: Necris Valok.
Não era hora para aquilo. Não ainda.
— Cassian, Doran — chamou Orion —, prendam a tripulação e recolham as relíquias. Todas as sete peças precisam ser contabilizadas antes de sairmos.
Foi então que as luzes começaram a aparecer no horizonte do deserto — não estelares, mas humanas: veículos blindados, holofotes, e acima deles, cortando o céu com um brilho elétrico azulado, três figuras que pousaram numa formação claramente ensaiada, cercando o perímetro dos destroços.
— Parem exatamente onde estão! — gritou uma delas, uma mulher de armadura prateada com um símbolo estilizado de escudo no peito, a voz amplificada por algum tipo de projeção sônica. — Vocês são... — ela hesitou, olhando para Doran Kesh, para as asas de Alaya, para a luz que ainda emanava suavemente da pele de Orion. — O que vocês são?
Nyx Talon rosnou baixinho, pronta para desaparecer nas sombras se a situação virasse luta, mas Orion ergueu a mão, pedindo calma.
— Somos amigáveis — disse ele, em Solki, sua língua nativa, o que obviamente não ajudou em nada, porque a mulher de armadura prateada apertou ainda mais o aperto na arma que carregava.
— Ele disse que somos amigáveis — traduziu Vex-7, através dos alto-falantes externos da Alvorada Cinza, num tom que conseguia soar levemente sarcástico mesmo sem ter rosto para fazer careta.
— Isso não ajudou nada — murmurou Cassian.
Foi Vera Sloane quem deu um passo à frente, removendo o capacete do traje de voo, deixando o cabelo castanho cair sobre os ombros, e ergueu as duas mãos, vazias, num gesto que qualquer terráqueo reconheceria.
— Ei! Ei, calma, por favor. Somos... — ela respirou fundo, sentindo o gosto estranhamente familiar do ar do deserto, a gravidade certa, o cheiro certo, depois de tantos anos. — Meu nome é Vera Sloane. Eu nasci aqui. Em Ohio, na verdade, mas isso agora é só um detalhe.
A mulher de armadura prateada — que se apresentaria minutos depois como Sentinela, líder da pequena equipe terrestre conhecida como Guarda Meridiana — baixou a arma alguns centímetros, mas não todos.
— Você fala inglês.
— Eu sou terráquea. Claro que eu falo inglês. — Vera deu um meio sorriso, o mais tranquilizador que conseguiu reunir. — Olha, eu sei como isso parece. Uma nave caiu do céu no meio do deserto, tem uma equipe de... de gente muito diferente aqui parada ao lado dos destroços, e vocês não fazem ideia do que está acontecendo. Eu vou te explicar tudo, prometo. Mas primeiro preciso que sua equipe abaixe as armas, porque essas pessoas ao meu lado são minha equipe, e nós acabamos de prender aqueles caras ali — ela apontou para Skarn Dell e seus comparsas, agora algemados com cordas de contenção de energia — antes que eles vendessem uma arma capaz de apagar um sistema estelar inteiro para o pior ser vivo que eu já ouvi falar.
Voltagem, o segundo herói da Guarda Meridiana, um rapaz magro com veias de eletricidade azul-clara pulsando sob a pele, trocou um olhar com Spectra, a terceira integrante, cujo corpo parecia feito de luz refratada em constante movimento.
— E por que a gente deveria acreditar em você? — perguntou Voltagem, ainda desconfiado.
— Porque — Vera gesticulou para os destroços fumegantes, para os piratas algemados, para a paz relativa da cena, apesar de tudo — se fôssemos os vilões da história, vocês três já estariam mortos, e essa conversa não estaria acontecendo em inglês.
Houve um longo silêncio. Sentinela olhou para trás, para os outros dois, e algo em seus ombros relaxou.
— Tudo bem — disse ela, finalmente baixando a arma. — Explica.
E assim, sentados sobre os destroços quentes de uma nave pirata, sob o céu estrelado de um pequeno planeta azul numa borda esquecida da galáxia, Vera Sloane contou à Guarda Meridiana quem eram, o que faziam, e por que a paz de bilhões de mundos dependia de gente como Orion Vanth continuar patrulhando o vazio entre as estrelas.
Ela não contou tudo, é claro. Não mencionou o símbolo de cinzas. Não falou do nome que Skarn Dell tinha sussurrado com tanto medo. Havia coisas que os terráqueos não precisavam carregar — não ainda, pensou ela, sem saber o quanto aquela frase se tornaria irônica nos meses seguintes.
Enquanto ela falava, Orion ficou de pé um pouco afastado, olhando para o céu noturno da Terra, para aquelas estrelas que pareciam tão pacíficas vistas dali de baixo. Alaya se aproximou e pousou a mão em seu braço.
— Você está pensando no símbolo — disse ela. Não era pergunta.
— Estou pensando que faz meses que os relatórios da fronteira estão silenciosos demais — respondeu ele, baixinho. — E silêncio, quando se trata de Necris Valok, nunca significa paz.
Ela não disse nada. Apenas entrelaçou os dedos com os dele e ficou ali, junto dele, olhando as mesmas estrelas, sem saber — nenhum dos dois sabia — que aquela seria uma das últimas noites tranquilas que teriam juntos por muito, muito tempo.
Ao amanhecer, com os piratas entregues às autoridades apropriadas da Terra e as sete relíquias seguras nos cofres da Alvorada Cinza, a Vigília Estelar se despediu da Guarda Meridiana com um aceno e uma promessa de retorno — promessa que, dadas as circunstâncias, levaria muito mais tempo para se cumprir do que qualquer um deles imaginava.
A nave decolou, cortou a atmosfera terrestre como uma lâmina de luz, e mergulhou de volta no vazio entre as estrelas.
Era o começo de uma guerra que nenhum deles ainda conseguia ver em toda a sua extensão.
CAPÍTULO 1
A Sombra que Cresce
A Lua de Kethys nunca fora bonita. Orion sempre gostou disso.
Ao contrário de tantos mundos que a Vigília Estelar jurara proteger — jardins flutuantes, oceanos de luz, cidades esculpidas em nuvens — a lua gelada que orbitava o gigante gasoso Kethys Prime era um lugar cru, cinzento, esculpido por bilhões de anos de impactos de meteoro e vento solar. Não havia nada ali para se admirar além do próprio trabalho. E era exatamente por isso, ele pensava enquanto a Alvorada Cinza atracava no hangar principal, que aquele lugar servia tão bem de base: nenhum deles corria o risco de se apaixonar pela base a ponto de esquecer por que a tinham construído.
— Chegamos com quase oito horas de atraso — anunciou Vex-7 assim que as portas do hangar se abriram, revelando o interior cavernoso da fortaleza esculpida na própria rocha lunar. — O Alto Conselho de Vigilância já enviou três mensagens perguntando onde estávamos.
— Estávamos salvando um planeta e depois explicando isso em inglês para heróis amadores — resmungou Doran Kesh, descendo da rampa com as juntas de pedra rangendo. — Que o Alto Conselho espere mais um pouco.
Alaya desceu logo atrás dele, as asas ainda cansadas da tensão da perseguição, e parou ao lado de Orion no topo da rampa, olhando para o corredor principal da base — um túnel imenso, esculpido em arcos que sustentavam o teto de rocha viva, iluminado por cristais luminosos incrustados nas paredes que pulsavam suavemente, como se a própria lua respirasse.
— Você está tenso — disse ela, baixinho, só para ele.
— Estou cansado.
— Não é a mesma coisa, e você sabe disso.
Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, caminhou até a sala de comando central — uma câmara circular no coração da base, onde um holograma gigantesco da galáxia girava lentamente no ar, pontilhado de milhares de marcadores de luz representando sistemas estelares, rotas comerciais, e — cada vez mais nos últimos meses — pontos vermelhos que indicavam silêncio de comunicação.
Havia mais pontos vermelhos do que ele se lembrava de ter visto da última vez.
— Cassian — chamou ele, e o Virel já estava ali, como sempre parecia estar exatamente onde era necessário antes mesmo de ser chamado.
— Eu vi — disse Cassian, sem precisar de mais explicação. Ele gesticulou, e o holograma se aproximou de um setor específico da galáxia, na borda externa, um braço espiral relativamente pouco povoado conhecido como o Véu de Corvhaal — não muito longe, na verdade, do templo de onde tinham acabado de recuperar as relíquias. — Sete sistemas silenciosos nos últimos quatro meses. Antes disso, era um por ano, às vezes menos.
— Sete sistemas — repetiu Orion, a voz baixa. — Quantos mundos habitados isso representa?
— Contando luas e estações, talvez quarenta e três.
Um número. Apenas um número, até que alguém parasse para pensar no que ele realmente significava.
A sala de comando foi se enchendo enquanto o resto da equipe se reunia — Nyx Talon deslizando para dentro de um canto escuro por hábito, Borrum entrando com cuidado para não esbarrar em nada com seu corpo enorme, Ithra Sol flutuando ligeiramente acima do chão como sempre fazia quando as duas consciências discordavam sobre onde exatamente pisar. Vera Sloane chegou por último, ainda com a poeira do deserto terrestre nas botas, e parou ao lado de Cassian, cruzando os braços.
— Alguém finalmente vai me contar por que todo mundo está com essa cara? — perguntou ela. — Achei que teríamos uma boa notícia hoje. Prendemos os piratas. Recuperamos o cetro. Isso devia contar como vitória.
— É uma vitória — disse Orion. — Só que está cada vez mais difícil comemorar vitórias pequenas quando existe uma sombra grande demais crescendo nas bordas do mapa.
Romance & aventura amazônica
Coração Dividido — Um Romance Amazônico
Após desobedecer a uma antiga lei da floresta, a jovem indígena Ynuara é condenada pelo Curupira a perder o caminho de casa. Encontrada por Deodato, um garimpeiro de coração generoso, e Firmino, um seringueiro experiente, ela reconstrói a vida entre costumes desconhecidos — enquanto a amizade dá lugar a sentimentos mais profundos. Juntos, os três enfrentam rios traiçoeiros e criaturas do folclore brasileiro — Iara, Mapinguari, Curupira — numa jornada em que a maior batalha não é contra os perigos da mata, mas contra os conflitos do coração.
A manhã nasceu cor de cobre sobre a floresta, e Ynuara já estava na água até os joelhos quando os primeiros pássaros começaram a gritar nas copas mais altas. Ela tinha vinte estações de cheias e vazantes gravadas no corpo esguio, e havia aprendido desde menina que a fome dos irmãos pequenos não esperava pela preguiça do sol. Naquele dia, como em tantos outros, saíra sozinha da aldeia dos Tupinaiá antes de o céu clarear de todo, com o arco de pau-d'arco nas costas, o cesto de fibra amarrado à cintura e a promessa silenciosa de voltar antes que a noite fechasse os caminhos da mata.
A trilha que levava ao igarapé das frutas era estreita e conhecida, marcada por um jatobá torto que sua avó dizia ter mais idade que qualquer pessoa viva da aldeia, e por uma pedra achatada onde Ynuara costumava sentar-se para tirar espinhos dos pés antes de continuar. Caminhava depressa, mas sem pressa de verdade, o corpo acostumado àquele ritmo silencioso que a mata exigia de quem queria colher sem espantar a caça, e ia repetindo baixinho, quase cantando, uma cantiga que a mãe lhe ensinara para pedir licença às árvores antes de tirar qualquer fruto de seus galhos.
Colheu frutas de inajá e de bacuri até encher metade do cesto, escolhendo com cuidado apenas as que já estavam maduras o suficiente para não desperdiçar o que a árvore ainda guardava para amadurecer, e mais adiante, num remanso de águas paradas onde os peixes gostavam de se abrigar sob as raízes expostas de uma sumaúma, prendeu três peixes grandes com a agilidade de quem repetia aquele gesto desde a infância. Sorriu ao ver o cesto mais pesado, pensando em Piraí, que adorava peixe assado com a pele bem crocante, e em Jaci, que sempre pedia para chupar a cabeça primeiro, um costume que fazia a mãe rir e reclamar ao mesmo tempo.
O sol já estava alto, quase no meio do céu, quando ela ouviu o estalo de galhos secos e o bufar pesado de um bicho grande se movendo perto do igarapé. Era uma anta, e não estava sozinha: atrás dela, cambaleante sobre as pernas ainda finas, vinha um filhote pintado de listras claras, colado ao rastro da mãe como se o mundo inteiro dependesse daquela distância curta entre os dois corpos. Ynuara parou completamente imóvel atrás de um arbusto, observando por um instante longo demais a cena tranquila daquela família de bichos seguindo pela margem, a mãe parando de vez em quando para que o filhote alcançasse seu passo, o filhote esbarrando, curioso, em tudo que encontrava pelo caminho.
Ynuara conhecia a lei da mata quase tão bem quanto conhecia o próprio nome — sabia que os encantados vigiavam cada flecha lançada contra os bichos, e que existia um tempo certo para caçar e um tempo certo para deixar a caça em paz, um equilíbrio que sua mãe lhe ensinara desde pequena como se fosse a própria respiração do mundo. Mas os irmãos pequenos, Jaci e Piraí, estavam em casa com a barriga roncando desde a véspera, porque a caça andava escassa naquela estação e o cacique já racionava a carne guardada para os dias de reunião do conselho. Uma anta adulta era carne para dias, era gordura para untar o corpo contra o frio das noites de chuva, era mais do que peixe e fruta juntos poderiam oferecer àquela família que ela tanto amava. O pensamento da fome dos irmãos falou mais alto do que qualquer outro dentro dela, abafando o alerta baixinho que uma parte de si mesma tentava lhe sussurrar.
Ela armou o arco devagar, sem fazer o menor ruído, os dedos encontrando a corda de fibra trançada com a familiaridade de anos de prática, e mirou o pescoço grosso do animal adulto, calculando o ângulo exato que o pai lhe ensinara, o ponto certo onde a flecha encontraria o caminho mais rápido até o coração. Respirou fundo uma última vez. A flecha cortou o ar com um zunido seco e cravou-se funda, certeira, e a anta tombou de lado com um gemido rouco que ecoou entre os troncos como se a própria floresta estivesse ferida, um som que Ynuara sentiria ecoar dentro de si por muito, muito tempo depois daquele dia.
O filhote parou. Ynuara viu, e nunca mais conseguiria apagar da memória, o instante em que o bicho pequeno cutucou o corpo imóvel da mãe com o focinho, esperando um movimento que não viria, esperando o calor familiar que sempre o guiara desde o nascimento, e depois ergueu a cabeça e olhou para todos os lados como quem procura, no meio do nada, alguém que ainda não sabe que está sozinho. O gemido fino que ele soltou em seguida não era bem um grito nem bem um choro, mas algo entre os dois, um som que atravessou o peito de Ynuara como se fosse a própria flecha voltando contra ela.
Ela deveria ter esperado. Deveria ter deixado os dois passarem e procurado outra caça mais adiante, uma que não deixasse filhote para trás, talvez um bando de queixadas, talvez apenas mais peixe, mais fruta, um dia de fome a menos comprado com um preço menor. Mas a decisão já estava tomada havia muito, no instante em que a corda do arco vibrou contra seus dedos, e agora só restava o trabalho de esfolar e cortar a carne, tarefa que ela cumpriu com as mãos trêmulas, o coração pesado de um jeito que a fome dos irmãos não conseguia mais aliviar completamente, sem coragem de olhar de novo para o filhote que se afastara chorando um som agudo e fino entre as árvores, cada vez mais distante, cada vez mais sozinho.
Foi enquanto amarrava os primeiros pedaços na trouxa de folhas, os dedos manchados de sangue escuro, que o ar mudou. Não houve vento, não houve nuvem cobrindo o sol, mas a mata inteira pareceu prender a respiração ao mesmo tempo, como um bicho grande que desperta e se cala para escutar melhor. Os pássaros se calaram, um silêncio que desceu sobre a floresta como um pano pesado. Até o rio, ali perto, pareceu correr mais devagar, quase hesitante. E então, entre dois troncos cobertos de musgo, uma figura pequena e avermelhada se desenhou contra a sombra, com cabelos ruivos e pernas curtas que terminavam em pés virados ao contrário — voltados para trás, de modo que, para quem olhasse os rastros dele no chão, pareceria sempre estar indo embora quando na verdade estava chegando.
— Curupira — sussurrou Ynuara, e o nome saiu da boca dela como um pedido de perdão que ainda não tinha forma, o corpo inteiro congelado no lugar, o pedaço de carne ainda em suas mãos manchadas.
O encantado não respondeu de imediato. Caminhou até o corpo da anta com passos curtos e duros que não faziam ruído algum sobre as folhas secas, e ficou ali, observando o sangue escuro que já se misturava à terra, observando as marcas frescas de garras pequenas onde o filhote arranhara o chão tentando entender a imobilidade da mãe. Ergueu uma das mãos retorcidas e tocou de leve o pelo áspero do animal morto, um gesto quase de luto, quase paternal, que fez algo dentro de Ynuara se apertar ainda mais. Quando finalmente virou o rosto para ela, os olhos dele eram dois pontos de brasa viva e a voz que saiu de sua garganta tinha o som de vento raspando em oco de árvore seca.
— Vi o que fizeste — disse o Curupira, e cada palavra caía como pedra n'água parada, ondas se espalhando lentamente pelo silêncio ao redor. — Não vi apenas a flecha. Vi o filhote que ficou. Vi que sabias, antes de soltar a corda, que ele ficaria sozinho, e mesmo assim soltaste. Isso não é fome, filha da mata. Isso é escolha.
Ynuara tentou falar, tentou dizer dos irmãos pequenos, da barriga vazia de Piraí, do frio que vinha com as chuvas, da escassez daquela estação, mas as palavras engasgaram na garganta como espinhos, cada uma delas parecendo pequena demais, fraca demais, diante do peso daqueles olhos de brasa. O Curupira ergueu uma das mãos pequenas e retorcidas, e o gesto bastou para calar qualquer desculpa antes mesmo que ela ganhasse voz.
— A mata dá e a mata cobra — continuou ele, sua voz agora carregando um peso que parecia fazer o próprio ar tremer ao redor deles. — Tu tiraste uma mãe e deixaste um filho perdido no mundo. Pela mesma medida, tu serás tirada dos teus, e o caminho da tua aldeia se fechará diante de ti como se nunca tivesse existido. Não voltarás para o colo de tua mãe, nem para os braços de teus irmãos, até que a mata decida que já pagaste o que deves. E que fique bem entendido: a mata não tem pressa.
— Não — a voz de Ynuara saiu fina, quase um fio, as pernas fraquejando sob ela até que caiu de joelhos na terra manchada de sangue. — Por favor, eu não sabia... eu sabia, mas não pensei... deixa eu voltar, deixa eu ver meus pais, eu faço qualquer coisa, eu ofereço qualquer coisa que a mata queira, mas não me tira da minha gente...
Mas o Curupira já se virava, e o corpo pequeno e avermelhado começou a se desmanchar entre as sombras dos troncos como fumaça sugada por um vento que só ele sentia, os contornos de sua figura tremeluzindo até se tornarem quase transparentes. Suas últimas palavras chegaram já quase sem forma, misturadas ao farfalhar das folhas.
— Cuida-te, filha da mata. A partir de agora, cada passo teu é um passo mais longe de casa.
E então ele não estava mais lá. Só o silêncio ficou, um silêncio tão grosso que Ynuara podia ouvir o próprio coração batendo contra as costelas, e o gemido fraco e distante do filhote de anta chorando em algum lugar entre as árvores, um som que pareceu, naquele instante, o eco da sua própria alma partida ao meio.
Ela largou o cesto de frutas. Largou os peixes. Só a trouxa com a carne, presa à cintura, permaneceu. E então correu.
Correu na direção que julgava ser a da aldeia, os pés descalços rasgando-se em raízes e pedras que ela normalmente desviaria com facilidade, o peito ardendo com cada respiração puxada com desespero, os olhos cegos de lágrimas e de medo, repetindo baixinho o nome da mãe como se o som sozinho pudesse abrir caminho por entre os troncos cerrados, como se a floresta fosse ter piedade ao ouvir aquele nome tão amado. Correu até as pernas perderem a força, até o sol começar a inclinar-se para o outro lado do céu, cada vez mais baixo, e só então, exausta, apoiando-se contra o tronco de uma árvore desconhecida para recuperar o fôlego, percebeu o que já devia saber havia horas: não reconhecia mais nenhuma árvore, nenhuma pedra, nenhum recorte de luz entre as folhas. Estava perdida.
Passou a tarde inteira tentando se localizar, subindo pequenas elevações em busca de algum sinal do rio que cortava perto da aldeia, procurando desesperadamente pelo formato característico de uma colina que ficava a meio caminho de casa, gritando os nomes dos irmãos até a voz falhar, mas a mata amazônica não devolve respostas a quem grita — apenas absorve o som e o transforma em mais silêncio, um silêncio que parecia, a cada hora que passava, mais espesso e mais definitivo. Tentou seguir o curso do sol como o pai lhe ensinara, tentou reconhecer nas árvores algum padrão familiar, mas cada tentativa a levava apenas mais fundo, mais longe, como se a própria mata estivesse deliberadamente embaralhando os caminhos diante de seus passos.
Quando o entardecer começou a azular entre as copas, e os primeiros morcegos rasgaram o ar em voos baixos e nervosos, Ynuara compreendeu, com um terror que lhe gelou o sangue nas veias, que teria de enfrentar a noite sozinha, longe de tudo o que conhecia, sem sequer as ferramentas que abandonara na pressa de fugir do local da infração. O medo da noite na mata, algo que ela aprendera a respeitar desde criança através das histórias contadas ao redor do fogo, agora se tornava real e presente de um jeito que nenhuma história jamais conseguira transmitir por completo.
Foi caminhando mais por instinto do que por razão que chegou, já em plena escuridão, à margem de um rio largo e desconhecido — um rio que ela nunca vira antes, de águas escuras e mansas refletindo as primeiras estrelas que começavam a pontilhar o céu que escurecia rapidamente. Não tinha mais forças para chorar, apenas um cansaço profundo que parecia ter tomado conta de cada músculo de seu corpo. Acendeu fogo com o atrito de dois gravetos secos, técnica que a mãe lhe ensinara ainda menina, as mãos tremendo tanto pelo esforço físico quanto pelo medo que ainda não a abandonara completamente, e sentou-se junto às chamas para beber da água fresca e comer o que ainda restava na trouxa amarrada à cintura — um pedaço da carne da anta que caçara, agora um lembrete amargo e doloroso do que a trouxera até ali, cada mordida carregando o peso de sua própria culpa.
Foi então, com a fogueira ainda crepitando baixinho e o cansaço já pesando nas pálpebras, que a superfície do rio se abriu sem ondas, sem ruído, como se a própria água tivesse decidido se dobrar em duas partes com uma suavidade quase impossível. Do meio do rio, iluminada em tons dourados pelo fogo de Ynuara, ergueu-se uma figura da cintura para cima: cabelos negros e longos escorrendo água como cordas de seda molhada, pele clara e luminosa sob o luar, e olhos que pareciam conter todo o verde escuro das profundezas do Anapu, um verde que parecia guardar segredos antigos demais para serem compreendidos por qualquer mente humana.
Ynuara gritou. Um grito puro de pavor, agudo, que rasgou a noite e assustou os bichos nas árvores próximas, fazendo-a cair sentada na areia da margem, longe do alcance da água, o corpo tremendo incontrolavelmente.
— Não grites, filha da terra — disse a voz da Iara, doce e ao mesmo tempo fria como a correnteza noturna, uma voz que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo. — Já ouvi gritos assim antes, e sei bem o que carregam dentro deles.
— O que... o que é você? — Ynuara perguntou entre soluços, embora já suspeitasse da resposta, porque as avós de sua aldeia contavam, junto ao fogo, histórias da mulher das águas desde que ela era pequena, histórias que ela sempre ouvira com fascínio e um leve arrepio, nunca imaginando que um dia estaria diante da própria criatura.
— Sou quem cuida do que corre e do que dorme no fundo dos rios — respondeu a encantada, deslizando mais perto da margem sem nunca sair da água, seus movimentos fluidos e graciosos como se seu próprio corpo fosse feito da mesma substância líquida que a cercava. — E sei da tua infração, Ynuara. A mata inteira já sabe. O Curupira falou, e as águas ouviram.
As duas conversaram por um tempo que Ynuara não soube medir, ali junto à fogueira que crepitava e lançava sombras compridas sobre a areia, a Iara fazendo perguntas ocasionais sobre a aldeia de Ynuara, sobre sua família, numa curiosidade que parecia genuína mas que nunca perdia aquele fundo de frieza ancestral que a diferenciava de qualquer criatura humana. A encantada não trouxe consolo — trouxe apenas a confirmação fria do que o Curupira já dissera, repetida com uma calma que doía mais do que qualquer grito: que o caminho de volta estava fechado, que a floresta cobraria o preço da anta e do filhote abandonado, que nenhuma súplica apressaria o perdão que só o tempo, e talvez algo mais, poderia trazer.
— Tua gente vai sentir tua falta — disse a Iara, antes de começar a afundar de volta nas águas escuras, seu corpo já parcialmente submerso —, mas a dor deles não é maior nem menor que a dor do filhote que ficou sozinho no mato. É essa a medida que a mata usa, filha da terra. Não é a medida que os homens usam.
Série · Livro 1
Aventura na Amazônia
Trágica Aventura na Amazônia — O que a Floresta Esconde?
Quando Álvaro Fernandes Becker embarca numa expedição pela Amazônia em busca de uma nova espécie animal, não imagina o que o espera. Acompanhado de guia, biólogo, indigenista, médico e seguranças, ele mergulha no coração da selva, onde cada sombra esconde um mistério — entre animais selvagens, criminosos que exploram a região ilegalmente e lendas ancestrais que podem ser mais reais do que a ciência é capaz de explicar.
Meu nome é Álvaro Fernandes Becker, um nome que carrega a herança dos meus antepassados e a complexa tapeçaria da minha vida. Enquanto escrevo estas palavras, estou sentado na minha cobertura, no vibrante coração de Ipanema, um bairro que tem sido meu refúgio e lar por mais de duas décadas.
A pandemia de COVID-19, um inimigo invisível que assolou o mundo, me levou a uma quarentena auto imposta. Foi uma decisão que pesou em meu coração, mas necessária, considerando a gravidade da situação. A vida, como eu conhecia, foi abruptamente interrompida e eu me encontrei confinado entre as quatro paredes do meu apartamento. O mais longe que cheguei nos últimos dois meses foi a porta do elevador, um lembrete constante de quão pequeno o mundo se tornou.
Escrever livros tornou-se a solução perfeita para driblar o tédio da quarentena. Cada palavra que escrevo é um passo para fora da minha cobertura e uma fuga da monotonia diária. Esses livros transformaram-se na minha janela para o mundo, um portal para lugares e pessoas que não posso visitar fisicamente.
Vivo sozinho, uma escolha que fiz há muitos anos, mas meu apartamento costumava ser um lugar de encontros e celebrações. Era um lugar cheio de risos e conversas; agora, silencioso e vazio. As visitas que antes eram frequentes, cessaram completamente com o início da quarentena. Minha solidão, que antes era uma escolha, agora, é uma circunstância imposta pela pandemia.
O confinamento tem sido uma experiência desafiadora, especialmente para alguém acostumado a estar cercado de pessoas. A interação humana, que antes era uma parte intrínseca da minha vida, foi substituída por conversas digitais. As redes sociais tornaram-se minha janela para o mundo exterior, um substituto pálido para a rica tapeçaria de interações das quais eu costumava desfrutar.
Nem preciso dizer que não é a mesma coisa. As conversas virtuais, por mais convenientes que sejam, não conseguem capturar a essência das conexões humanas. Faltam o contato físico e as expressões faciais. As palavras digitais não substituem a calorosa troca de sorrisos, a alegria de um aperto de mão amigável ou o conforto de um abraço acolhedor.
A solidão, antes uma companheira ocasional, tornou-se uma presença constante em minha vida. Ela se instala ao meu lado durante as refeições silenciosas, ecoa nas paredes vazias da minha cobertura e se infiltra nos meus pensamentos durante as longas noites de insônia.
Porém, a pandemia me ensinou a valorizar as pequenas coisas da vida. Enquanto aguardo o dia em que poderei voltar a abraçar meus amigos e familiares, encontro consolo nas páginas dos livros que escrevo, onde posso expressar meus pensamentos e sentimentos mais profundos.
Apesar da solidão e do isolamento, estou plenamente ciente da gravidade da situação global. A pandemia de COVID-19 não é apenas uma crise de saúde, mas também uma crise humanitária que impactou milhões de vidas em todo o mundo. Reconheço a necessidade de me proteger, não apenas por mim, mas também pela saúde e segurança da comunidade em geral.
Aos 62 anos, faço parte do grupo de risco. Essa realidade me fez perceber a fragilidade da vida e a importância de cuidar da minha saúde. Cada dia de quarentena é um lembrete de que devo tomar precauções extras para me proteger.
Durante esses dias de isolamento, tive a oportunidade de refletir sobre minha trajetória na Amazônia e as escolhas que fiz ao longo dos anos. A pandemia evidenciou a vulnerabilidade que muitas vezes ignoramos em nossa rotina diária. A cada notícia sobre o avanço do vírus, sinto um aperto no peito, lembrando-me de que a saúde é um bem precioso e frágil.
Aprendi a valorizar ainda mais os pequenos momentos de bem-estar fora do meu apartamento e as rotinas que antes considerava corriqueiras. As caminhadas ao redor da lagoa Rodrigo de Freitas, os passeios pela praia do Arpoador e as visitas ao Parque Penhasco Dois Irmãos ganharam um novo significado. A quarentena me ensinou a desacelerar e apreciar a simplicidade da vida.
Além disso, a necessidade de tomar precauções extras me levou a adotar hábitos mais saudáveis. Alimentação balanceada e meditação tornaram-se partes essenciais do meu dia a dia. Cada medida de proteção, como o uso de máscaras e higienização constante das mãos, representa um ato de cuidado comigo mesmo e para com os outros.
As vídeo-chamadas com familiares e amigos tornaram-se um alívio para a saudade e uma maneira de manter o vínculo afetivo. A pandemia nos mostrou que, mesmo distantes, podemos estar juntos de coração.
Entendo que a vida é um presente frágil e passageiro. Cada novo dia me oferece a oportunidade de cuidar de mim mesmo e valorizar as pessoas que amo. A quarentena, apesar de desafiadora, trouxe lições valiosas sobre resiliência, autocuidado e a importância de viver o presente com gratidão a Deus.
Apesar de ser duro, o isolamento também é uma oportunidade para reflexão e crescimento pessoal. É uma chance de olhar para dentro, reavaliar prioridades e descobrir novas paixões. No final das contas, é uma lembrança de que, mesmo nos momentos mais difíceis, sempre há esperança.
Quem é Álvaro Fernandes Becker?
Nasci do relacionamento entre um alemão chamado Josef e uma brasileira chamada Rosa. Meu pai era um próspero homem de negócios, dono de três fábricas em Munique, um legado herdado de meus avós paternos. Josef H. Becker não era apenas meu pai; ele era um dos homens mais inteligentes que já tive o privilégio de conhecer. Um farol de sabedoria e força, cuja inteligência era superada apenas por sua bondade.
Em 1933, quando Adolf Hitler ascendeu ao poder na Alemanha, a perspicácia e intuição de meu pai o levaram a tomar uma decisão que mudaria o curso de sua vida. Ele decidiu deixar o país, motivado pelo fato de que sua primeira esposa, Helene, era judia, embora não praticante. Como é amplamente conhecido, o Führer era um fervoroso antissemita e conseguiu disseminar seu ódio contra os judeus para uma parcela significativa da população alemã.
Era evidente que o país já não oferecia segurança para sua primeira esposa. O nazismo avançava de forma desenfreada, espalhando suas raízes e transformando o ambiente em um terreno hostil e imprevisível. Além disso, meu pai tinha uma impressão muito negativa do novo chanceler. Sentiu uma tempestade se formando no horizonte e decidiu que era hora de buscar abrigo.
Helene, no entanto, não compartilhava da mesma opinião. Ela tentou persuadir meu pai a ficar, argumentando que, como alemã, acreditava que a situação logo se estabilizaria e que as hostilidades ao povo judeu cessariam. Para ela, tudo não passava de uma narrativa política, e, uma vez que Hitler se consolidasse no poder, as coisas voltariam ao normal. Helene via a tempestade como uma chuva passageira, incapaz de prever a destruição que estava por vir.
Felizmente, meu pai não se deixou influenciar. Ele manteve-se firme em sua decisão de vender tudo e deixar o país, o que provavelmente salvou a vida de Helene. Apesar das circunstâncias adversas e do clima de incerteza, Josef conseguiu vender cerca de setenta por cento de seus bens na Alemanha. Ele transformou o que poderia ter sido o fim em um novo começo.
Quando meu pai se tornou irredutível na decisão de deixar a Alemanha, Helene teve que enfrentar uma das escolhas mais difíceis de sua vida: acompanhar o marido ou ficar com seus pais. Apesar do convite de meu pai a seu sogro e sogra para que se mudassem para o Brasil, eles alegaram que jamais abandonariam sua terra natal. Ela chorou ao se despedir deles em Munique.
Anos mais tarde, após o fim da Segunda Guerra Mundial, Helene contratou investigadores na tentativa de descobrir o paradeiro de seus pais. Eles conduziram uma investigação meticulosa e reuniram provas de que seu pai, sua mãe e sua única irmã, que era apenas uma adolescente na época, foram executados pela Schutzstaffel, a terrível "polícia" nazista. Os três foram enterrados em uma vala comum, um destino cruel que lhes foi imposto antes mesmo da criação dos campos de extermínio. A descoberta foi um golpe devastador, uma ferida que nunca cicatrizou completamente.
A notícia da execução de seus pais transformou Helene de maneira irreversível. Segundo meu pai, a luz que uma vez brilhou em seus olhos foi substituída por uma tristeza profunda que a consumia dia após dia, levando-a a uma depressão que encurtou sua vida. Cinco anos após receber a notícia fatídica e uma década após o fim da guerra, Helene sucumbiu a um ataque cardíaco aos 51 anos de idade.
Em um momento de vulnerabilidade, meu pai me confidenciou que ela foi o grande amor de sua vida. Minha mãe, apesar de seus esforços, nunca conseguiu preencher o vazio que Helene deixou em seu coração. Era como se uma parte dele tivesse partido com ela, deixando um vazio insubstituível.
Ele se casou com Helene quando tinha apenas 20 anos, e ela, 16. Eram jovens, apaixonados e cheios de sonhos para o futuro. No entanto, o destino tinha outros planos, e Helene foi tirada dele prematuramente. Desesperado para preencher o vazio deixado por Helene, buscou consolo em minha mãe, 22 anos mais nova que ele. Casaram-se em 1957, numa tentativa de curar as feridas do passado.
No ano seguinte, eu vim ao mundo. Meu pai, nascido em 1900, no alvorecer do século XX, viveu uma vida repleta de desafios. Infelizmente, ele morreu durante o sono aos 76 anos. Eu tinha apenas dezoito anos, ainda tentando entender o mundo ao meu redor.
Minha mãe, por outro lado, teve sua vida tragicamente ceifada em um acidente de automóvel na rodovia BR-101. Ela estava a caminho de visitar minha tia em Carapebus. Eu tinha 26 anos na época, e seu falecimento repentino me deixou desorientado. A dor da perda tornou-se uma companheira constante, um lembrete cruel da efemeridade da vida.
Em uma realidade alternativa, eu teria um meio-irmão alemão. Ele seria o primogênito, o primeiro a experimentar o mundo e a abrir caminho para mim. No entanto, infelizmente, ele nasceu morto, vítima de uma tragédia inimaginável.
Segundo os médicos, ele foi enforcado pelo próprio cordão umbilical, que deveria ter sido seu cordão de vida, sua conexão com a mãe, sua fonte de nutrição e crescimento. Em vez disso, tornou-se o instrumento de sua morte prematura. Uma ironia cruel do destino, uma reviravolta trágica que ninguém poderia ter previsto.
Em momentos de reflexão, imagino como seria ter um meio-irmão alemão. Qual seria o timbre de sua voz? Ele teria o mesmo sorriso que eu? Seria tão alto quanto nosso pai?
Quando meu pai tinha apenas 19 anos, foi forçado a assumir as responsabilidades de um homem além de sua idade, após uma tragédia familiar. Ele herdou as fábricas de seu pai, Hans, um homem cuja paixão por aviões era tão vasta quanto o céu azul que tanto amava. Meu avô era conhecido na cidade, não apenas como um empresário bem-sucedido, mas também como um aviador entusiasta, sempre pronto para compartilhar histórias de suas aventuras aéreas.
Em um fatídico dia, meu avô Hans decidiu fazer uma viagem aérea para a Baviera, uma região que sempre o cativou com sua beleza natural e rica história. Minha avó, fiel companheira, decidiu acompanhá-lo nessa jornada. Eles embarcaram no monomotor de Hans, uma aeronave que ele cuidava com a mesma dedicação e carinho que reservava para sua família e seu negócio.
No entanto, o que deveria ser uma viagem tranquila transformou-se em um pesadelo. O tempo mudou rapidamente, e a neve começou a cair, obscurecendo a visão de Hans. A aeronave, que até então cortava os céus com facilidade, encontrou um fim trágico ao colidir com uma montanha. A notícia do acidente foi um golpe devastador para a família, uma perda que deixou uma cicatriz que jamais se fecharia completamente.
A vida é uma tapeçaria de momentos, tecida com fios de alegria e tristeza. Cada um desses momentos nos molda, nos transforma, e nos define. E, apesar de todas as adversidades, seguimos vivendo.
Josef, apesar de sua tenra idade, possuía uma determinação e um espírito empreendedor que desafiavam as expectativas. Muitos esperavam que, sendo tão jovem, não conseguisse manter as fábricas de pé e que, eventualmente, elas acabassem fechando. No entanto, meu pai provou que essas previsões estavam erradas. Ele não apenas manteve as fábricas funcionando, mas também as fez prosperar, um testemunho de sua habilidade e perseverança.
Com o dinheiro da venda de duas fábricas e de alguns imóveis que possuía na Alemanha, meu pai fez uma jogada ousada. Ele adquiriu várias propriedades no Rio de Janeiro, uma cidade vibrante e cheia de oportunidades. Esses bens, cujos aluguéis se tornaram nossa principal fonte de sustento, incluíam galpões, lojas, sítios, casas e apartamentos espalhados por toda a cidade. Hoje, vivo dessa herança, um legado tangível do espírito empreendedor do meu pai.
Mas vocês podem estar se perguntando: por que o Rio de Janeiro? A resposta está em um dos gerentes de meu pai, um carioca que migrou para a Alemanha em 1921. Este homem era conhecido por sua competência e senso de humor. Inteligente, ele aprendeu a língua alemã muito rapidamente. Durante uma entrevista de emprego, conseguiu convencer meu pai de que sua contratação seria um ótimo negócio. E ele estava certo. Apesar de sua lábia, era extremamente profissional e, após alguns anos, chegou à gerência de uma das fábricas.
Sérgio, um homem de espírito alegre e contagiante, tinha uma maneira única de contar histórias. Falava de seu país natal com tanto amor e paixão que era impossível não se sentir atraído por suas narrativas. Ele descrevia sua cidade, o Rio de Janeiro, com um brilho nos olhos que era difícil de ignorar. Meu pai, que compartilhava com ele o amor por belos cenários, ficou fascinado pelas histórias de Sérgio e decidiu conhecer o Rio de Janeiro em 1930. Foi amor à primeira vista. Quando resolveu deixar seu país natal em 1934, não teve dúvidas de que o Rio de Janeiro seria seu novo lar.
Sérgio voltou para o Rio na mesma época em que meus pais se mudaram para a cidade. Viajaram juntos, o que fortaleceu ainda mais a amizade entre eles. Essa amizade durou anos, até que Sérgio, infelizmente, faleceu de forma súbita em sua casa de veraneio em Itaipuaçu, um distrito de Maricá. Ele caiu morto à beira da piscina, na frente de sua filha e netos, aos setenta e poucos anos de idade.
Foi graças a Sérgio que recebi o nome Álvaro. Meu pai, inicialmente, queria que eu me chamasse Hans, em homenagem ao meu avô. No entanto, Sérgio, com sua sabedoria e perspicácia, argumentou que, como eu havia nascido no Brasil, precisava de um nome brasileiro. Ele acreditava que, se eu me chamasse Hans, poderia ser motivo de piada na escola. Minha mãe concordou com Sérgio e isso foi suficiente para que meu pai aceitasse. E assim, me tornei Álvaro, um nome que carrego com orgulho até hoje.
Como filho único do casal, carrego comigo traços marcantes de ambos. De meu pai, herdei a estatura imponente. Embora não alcance seus impressionantes 1,90 m, meus 1,85 m são um reflexo próximo. Também herdei seus penetrantes olhos azuis. De minha mãe, vieram os cabelos castanhos escuros, agora grisalhos, e uma predisposição a ganhar peso. Por anos, mantive esse aspecto sob controle com dietas e exercícios rigorosos. No entanto, ao passar dos 60 anos, decidi permitir-me desfrutar a vida sem tantas restrições. Como consequência, acabei ganhando alguns quilos. Hoje, com 117 kg, meu reflexo no espelho é mais do que a imagem de um homem, é uma fusão perfeita das marcas que meus pais deixaram em mim.
Meu pai sempre exibiu um porte esbelto e uma presença que se destacava naturalmente em meio à multidão. Minha mãe, por outro lado, tinha uma estatura mediana e, após meu nascimento, começou a ganhar peso, algo que nunca alterou sua essência acolhedora e resiliente.
Ao mergulhar na história da minha família, descobri que, pelo lado materno, carrego em meu sangue as ricas heranças espanhola e indígena. Essas raízes, entrelaçadas como fios de uma trama cultural e histórica, moldam minha identidade e dão sentido àquilo que represento. Sinto um profundo orgulho dessas origens e valorizo a diversidade de histórias, tradições e culturas que as acompanham, formando uma tapeçaria única.
A vida que construí, sustentada pela renda dos meus imóveis, concedeu-me uma liberdade rara. Ao contrário da maioria dos brasileiros, nunca precisei me submeter a horários rígidos ou rotinas exaustivas de trabalho. Essa independência permitiu-me adotar um estilo de vida mais sereno, em contraste com a árdua batalha diária que muitos enfrentam. Posso despertar quando quiser, dedicar meu tempo às atividades que realmente valorizo e, acima de tudo, viver nos meus próprios critérios.
Em termos de crenças, meu pai não seguia uma religião específica, embora acreditasse em Deus. Ele tinha uma fé simples, mas profunda, que guiava suas ações e decisões. Minha mãe, por outro lado, era católica e frequentava regularmente as missas. Eu me considero cristão, embora não frequente a igreja com regularidade. No entanto, minha fé é forte e já vivenciei muitos milagres em minha vida. Oro frequentemente a Deus e a Jesus Cristo, buscando orientações, bênçãos e o perdão de meus pecados. Minha relação com a espiritualidade é uma jornada constante, e a fé em Jeová e seu filho Jesus é uma âncora que sustenta minha alma. Nos momentos de incerteza, encontro consolo em minhas orações sinceras.
Sempre tive um forte desejo de fazer a diferença na vida dos menos favorecidos. Com esse pensamento, criei um projeto social para ajudar famílias carentes em todo o Brasil. Motivado por uma profunda empatia, o projeto tem como objetivo proporcionar esperança e apoio a essas famílias. É uma maneira de retribuir à comunidade e fazer a diferença na vida daqueles que mais precisam.
A liberdade de não estar “preso” a um cargo ou emprego me permitiu explorar o mundo. Meus imóveis são geridos por várias imobiliárias, e minha instituição de caridade é administrada por Dona Mariana, uma pessoa de minha total confiança.
Essa liberdade me permitiu conhecer lugares incríveis e culturas fascinantes. Tenho memórias maravilhosas de caminhar pelas estreitas ruas de Kyoto, no Japão, com suas cerejeiras em flor, e de sentir a brisa fresca nas praias de Bali. Cada cidade que visitei tinha sua própria magia, desde a arquitetura histórica de Roma até a serenidade dos templos em Bangkok. Caminhar pelas ruas históricas de Paris, explorar as majestosas pirâmides do Egito e absorver a vibrante cultura de Nova York foram algumas das experiências que tornaram minhas viagens internacionais inesquecíveis.
Tenho fotos diante da grandiosa Acrópole em Atenas, sob o sol vibrante de South Beach em Miami e cercado pelas paisagens glaciais do Parque Nacional de Denali, no Alasca. Em Bali, registrei momentos inesquecíveis no Templo Uluwatu, e na Sibéria, enfrentei o frio intenso às margens do Lago Baikal. No Havaí, explorei o majestoso Parque Nacional dos Vulcões, e na Islândia, admirei a beleza surreal da queda d’água Gullfoss. Em Moscou, caminhei pela imponente Praça Vermelha, enquanto em Istambul contemplei a grandiosidade da Hagia Sophia. Em Buenos Aires, estive no charmoso Caminito, e na Cidade do México, me fascinei com o Museu Nacional de Antropologia, e em São Petersburgo, me encantei com o esplendor do Museu Hermitage.
No entanto, minhas aventuras mais incríveis ocorreram aqui mesmo em território nacional. Foi em solo amazônico que vivi minhas jornadas mais intensas, aquelas que testaram minha coragem e remodelaram minha visão sobre a vida. Essas jornadas, que começaram com uma busca por uma nova espécie animal, tiveram desdobramentos inesperados.
Enfrentei desafios inimagináveis, cujas consequências, marcadas por perdas irreparáveis, permanecem comigo como cicatrizes emocionais. Essa experiência me ensinou muito sobre a vida, a natureza e a resiliência humana. Como podem perceber, este é um livro de aventuras e tragédias. É uma história de vida, amor, perda e redenção. Acima de tudo, é uma história de esperança, de como, mesmo nos momentos mais sombrios, podemos encontrar a luz.
Meu Professor Particular de Biologia
Em uma bela manhã de dezembro, o sol se esgueirava entre as folhas da densa vegetação, como um artista habilidoso, pintando um mosaico de luz e sombra no chão da sede Pau-da-Fome do Parque Estadual da Pedra Branca. O ar estava fresco e limpo, carregado com o aroma doce e terroso da floresta. O canto dos pássaros e o farfalhar das folhas ao vento eram a única música que se ouvia.
O Parque Estadual da Pedra Branca é um lugar onde a natureza se revela em sua máxima exuberância. As árvores se erguiam majestosas, suas copas formando um dossel verde que filtrava a luz do sol, criando um efeito mágico. As flores silvestres salpicavam o chão com pontos de cor, e os animais, embora ocultos, deixavam sua presença conhecida através dos sons suaves que vinham da mata. Eu, um mero observador, estava prestes a ter um encontro singular.
O sujeito que capturou minha atenção era um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos que brilhavam sob a luz do sol. Seus olhos profundos e sábios pareciam ter visto mais do que a maioria das pessoas poderiam imaginar. Havia uma história por trás daqueles olhos, uma história de experiências vividas e lições aprendidas.
Ele se movia com uma destreza quase felina, cada movimento calculado e preciso. Suas mãos ágeis vasculhavam o solo coberto de folhas secas, como se estivesse lendo um livro escrito na linguagem da natureza. A cada gesto, ele revelava um pouco mais do mistério que se escondia sob aquela camada de detritos. Era como se ele estivesse desvendando os segredos da floresta, uma parte de cada vez.
A cada folha que ele afastava e a cada pedra que ele virava, a floresta parecia se abrir para ele. Era como se fosse um explorador em uma terra desconhecida, descobrindo novos mundos sob a superfície aparentemente comum do solo. E eu, um mero espectador, estava fascinado por sua habilidade e determinação.
Ele parecia estar em sintonia com a floresta, como se fosse uma extensão dela. Ele entendia seus sinais e sabia como responder a eles. Para ele, a floresta não era apenas um lugar; era um ser vivo, um amigo e um professor. E eu, observando-o, não pude deixar de sentir uma profunda admiração por esse homem, que, com sua simplicidade e sabedoria, me mostrou uma nova maneira de ver e entender a natureza.
Movido pela curiosidade, comecei a me aproximar dele, que estava tão concentrado em seu trabalho que não pareceu notar minha presença, até que eu estivesse quase ao seu lado.
Quando finalmente me viu, sua expressão foi uma mistura de surpresa e irritação. Seus olhos, antes focados no solo, agora estavam fixos em mim. Eu podia ver a surpresa em seu olhar, como se ele não esperasse ser interrompido, mas havia também um toque de exasperação, um leve franzir de sobrancelhas que revelava seu descontentamento.
Eu não podia culpá-lo; afinal, havia interrompido seu trabalho minucioso. Ele estava em um mundo próprio, imerso na tarefa de desvendar os segredos da floresta, e eu invadi esse espaço. Eu só podia esperar que ele entendesse que minha intromissão não era intencional, mas resultado de minha curiosidade insaciável.
— O senhor deseja alguma coisa? — perguntou ele, com a voz carregada de impaciência.
— Desculpe interromper, mas gosto de observar os animais — respondi.
Ele franziu o cenho, mas algo em minha sinceridade pareceu amolecer a sua atitude.
— O senhor é biólogo? — indagou, apontando para o pequeno anfíbio que segurava na palma da mão.
A luva de látex denunciava a sua dedicação à causa.
— Não, mas adoro anfíbios. Qual é o nome deste aí? — perguntei.
— É um Haddadus binotatus. Agora posso continuar com meu trabalho? — perguntou, mostrando uma certa urgência.
— Ah, agora entendi. O senhor sim, é biólogo — a ficha finalmente caiu.
— Professor de biologia — corrigiu ele.
— Olha, essa é uma profissão que eu adoraria exercer — falei com sinceridade.
— Então, por que não se formou na área? — indagou ele.
Suspirei, olhando para o horizonte e após dois segundos, respondi:
— A faculdade me prenderia no Brasil. Viajo com frequência e não há nada que me dê mais prazer. E o senhor, gosta de viajar?
— Sim, gosto. E viajaria mais se o salário de professor não fosse tão baixo neste país — respondeu ele com certa indignação na voz.
Conforme a conversa avançava, a expressão dele ia mudando. A tensão inicial cedia espaço a uma espécie de serenidade. Tirou algumas fotos da pequena rã e depois a colocou de volta ao solo com muito cuidado. Voltou a remexer as folhas, como se buscasse outros segredos escondidos. Capturou uma centopeia, duas outras rãs da mesma espécie da primeira e um terceiro anfíbio, que parecia ser uma perereca. Pegou também alguns insetos, cada um deles um fragmento de vida que ele registrava com sua câmera.
— Obrigado pela conversa. A natureza é minha verdadeira paixão. Às vezes, é preciso seguir o coração, mesmo que isso signifique não seguir o caminho financeiramente mais rendoso — disse ele, com um sorriso sereno, refletindo a honestidade de suas palavras.
Seu tom deixava claro que estava concluindo a resenha, preparando-se para dedicar toda a sua atenção ao estudo. Observei-o, enquanto se afastava. Naquele momento, percebi que a paixão pela natureza não conhece fronteiras nem limites. Ela nos leva a lugares inesperados e nos conecta a estranhos.
Fingindo não perceber que o professor desejava encerrar a conversa, continuei a segui-lo, como se sua indiferença fosse apenas um convite silencioso para minha persistência. Suas anotações meticulosas no bloco de notas que trazia no bolso da camisa, revelavam um comprometimento com os detalhes. Ele respondia pacientemente às minhas perguntas, mesmo quando minha curiosidade beirava a insistência.
— Sou muito curioso, e minha curiosidade me torna chato, às vezes — confessei, um pouco envergonhado.
Ele sorriu, um lampejo de compreensão em seus olhos.
— Não se preocupe. A curiosidade é o motor do conhecimento — refletiu ele, com um tom de incentivo que dissipou minha hesitação.
Com o desconforto do primeiro contato dissipado, fiquei mais à vontade. Ele não apenas respondia, mas também compartilhava. Seu rosto se iluminava ao falar sobre os animais que estudava.
— Meu nome é Aníbal, e, a propósito, não sou só um professor. Também sou um eterno aprendiz — disse ele, com um brilho de humildade e paixão nos olhos.
Saímos do núcleo do parque quando as sombras se alongavam e o portão estava prestes a fechar. A fome nos impelia, então encontramos abrigo em uma padaria próxima. Entre mordidas no pão e goles de café, continuamos nossa conversa.
— Em que países você já esteve, professor? — continuei o interrogatório, ainda fascinado pelas histórias que ele tinha para contar.
— Por favor, me chame pelo meu nome. Estive na Austrália, Nova Zelândia, Espanha e Rússia. Sri Lanka também. Minha paixão por estudar o reino animal me levou a lugares fascinantes — respondeu ele, listando os países.
— Ah, sim. Conheço todos esses. Dentre eles, meu preferido é a Austrália. Esteve em Sydney Harbour, Bondi Beach, Taronga Zoo, Sydney Opera House? — perguntei, entusiasmado, tentando me conectar com as histórias dele.
Aníbal negou com a cabeça.
— Não fui a passeio. Fui pesquisar. Fui conhecer o Crocodylus porosus — explicou ele, com um tom sério que refletia sua dedicação à pesquisa.
— O crocodilo australiano. O maior do mundo — comentei, demonstrando algum conhecimento em sua área de estudo.
— Perfeitamente. Nem me pergunte sobre os pontos turísticos da Rússia e etc. Não estive em nenhum deles. Fui pesquisar animais de meu interesse no habitat natural deles. Mas, é claro que não deixei de admirar a geografia dos locais por onde passei — acrescentou ele, deixando claro o foco de suas expedições.
— Pena que não passeou por lá. Um dos lugares que mais me encantou foi o Lago Baikal. Mas me diga, qual animal você foi estudar na Rússia?
Seus olhos brilharam.
— O Panthera tigris altaica, o tigre siberiano. E antes que você comente, sim, é o maior felino do mundo.
Justamente quando a conversa estava ficando interessante, fomos gentilmente convidados a sair pelos funcionários da padaria. O estabelecimento já estava para fechar, e eles precisavam preparar tudo para o próximo dia. Mas isso não foi suficiente para interromper nossa conversa. Saímos do aconchego da panificadora e continuamos nosso bate-papo do lado de fora, sob o céu estrelado. A lua brilhava.
Aníbal, com seu jeito cativante, começou a compartilhar histórias de suas expedições. Ele falou sobre as montanhas que escalou, os rios que cruzou, as florestas que explorou, tudo para colocar seus dons em prática e poder adicionar mais conhecimentos ao mundo da biologia. Cada relato era mais fascinante que o anterior, e eu me peguei atento a cada palavra, cada detalhe.
Era um dia comum quando tudo começou, dando início a uma parceria que se tornaria grande e inesquecível. Como uma semente plantada em solo fértil, nossa amizade germinou rapidamente, crescendo forte e saudável. Não demorou muito para que nossos encontros se tornassem frequentes, uma rotina agradável que ambos ansiávamos.
Compartilhávamos não apenas nossas casas, mas também experiências, histórias e sonhos. Ele, um homem divorciado, vivia sozinho, assim como eu. Seus dois filhos, já adultos, moravam com a mãe.
Quando nos encontrávamos para beber e conversar, era muito comum perdermos a noção do tempo. As horas passavam como minutos e os minutos como segundos. Foi numa dessas ocasiões que fomos ao restaurante Garota de Ipanema, conhecido por sua atmosfera acolhedora e pela excelente comida.
— Aníbal, você sabia que Tom Jobim e Vinícius de Moraes vinham aqui com frequência e que eles também “fechavam” o bar? — perguntei, animado com a história do lugar.
— Claro que sabia. Sou profundamente apaixonado pelas canções deles. MPB é arte — respondeu ele, com um sorriso nostálgico.
— Qual música deles é a sua preferida?
— Ah, é difícil escolher uma só. Mas “Garota de Ipanema” sempre me toca profundamente, e você? — Respondeu, claramente emocionado.
— Também adoro “Garota de Ipanema”. É incrível como essa música capturou a essência do Rio de Janeiro e se tornou um clássico mundial — concordei, sentindo a conexão entre a canção e a cidade.
Em uma daquelas noites em que o som vibrante do Rio de Janeiro se fundia com nossas conversas, Aníbal compartilhou sua visão sobre a arte. Para ele, a música era a mais pura forma de expressão artística, capaz de traduzir emoções invisíveis em melodias. Eu, por outro lado, defendia minha convicção de que minha arte estava nos belos cenários naturais, onde cada paisagem contava sua própria história. Essa troca de perspectivas, longe de ser um conflito de ideias, aprofundou ainda mais nossa compreensão mútua, como se, ao olharmos para mundos distintos, encontrássemos um novo ponto de conexão.
— Arte pra mim é paisagem — disse eu, refletindo sobre minha paixão.
— Você já esteve na Amazônia?
— Sim. Várias vezes.
— Onde? — continuou ele, querendo mais detalhes.
— Em Manaus, Belém, Macapá... — enumerei, mas sua próxima pergunta foi direta ao ponto.
— Você esteve na Floresta Amazônica, no meio do mato? — ele questionou com os olhos brilhando de curiosidade.
— Não. Ainda não — admiti.
— Meu amigo, o que você está esperando? Nunca tive tanta oportunidade de pesquisa a céu aberto quanto na região amazônica. Pra mim, a Amazônia é o paraíso. E creia no que vou lhe dizer... no dia em que você conhecer a Floresta Amazônica, vai ser amor à primeira vista, porque sei como você fica encantado por “wonderful places”. Como eu gostaria de ter mais recursos e infraestrutura para dar prosseguimento às minhas pesquisas naquela região.
Naquela mesma noite, já em casa, enquanto as sombras dançavam pelas paredes do meu quarto, uma inquietação se instalou em minha mente. Seria aquilo uma indireta? Uma sugestão velada para que eu financiasse suas pesquisas na região e, de quebra, aproveitasse para conhecer a misteriosa Floresta Amazônica? A curiosidade me corroía, e Aníbal, com sua paixão pelo reino animal, havia plantado uma semente de inquietação em meu coração.
Mil pensamentos se entrelaçavam, irrigados pelo álcool que pulsava em minhas veias. Um plano audacioso começou a se formar, como um rio serpenteando pela floresta, ganhando força a cada curva. Eu compraria um novo barco, equipado para enfrentar as águas imprevisíveis da Amazônia. Mantimentos e medicamentos seriam nossos aliados. A tripulação seria composta por um grupo eclético: Aníbal, o experiente biólogo; um clínico geral para cuidar de nossa saúde; um piloto credenciado para nos guiar pelas correntezas; seguranças para proteger nossos passos; uma cozinheira para nos nutrir com sabores da selva; uma faxineira para manter nosso refúgio limpo e acolhedor; um antropólogo para decifrar os mistérios culturais; um mecânico para domar as engrenagens do barco; e um auxiliar de serviços gerais para tarefas diversas.
No dia seguinte, com o coração acelerado, comuniquei meu plano a Aníbal. Ele ficou extasiado, gritando e até chorando de alegria.
— Você está falando sério? Vamos realmente para a Amazônia? — ele perguntou, a voz tremendo de excitação.
— Sim, Aníbal. Vamos fazer isso acontecer. Vamos explorar a floresta e realizar suas pesquisas — respondi, sorrindo.
A adrenalina expulsou o álcool remanescente de seu corpo, e sua expressão era uma mistura de euforia e gratidão.
— Você não faz ideia do quanto isso significa pra mim. Tenho sonhado com essa oportunidade por muito tempo — disse ele, com lágrimas nos olhos.
Eu já sabia quais profissionais seriam essenciais para nossa equipe, pois a Floresta Amazônica não é para leigos. Os riscos eram reais, e eu havia pesquisado sobre os perigos da região. Contrataríamos um guia local, e eu sabia exatamente quem seria a pessoa ideal para nos conduzir por esse mundo de maravilhas e mistérios.
Matheus, o Guia Mameluco
Em 2003, tive a oportunidade de explorar Belém, uma cidade rica em cultura e tradição. Contratei um guia chamado Matheus, cujo conhecimento sobre a região se estendia além dos pontos turísticos convencionais. Ele me conduziu por uma jornada inesquecível, revelando segredos e narrativas que só alguém criado nas entranhas da floresta amazônica poderia conhecer.
Nossos dias foram preenchidos com visitas a lugares fascinantes:
Estação das Docas: Um complexo turístico e cultural construído onde outrora funcionou o Porto de Belém. Inaugurada havia apenas três anos, oferece uma mistura de restaurantes, bares e lojas, tanto em ambientes internos quanto externos.
Mercado Ver-o-Peso: Um dos mercados públicos mais antigos do Brasil, situado às margens da Baía do Guajará. Ali, os aromas e cores da Amazônia se misturam em uma experiência sensorial única.
Forte do Presépio: Também conhecido como Forte Castelo do Senhor Santo Cristo, foi criado em 1616 e marca a fundação de Belém. Sua arquitetura e localização à beira da baía são impressionantes.
Basílica de Nazaré: Uma das únicas basílicas da Amazônia, é o ponto de chegada da imagem Peregrina durante o famoso Círio de Nazaré.
Museu Goeldi: O primeiro parque zoobotânico do país e a instituição científica mais antiga da região amazônica. Um lugar para explorar a biodiversidade e a cultura local.
Bosque Rodrigues Alves: Idealizado pelo Barão de Marajó, este jardim botânico foi inaugurado em 1883. Seus enormes exemplares de árvores e trilhas sombreadas proporcionam um refúgio tranquilo.
Parque Estadual do Utinga: Criado em 1993, é responsável por 63% do abastecimento de água da região metropolitana de Belém. Um lugar onde a natureza se desdobra em toda a sua exuberância.
Matheus, além de guia, era um apaixonado pela gastronomia local. Cada parada em mercados e restaurantes era uma verdadeira imersão nos sabores autênticos da Amazônia. Ele compartilhou comigo sua origem: filho de um político da região e de uma índia da tribo Guaraciúna. Seu pai nunca havia lhe registrado ou assumido, mas o levou ainda menino para Belém e custeou os seus estudos. Seu nome indígena permanecia um mistério, guardado com carinho nas entranhas da floresta. Somente a tribo o trata pelo nome índio. Nossas conversas foram como trilhas na selva, revelando segredos e conexões que jamais esquecerei. As fotos que tirei com ele são lembranças vivas desse encontro com a Amazônia, gravadas em minha memória para sempre.
Matheus, o guia experiente da Amazônia, era mais do que um nome. Era uma conexão profunda com a terra, com as águas e com as histórias que ecoavam pelas densas florestas. Seus olhos, escuros como a noite sem lua, guardavam segredos antigos e conhecimentos que se perdiam nas brumas do tempo.
Sua vida fora moldada pelas margens dos rios da Amazônia, pelos sons dos pássaros e pelo cheiro da terra molhada. Matheus não era apenas um guia; era um contador de histórias, um guardião das lendas que permeavam a selva.
Quando nos encontramos novamente, anos após nosso primeiro encontro, foi como se o tempo tivesse se dobrado sobre si mesmo. Matheus ainda usava suas roupas típicas de guia indígena: colares de sementes e pulseiras de palha trançada em seus pulsos. Ele tinha barba e bigode castanhos e trinta e poucos anos de idade.
Partimos juntos para o Arquipélago do Marajó. Em Salvaterra, dançamos ao som do carimbó, uma tradição que Matheus conhecia bem. Lá, conheci a luta marajoara, celebrando a vida e a natureza. Nas margens das praias desertas de água doce, senti a energia da terra e do rio se entrelaçando. O município de Salvaterra nos presenteou com essas praias de areia fina, onde as árvores se inclinavam para beijar a água dos rios.
Mas foi em Portel e Melgaço que Matheus revelou seus segredos mais profundos. Ele me levou até os ribeirinhos, onde as casas de palafita se erguiam sobre as águas. Conversamos com os moradores, compartilhamos histórias ao redor da fogueira e comemos tacacá, uma iguaria amazônica.
Portel me recebeu com suas feiras coloridas, onde artesanatos e delícias locais se misturam. Fiz compras, tomei banho de rio e pesquei, sentindo-me parte da comunidade ribeirinha. Em Melgaço, os sabores exóticos me desafiaram: o vatapá, o pato no tucupi e a maniçoba. O açaí com farinha, por outro lado, não conquistou meu paladar, mas fazia parte da experiência.
Claro que telefonei para ele com a intenção de que fosse nosso guia na aventura que se seguiria. Ele concordou, desde que, antes de mais nada, passássemos na aldeia em que nasceu para avisar sua mãe sobre a recente morte de seu pai. Aceitei a condição.
Série · Livro 2
Aventura na Amazônia
Trágica Aventura na Amazônia 2 — A Nova Expedição
Após os eventos da primeira expedição, Álvaro e sua equipe retornam à implacável Amazônia em busca de respostas e redenção. A jornada os leva a uma cidade perdida repleta de enigmas, onde enfrentam traições internas, criaturas desconhecidas e as forças implacáveis da natureza — enquanto cada descoberta testa os laços entre os membros do grupo.
Os anos se passaram como um rio tranquilo, seguindo seu curso. Cada dia trouxe novos desafios, aprendizados e momentos que moldaram minha jornada.
Durante esse tempo, mantive meus compromissos com Silvana e Patrícia, honrando a promessa que fiz a elas. Para garantir que minhas obrigações fossem cumpridas, optei por formalizar tudo em cartório, uma decisão que me parecia essencial.
Era uma maneira de assegurar que tudo fosse feito com justiça e total transparência, sem deixar margem para dúvidas ou imprevistos.
Essa escolha trouxe-me tranquilidade, pois sabia que, independentemente dos caminhos que o destino nos reservasse, elas estariam protegidas.
Afinal, depois de tudo que passaram, o mínimo que eu poderia fazer era oferecer-lhes estabilidade, garantindo que não precisassem mais temer o futuro.
Foi uma sensação reconfortante, saber que eu podia proporcionar a elas um pouco da segurança que tanto mereciam. Ao assinar os papéis e ver as cláusulas devidamente registradas, um peso saiu dos meus ombros. Pela primeira vez em anos, senti que havia feito algo concreto para reparar parte do passado recente.
Um dos momentos mais gratificantes que tive após nossa aventura infeliz, foi a visita inesperada de Marcela, a filha de Aníbal. Ela me procurou na minha cobertura, um ano após meu encontro desagradável com seu irmão em Jacarepaguá. Sua visita foi uma surpresa, mas uma surpresa bem-vinda.
— Olá, Marcela! Que bom vê-la — cumprimentei, abrindo a porta e convidando-a a entrar.
— Obrigada. Eu precisava falar com você pessoalmente — respondeu ela, com um tom de voz que misturava apreensão e determinação.
Marcela pediu desculpas pelo comportamento de seu irmão, na ocasião já mencionada, e me assegurou que não tive culpa na morte de seu pai. Segundo ela, Aníbal havia cometido um erro de principiante, algo que descreveu como típico de um estagiário.
— Eu sei que meu irmão foi muito duro com você. Ele estava fora de si. Queríamos culpar alguém — explicou ela, com um olhar que pedia compreensão.
— Entendo, Marcela. Foi uma situação difícil pra todos nós — respondi, tentando aliviar o clima.
Enquanto ela falava, percebi que seu semblante era de alívio. Chegou em meu apartamento com um peso nos ombros e, ao me contar tudo aquilo, estava finalmente se libertando. Eu, por minha vez, fui tomado por uma onda avassaladora de felicidade ao ouvir aquelas palavras. Era como se, por um instante, todo o peso das incertezas desaparecesse. Era um ciclo de dor que se encerrava.
Em seguida, ela me fez um pedido. Marcela estava seguindo os passos do pai e havia se formado em biologia. Ela tinha grandes planos para sua carreira e queria se destacar em sua profissão. Para isso, pediu-me as anotações de Aníbal.
— Você teria os registros de meu pai? Eles seriam de imensa ajuda pra mim — perguntou, com um brilho de esperança nos olhos.
Entreguei a ela todos os blocos dele que estavam em meu poder.
— Aqui estão. Espero que possam ajudá-la a continuar o legado dele.
— Muito obrigada. Isso significa muito pra mim — agradeceu ela, segurando os rascunhos como se fossem tesouros.
Ao vê-la segurando aqueles blocos de anotações, percebi como a biologia, para ela, não era apenas um ofício, mas sim um caminho para manter viva a memória do pai. Ela folheava algumas páginas com cuidado, como se cada observação ali, fosse uma ponte para um tempo que não poderia ser recuperado. Era um gesto simbólico e poderoso.
Desde então, Marcela e eu mantivemos contato regularmente pelo WhatsApp. Nossas conversas eram frequentes e cheias de trocas de ideias e experiências. Foi uma conexão inesperada que valorizo muito. Ela me contava sobre suas pesquisas, suas descobertas e seus planos para o futuro. Eu, por minha vez, compartilhava histórias de minhas viagens e aventuras ao redor do mundo. Era uma troca que nos enriquecia mutuamente.
Mantive contato constante também com João e Jair. O que começou como um encontro ocasional na floresta, se transformou em uma amizade sólida e duradoura. Eles se tornaram mais do que apenas colegas, se tornaram bons amigos. Nossas conversas se estendiam por horas, abrangendo uma variedade de tópicos, desde trabalho até hobbies e interesses pessoais. Me contavam sobre suas vidas no Rio de Janeiro, as dificuldades de se adaptar à cidade grande e a saudade que sentiam da Amazônia.
Percebi que, apesar de agora viverem no Rio, nunca abandonaram suas raízes. Falavam da floresta com um brilho nostálgico no olhar, como quem sente falta de algo essencial. Eles traziam consigo a selva em cada gesto, em cada lembrança. Era fascinante observar como a conexão deles com a terra natal jamais se enfraquecia. Cada vez que falavam de suas infâncias, das histórias passadas entre as árvores e rios, eu sentia que a Amazônia não era apenas um lugar para eles. Era um lar, um pedaço de identidade que jamais seria apagado.
Com o tempo, João e Jair começaram a frequentar minha casa. Eles se tornaram convidados regulares, sempre bem-vindos para compartilhar piscina e bebidas, ou simplesmente para passar um tempo junto comigo. Nossas reuniões eram cheias de risadas e boas histórias, criando memórias que valorizo até hoje.
Durante esses encontros, era comum que falássemos sobre o futuro. Eles me perguntavam se eu pretendia voltar à Amazônia algum dia, e eu, por muito tempo, evitava responder diretamente. O medo de revisitar aquele capítulo da minha vida ainda era real. Mas, aos poucos, a ideia começou a amadurecer dentro de mim.
Em um dos churrascos de domingo que eu costumava organizar, especificamente em janeiro de 2015, João e Jair me abordaram com um pedido especial.
— A gente queria pedir uma coisa, mas se não puder, tudo bem — começou João, com um olhar sério.
— Claro, podem falar. O que está acontecendo?
— Queremos visitar nossa mãe. Faz anos que não vemos ela. Se o senhor tiver planos de voltar lá, a gente poderia ir juntos? — completou Jair.
Eles me disseram, com uma certa nostalgia em seus olhos, que desde que se mudaram para o Rio de Janeiro, só conseguiram ir à casa dela duas vezes. A distância e as demandas da vida na cidade grande tornaram as visitas à sua cidade natal um luxo raro.
— Entendo perfeitamente. A família é muito importante. Se eu tiver a oportunidade de voltar à Amazônia, farei o possível para levá-los comigo — prometi.
Eu estava mais do que disposto a ajudá-los a reatar esses laços preciosos. Afinal, família é um dos maiores pilares que sustentam nossa jornada, e a ideia de contribuir para esse reencontro me enchia de satisfação.
E assim, em meio à fumaça do churrasco e ao som de risadas, selamos nosso acordo com um brinde à família, à amizade e às aventuras futuras. Só que não havia previsão de data para eu ir a região amazônica.
Com um sorriso no rosto, compartilhei com João e Jair que eu tinha feito contato com a prefeitura de Melgaço, e que estava negociando para dar a uma rua na cidade, o nome completo de meu amigo biólogo.
— Vocês sabiam que estou tentando nomear uma rua no Arquipélago do Marajó em homenagem ao Aníbal?
— Ixe! Que coisa bonita, meu Deus! — exclamou Jair.
— Seria uma ótima maneira de honrar a memória dele — adicionou João, com um sorriso de aprovação.
— Eu disse ao secretário que, assim que pudesse ir, avisaria — expliquei, sentindo uma onda de responsabilidade em minhas palavras.
Eu sabia que a viagem seria longa e exigiria algum planejamento, mas estava disposto a fazer qualquer esforço que fosse necessário. Afinal, era uma causa que valia muito à pena.
João e Jair pareceram animados com a notícia. Eles sabiam o quanto Aníbal significava para mim, e a ideia de homenageá-lo dessa maneira parecia tocá-los.
— Que tal o senhor ir no mês que vem? Fevereiro a gente tá de folga, podia ir junto.— sugeriu João, com um olhar esperançoso.
— Vou pensar com carinho e te falo, ok? — respondi, ponderando a possiblidade.
Naquela noite, enquanto me deitava na cama, as palavras de João ecoavam em minha mente. A perspectiva da viagem trouxe à tona memórias que eu havia guardado cuidadosamente em um cantinho do meu ser. A Amazônia não era apenas um destino; era um capítulo inacabado da minha vida.
Eu tinha adiado essa viagem por muito tempo, temendo o que poderia acontecer, caso eu voltasse. A última expedição tinha sido trágica, marcada por momentos terríveis que ainda me assombravam. Eu não sabia como reagiria ao reviver esses momentos, ao confrontar os fantasmas do passado.
Mas agora, com a possibilidade de uma nova viagem se aproximando, eu sabia que teria de enfrentar meus medos. Teria de confrontar as memórias dolorosas que eu tanto evitava.
Enquanto a noite avançava, eu me encontrava em uma batalha interna. Por um lado, eu estava ansioso pela viagem, pela chance de homenagear Aníbal e de ajudar João e Jair a rever Dona Mila. Por outro lado, eu temia o que essa viagem poderia desencadear dentro de mim. As memórias da última expedição ainda estavam frescas em minha mente, e o medo de reviver aqueles momentos terríveis era real. Mas eu sabia que tinha que fazer isso. Por Aníbal.
Respirei fundo, sentindo o peso da decisão se instalar sobre meus ombros. Era hora de agir.
Decidi quebrar o protocolo mais uma vez, pegando o telefone e discando diretamente para Rogério e Bernardo. Eu sabia que era uma medida incomum, mas senti que a situação justificava.
— Bernardo, estou organizando outra viagem à região amazônica. Desta vez não será uma expedição. Será coisa mais simples e rápida. Gostaria de saber se você pode ir conosco.
— Gostaria muito, mas estou com alguns trabalhos esporádicos, e não posso abandonar essa “boquinha” agora — respondeu ele.
Já Rogério, sem hesitar, aceitou o convite.
— Pode contar comigo, estou dentro! — disse ele, animado.
Felipe, o segurança que eu tinha tentado levar na primeira expedição, mas que não pôde ir, desta vez mostrou interesse.
— Preciso de dinheiro urgente, para pagar a pensão das minhas filhas. Estou desempregado e esta viagem seria uma boa oportunidade pra mim.
— Ótimo, Felipe. Será um prazer tê-lo conosco desta vez.
Assim, ficou decidido. Teríamos Rogério e Felipe para garantir a segurança da equipe. Eu sentia que, com eles a bordo, estaríamos bem preparados para enfrentar qualquer desafio que a Amazônia pudesse nos apresentar.
Não teríamos Estevão como nosso médico a bordo desta vez. Ele foi firme em sua decisão e tentou me dissuadir de ir, apontando os riscos inerentes, mesmo sendo uma viagem breve. No entanto, ao perceber minha determinação inabalável, sugeriu uma alternativa.
Ele me indicou a Drª Aleida, uma ex-sócia de seu consultório. Eu já a conhecia de vista. Ela é uma clínica geral paulista, uma profissional competente e dedicada. Tem a mesma idade que eu e uma vasta experiência na área da medicina.
— Ela é muito boa no que faz. Vou passar o telefone pra ela — disse o Dr. Aluísio Estevão.
A médica me cobrou uma fortuna, mas não chiei, dadas as circunstâncias.
— Vai custar caro, mas vou garantir que receba o melhor tratamento possível. Pode contar comigo — disse Drª Aleida.
Matheus seria nosso guia novamente. Eu deveria pegar ele e Thiago na aldeia. O primo dele seria o auxiliar de serviços gerais. Como parte de seu pagamento, ele fez um pedido especial. Queria que eu levasse sementes de hortaliças para a tribo.
— Sr. Álvaro, podia trazer umas sementes de hortaliça? Abobrinha, couve-flor, berinjela... por aqui não se acha isso não. A gente plantaria na nossa roça — pediu Thiago.
— Claro. Farei questão de levar as sementes para você — respondi, contente em poder ajudar.
Xavier encontrava-se fora do país. Horácio, com sua experiência e habilidade, mais uma vez assumiria o comando do iate. Sua presença no leme nos dava confiança, sabendo que estávamos em mãos seguras.
Leonardo, que antes trabalhava com o pai, agora estava bem empregado e comprometido com seu novo emprego. Ele havia se tornado um profissional respeitado em seu campo. Embora não pudesse se juntar a nós desta vez, sabíamos que ele estaria torcendo pelo nosso sucesso.
O Leviatã II, nosso confiável iate, estava programado para partir em 3 de fevereiro de 2015, uma terça-feira. A viagem seria realizada próximo à costa, com poucas paradas. As poucas vezes que desembarcaríamos, seria para reabastecer o barco ou comprar suprimentos essenciais.
Eu estava com pressa. Havia um senso de urgência que permeava todos os aspectos da viagem. Todo o trajeto, desde a partida até o retorno, deveria ser feito em menos de um mês. Jair e João, que estariam conosco na viagem, precisavam voltar ao trabalho em março. Portanto, era crucial que mantivéssemos nosso cronograma.
Mas, em meio aos preparativos para a nova expedição, algo inesperado mudou drasticamente os termos da viagem. Um e-mail, curto e enigmático, apareceu na minha caixa de entrada. O remetente? “Mabecoman”.
“Isso deve ser uma piada”, pensei, ao ler o e-mail pela primeira vez. No entanto, os textos subsequentes que recebi desse indivíduo misterioso, me deixaram perplexo. Ele alegava ter capturado um crocodilo na Amazônia. Ele também forneceu detalhes específicos sobre as características do réptil, demonstrando um conhecimento profundo.
— Se isso for verdade, estamos mais perto do que nunca do “mabeco” — murmurei, intrigado.
A próxima mensagem de “Mabecoman” foi ainda mais surpreendente. Ele disse ter conhecimento sobre a expedição infrutífera que eu havia realizado na Amazônia em 2008. Ele sabia que a missão era capturar e catalogar o raro e esquivo crocodilo denominado “mabeco”.
“Cinco milhões de reais e o réptil será seu. Você pode fazer o que bem entender com ele”, dizia a mensagem.
Essa proposta, embora tentadora, também levantava uma série de questões éticas e práticas. A compra e venda de animais selvagens é estritamente regulamentada por lei, e eu teria que considerar cuidadosamente as implicações de tal ação.
Respondi ao “Mabecoman”, expressando meu interesse em negociar, mas com uma condição: eu precisava de uma prova concreta, para validar suas alegações. Para minha surpresa, ele não demorou a responder.
Sem hesitação, o homem me enviou uma filmagem do “mabeco”. O vídeo mostrava o réptil aprisionado em uma grade de metal, rente a um lago.
— Não acredito... é realmente um “mabeco”! — exclamei em voz alta, enquanto assistia ao vídeo.
Sem perder tempo, encaminhei a filmagem para Marcela, a filha de Aníbal. Ela, sendo bióloga e tendo as anotações de seu pai sobre o “mabeco”, seria capaz de confirmar se o réptil no vídeo era realmente a espécie que estávamos procurando. A resposta dela foi surpreendente.
— É ele! Com cem por cento de certeza, esse é o “mabeco” — disse ela, animada.
Mas Marcela não parou por aí. Ela me intimou a levá-la na nova expedição.
— Eu quero ir junto. Quero continuar o trabalho do meu pai e contribuir para a pesquisa sobre o “mabeco” — pediu ela.
Com a confirmação de Marcela e a proposta do “Mabecoman”, eu sabia que precisava de aconselhamento jurídico. Liguei imediatamente para Roberto, meu advogado de confiança.
— Roberto, estou com uma situação delicada, aqui. Preciso saber se o que estou planejando é legal — expliquei.
Em seguida, contei-lhe tudo.
É legal, sim, já que você não pretende causar nenhum dano ao animal. Em termos jurídicos, não há nada que te proíba de pagar para ter acesso ao crocodilo, na intenção de levá-lo às vistas da comunidade científica. É inclusive louvável, sua intenção — respondeu Roberto.
— Quero você comigo, nisso. Precisarei do seu respaldo — continuei.
— É um convite de passeio ou de trabalho? — Brincou Roberto, rindo.
— Trabalho, é claro. Seu ganancioso — respondi, rindo também.
— Estou dentro. Quando partimos?
— No dia 3 de fevereiro — informei, confirmando a data.
— É para ir à caráter, ou coloco minha fantasia de Carnaval? — Brincou Roberto novamente, arrancando risos.
— Engraçadinho! Voltamos a nos falar em breve — finalizei a conversa.
Desliguei a ligação, mas logo tornei a usar o telefone celular, desta vez discando o número de Carlos, meu amigo e sócio da empreiteira onde trabalhavam João e Jair. Ele atendeu.
— Fala, Álvaro. O que você manda? — disse ele, sempre direto.
— Me diga sem rodeios, alguma possibilidade de você liberar João e Jair do trabalho por alguns meses? — perguntei, indo direto ao ponto.
— Liberar? Complicado. Eu tenho sócios. Mas posso demitir os dois e voltar a empregar quando for o caso — disse Carlos, ponderando a situação.
— Tem certeza? Não te acarretaria problemas? — questionei, preocupado.
— Problema nenhum. Certeza absoluta — garantiu ele, sem hesitar.
— Te amo, cara. Vou consultar eles pra ver se concordam e volto a entrar em contato com você.
— Mas espera aí... não me deixe curioso. Qual o motivo disso? — perguntou ele, intrigado.
— Vou precisar deles trabalhando pra mim por algum tempo — disse a ele, sem dar muitos detalhes.
— Em que função? — indagou Carlos, tentando entender melhor.
— Qualquer uma. Tenho outra expedição programada para a Amazônia — revelei, tentando soar casual.
— Você enlouqueceu? — perguntou ele, incrédulo.
— Grande abraço.
Segundos depois, tornei a pegar meu celular e disquei o número de João. Tivemos uma conversa rápida, mas eficaz, e ele concordou prontamente com as novas condições. Senti alívio ao saber que ele e o irmão estariam a bordo.
Repeti o procedimento com cada um dos integrantes da nova expedição. Cada ligação foi breve e direta, com todos aceitando as novas condições. Marquei uma rápida reunião presencial para o dia seguinte com os integrantes que estavam no Rio de Janeiro, onde passaria mais detalhes e esclareceria qualquer dúvida.
Conforme combinado, reuni todos na minha sala de estar. O ambiente estava carregado de expectativa. Expliquei a todos que os planos haviam mudado. Nosso destino agora seria o Lago Surará, no estado do Amazonas. Devido à natureza imprevisível de nossa missão, avisei que a expedição provavelmente se estenderia por mais de um mês, contrariando o que havíamos combinado anteriormente.
— Quem quiser desistir, essa é a hora. Os planos mudaram e a expedição será mais longa do que prevíamos — disse a todos, olhando nos olhos de cada um.
Houve um momento de silêncio. Todos se entreolharam, processando a nova informação. Era uma mudança significativa e eu sabia que poderia ser difícil para alguns se comprometerem por um período mais longo.
— Estou dentro, Álvaro. Sabia que seria desafiador desde o início. Vou até o fim. Mas vai te custar mais caro — afirmou Aleida, com convicção.
— Nós também estamos comprometidos. Imprevistos fazem parte do nosso trabalho — disse Rogério, provocando um aceno de cabeça de Felipe, em concordância.
Para minha satisfação, ninguém desistiu. Todos estavam comprometidos com a missão e prontos para enfrentar os desafios que viriam pela frente.
Montando a Equipe
Quando os termos da nossa viagem mudaram, Matheus, sempre calmo e ponderado, fez apenas uma exigência. Ele queria que, além de Thiago, eu desse trabalho também a um amigo seu.
— Preciso que você considere levar mais uma pessoa na equipe. Meu amigo Marcos seria uma grande adição. Ele mora em Salvaterra — disse Matheus, com um tom de voz que pedia confiança.
— Conte-me mais sobre ele, Matheus. O que o torna tão especial? — perguntei, curioso.
Marcos era membro da Comunidade Quilombola Jesus Salvador, uma comunidade vibrante e unida que preserva orgulhosamente suas tradições e cultura. Ele era conhecido por sua dedicação ao trabalho e seu profundo respeito pela natureza, qualidades que o tornavam um excelente candidato para se juntar à nossa equipe.
— Marcos é muito prestativo e esforçado. Está sempre disposto a ajudar. Tenho certeza de que ele contribuirá muito para nossa expedição — explicou Matheus.
A ideia era que Marcos e Thiago dividissem as tarefas como auxiliares de serviços gerais. Eles seriam responsáveis por uma variedade de tarefas. Sua presença não só aliviaria o fardo de Thiago, mas também traria uma nova perspectiva e energia para a equipe.
Depois de considerar a proposta de Matheus, concordei.
— Confio em seu julgamento. Vamos embarcar seu amigo — disse, decididamente.
Horácio já havia me indicado um substituto para o seu filho. O nome dele é Arthur. Assim como Leonardo, Arthur não era apenas um bom mecânico, mas também um piloto habilidoso. A primeira vez que encontrei-o, foi na casa de Horácio, onde fiz uma breve entrevista com o mecânico.
— Arthur, conte-me sobre suas experiências e habilidades — pedi, observando-o atentamente.
Ele falou com convicção sobre suas habilidades e experiências. Havia uma certa arrogância em sua voz, mas não era o tipo de arrogância que vem da ignorância. Era a prepotência de alguém que sabe do que é capaz.
— Sou muito bom no que faço. Já lidei com várias situações complicadas e sempre encontrei soluções rápidas e eficientes — disse Arthur, confiante.
Apesar de não ter gostado da postura dele, decidi fechar com Arthur. A razão para minha decisão foi simples: Horácio tinha plena confiança nele. Nosso capitão é um homem que conhece pessoas e máquinas.
— Se Horácio confia em você, então também confio. Bem-vindo à equipe, Arthur — finalizei, apertando sua mão.
Desta vez, decidi que não iria mais depender de um fotógrafo/cinegrafista amador. Era hora de elevar o nível da equipe e trazer profissionais especializados para cada segmento. Com essa decisão em mente, comecei a busca pelos melhores talentos disponíveis.
O primeiro a ser contratado foi o fotógrafo. Seu nome é Fábio, um jovem de 28 anos, com uma aparência um tanto nerd. É um verdadeiro mestre da luz e da sombra, capaz de transformar uma cena comum em uma imagem deslumbrante.
— Fábio, ouvi falar muito bem de você. Precisamos de suas habilidades para capturar esta expedição. Está interessado? — perguntei, observando sua reação.
— Claro! Será uma honra fazer parte dessa aventura — respondeu ele, empolgado.
Já para a filmagem, escolhi Fernando, um experiente profissional de 52 anos, com décadas de experiência no campo, inclusive, já tendo passado por algumas emissoras de TV. Fernando era famoso por sua habilidade de capturar momentos e emoções com sua câmera e por sua dedicação em transformar cada cena em uma obra de arte visual.
— Fernando, precisamos de alguém com sua experiência para documentar nossa jornada. Aceita o desafio? — perguntei, esperando uma resposta positiva.
— Com certeza. Adoro um bom desafio, e esta expedição promete ser inesquecível — respondeu ele, com um sorriso confiante.
Com a equipe formada, estávamos prontos para partir em nossa nova aventura. É claro que eu pretendia chamar Erasmo para fazer parte desta nova expedição. Eu já tinha planos de convidá-lo, mas ele se antecipou. Apareceu na minha cobertura e praticamente me intimou a levá-lo. Com seu jeito direto e decidido, deixou claro que não aceitaria ser deixado de fora desta vez.
Erasmo, como muitos já sabem, é um botânico. Sua paixão por plantas e sua habilidade em identificar e catalogar espécies raras são inigualáveis. Ele seria uma adição valiosa à equipe, trazendo seu conhecimento e experiência.
Mas Erasmo não veio sozinho. Ele me apresentou Renata, uma chef de cozinha de 33 anos. Renata foi empregada doméstica de Erasmo, e, segundo ele, cozinhava como ninguém. Ela tinha um talento especial para transformar ingredientes simples em pratos deliciosos e nutritivos. Sua habilidade seria essencial para manter a equipe bem alimentada durante a viagem.
Ficou determinado que João e Jair ficariam na faxina. Mas agora, a grande surpresa... na véspera do dia do embarque, recebi uma ligação. O bina do meu celular mostrava com clareza que era Silvana quem me ligava. Atendi com satisfação. É sempre muito bom falar com ela.
— Boa tarde, Silvana. Posso te ajudar em alguma coisa?
— Boa tarde, Sr. Álvaro. Pode me ajudar sim, com certeza — respondeu ela, com sua habitual simpatia.
— Então diga, para eu já ir providenciando.
— Quero que o senhor aceite uma turista nessa sua nova expedição — disse ela, despertando a minha curiosidade.
— Sério? Quem seria? — inquiri, intrigado.
— Minha irmã — respondeu, prontamente.
— Silmara? Ela quer matar a saudade da Amazônia?
— Não se faça de ingênuo, Sr. Álvaro. O senhor sabe que o motivo é outro. É para ficar de olho no meu marido.
Silvana sabia que, em uma expedição como essa, oportunidades para deslizes não faltariam. Ela não queria correr riscos, e sua irmã era a pessoa perfeita para vigiar Rogério.
Dei uma gargalhada e aceitei receber Silmara em mais esta viagem. Há bem poucas coisas que eu negaria a Silvana. Tudo acertado, desliguei o telefone.
Vocês devem estar curiosos, imaginando quem seria o esposo de Silvana, embarcando nesta aventura. Permitam-me contar uma história... sem que ninguém soubesse, ou pelo menos eu, que jamais havia desconfiado, Silvana e Rogério mantiveram um relacionamento às escondidas durante nossa expedição anterior. Esse “namoro” seguiu firme após o término da expedição, quando o segurança finalmente pôde se reencontrar com ela.
Longe dos holofotes, os dois continuaram se encontrando discretamente, até o nascimento de uma princesinha linda, chamada Laura. Quando a menina veio ao mundo, Rogério tomou duas decisões importantes: assumir o relacionamento e oficializar a união com Silvana.
Mas Silvana, ciumenta assumida, não ia deixar o marido livre, leve e solto na viagem. Silmara ficaria de olho no cunhado, enquanto a irmã tocava o salão de beleza.
Veja a equipe formada:
Álvaro (57 anos) – Empresário;
Roberto (45 anos) – Advogado;
Aleida (43 anos) – Médica;
Marcela (38 anos) – Bióloga;
Erasmo (54 anos) – Botânico;
Matheus (48 anos) – Guia de Turismo;
Rogério (42 anos) – Segurança;
Felipe (39 anos) – Segurança;
Horácio (47 anos) – Barqueiro;
Arthur (60 anos) – Mecânico;
Silmara (35 anos) – Observadora;
Thiago (31 anos) - Auxiliar de Serviços Gerais;
Marcos (25 anos) - Auxiliar de Serviços Gerais;
Renata (33 anos) – Cozinheira;
João (35 anos) – Faxineiro;
Jair (34 anos) – Faxineiro;
Fernando (52 anos) – Cinegrafista;
Fábio (28 anos) – Fotógrafo;
Ainda bem que, três anos atrás, o iate havia sido devidamente adaptado para acomodar um número maior de participantes, já prevendo que algo assim ocorreria.
Finalmente, o dia tão aguardado chegou, trazendo consigo uma mistura de ansiedade e expectativa. O sol já estava alto no céu quando cheguei à Marina da Glória, por volta das 11 horas. O local estava agitado, com a energia palpável da aventura iminente.
Ao meu redor, a tripulação reunida estava ocupada com os preparativos finais. Quase todos os convocados, desde os veteranos experientes até os novatos ansiosos, estavam lá, todos verificando seus equipamentos, repassando os planos e se preparando mentalmente para a jornada que estava prestes a começar.
— Essa expedição vai ser épica — disse Rogério, animado.
— Tomara que sim, mas espero que a gente não tenha nenhuma surpresa desagradável, como as que você contou da viagem anterior — respondeu Felipe, olhando para Rogério, que acenou concordando.
Uma ausência notável era Erasmo. Justo ele, que desde a expedição anterior, não perdia uma oportunidade de me intimar a levá-lo. Era curioso, para dizer o mínimo, que ele não estivesse ali. O botânico, sempre tão ansioso e entusiasmado, era o único que ainda não havia chegado. Mas eu sabia que ele não perderia isso por nada neste mundo.
No exato momento em que eu ia pegar meu celular para ligar para ele, uma figura familiar apareceu à distância. Era Erasmo, correndo em nossa direção, com um olhar de constrangimento no rosto.
— Finalmente! Estava começando a achar que você tinha desistido! — exclamei, apertando sua mão.
— Desistir? Jamais! Foi só um pequeno contratempo — disse ele ofegante, pedindo mil desculpas pelo atraso, explicando que um imprevisto o havia retido.
Enquanto se desculpava, olhei para o grupo reunido diante do iate. Eles já haviam tido a oportunidade de se conhecer e se apresentar uns aos outros, antes da minha chegada. Agora, só faltava apresentar o botânico.
Sem perder tempo, fiz as apresentações, destacando sua experiência e conhecimento sobre a flora. Todos acenaram com a cabeça ou cumprimentaram Erasmo com um aperto de mão.
No entanto, houve algumas exceções. Rogério e Silmara, que já haviam tido um breve contato com Erasmo na minha cobertura, na véspera da excursão original, apenas acenaram para ele com um sorriso reconhecível. E claro, Renata, que já havia trabalhado para ele.
Com um sorriso no rosto, me aproximei de Roberto. Ele estava parado perto do iate, olhando para o horizonte com uma expressão pensativa, mas ao perceber que eu estava rindo, se virou e me olhou com uma expressão de confusão.
— O que foi? Qual a graça? — ele perguntou, franzindo a testa em perplexidade.
— Sempre que vejo de bermuda, me dá uma crise de riso — então sorri novamente, apontando para suas pernas.
Roberto olhou para baixo, como se só agora percebesse o motivo de minha chacota, então deu de ombros e riu junto comigo.
— Esses seus caniços são uma graça — falei, ainda sorrindo.
— Suas pernas não são tão mais grossas que as minhas — replicou ele.
Fábio, nosso fotógrafo, tinha um olho para momentos especiais. Antes de embarcarmos, sugeriu que tirássemos uma foto do grupo em frente ao iate. Com um sorriso no rosto, ajustou sua câmera, ativou o temporizador e correu para se juntar a nós.
Ali estávamos, a tripulação do Leviatã II, alinhados em frente ao nosso navio, prontos para embarcar na aventura de nossas vidas. O sol brilhava sobre nós, lançando uma luz dourada sobre a cena. Todos estavam sorrindo, ansiosos e animados com a jornada que estava prestes a começar.
E então, o clique da câmera soou, capturando aquele momento perfeito. Quando Fábio nos mostrou a foto, ficamos todos impressionados. Era espetacular, mostrando perfeitamente a emoção e a antecipação que todos sentíamos.
Mas quem mais se destacou foi Arthur. Ele, que normalmente mantinha uma expressão carrancuda, também estava sorrindo. Foi uma visão surpreendente e tocante. Aquela seria a primeira e última vez que eu o veria mostrar um sorriso.
A foto se tornou uma lembrança preciosa, um lembrete da alegria e da esperança que sentíamos antes de embarcar em nossa jornada. E mesmo com os desafios que enfrentaríamos mais tarde, aquele momento de felicidade compartilhada permaneceria conosco, um farol de luz em meio à tempestade.
— Vamos lá, pessoal. Todo mundo pra dentro do barco — convoquei.
Horácio, com sua postura de capitão da embarcação, foi o primeiro a subir a bordo do Leviatã II. Com uma mão firme e um sorriso encorajador, ele auxiliou cada membro da expedição a embarcar no iate. Sua presença era uma fonte de conforto e segurança para todos, especialmente para aqueles que estavam embarcando em uma expedição pela primeira vez. Havia algo em Horácio que transmitia confiança, como se nada pudesse dar errado sob sua liderança. Seu olhar experiente varria o convés, certificando-se de que tudo estava em ordem.
Enquanto isso, João e Jair, nossos incansáveis trabalhadores, já haviam cuidado de todos os preparativos. Desde cedo, eles haviam carregado todos os pertences da equipe para dentro do iate. Cada item, desde o equipamento de pesquisa até as roupas pessoais, foi cuidadosamente guardado em seus devidos lugares.
— Irmão, botou as malas no lugar certo? Aquele monte de etiqueta não confundiu não? — perguntou João a Jair.
— Já tá tudo certo — respondeu Jair, concentrado no que estava fazendo.
Mas não foram apenas dos pertences pessoais, que João e Jair cuidaram. Eles também haviam feito as compras de mercado e hortifrúti. Cada alimento, desde as frutas frescas até os grãos e carnes, foi selecionado com cuidado para garantir que tivéssemos uma alimentação saudável e nutritiva durante a viagem.
Com todos a bordo e os preparativos concluídos, o Leviatã II estava pronto para zarpar. A antecipação era palpável enquanto nos preparávamos para iniciar nossa jornada em busca do lendário crocodilo da Amazônia.
Navegamos ao redor da Ponta da Glória, e logo estávamos de frente para uma das vistas mais icônicas do mundo: o Pão de Açúcar. A majestosa montanha se erguia diante de nós, um lembrete impressionante da beleza natural do Brasil. Minutos depois, passamos pelo litoral de Maricá, com suas praias douradas e águas azuis.
Aproveitei a oportunidade para me aproximar de Silmara. Ela estava de pé na borda do iate, olhando para o horizonte com uma expressão pensativa.
— Como está minha afilhada? — perguntei, referindo-me à pequena Laura.
— Ela vai bem. Sempre pergunta pelo senhor — respondeu Silmara, com um sorriso carinhoso.
— Ela é minha princesinha — eu disse, pensando em Laurinha com carinho.
— Nossa princesa — corrigiu Silmara, enfatizando nosso vínculo compartilhado com a menina.
A conversa então mudou de direção.
— Então você é a guarda-costas de nosso guarda-costas? — perguntei, brincando sobre o papel de Silmara naquela viagem.
— Não sou guarda de nada. Não nasci para vigiar ninguém — respondeu Silmara, com uma risada.
— Mas sei que vai manter sua irmã bem informada — eu disse, insinuando que ela estaria de olho em Rogério para Silvana.
— Vai achando, Sr. Álvaro. Eu não sou dessas, não. Vim só para passear mesmo — respondeu Silmara, com um sorriso travesso.
— Sei… — eu disse, rindo junto com ela.
Sabia que a viagem seria interessante com Silmara a bordo. Sabia que essa viagem prometia muito mais do que apenas pesquisa e aventura. O dinamismo entre os membros da tripulação traria histórias inesperadas, e eu mal podia esperar para vive-las.
Não demorou muito para que a primeira emergência médica da viagem ocorresse.
O entusiasmo da aventura ainda estava fresco em nossos corações, quando decidimos fazer nossa primeira parada para um banho de mar revigorante. A atmosfera era de pura euforia. O sol brilhava alto no céu azul, refletindo nas águas cristalinas que cercavam o barco. Risadas e conversas animadas ecoavam, misturando-se ao som das ondas que quebravam suavemente contra o casco da embarcação. Enquanto muitos de nós nadávamos alegremente em volta do barco, Jair teve um encontro inesperado com algumas águas-vivas.
Ele tinha se aventurado um pouco mais longe do Leviatã II e acabou se metendo entre elas. A princípio, nem percebeu o perigo iminente, como nos confessaria mais tarde. A correnteza o levou levemente para frente, e seus pensamentos estavam longe, apreciando a sensação de liberdade que o oceano oferecia.
— Ah, droga! — gritou ele, enquanto recebia as picadas dolorosas.
Jair se contorceu na água, tentando se afastar das criaturas gelatinosas que pareciam envolvê-lo em uma armadilha invisível. Seu rosto expressava o choque e a dor das ferroadas que latejavam em sua pele.
Em meio ao caos do ataque, um raio de esperança surgiu. Um pescador local, que por acaso passava com seu barco perto de onde estávamos, percebeu a situação de perigo. Ele era um homem robusto, com a pele bronzeada pelo sol. Seus olhos experientes rapidamente identificaram o problema e, sem pensar duas vezes, entrou em ação. Pegou uma corda que estava em seu barco e a jogou na direção de Jair. Ela caiu perto dele, flutuando na superfície da água.
— Agarra a corda, rapaz! — Gritou o pescador, com uma voz firme e encorajadora.
Jair, apesar da dor e do susto, conseguiu agarrar a corda. Com um esforço tremendo, ele se segurou, enquanto o motor do barco do pescador fazia o trabalho de resgate.
— Você está bem? — perguntou o homem, preocupado.
— Está queimando muito — respondeu o rapaz, olhando para os vergões vermelhos que se espalhavam por sua pele.
Foi um momento de alívio intenso, quando nosso amigo foi finalmente puxado para dentro do barco do pescador. Ele tinha levado várias ferroadas e emergiu da água com marcas vermelhas e inchadas nos braços, pernas e peito. Embora ainda estivesse sofrendo com as queimaduras, ele sorria, enquanto o pescador o trazia de volta à segurança do iate.
— Valeu, viu? Quase me mandei pro fundo... Deus te abençoe, irmão — disse Jair, com muita gratidão.
Felizmente, tínhamos a Drª Aleida conosco. Com mãos firmes e um olhar concentrado, ela tratou as queimaduras de Jair, garantindo que ele estivesse confortável, depois nos disse que as queimaduras não eram graves. Explicou que o melhor tratamento seria a aplicação de vinagre para neutralizar o veneno. Disse a Jair para evitar tocar na pele atingida. Com sua calma profissional, ela trouxe um clima de tranquilidade ao grupo.
Após receber os primeiros socorros, Jair passou o restante do dia na sala de estar do iate. Estava um pouco abatido, mas ainda em bom espírito. Passou o tempo mudando os canais da TV sem parar, procurando algo para distrair a mente do desconforto. A equipe, solidária, se revezava para fazer companhia a ele, contando piadas e compartilhando histórias engraçadas para manter o clima leve.
A experiência serviu como um lembrete para todos nós, dos perigos potenciais que enfrentaríamos em nossa jornada. Mas também reforçou a importância de cuidarmos uns dos outros, de estarmos preparados para qualquer eventualidade. E, apesar do incidente, o espírito da equipe permaneceu inabalável. Estávamos prontos para enfrentar o que quer que a expedição nos reservasse.
No dia seguinte, com o sol brilhando no céu azul, decidi matar a saudade de um lugar que sempre amei: a Praia do Forno, em Búzios. Com suas águas cristalinas e areia dourada, era o lugar perfeito para relaxar e desfrutar da beleza natural do Brasil.
Passei o dia saboreando as delícias locais. Tomei umas cervejas geladas, saboreei a doce água de coco e almocei um peixe fresco, pescado diretamente do mar. Passei bastante tempo caminhando pela praia, sentindo a areia quente sob meus pés e o sol em minha pele. Vários integrantes do grupo se juntaram a mim, aproveitando a oportunidade para relaxar e se divertir.
Série · Livro 3
Aventura na Amazônia
Trágica Aventura na Amazônia 3 — A Cidade Perdida
Um telefonema inesperado revela que Roberto, um membro desaparecido da expedição anterior, pode estar vivo. Álvaro reúne sua equipe de veteranos para uma nova incursão na floresta, enfrentando piratas, o temido Mapinguari e as guerreiras Icamiabas — numa corrida contra o tempo para desvendar os segredos de Yaraquara e salvar Roberto antes que a floresta os engula para sempre.
Era 26 de dezembro de 2017, um dia após a alegria e o calor do Natal. Alguns parentes e amigos ainda estavam hospedados em minha cobertura. Eu podia sentir o doce aroma dos biscoitos de gengibre que havíamos assado e a melodia dos cânticos natalinos ainda ecoava. As luzes piscavam ritmicamente sobre a árvore enfeitada no canto da sala, lançando reflexos dourados e prateados pelas paredes. O ambiente era um retrato de harmonia, onde os restos da ceia ainda decoravam a mesa com frutas secas, castanhas e taças de vinho pela metade. Cada pequeno detalhe parecia contar uma história. O ambiente ainda carregava o calor das risadas da noite anterior, e a sensação de plenitude tomava conta do espaço. Foi então que meu telefone tocou, interrompendo a festividade.
O identificador de chamadas mostrava um número desconhecido, mas algo me instigou a atender, então andei até a área da piscina, para poder conversar melhor ao celular, longe da música alta. O toque insistente parecia carregar um presságio, como se houvesse algo aguardando para ser revelado. Do outro lado da linha, uma voz familiar ressoou. Era Jamón. Meu coração pulou uma batida. Jamón, o espanhol que conheci durante a última expedição, morava em um lugar remoto, tão isolado que parecia existir fora do mapa.
Eu me lembro de ter deixado meu número de celular com ele, um gesto impulsivo, talvez motivado pela conexão instantânea que sentimos. Aquela decisão, que à época parecia quase trivial, estava longe de ser apenas um detalhe. Jamón, vivendo em um isolamento tão profundo, que sua existência parecia um segredo guardado pela própria natureza, raramente se conectava ao mundo exterior. Compartilhar meu número foi um fio de esperança, uma ponte delicada entre nossas realidades. Agora, ao ouvir sua voz novamente, compreendi que aquele pequeno gesto carregava um peso inesperado, quase como se o destino já tivesse planejado este momento.
O espanhol, que ainda carregava algum sotaque, falou palavras que me deixaram estarrecido. Cada sílaba parecia pesar uma tonelada, e eu podia sentir a gravidade da situação, através da linha telefônica. O telefonema, que começou como um sussurro do passado recente, transformou-se em um grito retumbante no presente, mudando tudo por completo.
— Boa tarde, Sr. Álvaro. Está de pé ou sentado? Se estiver de pé, sente-se — disse ele, com um tom enigmático.
— Boa tarde, Jamón. Não me deixe tenso, homem. Vá direto ao assunto — respondi, tentando controlar minha ansiedade.
— Roberto está vivo, ou pelo menos estava até um mês atrás — revelou ele, deixando-me em choque.
— O que? Como assim? Me dê mais detalhes — exigi, com uma forte esperança invadindo meu coração.
— Estive recentemente com o Chico Ermitão. Ele me disse que há um mês atrás recebeu a visita de Roberto. Seu advogado pediu ao indígena que o levasse até minha casa. Mas Chico nunca esteve em minha residência, e por este motivo, não conhecia o caminho. Então, Roberto permaneceu com ele por dois dias, e depois partiu, alegando que tentaria chegar a minha casa, apesar de não se recordar do trajeto. Mas ele não chegou lá — explicou Jamón, sentindo a importância de cada palavra.
— Então ele apareceu, somente para desaparecer de novo? De qualquer maneira, isso já me enche de esperança. Se foi capaz de sobreviver todo esse tempo, sozinho, na floresta, com certeza está bem em algum lugar. De onde você está me ligando? — perguntei, ansioso por mais informações.
— Do celular de um conhecido meu, numa vila de pescadores, não muito distante da minha casa. É para cá que venho quando necessito fazer um telefonema urgente.
— Amigo, muitíssimo obrigado por ter me avisado. Acho que em breve irei te fazer uma visita. Precisamos resgatar o Roberto.
— Conte comigo sempre — respondeu Jamón, com firmeza.
— Obrigado mais uma vez — finalizei, sentindo um fio de esperança renascer.
Com o coração na mão, desliguei o telefone. O silêncio que se seguiu parecia mais profundo do que nunca. A cidade lá embaixo continuava em movimento, mas para mim, tudo havia parado. O peso daquela informação me atingia em ondas, cada uma mais intensa que a outra. Olhei para o calendário do celular, os olhos fixos na data 3 de janeiro de 2018. Esse dia, que antes prometia ser o início de uma jornada emocionante com o Dr. Xavier, para visitar a tribo de Jaciara, agora tinha um propósito totalmente diferente.
Dei mais alguns passos pelo terraço, sentindo a mente fervilhar. O céu límpido contrastava com a tempestade de pensamentos que se desenrolava dentro de mim.
A Marina da Glória, com seus barcos balançando suavemente nas águas calmas, seria o ponto de partida para uma missão de resgate. A floresta amazônica, com sua vastidão e mistérios, nos aguardava. Minha prioridade agora era encontrar Roberto. Cada fragmento do plano começou a se formar, as rotas a serem traçadas, os recursos a serem reunidos, as pessoas que precisariam ser envolvidas. Eu sabia que a tarefa não seria fácil, mas estava determinado a varrer cada centímetro da floresta, se necessário.
De repente, uma outra ideia começou a se formar em minha mente. A cidade perdida. Ela parecia se erguer das profundezas da memória, como uma chama que não poderia ser apagada. Por que não aproveitar a ocasião para fazer mais uma tentativa de redescobri-la? Havia algo irresistível em sua mística, uma promessa de revelações que iam além do imaginário.
Assim, com um novo sentido de propósito e determinação, comecei a planejar minha viagem. A Amazônia não era mais apenas um destino, mas um chamado, e eu estava pronto para responder.
Então, o que antes seria uma simples visita à aldeia dos Karuani, se transformou em uma expedição de proporções monumentais. A magnitude da tarefa exigia uma equipe, um grupo de indivíduos dedicados, que compartilhassem da mesma paixão e determinação. Minha mente trabalhava a mil por hora, antecipando desafios, planejando soluções. O peso da responsabilidade recaía sobre meus ombros, mas junto dele, vinha uma excitação inegável.
Com o celular em mãos, comecei a fazer chamadas. Uma após a outra, me conectei com os veteranos das expedições anteriores. Cada um deles tinha uma riqueza de experiência e conhecimento que seriam inestimáveis para a nossa missão.
Expliquei a situação, a busca por Roberto, a cidade perdida e a tribo de Jaciara. Pude sentir a emoção em suas vozes enquanto eles concordavam em se juntar à expedição. Eles entenderam a importância da missão e estavam prontos para enfrentar os desafios que viriam.
A cada chamada, a equipe crescia, assim como a minha confiança. Sabia que, com a ajuda deles, poderíamos enfrentar qualquer coisa que a floresta amazônica nos reservasse. A expedição estava tomando forma, e eu estava ansioso para embarcar em mais esta jornada de descoberta e aventura.
Aksel, o jovem biólogo sueco, foi uma adição valiosa à nossa equipe. Ele era um dos pesquisadores que havíamos resgatado da área atingida por um terremoto durante a expedição anterior. O rapaz havia se destacado entre os outros suecos, não apenas por sua competência profissional, mas também por seu caráter forte e amigável.
Ele se tornou um bom amigo, alguém em quem eu podia confiar. Sua presença na equipe não só acrescentou um toque de camaradagem, mas também trouxe uma perspectiva única e valiosa para a nossa missão. Como biólogo, ele tinha um entendimento profundo da fauna da Amazônia, o que seria inestimável em nossa busca.
Com Aksel a bordo, senti que nossa equipe estaria mais forte e mais preparada para enfrentar os desafios que viriam.
Alguns dias depois, Bernardo, segurança integrante da primeira expedição, surpreendeu-me com um telefonema. Ele tinha ouvido falar da formação de uma nova equipe para a terceira viagem e estava interessado em se juntar a nós. Sua voz firme ao telefone trouxe uma onda de alívio. Bernardo era daqueles homens que não recuavam diante do perigo, um verdadeiro guardião, e tê-lo de volta, significava que nossa expedição estaria muito mais protegida. Ele me informou que havia se desvinculado dos trabalhos temporários que estava fazendo, liberando seu tempo e energia para nos ajudar.
A notícia foi um alívio. Bernardo era experiente e competente, e sua presença na equipe certamente aumentaria nossas chances de sucesso. Ele expressou interesse em assumir o papel de segurança do grupo uma vez mais, uma posição que exigia coragem, vigilância e habilidade, qualidades que possuía em abundância.
Sem hesitar, aceitei sua oferta. Sabia que com Bernardo a bordo, nossa equipe estaria em mãos seguras. Ele não era apenas um segurança; era um estrategista, alguém que via além da superfície e antecipava problemas antes que eles surgissem. Com a adição dele à nossa equipe, senti uma onda de otimismo. Talvez, apenas talvez, esta expedição pudesse ser diferente, sem baixas de vidas humanas. A lembrança das perdas passadas ainda pesava sobre mim, mas dessa vez, sentia que estávamos mais preparados. Afinal, ele seria um reforço de peso, uma vez que já contávamos com a confirmação de Felipe e Rogério. Talvez desta vez, pudéssemos concluir a missão e voltar para casa sãos e salvos, sem exceções.
Outro retorno que me trouxe grande alívio foi o de Leonardo. Ele é um excelente mecânico e piloto, além de ser filho de Horácio, nosso respeitado capitão da embarcação. A herança de seu pai parecia estar impregnada nele, com uma mistura de disciplina e paixão pelo que fazia. Leonardo tem um dom natural para lidar com máquinas e equipamentos, uma habilidade que parece mágica, para quem o observava trabalhar. O rapaz tem uma habilidade inata para lidar com máquinas e equipamentos, uma qualidade que provou ser inestimável em nossa primeira expedição. Se algo quebrasse no meio da selva, e sempre quebrava, Leonardo era a melhor chance que tínhamos de consertá-lo. Motores, geradores, sistemas de comunicação.
Além de suas habilidades técnicas, Leonardo também possui uma personalidade cativante. É calmo, confiável, e sempre disposto a ajudar. Tenho uma grande afinidade com ele, uma conexão que vai além de nossa relação profissional. Compartilhamos uma compreensão mútua, uma camaradagem que só pode ser formada através de experiências e desafios superados juntos.
Sua presença na equipe não apenas aumentava nossas chances de sucesso, mas também trazia um senso de conforto e segurança. Porém, no fundo, eu sabia que a Amazônia sempre guardava surpresas, e nem mesmo a melhor equipe do mundo poderia prever todas elas.
Finalmente, havia Ananias, um antigo membro da primeira expedição, e morador de Melgaço na Ilha de Marajó. Ananias era um jovem de confiança, que havia deixado uma impressão duradoura em mim, com sua dedicação e habilidade durante nossa primeira jornada. Ele havia me passado seu contato anos atrás, com a promessa de que eu poderia contar com ele para qualquer serviço.
Quando liguei para Ananias, para informá-lo sobre a nova expedição, ele não hesitou. Avisei-lhe que tínhamos uma vaga para auxiliar de serviços gerais, um papel que sabia que ele poderia preencher com competência. O rapaz aceitou na hora, ansioso para embarcar em outra aventura conosco.
Com Ananias a bordo, senti que nossa equipe estava completa. Cada membro trazia uma habilidade única e valiosa para a mesa, e juntos, éramos mais do que a soma de nossas partes. Era fascinante observar como, apesar das diferenças individuais, cada um encontrava seu lugar, contribuindo de maneira essencial para a dinâmica do grupo. A equipe era um equilíbrio entre experiência e juventude, entre conhecimento acadêmico e sabedoria prática, entre estratégia e intuição. Estávamos prontos para enfrentar os desafios que nos aguardavam, prontos para desvendar os mistérios da Amazônia mais uma vez.
Com a inclusão de Bernardo, Leonardo e Ananias, consegui mesclar com sucesso membros das duas expedições anteriores. Era uma fusão de diferentes trajetórias e personalidades, e eu sabia que o entrosamento da equipe seria um fator determinante para o nosso sucesso. Os demais membros da equipe eram todos membros da última expedição. Havia algo quase simbólico naquela união, como se o destino tivesse guiado cada um de nós para aquele momento.
Acreditei que essa mistura de experiências e perspectivas nos daria uma vantagem significativa em nossa próxima viagem. Não éramos apenas exploradores, éramos um grupo moldado pelos desafios e pelas descobertas que já havíamos enfrentado juntos. Estávamos prontos para encarar os desafios que viriam, armados com o conhecimento do passado e a determinação para o futuro.
A equipe formada ficou da seguinte maneira:
Álvaro (60 anos) - Empresário (Eu próprio, financiador da expedição, movido por um desejo insaciável por descobertas e aventura);
Aleida (60 anos) – Clínica Geral (Experiente médica, determinada a manter todos em segurança, mesmo sob as piores condições);
Marcela (41 anos) – Bióloga (Olhar atento e curiosidade científica, pronta para catalogar cada nova espécie encontrada);
Aksel (33 anos) – Biólogo Sueco (Especialista em ecossistemas tropicais, com um fascínio inabalável pela floresta amazônica e seus mistérios);
Bernardo (65 anos) - Segurança (Um pilar de proteção, com instintos aguçados e reflexos ainda mais rápidos);
Rogério (45 anos) - Segurança (Olhos sempre atentos, pronto para agir diante do perigo);
Felipe (42 anos) - Segurança (Discreto, mas letal quando necessário);
Dr. Xavier (60 anos) - Antropólogo (Grande estudioso das culturas indígenas, cujo conhecimento poderia ser a chave para desvendar segredos ocultos);
Horácio (50 anos) - Barqueiro (Homem do mar, mas também conhecedor das correntes traiçoeiras da região amazônica);
Leonardo (32 anos) - Mecânico (O homem que poderia manter tudo funcionando, do motor do barco a qualquer equipamento essencial);
Renata (36 anos) - Cozinheira (Uma especialista em transformar ingredientes simples em refeições revigorantes, algo essencial para a moral do grupo);
Silmara (38 anos) - Turista (A única que não fazia parte do núcleo profissional da expedição. O que a motivava a estar ali? Vigiar Rogério a pedido de sua irmã);
Matheus (51 anos) – Guia Nativo (Criado na selva, capaz de ler o ambiente como se fosse um livro aberto);
Thiago (34 anos) - Rastreador (Criado nas profundezas da floresta, conhecia cada som e cheiro da mata. Sua intuição aguçada, muitas vezes nos guiava antes mesmo que os mapas ou bússolas apontassem a direção certa);
Marcos (28 anos) - Rastreador (Discreto e observador, Marcos enxerga pistas onde outros veriam apenas folhagens. Sua habilidade de identificar rastros e seu profundo conhecimento sobre a fauna e flora fazem dele um membro indispensável para a sobrevivência na selva);
Amauri (23 anos) - Auxiliar de Serviços Gerais (Nativo experiente, com um instinto afiado para rastreamento e sobrevivência na selva);
Ananias (29 anos) - Auxiliar de Serviços Gerais (Disposto a aprender e ajudar, uma peça essencial no funcionamento da expedição);
João (38 anos) - Faxineiro (Responsável pela ordem e higiene da embarcação e do acampamento, uma função muitas vezes subestimada, mas crucial);
Jair (30 anos) - Faxineiro (Sempre de prontidão no quesito limpeza e organização, garantindo que a higiene não se transformasse em um problema para a equipe);
Erasmo (57 anos) - Botânico (Sua paixão pelas plantas da Amazônia poderia ser a chave para descobrir algo revolucionário);
Fernando (55 anos) - Cinegrafista (O homem por trás das lentes, registrando cada detalhe da jornada);
Fábio (31 anos) – Fotógrafo (Com um olhar aguçado para capturar a beleza e os perigos da selva);
Nesta viagem, não haveria tempo para paradas desnecessárias ou distrações. Diferentemente das expedições anteriores, marcadas pela exploração e pelo desejo de fazer turismo, desta vez, cada passo seria definido pela urgência da situação, que era séria e delicada, exigindo nossa total atenção e foco. Roberto, nosso companheiro desaparecido, estava em algum lugar lá fora, possivelmente em perigo, e cada segundo contava. A floresta não é apenas um cenário exótico, mas um território implacável, onde cada minuto de atraso poderia significar a diferença entre a vida e a morte.
Eu sentia a urgência da situação pesando sobre mim. Encontrar Roberto o mais rápido possível havia se tornado minha prioridade máxima. Eu sabia que qualquer atraso, qualquer hesitação, poderia ter consequências fatais. A vida de Roberto estava em jogo, e eu estava determinado a fazer tudo ao meu alcance para garantir seu resgate.
Nos dias que se seguiram, trabalhamos incansavelmente no preparo da expedição. Reunimos suprimentos, planejamos rotas e discutimos estratégias. Cada detalhe foi meticulosamente planejado e revisado, garantindo que estivéssemos bem preparados para os desafios que viriam. Finalmente, o dia da partida chegou. Nos encontramos na Marina da Glória, o sol nascendo no horizonte, lançando um brilho dourado sobre as águas calmas. O ar estava carregado de expectativa e emoção, enquanto embarcávamos, prontos para iniciar nossa jornada. Foi quando nossa bióloga passou por mim, com um mico no ombro.
— Marcela, este é o Dodó? — perguntei, surpreso, observando-o.
— Em carne e osso — confirmou ela, com um sorriso.
— Você havia dito que o deixaria na Bahia, no trecho onde o encontramos — lembrei-a.
— Eu bem que tentei — concluiu Marcela, soltando um suspiro.
E assim, com um senso de propósito renovado e uma determinação inabalável, partimos para nossa nova missão. Os motores roncaram, rompendo o silêncio da manhã. O cheiro do óleo diesel misturava-se com o da maresia, e a vibração sob nossos pés anunciava que não havia mais volta. Estávamos a caminho.
Seguindo Viagem
Em nossa jornada marítima, apesar dos apelos da grande maioria a bordo, resisti à tentação de fazer paradas nos locais paradisíacos que se desdobravam diante de nossos olhos. As praias de areia branca, as águas cristalinas e os recifes de corais coloridos eram tentadores, mas nosso objetivo era claro e inabalável. Parávamos vez ou outra, mas apenas para abastecer o tanque de combustível da embarcação, ou para repor nossos suprimentos de alimentos. Essas breves pausas eram necessárias, mas cada uma delas era feita com a eficiência de quem sabia que o tempo era um recurso precioso naquele momento.
Durante nossa viagem, fomos agraciados com a presença de criaturas marinhas incríveis. Tivemos a sorte de vislumbrar golfinhos que, segundo nossos biólogos a bordo, eram da espécie golfinho-de-dentes-rugosos. Esses golfinhos, com seus corpos elegantes e movimentos graciosos, eram um espetáculo à parte, saltando e brincando nas ondas ao lado de nosso barco. O brilho de seus corpos sob o sol e a sincronia de seus movimentos enchiam os nossos olhos, fazendo até mesmo os mais distraídos a bordo pararem para apreciar o momento.
Mas o destaque de nossa jornada foi, sem dúvida, o avistamento de uma imensa baleia jubarte. Era a segunda vez que eu tinha o privilégio de contemplar aquele magnífico animal. Meu primeiro encontro visual com aquela espécie de baleia ocorrera durante uma viagem ao Alasca, no final de 1987. Essas criaturas majestosas, que medem entre 12 e 16 metros de comprimento, e podem pesar até 40 toneladas, são verdadeiramente um espetáculo para ser visto. A atmosfera no barco mudou instantaneamente. Quando percebemos sua presença, o murmúrio das conversas cessou. Todos os olhares se voltaram para o gigante gentil, que parecia se mover com uma elegância surreal para algo de sua magnitude. A região da Costa das Baleias, localizada ao sul da Bahia, onde fizemos o avistamento, é especialmente conhecida por ser um dos principais pontos de observação de baleias jubarte.
Mantivemos uma distância segura, respeitando o espaço daquele gigante gentil. Pudemos ver seus esguichos d’água e seu rabo imenso batendo contra a superfície do oceano, criando ondas que balançavam o iate. Foi um momento de pura admiração e respeito pela natureza e sua grandeza.
Dias depois de nossa saída do Rio de Janeiro, chegamos ao Parque Estadual Charapucu, que representa uma importante unidade de conservação brasileira, categorizada como de Proteção Integral. Localizado no município de Afuá, que faz parte do deslumbrante Arquipélago do Marajó, no estado do Pará, este parque estadual se estende por uma vasta área de aproximadamente 65 mil hectares.
A gestão do Parque Estadual Charapucu está sob a responsabilidade da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará (SEMA-PA), que se dedica à preservação e proteção deste valioso ecossistema. Era evidente que o trabalho deles não era apenas um esforço burocrático, mas uma verdadeira missão para proteger a riqueza natural que define esse pedaço da Amazônia.
Eu havia combinado buscar Thiago, Matheus, Marcos, Amauri e Ananias naquele lugar de beleza inigualável. O pedido tinha partido de Matheus.
Eles haviam chegado ao parque dias antes, ansiosos para descobrir o que aquele vasto e misterioso território tinha a oferecer. O parque, com sua exuberante vegetação e fauna diversificada, era um convite à aventura. O quinteto estava lá para passear, para explorar e para se perderem na imensidão da natureza.
Guiados pelo guia mameluco, se embrenharam na floresta. Seu conhecimento profundo da região era um recurso inestimável, uma bússola viva que os ajudava a evitar armadilhas e a encontrar os segredos mais bem escondidos do Charapucu. Eu mal podia esperar para ouvir as histórias que eles tinham para contar, as memórias que teriam criado, de sua breve experiência naquele local.
Ao embarcarem, cada um deles foi recebido com um forte abraço e um sorriso sincero da minha parte. O reencontro era um momento aguardado com ansiedade, e cada abraço parecia carregar a história compartilhada de aventuras passadas e a promessa de novas experiências. A emoção era palpável e a alegria contagiante.
Os outros expedicionários não ficaram para trás. Eles se juntaram a mim na calorosa recepção, seus rostos iluminados pela mesma alegria e expectativa. A verdade é que todos estavam felizes em recebê-los. A atmosfera estava carregada de camaradagem e espírito de equipe. Era impossível não se contagiar com aquele clima, onde o som das conversas e risadas ecoava como música no ar.
Alguns estavam se vendo pela primeira vez, mas a grande maioria já se conhecia de nossas aventuras anteriores. As novas faces eram acolhidas com a mesma cordialidade que as conhecidas. O senso de pertencimento se instaurou quase de forma automática, como se todos compartilhassem um contrato tácito de confiança e cooperação. Afinal, estávamos todos ali pelo mesmo motivo: a paixão pela aventura, o amor pela natureza, o desejo de explorar o desconhecido.
Assim que os abraços calorosos e emocionados cessaram, partimos em direção ao centro de Afuá. A cidade, com suas ruas vibrantes e arquitetura pitoresca, era nosso próximo destino. A expectativa de chegar lá era permeada por um leve sentimento de curiosidade; Afuá não era apenas uma parada em nosso trajeto, mas também uma chance de mergulhar um pouco mais na cultura e no encanto do Arquipélago do Marajó. No entanto, antes de chegarmos lá, tínhamos uma parada a fazer.
No nosso caminho, encontrava-se a “árvore muralha”, uma maravilha natural que se destacava na paisagem. Essa gigantesca sumaúma secular parecia desafiar o tempo, com seu tronco tão largo que dava a impressão de ser uma fortaleza natural. Era impossível passar por ela sem parar para admirar sua grandeza. Nosso botânico se indispôs comigo quando eu lhe disse que não pararíamos para visitar a colossal sumaúma secular, por causa da urgência de nosso objetivo prioritário. Os olhos de Erasmo se encheram de uma decepção genuína, o tipo de olhar que carrega o peso de uma oportunidade perdida. Percebendo isso, resolvi abrir uma exceção. Por mais que o cronograma fosse apertado, não queria ficar mal com um amigo de longa data, mas mais do que isso, não podia ignorar a importância daquele momento para ele.
Então, paramos. Descemos do iate e nos aproximamos da árvore gigantesca. Tiramos fotos em volta dela, nossos rostos pequenos em comparação com sua imensidão. O som do obturador da câmera ecoava no silêncio da floresta, um lembrete de nossa presença naquele lugar selvagem.
Depois de registrar aquele momento, tornamos a seguir rumo a Afuá. O que mais me impressionou naquela parada não foi a árvore em si, mas a raiz da mafumeira. Eu já havia visto outras do tipo, mas nada comparado àquilo. Era uma rede intricada de raízes grossas e fortes, estendendo-se por metros em todas as direções. Era, sem dúvida, a maior e mais impressionante que tive o prazer de vislumbrar. A imagem daquela raiz ficou gravada em minha mente.
Fizemos compras no maior supermercado da cidade. O estabelecimento era um verdadeiro labirinto de prateleiras, repletas de produtos típicos da região amazônica. Após encher nossos carrinhos com suprimentos para a viagem, partimos em direção à Baía do Vieira Grande. Havia algo reconfortante em ver a embarcação carregada de provisões, pronta para nos levar ainda mais fundo na nossa jornada.
Acessamos o majestoso Rio Amazonas, um gigante que serpenteia pela floresta tropical, formando um caminho natural através da selva. Atravessamos a divisa entre os estados do Pará e Amapá, cada um com suas peculiaridades e belezas únicas. Nosso destino era a casa de Jamón, próxima do Igarapé Mirapiranga, um afluente do Rio Içana, no interior do Amazonas.
Matheus, com um sorriso caloroso, estendeu a mão e me presenteou com um cordão, que tinha como pingente um muiraquitã. Seu gesto, acompanhado de um brilho sincero no olhar, carregava um simbolismo que transcendia o simples ato de entrega. Era uma pequena escultura, representando um dendrobate, espécie de rã venenosa que infelizmente, havia tirado a vida de nosso querido amigo Aníbal. As lembranças do ocorrido trouxeram uma onda de melancolia, como uma sombra que contrastava com o gesto nobre de Matheus. Ele explicou que o amuleto era talhado em amazonita, uma pedra comum na região, conhecida por suas propriedades curativas e protetoras.
Agradeci a Matheus pelo presente e segui em direção ao convés do iate. Enquanto caminhava, o peso do amuleto na minha mão parecia intensificar as emoções que borbulhavam em minha mente. Gratidão pelo gesto, tristeza pela perda, e uma reflexão profunda sobre o que aquilo representava. Então, me debrucei sobre a mureta, sentindo a brisa fresca do Rio Amazonas em meu rosto. Olhei ao redor para me certificar de que ninguém estava me observando, e então soltei o cordão com o muiraquitã, observando enquanto ele caía, girando no ar antes de desaparecer sob as águas do rio.
Por ser cristão, minha fé me dizia que a única proteção de que eu precisava, vinha de Deus. Essa convicção, que sempre me acompanhou, guia muitas das decisões que tomo em situações de introspecção como aquela. Além disso, a imagem do anfíbio que havia causado tanta dor, era algo que eu não queria carregar comigo. O dendrobate não era apenas uma figura; era um símbolo de sofrimento que ainda ecoava em minha memória. Pode parecer que fui ingrato pelo presente, mas não foi este o caso. Eu simplesmente não podia aceitar um símbolo de algo que me causa tanta tristeza.
No dia seguinte, adentramos o Lago Grande de Monte Alegre, um espelho d’água que reflete a imensidão do céu azul e as nuvens que parecem pintadas à mão. O município de Monte Alegre, que compartilha o nome com o lago, é um lugar onde a natureza e a história se encontram, com sítios arqueológicos que contam histórias milenares.
Nossa missão era clara: buscar Dona Eugênia, a gerente do meu hotel, que estava de férias na casa dos pais. Eles eram ribeirinhos, pessoas cujas vidas estão intrinsecamente ligadas ao lago e suas águas generosas. A casa deles era simples, construída em madeira e elevada sobre palafitas, uma arquitetura comum na região, para proteger da subida das águas durante as cheias.
A mãe de dona Eugênia nos recebeu com um sorriso caloroso e uma hospitalidade que só os ribeirinhos possuem. Apesar de ainda restar quase duas semanas para o término das férias de minha gerente, ela decidiu aceitar nossa oferta de carona. Afinal, passaríamos bem próximo do Wild Amazon Hotel, o refúgio ecológico que ela gerenciava com maestria. Mesmo nas férias, a responsabilidade e o carinho que Dona Eugênia demonstrava pelo hotel eram evidentes. Aceitar a carona parecia tanto uma decisão prática, quanto um desejo de voltar ao lugar que ela ama cuidar.
Enquanto ajudávamos Dona Eugênia com sua bagagem, ela nos contou histórias sobre o lago e as lendas que o cercavam. Suas palavras eram cheias de encantamento, como se estivesse pintando imagens invisíveis de um mundo onde o místico e o real coexistem. Muitas dessas histórias, ouvidas de seus pais e avós. Falou-nos sobre os encantos da região, e como cresceu aprendendo a respeitar e a conviver em harmonia com a natureza. Era evidente que o respeito pelo meio ambiente não era apenas uma lição, mas um estilo de vida que moldava sua identidade e sua visão do mundo.
Com ela já a bordo, partimos do Lago Grande de Monte Alegre. As águas calmas eram como um caminho que nos levava, não apenas para nosso destino final, mas também para dentro das histórias e da cultura amazônica. Era uma oportunidade única de aprender mais sobre esse lugar mágico e sobre as pessoas que o chamam de lar.
Dona Eugênia compartilhou comigo as memórias de sua infância e juventude, pintando um quadro vívido da região do lago que a viu crescer. Ela descreveu as manhãs nebulosas e as tardes douradas pelo sol, onde cada remada no lago era um passo em direção ao conhecimento. As histórias de sua determinação para estudar eram tão profundas quanto as águas que ela atravessava todos os dias. Cada palavra carregava o peso de sua resiliência, uma inspiração que mostrava como sonhos podem florescer, mesmo em meio às adversidades.
Ela me contou sobre a escola distante, uma pequena construção à margem do rio, onde crianças de várias comunidades ribeirinhas se reuniam para aprender. A viagem diária era uma jornada árdua, remando por mais de uma hora, mas a vontade de aprender era mais forte que qualquer obstáculo. O esforço físico não era visto como um fardo, mas como um caminho necessário para alcançar algo maior, o que fazia daquela travessia uma rotina de determinação e coragem.
Apesar das dificuldades, Dona Eugênia nunca deixou que os desafios abalassem seu espírito. Sua voz carregava a firmeza de quem havia enfrentado barreiras com a cabeça erguida, sempre acreditando no poder da educação e no futuro que estava por construir. Com o término do ensino fundamental, ela se viu diante de uma nova jornada: a mudança para Macapá. Era o início de uma nova fase em sua vida, cheia de incertezas, mas também repleta de possibilidades que ela estava determinada a aproveitar ao máximo. Hospedada na casa de parentes, enfrentou a saudade da família e do lago que tanto amava, mas sabia que cada sacrifício era um investimento em seu futuro.
Trabalhando durante o dia e estudando à noite, Dona Eugênia concluiu o ensino médio com excelência. Sua rotina era um verdadeiro ato de resistência e dedicação; mesmo após dias de trabalho exaustivo, ela mergulhava nos estudos com uma vontade implacável de construir um futuro melhor. Sua determinação não parou por aí; ela conseguiu pagar uma faculdade particular e se formou em administração. Cada conquista era acompanhada de novos desafios, mas ela nunca hesitou, sempre enxergando as dificuldades como trampolins para o sucesso. Suas experiências moldaram não apenas sua carreira profissional, mas também sua visão de mundo.
Enquanto o iate deslizava pelas águas tranquilas do Amazonas, eu ouvia atentamente cada palavra dela. Era inspirador, ver como havia transformado os desafios em degraus para alcançar seus sonhos. E agora, como gerente do Wild Amazon Hotel, ela usava sua educação e experiência para criar uma atmosfera que celebrava a beleza e a cultura da Amazônia. Mostrava aos hóspedes, com muito orgulho, o valor imensurável da floresta e das pessoas que a chamam de lar.
No intervalo da nossa conversa, enquanto o Leviatã II deslizava suavemente pelas águas do rio, decidi saciar minha sede. Levantei-me e me dirigi ao frigobar no convés. Entre várias opções, escolhi uma lata de guaraná Jesus. Enquanto eu abria a lata, um grito agudo cortou o ar. O som foi abrupto e carregado de emoção, como se algo extraordinário tivesse acabado de acontecer. Marcela chamava por Fernando, que segurava uma filmadora. Sua voz parecia implorar por atenção, e a curiosidade tomou conta do ambiente, como uma faísca que acende um pavio. Instintivamente, peguei o rádio no bolso da calça.
— Horácio, reduza a velocidade ao máximo — pedi, já com o tom de urgência tomando conta.
Corri até Marcela, que estava à beira do parapeito da embarcação. Seu dedo apontava para uma praia. Ela não precisava dizer mais nada; o gesto era o suficiente para fazer todos ao redor prestarem atenção. Eu já estava prevenido, pois trazia um mini binóculo em um dos bolsos da minha calça street. Ao ajustar as lentes, a visão se clareou: uma onça nos observava com olhos amarelados e curiosos.
Fábio, o fotógrafo do grupo, chegou em seguida, sua câmera disparando várias vezes. A onça, majestosa e selvagem, parecia posar para nós. Não houve tempo para colocar um drone no ar, mas não fez muita diferença. As tomadas que fizemos com nossos equipamentos de última geração capturaram cada detalhe do felino: suas manchas, a musculatura poderosa e a expressão intrigada.
Marcela correu para avaliar as imagens em um computador. Com os olhos brilhando de excitação, deslizou os dedos pelo mouse, ampliando-as no monitor.
— É a onça fantasma? — perguntei, mal conseguindo conter minha curiosidade.
A bióloga sorriu.
— Não, é o filhote dela — disse, sua voz suave e clara, mas cheia de significado.
— Essa onça adulta é o filhote da onça fantasma? — perguntei, tentando entender.
— Sim. Os padrões são idênticos. É o filhote que a acompanhava na expedição anterior — Marcela confirmou, com firmeza, enquanto seus dedos ainda se moviam rapidamente pelo mouse.
Me inclinei para mais perto do monitor, observando as manchas escuras nas costas do felino. Elas formavam um mosaico único, quase hipnotizante, um verdadeiro registro natural de sua identidade. O mistério se aprofundava, e eu podia sentir o peso daquele reconhecimento.
— Você tem certeza? — perguntei, a curiosidade e a incredulidade misturando-se em minha voz.
— Absoluta. Dúvida zero. É o filhote. Uma onça macho, agora adulta — ela respondeu, os olhos fixos na tela, com uma confiança inabalável.
Recordei mentalmente a cena do filhote desajeitado, suas patas batendo na água enquanto explorava o ambiente. Agora, seu corpo era mais robusto e seus olhos carregavam uma intensidade que antes não existia. Era difícil acreditar que aquele pequeno filhote, que vimos brincando nas margens dos rios meses atrás, agora era um predador majestoso. A lembrança do jovem felino contrastava com a imagem atual, uma criatura cheia de força, com músculos bem definidos e uma presença que dominava o cenário.
— Onde está a mãe dele? — questionei, a pergunta escapando quase como um pensamento em voz alta.
Marcela encolheu os ombros, pensativa.
— Não faço ideia. Pode estar em qualquer lugar. É comum as mães seguirem caminhos diferentes da cria, após os filhotes chegarem à idade adulta — respondeu ela, com um tom ponderado, como se reconhecesse as leis imprevisíveis da natureza.
Fiquei imaginando se veríamos o filhote agora crescido, ou a mãe dele, novamente ao longo daquela nova expedição. Era provável que sim. Era uma possibilidade fascinante. O pensamento de que aqueles encontros poderiam acontecer novamente, trazia um misto de esperança e ansiedade.
Piratas
Dois dias depois, próximo ao município de Itacoatiara no estado do Amazonas, fui despertado por volta de 3hs com o som de tiros. Muitos tiros. Não fazia nem 20 minutos que havia pegado no sono. A adrenalina disparou pelo meu corpo enquanto saltava da cama, o coração batendo forte contra o peito. Ao sair do meu quarto, o caos se desdobrava diante dos meus olhos. Gritos e murmúrios enchiam o ar, misturando-se com o eco dos disparos que pareciam não ter fim.
Corri em direção ao convés tremendo, as pernas mal conseguindo me sustentar. O local estava banhado pela luz prateada da lua cheia, que se refletia sobre as águas do rio, criando um contraste surreal com a cena de tensão que se desenrolava. Erasmo, que vinha logo atrás de mim com os olhos arregalados pelo medo, me perguntou o que estava acontecendo. Disse-lhe que sabia tanto quanto ele, minha voz mal saindo. Era como se o medo tivesse roubado minha capacidade de falar, deixando apenas fragmentos de palavras.
Logo vi, iluminados por um holofote que cortava a escuridão, Rogério e Bernardo de pé, de armas em punho. Eles estavam imóveis como estátuas, exceto pelos braços firmes que faziam mira na direção de um afluente do Rio Amazonas. Foi então que percebi um bando se movendo na margem, mal iluminados pela luz fraca do lampião de seu próprio barco. Silhuetas em fuga acelerada pelas águas rasas do igarapé.
A luz do holofote percorreu o convés e então, vi Felipe e Marcela. Ela estava sobre o namorado, sacudindo-o e chorando. A cena era caótica e tingida de vermelho pelo sangue que manchava a camisa de Felipe. Ele estava deitado de barriga para cima, os olhos arregalados, refletindo o medo e a surpresa de um ataque inesperado. Marcela, com a determinação e a urgência gravadas em seu rosto, tentava desesperadamente mantê-lo consciente. Sua voz era um misto de súplica e comando. Aleida, com sua eficiência habitual, correu para buscar a maca, seus passos rápidos ecoando no silêncio que se seguiu aos tiros.
Série · Livro 4
Aventura na Amazônia
Trágica Aventura na Amazônia 4 — O Espectro Indígena
Após sobreviver a expedições perigosas pela Amazônia, Álvaro e sua equipe embarcam em uma nova e urgente jornada: assombrado pelo espírito de uma xamã indígena, ele precisa encontrar uma urna funerária ancestral antes que seu tormento se torne insuportável. Em meio à vastidão da floresta, a equipe enfrenta ameaças sobrenaturais, confrontos com bandidos e mistérios arqueológicos, desvendando segredos milenares enquanto luta pela sobrevivência. Nesta eletrizante conclusão da série, coragem e amizade são testadas ao limite numa expedição que desafia a própria lógica da realidade.
Em 2020, logo após o fim da quarentena imposta pela pandemia de COVID-19, acabei por ser contaminado, obviamente por ter voltado a ter contato com outras pessoas. A sensação de liberdade após meses de isolamento era inebriante, e a vontade de reencontrar amigos e familiares superou o medo do vírus. Minha ânsia por conexões humanas era tanta que, mesmo utilizando máscara, acabei contraindo o coronavírus.
Então, assim que recebi o resultado positivo, voltei a me isolar dentro do meu apartamento, com muito medo de morrer. A notícia foi um choque, e cada nova informação sobre o aumento de casos e mortes só aumentava minha ansiedade. Mas Deus me tocou mais uma vez, permitindo que eu tivesse apenas sintomas brandos. No início, senti ardência nos olhos, que desapareceu com o tempo. No meu caso, o pior foi a tosse insistente, que continuou por vários dias, mesmo após o vírus deixar o meu organismo.
Durante mais esse período de isolamento, tive muito tempo para refletir. Pensei sobre a fragilidade da vida e como, em um instante, tudo pode mudar. A solidão era avassaladora. No entanto, me deu a oportunidade de me reconectar comigo mesmo, e com minha fé. Cada dia sem piora dos sintomas era uma bênção, e comecei a valorizar ainda mais as pequenas coisas da vida.
Mas abordei este assunto para falar sobre algo muito estranho. Durante aqueles dias com COVID-19, todas as noites, sem exceções, tive pesadelos. Seria uma simples coincidência que a índia fantasmagórica, que apareceu na mente de Erasmo enquanto ele dormia sofrendo de malária, também aparecesse para mim em meus sonhos, enquanto eu estava doente?
Segundo Thiago, o espírito indígena havia me observado dentro da mata. Eu descansava em um dos jipes que havia alugado durante minha primeira expedição na Amazônia. Naquela ocasião, estávamos a caminho da Fazenda Neres. Nos meus pesadelos, esse momento se repetia infinitamente, criando uma atmosfera sinistra. Eu acordava apavorado, no momento em que o espectro aparecia diante de mim, do outro lado da janela. Todas as noites, a figura da índia surgia com seus olhos penetrantes e expressão enigmática. Ela parecia querer me comunicar algo, mas nunca dizia nada. Eu acordava suando frio, com o coração acelerado e a sensação de que ela estava dentro do quarto.
Mas em 23 de agosto de 2023, decidi visitar Arthur na cadeia mais uma vez. O motivo? O fantasma que havia desaparecido após minha cura, voltou a atormentar meus sonhos. O pior é que, desta vez, meus pesadelos estavam muito mais vívidos. Simplesmente não conseguia mais ter uma noite de sono reparador. Acordava em pânico total, e raramente conseguia voltar a dormir.
Precisava saber o que Arthur queria me contar anos atrás. Para isso, teria de barganhar. Da última vez que havia estado com ele, tentou me persuadir a contratar um bom advogado para defendê-lo. Pretendia encurtar sua permanência na prisão. Naquela época, eu tinha plena convicção de que jamais colaboraria com ele. Meus princípios e minha aversão ao que ele representa, eram fortes demais para considerar ajudá-lo. Mas agora as coisas haviam mudado. Desesperadamente, precisava encontrar um meio de expulsar essa assombração da minha vida. E se, para isso, eu tivesse que prestar assistência a Arthur, que assim fosse. A necessidade de recuperar minha paz era maior do que qualquer moralidade ou rancor que eu pudesse nutrir.
Cada detalhe da última conversa que tive com ele, ecoava em minha mente como um enigma não resolvido. Arthur sempre foi um homem de segredos, e eu sabia que por trás de suas palavras, havia algo de extrema importância. A prisão o transformou, mas não apagou sua astúcia. Era como uma cobra, quieta e calculista, sempre esperando o momento certo para atacar. Ele sabia que eu voltaria mais cedo ou mais tarde, em busca de respostas. Sua confiança era irritante, mas também revelava que ele tinha algo valioso. Algo que eu não poderia ignorar. Eu tinha grande esperança de que o que ele tinha para me dizer, me ajudasse a afastar o espectro indígena.
Enquanto dirigia em direção ao presídio, senti um misto de ansiedade e determinação. A cidade, envolta em uma atmosfera cinzenta, refletia exatamente como eu me sentia por dentro: nublado, inquieto, cheio de dúvidas. Cada quilômetro percorrido, não apenas me aproximava do presídio, mas também das respostas que eu tanto precisava para retomar o controle sobre minha vida.
Ao chegar, fui recebido pelos olhares frios dos guardas. Suas expressões impassíveis e gestos automáticos, reforçavam a sensação de que eu estava entrando em um mundo à parte, onde a esperança parecia escassa, e as sombras dominavam. Eles me conduziram até a sala de visitas. Arthur estava lá, sentado, com um sorriso enigmático no rosto. Ele parecia perfeitamente à vontade, como se o ambiente claustrofóbico da prisão fosse apenas um palco, onde ele exercitava sua habilidade de manipular. Seus olhos brilhavam, carregando uma mistura perturbadora de surpresa e satisfação. Era evidente que ele sabia estar em posição de vantagem, e isso o deixava confiante.
— Então, você voltou. O que mudou? — perguntou ele, com a voz carregada de ironia, claramente me provocando.
Seu tom era tão afiado quanto a lâmina de uma faca, cortando diretamente minha determinação, e testando os limites da minha paciência.
— Preciso de respostas, Arthur. Estou disposto a negociar — expliquei, tentando manter a compostura e focar na solução.
Minhas palavras saíram firmes, mas eu sabia que ele sentia o nervosismo, escondido por trás da minha fachada controlada.
— Negociar, é? E o que você tem a me oferecer? — indagou ele, inclinando levemente a cabeça, como quem avaliava suas cartas em um jogo.
— Um advogado, alguém que possa reduzir sua sentença, conforme me pediu da última vez que estive aqui — respondi, apresentando minha proposta de forma direta.
Arthur sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos.
— Você vai me prometer que não medirá esforços pra me tirar daqui, o quanto antes? — perguntou, apertando ainda mais o cerco.
— Você tem minha promessa. Agora me diga o que você sabe — retruquei, reafirmando meu compromisso com firmeza.
O silêncio se estendeu entre nós, carregado de tensão. Finalmente, Arthur assentiu lentamente.
— Tudo bem. Mas primeiro, me diga o que te fez mudar de ideia — disse ele, querendo entender o que havia me levado de volta até aquele lugar.
— Sem chance. Fale logo o que tinha pra me dizer, da primeira vez que estive aqui, e espero que não seja enrolação, porque se for, nosso acordo não se consumará — respondi, sem paciência para seus joguinhos.
O mecânico riu novamente.
— Você se lembra de eu ter lhe dito que, quando consegui fugir da cidade perdida, acabei perdido na mata? — começou ele, lentamente, como se quisesse capturar minha atenção.
— Sim — confirmei, incentivando-o a continuar, com um gesto de cabeça.
— Em dado momento, eu já estava tão exausto que me sentei próximo de um riacho, e não consegui mais me erguer. Não havia mais energia em meu corpo — contou ele, seu tom carregado com uma lembrança sombria.
— Continue — ordenei, ansioso pelo que viria depois.
— Eu tentava me levantar, mas caía logo em seguida. A morte parecia certa. Insetos de todos os tipos pousavam em mim, e eu não tinha forças nem para enxotá-los. Desmaiei, e acordei horas depois. Assim que abri os olhos, vi uma xamã indígena sentada ao meu lado, me observando. Pensei que estava delirando — relatou ele com a voz baixa, mas repleta de detalhes vívidos.
— Era de carne e osso, ou um fantasma? — perguntei, intrigado e apreensivo com o rumo da história.
— Era uma presença física; ela até me tocou — revelou ele, deixando claro que não se tratava de uma visão, ou alucinação.
— E como sabe que era uma xamã? — questionei, buscando entender como ele havia identificado a mulher.
— Ela me disse.
— Ela falou com você em português? — perguntei, surpreso, tentando ligar os pontos da interação.
— Sim. Com um sotaque bem carregado, mas falou em português.
— E o que mais ela lhe disse? — indaguei, cada vez mais ávido por detalhes.
— Ela levantou a minha cabeça, segurando-me pelo pescoço, e me fez beber uma poção amarga, que restaurou minhas energias. Em seguida, me disse que eu não podia morrer naquele momento, porque tinha uma missão pra mim — detalhou ele, sua expressão ficando mais séria.
— Qual era essa missão? O que você tinha de fazer? — perguntei, inclinando-me levemente para frente.
— Exatamente o que estou fazendo agora — confessou ele, como se isso fosse óbvio.
— Que seria? — pressionei, impaciente com sua demora em ser direto.
— Lhe passar uma mensagem.
— Deixe de rodeios. Vá direto ao assunto — exigi, já cansado de seus enigmas.
— Ela me mandou dizer a você, que o fantasma da xamã que está lhe assombrando enquanto dorme, é o espírito de uma ancestral dela — revelou ele, com um tom definitivo, suas palavras soando como um golpe em minha mente.
O choque que senti ao ouvir aquelas palavras me fez dar um passo para trás. Meu coração disparou, e senti um frio percorrer minha espinha. Arthur, com seu olhar penetrante, percebeu imediatamente, que aquela revelação havia me abalado profundamente. Como ele poderia saber sobre os pesadelos sombrios que me assombravam? Era um segredo que eu nunca tinha compartilhado com ninguém.
— Eu sei que é difícil de acreditar, mas a xamã que salvou minha vida, me contou que você teria esses pesadelos — tentou explicar Arthur, observando minha reação com atenção.
Minhas pernas fraquejaram, e eu me apoiei na parede mais próxima. As palavras da xamã foram praticamente uma previsão do futuro.
— Ela tem um dom, uma conexão com o mundo espiritual, que vai além da nossa compreensão — continuou ele, como se quisesse reforçar a credibilidade de sua história.
— Ela disse mais alguma coisa? — perguntei, minha voz quase inaudível, enquanto lutava para processar as informações.
— Sim. Aí é que vem a parte mais interessante. Ela mandou dizer que, enquanto você não resolver a situação da ancestral dela, continuará sendo assombrado.
A sala parecia se fechar ao meu redor, e eu lutei para processar a magnitude do que estava sendo revelado.
— E o que ela disse que eu preciso fazer? — perguntei, desesperado por uma solução.
— Você deverá devolver o corpo da ancestral dela ao seu local de origem — disse Arthur, com um tom grave, enquanto observava minha expressão mudar.
— Um cadáver, você quer dizer? — perguntei, tentando confirmar o que ele havia acabado de revelar.
— Na verdade, é uma múmia indígena dentro de uma urna. Ela foi desenterrada por saqueadores, e entregue a um grupo de contrabandistas. Neste momento, encontra-se à espera da melhor oferta para sair do país. Provavelmente será vendida pra um museu no exterior. Álvaro, se a urna sair do Brasil, será praticamente impossível de você recuperá-la. Meu conselho é que resolva isso o mais rápido possível — explicou ele com firmeza, enfatizando a urgência da situação.
— Mas onde eu encontro essa urna? — indaguei, desesperado por mais detalhes, sentindo a pressão aumentar.
— No Acre — respondeu ele, sem rodeios.
— Onde, no Acre? — continuei, apertando-o por informações mais específicas
— Não faço a menor ideia — disse ele sem emoção, como se já esperasse minha frustração.
— Está brincando comigo? Ela não disse onde? — perguntei, a irritação clara em minha voz.
— Não disse — respondeu Arthur dando de ombros, como se essa fosse a resposta mais simples.
— O Acre é enorme — expressei, com muita preocupação, tentando compreender a dificuldade do que acabara de ouvir.
— Você tem vastos recursos. Mãos à obra — disse ele, seco, como se a solução estivesse completamente em minhas mãos.
Pus as mãos na cabeça, em claro sinal de desespero.
— Digamos que eu tenha sucesso em recuperar a urna. Onde a levo depois? Onde fica o túmulo original dela? — perguntei, tentando entender o próximo passo.
— Na verdade, a palavra “túmulo” não se aplica neste caso. Você deverá enterrar a urna no cemitério indígena pertencente ao povo dela — explicou ele, desta vez com um pouco mais de calma.
— E onde fica esse cemitério? — continuei, sem querer perder tempo.
— Em Rondônia — respondeu ele.
— Em Rondônia, onde? Só não me diga que não faz a menor ideia, de novo — insisti, sentindo a frustração crescer.
— E não faço mesmo — respondeu ele, com a mesma tranquilidade irritante.
Baixei a cabeça, evidentemente afetado pelas palavras do mecânico naval.
— Nunca terei sucesso. Serei assombrado pra sempre. Nunca mais terei uma boa noite de sono — desabafei, desesperançado, sentindo o peso do destino que me aguardava.
— Mas o que é isso, homem? A esperança é a última que morre — disse ele com ironia, como se tentasse me provocar mais uma vez.
— Você tem mais alguma coisa a adicionar, que me ajude nessa missão? — perguntei, agarrando-me a qualquer possibilidade de informação.
— Já te disse tudo o que sei — respondeu ele, com um ar definitivo.
— Qual é o nome da índia? — perguntei, tentando obter qualquer detalhe extra.
— A xamã que me salvou? Não faço a menor ideia — respondeu ele, quase se divertindo com aquilo.
— Qual é a aparência dela? — continuei, na esperança de pelo menos poder identificá-la.
— Magra, uns cinquenta anos de idade, muitas pinturas tribais espalhadas pelo corpo todo, enfeitada com penas principalmente nos cabelos, e tinha um pequeno pássaro colorido, às vezes pousado em seus braços, as vezes nos ombros ou na cabeça — respondeu ele, descrevendo-a com detalhes surpreendentes.
— Se lembrar de mais alguma coisa, mande-me um recado pelo Roberto.
— Então ele será o meu advogado? — perguntou ele, confirmando minha parte do acordo.
— Sim — respondi, enquanto me levantava para sair.
Parti, mas antes que eu saísse, ouvi Arthur dizer:
— Boa sorte. Você vai precisar.
Suas palavras pairaram no ar como um presságio, ecoando em minha mente enquanto eu saía do presídio. A sensação de que algo sombrio e monumental estava por vir não me abandonou, e sabia que a jornada que me aguardava seria a mais desafiadora de todas.
Em 2021, estive presente no julgamento de Arthur. Naquela ocasião, proferi palavras duras durante meu testemunho, detalhando os crimes atrozes que ele cometeu contra mim e meu grupo de expedicionários na Amazônia. Cada frase que saía da minha boca era carregada de indignação, refletindo os horrores que havíamos enfrentado nas profundezas da floresta.
Agora, Arthur revelara algo que abalou minhas crenças mais profundas. Suas palavras, carregadas de um mistério ancestral, trouxeram à tona a única esperança que eu tinha de afastar de minha vida a alma penada de uma xamã indígena, que viveu muitos anos atrás. A urna contendo o corpo dela, cujo espírito inquieto me atormentava sempre que eu pegava no sono, precisava ser encontrada a qualquer custo.
Mas eu não sabia por onde começar minha busca. A única informação que eu tinha, era que a urna estava no Acre. No caminho de volta para casa, peguei o celular e liguei para Janete. Se alguém podia desvendar esse mistério antes que a múmia fosse vendida, era ela. Compartilhei os poucos detalhes que tinha, e Janete não se intimidou com a escassez de informações. Com determinação, disse que viajaria imediatamente, e me traria novidades em breve.
Não perdi tempo; assim que terminei a conversa com Janete, comecei a planejar uma nova expedição. A urgência da situação exigia ação rápida e precisa, e eu estava determinado a encontrar a urna, antes que fosse tarde demais.
Uma das primeiras pessoas para quem liguei foi Matheus. Ele sempre foi uma presença constante nas minhas expedições, com seu espírito aventureiro e conhecimento vasto sobre a região amazônica.
— Olá, Matheus. Estou planejando uma nova viagem, e adoraria que você viesse comigo novamente — disse, tentando transmitir entusiasmo na voz, ansioso por sua resposta.
Ele agradeceu pelo convite, mas logo explicou que desta vez não poderia me acompanhar. Matheus havia se vinculado a uma agência de turismo, e deveria cumprir com a agenda dela. Não tinha mais a liberdade dos tempos em que trabalhava por conta própria. Senti uma pontada de decepção, mas compreendi a situação.
— Entendo, amigo. As coisas mudam, não é? — respondi, tentando manter o tom leve.
No meio da conversa, ele fez uma pausa antes de continuar, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Espero que a aldeia de Jaciara não esteja na sua programação. Tenho uma triste notícia pra te dar. Ela se casou com um indígena da tribo dela — disse ele com cuidado, como se tentasse suavizar o impacto da revelação.
A notícia me atingiu como um soco no estômago. Jaciara, com quem eu tinha compartilhado tantos momentos especiais, agora estava fora do meu alcance. Tentei disfarçar minha frustração, mas a dor era evidente em minha voz.
— Ah, entendi… obrigado por me avisar, Matheus — disse eu, encurtando o papo e desligando o telefone rapidamente, sem querer prolongar aquele momento doloroso.
Enquanto dirigia pela avenida Brasil, as lágrimas começaram a cair silenciosamente no meu colo. Minha garganta ficou seca, e fui acometido de uma sensação desagradável, uma mistura de tristeza e resignação. A estrada à minha frente parecia mais longa e solitária do que nunca, e a urgência da minha missão se misturava com a dor de uma perda pessoal.
O Retorno de Marina
Naquele dia, uma daquelas incríveis coincidências da vida aconteceu. Ainda estava digerindo o impacto da conversa que tive com Matheus quando, ao chegar à portaria do meu edifício, fui surpreendido ao encontrar Marina, minha namorada antes de Jaciara. Sua presença foi um choque para os meus sentidos, trazendo à tona um turbilhão de memórias. Ao vê-la, senti uma mistura de curiosidade e desconforto. Memórias que eu acreditava terem sido enterradas voltaram como ondas, uma após a outra, rápidas e intensas.
— Boa tarde, Álvaro — cumprimentou-me Marina, com um sorriso que carregava tanto nostalgia quanto cautela.
— Boa tarde. Aconteceu alguma coisa? — perguntei, surpreso ao vê-la ali, incapaz de disfarçar minha curiosidade.
— Vim te visitar. Faz tanto tempo que não nos vemos — disse ela, sua voz embargada por um tom nostálgico, como se revisitar o passado fosse tanto um conforto quanto um desafio.
— Quer subir? — ofereci, ainda tentando processar sua presença inesperada.
— Se não for incômodo — respondeu Marina, com um leve sorriso que parecia iluminar os corredores frios da portaria.
Enquanto subíamos de elevador, flashes de nosso relacionamento passaram pela minha mente. Lembrei-me das noites que passamos juntos, das risadas compartilhadas e das discussões que nos separaram. Marina foi uma presença intensa na minha vida. Segundos depois, estávamos na minha cobertura. Abri o barzinho e me virei para ela.
— Você vai me acompanhar? — perguntou ela, levantando uma sobrancelha, como se quisesse testar se a tensão era mútua.
— Sim. Vou de gin, e você? — respondi, com um sorriso leve, tentando dissipar qualquer nervosismo.
— Tem alguma garrafa de vinho no frigobar? — perguntou ela, enquanto abria a pequena porta e espiava lá dentro, com a naturalidade de quem já conhecia o lugar.
— Tem sim. Pode escolher — respondi, cruzando os braços e me encostando ao balcão, ainda tentando soar casual, mas ciente de que a presença dela já mexia comigo de maneiras que eu não conseguia controlar.
Depois de nos servirmos, sentamos um ao lado do outro no sofá, e começamos a colocar anos de conversa em dia. O tempo parecia ter parado, enquanto relembrávamos momentos compartilhados. Marina falava com uma familiaridade que me fazia sentir como se nunca tivéssemos nos afastado. Eu sabia bem o que ela queria: reatar o relacionamento.
Eu, por outro lado, estava frágil, carente e receptivo. O choque de descobrir que a mulher que não saía dos meus pensamentos estava casada, ainda reverberava na minha mente. Cada palavra de Marina era um bálsamo para minha alma ferida. O efeito da bebida só intensificava essa sensação de vulnerabilidade.
Marina, com seu charme inegável e sua beleza loira, se insinuava para mim de maneira sutil, mas inconfundível. Seus olhos brilhavam com uma mistura de esperança e desejo, e eu podia sentir a tensão no ar. Ela se aproximou um pouco mais, sua perna roçando a minha, e eu senti um arrepio percorrer o meu corpo.
A conversa fluía naturalmente, mas havia uma corrente subjacente de intenções não ditas. Sorrisos, toques e olhares prolongados carregavam um peso que ambos entendíamos. Eu estava dividido entre a razão e o desejo, entre o passado e o presente.
Finalmente, a combinação de nostalgia, carência e álcool fez minhas defesas desmoronarem. Marina se inclinou em minha direção, e antes que eu pudesse pensar duas vezes, nossos lábios se encontraram. Era como se todos os sentimentos reprimidos tivessem encontrado uma saída, e naquele momento, nada mais importava.
Ela acabou passando a noite em minha cobertura. Pela manhã, enquanto o sol nascia timidamente no horizonte, decidimos matar a ressaca com garrafas long neck de cerveja na beira da piscina. O ar estava fresco, e a brisa suave trazia consigo o cheiro salgado do mar. Ela parecia uma nova pessoa, mais leve, mais sorridente. Seu jeito rude de anos atrás parecia ter desaparecido, como se tivesse sido levado pelas ondas do tempo. Ou estaria somente adormecido, esperando o momento certo para ressurgir?
Mas, para que se preocupar com isso naquele instante? Eu queria aproveitar cada segundo daquela manhã tranquila. Aliás, eu precisava sentir a paz que aquele momento me proporcionava, necessitava me reconectar com a vida à dois. Marina, com seu sorriso enigmático, parecia compartilhar do mesmo sentimento. Conversamos sobre tudo e nada, rimos de piadas antigas e relembramos momentos que pareciam pertencer a outra vida.
A luz do sol refletia na água da piscina, criando um espetáculo de cores e brilhos que hipnotizavam. Marina mergulhou os pés na água, e eu a observei, tentando decifrar o que se passava em sua mente. Será que ela também estava tentando esquecer alguém, ou apenas aproveitando a calmaria antes da tempestade? De qualquer forma, naquele instante, éramos apenas duas almas buscando um pouco de paz em meio ao caos do mundo.
Mergulhamos juntos, deixando a água fresca envolver nossos corpos. Quando emergimos, rindo e ofegantes, Marina me abraçou com força. Senti seu coração batendo contra o meu. Por um momento, o mundo pareceu parar. Ela me encarou, seus olhos claros brilhavam com uma intensidade que eu não via há anos.
— Como é a Jaciara? — perguntou ela em um sussurro carregado de emoção.
A pergunta pairou no ar. Eu podia ver a vulnerabilidade em seu olhar, uma mistura de medo e esperança.
— Como você ficou sabendo sobre ela? — indaguei, tentando esconder minha surpresa.
— Esqueceu que temos vários amigos em comum? — respondeu ela, evidenciando que a notícia havia se espalhado.
— Prefiro não falar sobre Jaciara — disse, tentando evitar constrangimentos.
— Nem precisa. Já sei que é bonita, e bem mais nova que eu — comentou ela, com um leve tom de ciúme.
— Vamos falar sobre nós. O que te trouxe até aqui? — perguntei, mudando rapidamente o foco da conversa.
— Saudade — ela confessou, olhando diretamente nos meus olhos.
— Só agora sentiu saudade de mim?
— Não. Senti faz tempo, mas sabia que você estava com ela — explicou, revelando o motivo de sua ausência.
— Isso não te impedia de vir me ver como amiga — respondi, desafiando sua lógica.
— Eu não queria estar na sua presença como amiga — admitiu, sua voz carregada de sinceridade.
— Entendo — murmurei, sem saber ao certo o que mais dizer.
Ficamos calados por alguns segundos.
— O que será de nós dois daqui pra a frente? — perguntou ela, quebrando o silêncio com uma questão que pairava como uma nuvem sobre nós.
— Vai depender mais de você do que de mim.
— Seja mais objetivo — insistiu ela, seus olhos buscando nos meus, algo mais concreto.
— Vou ser direto. Se o nosso relacionamento voltar a ser como antes, não sei se conseguirei lidar com ele. Estou mais velho, e com menos paciência — disse para ela, deixando claro meus sentimentos e preocupações.
— E eu estou mais calma e consciente — respondeu Marina, mostrando crescimento pessoal.
— Sim. Até o primeiro desentendimento — debochei, tentando aliviar a tensão com humor.
— Discussões podem acontecer, mas acredito que serão menos frequentes — disse ela, otimista sobre o futuro.
— Como psicóloga, você deve ter boas estratégias para lidar com isso — brinquei, buscando um terreno mais leve.
— Bobo — disse ela, rindo.
— Lembra-se do motivo pelo qual terminamos? — perguntei, mudando para um tom mais sério.
— Claro que sim — respondeu ela, agora séria.
— Qual foi? — insisti, querendo ouvir sua perspectiva.
— Sua primeira expedição pela Amazônia — respondeu ela, com a voz calma, mas carregada de significado.
— Sim, você tentou me persuadir a desistir — retruquei, lembrando da intensidade daquele momento.
— Você disse que passaria meses fora — afirmou ela, com um tom que misturava razão e emoção.
— Mas te convidei para ir comigo — argumentei, lembrando-a da minha proposta.
— Para um lugar com perigos imensuráveis, que tirou a vida de pessoas da sua equipe. Eu poderia ter sido uma das vítimas fatais.
— O risco era igualmente meu. Mas ainda assim, elaborei três expedições que trouxeram frutos. O mundo nunca mais será o mesmo, após nossas descobertas — disse a ela, orgulhoso de minhas conquistas.
— Tenho que admitir que você ficou famoso e que trouxe muitos benefícios ao campo da ciência — reconheceu ela, com um tom de voz mais suave.
— Você soube que comprei um hotel de selva? — perguntei, tentando mudar o tom da conversa.
— Sim, ele é maravilhoso. Vi as fotos no site oficial. Mas voltando ao assunto... então, vai depender do meu comportamento para que isso que estamos vivendo agora, continue? — perguntou ela, com um sorriso enigmático.
— Sim, mas dependerá ainda mais da sua resposta à minha próxima pergunta — repliquei, sentindo que estava prestes a cruzar uma linha decisiva.
— Não me deixe esperando, homem. Faça a pergunta — insistiu ela, com um tom meio brincalhão, meio sério.
— Dentro de alguns dias, partirei para uma nova expedição na região amazônica. Você estará nela? — perguntei, deixando minha expectativa transparecer.
— Você é um menino muito mal. Me colocando contra a parede, hein? — brincou ela.
— Se você quer interpretar dessa maneira...
— Você está com sorte. Me aposentei há pouco tempo — revelou, sorrindo.
— E o medo das feras? Sumiu? Não quero que se sinta pressionada a ir — acrescentei, com sinceridade.
— Quanto aos perigos, saiba que estou te intimando a me trazer de volta com vida, e sem faltar nenhum pedaço — respondeu ela, com um tom desafiador e divertido, que me fez rir.
— Farei o que estiver ao meu alcance — assegurei, com um sorriso, tentando transmitir confiança.
— Espero que sim — concluiu ela.
Marina percebeu imediatamente a alegria que tomou conta de mim, quando confirmou sua presença na nova expedição. Um sorriso largo se espalhou pelo meu rosto, e não pude conter a felicidade que transbordava. Aproximei-me dela e, num gesto espontâneo e carinhoso, dei-lhe um selinho. A água da piscina ainda escorria pelo meu rosto, enquanto eu me afastava lentamente, sentindo o calor do momento.
Saí da piscina com um movimento suave, sentindo a brisa fresca da tarde tocar minha pele molhada. Caminhei até uma espreguiçadeira próxima e me sentei, deixando o sol aquecer meu corpo. Olhei para ela, ainda na piscina, e com um gesto convidativo, chamei-a para se juntar a mim.
— Vou ficar um pouco mais dentro d’água. Pode pegar mais uma cerveja pra mim? — Marina pediu, o sol brilhando sobre suas gotículas de água, enquanto ela relaxava na piscina.
Fui até a geladeira e peguei uma long neck, entreguei-a na mão dela, que sorriu agradecida. Voltei para a espreguiçadeira, peguei meu telefone celular em cima da mesinha ao meu lado, e comecei a fazer ligações.
No dia anterior, antes de telefonar para Matheus, já tinha falado com Oscar. Ele ficou empolgadíssimo, e confirmou presença imediatamente, sua voz transbordando entusiasmo. Em seguida, liguei para Aleida, que, com um tom de voz mais calmo, disse que não iria desta vez. Alegou já ter vivido emoções demais nas minhas duas últimas expedições, e eu podia entender seu ponto de vista. As aventuras anteriores tinham sido intensas e cheias de adrenalina.
Agora estava na hora de convidar Marcela. Eu tinha certeza de que ela não ficaria fora disso. A bióloga sempre foi a alma das nossas aventuras, com seu espírito livre e energia contagiante. Peguei o telefone com determinação, já imaginando sua reação ao receber o convite. Sabia que, com ela a bordo, nossa próxima expedição seria tão inesquecível quanto as outras.
— Alô.
— Boa tarde, Marcela.
— Como você está? — perguntou ela, simpática como sempre.
— Bem, graças a Deus. Já te disseram que estou programando uma nova expedição? — disse, testando o terreno.
— Não. Que maravilha. Já estava mesmo na hora de ir atrás do pterossauro — respondeu com entusiasmo, sua voz vibrando de excitação.
— Na verdade, não é ele o motivo dessa viagem — esclareci, mantendo um certo suspense.
— Não vamos pegar o anhanguera? — perguntou, um pouco decepcionada e claramente surpresa pela mudança de planos.
— Talvez, se cumprirmos a missão principal rapidamente — respondi, tentando manter suas expectativas em aberto.
— E que missão é essa? — questionou ela, curiosa.
— Isso é coisa para conversarmos pessoalmente.
— Hummmmmm. Que misterioso — murmurou, intrigada.
— Você topa? — insisti, querendo saber logo sua resposta.
— Com uma condição — respondeu a bióloga, pronta para negociar.
— E qual seria?
— Que desta vez possamos aproveitar o litoral sem pressa, parando naquelas maravilhosas praias ao longo do percurso.
— Marcela, eu acabei de dizer que só iríamos atrás do dinossauro, se concluíssemos nosso principal objetivo rapidamente — respondi, reforçando o plano.
— Está bem.
— O que está bem? — perguntei, tentando entender melhor.
— Deixamos o pterossauro para a próxima expedição — disse ela, me surpreendendo com sua flexibilidade.
— Está falando sério? Prefere pegar um bronzeado, do que mostrar pro mundo que o anhanguera não está extinto? — questionei, incrédulo.
— Eu preferiria, se tivesse certeza de que teríamos êxito. E, além disso, sei que durante a viagem, vou convencê-lo a irmos atrás dele, de uma maneira ou de outra. De qualquer forma, sairei ganhando — afirmou ela, confiante em sua habilidade persuasiva.
— Obrigado pela sinceridade de sempre. Tudo bem, pararemos nas melhores praias da costa, embora eu esteja com mais pressa do que nunca — concordei, tentando equilibrar os interesses.
Despedi-me dela, e estava prestes a fazer uma nova ligação, mas Marina pediu que eu não telefonasse para ninguém naquele momento, pois queria me dizer algo. Ela nadou até a borda e saiu da água com graça, pegando uma toalha para se secar. Seus movimentos eram elegantes e decididos, e eu não conseguia desviar o olhar. Quando finalmente se sentou ao meu lado, senti uma onda de contentamento. O momento era perfeito, e a presença dela ali tornava tudo ainda mais especial.
— Percebi que você teve um pesadelo durante a noite — disse ela, a preocupação visível em seus olhos.
— Sim. Nossa viagem tem a ver com isso — respondi, hesitando em compartilhar tudo de uma vez.
— Como assim? — Ela franziu o cenho, a curiosidade se misturando à preocupação.
— Está preparada pra saber? — perguntei, avaliando sua reação.
— Que tom estranho é esse? Enigmático — ela cruzou os braços, inclinando-se ligeiramente para frente, como se quisesse ouvir melhor.
— Você não vai acreditar no que vai ouvir. E se acreditar, vai desistir de ir — avisei, preparando-a para o impacto.
Fiz um resumo de tudo o que vi e vivi na Amazônia, desde minha primeira expedição à região. Como imaginei, Marina não acreditou quando mencionei a onça fantasma e seu filhote. Ela também duvidou do Mapinguari e do espectro indígena. Seus olhos se arregalaram de incredulidade, e ela soltou uma risada nervosa.
— Você só pode estar brincando. Essas coisas não existem — disse ela, tentando processar as informações.
Eu já esperava que seria difícil convencê-la. Marina me confidenciou que havia assistido aos meus documentários, mas acreditava que tudo aquilo era uma invenção minha e da minha equipe, uma farsa criada em busca de fama. Segundo ela, tudo não passava de um sensacionalismo absurdo.
— Você realmente espera que eu acredite nessas histórias de terror? Parece coisa de filme — ela exclamou, seu tom incrédulo.
Eu ri, mas não de deboche; era a risada de alguém que já tinha visto o impossível se tornar realidade.
— Marina, a Amazônia é um lugar onde coisas incríveis acontecem todos os dias. Se prepare, porque o que você vai ver por lá, mudará sua visão sobre o mundo em que vivemos — disse eu, sério, tentando transmitir a verdade.
Ela me olhou com ceticismo e curiosidade.
— Então, você realmente acredita que essas coisas existem? — perguntou, claramente dividida entre o ceticismo e a curiosidade.
— Não é uma questão de acreditar, mas de ver com os próprios olhos. A Amazônia guarda segredos que a ciência ainda não conseguiu explicar, e é isso que a torna tão fascinante e misteriosa. Além disso, há relatos de moradores locais e de indígenas que convivem com essas histórias há gerações. Eles têm um conhecimento profundo da floresta e de suas criaturas, algo que nós, de fora, muitas vezes subestimamos — expliquei, esperando convencê-la.
— Só vendo para crer — concluiu ela, ainda reticente.
— E você verá. Pode ter certeza disso — garanti, confiante no que iríamos encontrar pelo caminho.
Me Reconectando
Em seguida, liguei para Bernardo. A voz dele soou cansada, mas ainda carregava aquele tom de autoridade que sempre admirei nele. Expliquei que teríamos de lidar com pessoas perigosas e, logo em seguida, me disse que estava definitivamente aposentado e que os dias de ação e perigo haviam ficado para trás.
A declaração de Bernardo me pegou de surpresa. Não porque ele não merecesse uma vida tranquila, mas porque, de certa forma, eu sempre o vi como invencível, alguém que nunca se afastaria completamente das missões que o moldaram. Senti uma pontada de nostalgia ao ouvir isso, como se um capítulo importante da minha vida, estivesse definitivamente se fechando. Lembrei das noites intermináveis em acampamentos improvisados, das perseguições em terrenos traiçoeiros, e das vitórias que nunca chegavam sem cicatrizes.
— Mas tenho uma indicação para você. Almir é o cara mais “casca grossa” da agência que você costuma usar, quando precisa de segurança particular — disse ele com um tom de voz seguro, como se já soubesse exatamente o que eu iria pedir.
Eu já tinha ouvido falar de Almir, mas nunca tinha trabalhado diretamente com ele. Seu nome vinha carregado de histórias. Algumas absurdas, outras dignas de lendas. Entre os seguranças da agência, era conhecido por sua audácia, e pela habilidade quase sobrenatural de sair de situações impossíveis. Bernardo prosseguiu, detalhando as qualidades do homem.
— Ele é um verdadeiro lobo solitário. Não tem esposa, nem filhos. É desprendido. Um aventureiro nato. É a pessoa certa para essa missão — comentou ele, com um toque de admiração na voz.
A descrição de Bernardo pintou a imagem de um homem destemido, alguém que não se intimidava facilmente.
— Ele já enfrentou situações que fariam a maioria das pessoas se borrar, e sempre saiu ileso. Assim como eu, é ex-policial — concluiu, com um tom de orgulho que evidenciava o respeito que tinha por Almir.
Agradeci pela indicação e desliguei o telefone, sentindo uma mistura de ansiedade e excitação. Sabia que, com Almir ao meu lado, estaria em boas mãos. Bernardo não me indicaria alguém que não considerasse capaz para este trabalho. A aventura que se desenhava à minha frente prometia ser uma das mais desafiadoras da minha vida, e eu estava pronto para enfrentá-la. Desta vez, eu teria de lidar com ladrões de sepulturas e contrabandistas, e talvez até com outros tipos de foras-da-lei.
Então, minha próxima ligação foi para a agência de segurança privada. Expliquei os detalhes da expedição, solicitando os serviços de Rogério, Felipe e Almir. Não demorou muito para que o gerente retornasse minha ligação, confirmando o trio na missão. Desliguei o telefone com um suspiro de alívio.
Série · Livro 5
Aventura na Amazônia
Trágica Aventura na Amazônia 5 — A Odisseia de Kariel
Kariel, filho de Álvaro e Jaciara, marcado desde a adolescência por encontros com lendas vivas da floresta, vê seu destino novamente entrelaçado com os mistérios da Amazônia. Agora adulto, sua filha nasce com uma doença rara e devastadora — e, desesperado para salvá-la, ele desafia os avisos dos encantados e retorna à selva em busca de um tesouro ancestral guardado pela mesma onça-preta mística que um dia ceifou a vida de seu padrasto. Entre traições, forças sobrenaturais e revelações sobre o legado do pai, Kariel precisa escolher entre relíquias que talvez tragam maldição e a fé de que pode triunfar sem elas.
Hoje, aqui em minha casa em Boston, nos EUA, por acaso assisti no noticiário mais um caso de pessoas que se perderam na Amazônia. Era uma equipe de três turistas do sul do Brasil acompanhados por um guia local, que desapareceram nas proximidades de um afluente do Rio Jutaí. As buscas já duravam dois dias, e a tensão no rosto dos familiares entrevistados me atingiu como uma lâmina invisível.
Sempre que me deparo com uma notícia assim, meu coração dispara e sinto os pelos do corpo se arrepiarem. É como se uma memória adormecida fosse súbita e violentamente despertada. Minha mente imediatamente viaja ao passado, a uma experiência que ainda ecoa em mim com a força de um trovão. Uma vivência sem precedentes, que me marcou para sempre: eu me perdi na floresta amazônica quando tinha apenas 14 anos.
Meu nome é Kariel, e quem conhece os livros de meu pai, Álvaro Becker, talvez já tenha se deparado com pequenas referências à minha existência. Mas o que está ali é apenas uma fração da história, fragmentos dispersos de um universo que carrego dentro de mim.
Nasci na aldeia Karuani, oculta por uma das áreas menos exploradas do estado do Amazonas. A tribo à qual minha mãe e eu pertencemos é pouco conhecida, isolada pela geografia. Por gerações, vivemos em harmonia com a floresta, respeitando seus ritmos e espíritos. O idioma que falávamos era raro, quase esquecido, e nossos costumes se mantinham intactos como se o tempo ali tivesse parado.
Foi nesse reduto que meu pai conheceu minha mãe, Jaciara. Ela, encantada pela presença incomum daqueles homens diferentes em meio à mata, comentou com meu avô, então líder da tribo, que achou meu pai fascinante. Não só pela aparência, mas também pela forma como ele era respeitado por todos, inclusive pelos indígenas. Na visão de minha mãe, ele parecia ocupar o posto de cacique dentre seu grupo.
Essa admiração foi suficiente para que meu avô encorajasse minha mãe a se aproximar dele. Ao perceber as sutis investidas, meu pai hesitou, principalmente pela diferença de idade, mas aos poucos deixou o vínculo florescer.
Jaciara, minha mãe, o acompanhou em várias viagens, e segundo ela, foi como abrir um portal para outro mundo. Jamais havia se distanciado da aldeia, nunca conhecera os povoados além dos limites da floresta. Tudo era novo: as cores, os sons, os costumes. Ela ficou simplesmente maravilhada com tudo aquilo.
Lembro-me dela me contando, olhos distantes e cheios de brilho, sobre o encantamento que sentiu ao ver pela primeira vez uma escada rolante, como se fosse uma espécie de feitiço mecânico. “As coisas se movem sozinhas, Kariel”, ela disse com um misto de riso e espanto. Também falava das caixas que cantavam, as televisões, e do espanto que sentiu ao ver comida pronta em embalagens brilhantes, sem cheiro de mato ou fumaça.
Viu pela primeira vez casas de pedra, ruas onde ninguém pisava descalço, e mercados onde as frutas eram compradas com pedaços de papel e não colhidas com as mãos. Conheceu o cheiro da cidade grande. Sentiu o asfalto quente sob os pés, o barulho dos carros como um trovão contínuo, e as luzes noturnas que não deixavam o céu escuro o suficiente para ver as estrelas.
Mas com o tempo, percebeu que seu lugar era junto aos seus. A saudade da tribo, dos costumes, as raízes profundas, acabaram falando mais alto. Então ela decidiu voltar. A separação foi dolorosa, sobretudo para meu pai. Porém, na última vez em que estiveram juntos, ela engravidou. Meses depois, eu nasci em Karuani, e ele sequer soube de minha existência.
Alguns anos se passaram até que ele descobrisse. Quando finalmente veio ao meu encontro, nos conhecemos em seu hotel, horas de distância da aldeia. Ele me deu presentes, olhou para minha mãe com ternura, chorou ao me abraçar e partiu. Antes de ir, deu instruções à gerente para que nunca nos faltasse nada e pediu que minha mãe fosse ao hotel sempre que precisasse de algo. Foi um gesto de cuidado para conosco.
Eu, menino de olhos curiosos, jamais havia visto um lugar como aquele hotel: cheiro de perfume no ar, cadeiras pintadas de branco ao lado de um lago artificial cristalino, bebidas servidas em estranhas cuias transparentes. Guardei com carinho o carrinho de brinquedo que ele me deu naquele dia. Um jipe azul que viria a simbolizar, para mim, o elo entre dois mundos.
No entanto, só voltaria a vê-lo anos depois, quando me perdi na mata. Não por desinteresse dele, mas porque minha mãe, a pedido de meu padrasto, foi orientada a impedir qualquer contato. O marido de minha mãe, Toriba, chamado por muitos de karai, que nos moldes da tradição Karuani quer dizer homem respeitado, era um caçador ilustre, firme e de poucas palavras. Tinha a alma selvagem da floresta e acreditava que eu devia pertencer integralmente à aldeia, sem interferência externa.
Para ele, a presença de meu pai representava uma ruptura perigosa com os ensinamentos que desejava me passar. Apesar da dureza, cuidava de mim com zelo. Ensinou-me a caçar, a rastrear pegadas, a ouvir os sinais da mata e, mais importante, a respeitá-la. Toriba me levava a clareiras secretas a contava histórias de árvores que se mexiam quando ninguém estava olhando. Com ele, aprendi que a mata tem humor, e que nem sempre está disposta a perdoar quem pisa em falso.
Agora que vocês conhecem um pouco mais da minha origem, posso contar em detalhes os fatos, sem exagero, do incidente que poderia ter custado a minha vida. Não quero mitificá-lo, nem adorná-lo com heroísmo. Quero contar como foi: com medo, com fome e com a floresta me olhando como se fosse um ser vivo. Porque ela é.
O Incidente
Tudo começou em uma manhã abafada, quando partimos, eu, meu padrasto e dois outros homens da aldeia, para uma caçada de dois dias. Caminhávamos pelos igarapés como fantasmas, pisando leve, atentos a qualquer som. O sol mal atravessava a copa das árvores. Meus pés estavam feridos por espinhos, mas eu não reclamava.
Logo no primeiro dia, Toriba já havia abatido um queixada e um caititu, demonstrando a destreza que o tornava respeitado entre os caçadores da tribo. Os dois amigos que o acompanhavam pegaram, cada um, um macaco. Eu, por minha vez, transbordando de orgulho juvenil, consegui com meu arco abater uma cutia e um tatu.
Na manhã do segundo dia, o grupo já havia garantido boa parte da subsistência: uma paca, aves de médio porte e alguns répteis. O calor úmido do meio-dia se insinuava por entre as copas quando, de súbito, meu padrasto estancou o passo. Com gestos firmes e silenciosos, indicou a presença de um veado ao longe. Instintivamente, nos abaixamos atrás de um tronco caído, coberto de fungos e musgos.
O veado se movia com cautela, farejando o ar, atento aos mínimos estalos da mata. O arco de Toriba já estava tensionado, a flecha alinhada com o alvo, quando um som inesperado, um estalo seco e úmido, rompeu o equilíbrio da caçada.
Então, uma onça-preta surgiu como sombra viva, silenciosa e letal. Saltou sobre meu padrasto com a força de um trovão abafado. Em meio à surpresa e ao pânico, vi os dois companheiros de Toriba, Abaré e Yandê, fugirem em disparada. Meu padrasto, no chão, lutava com cada fibra do corpo, tentando se desvencilhar das garras e presas do felino, num embate desesperado onde a selva já não parecia distinguir caçador de caça.
Fiquei paralisado, incrédulo, ao ver aquele homem que eu sempre enxerguei como indestrutível, forte, vigoroso, reverenciado por muitos e temido por alguns, sendo dominado com espantosa facilidade pela onça-preta. A brutalidade do ataque contrastava com a imagem que eu tinha dele: um guerreiro invencível. Nos olhos de meu padrasto Toriba havia pânico, um apelo mudo que me atravessou como lâmina. Em meio ao confronto, ele conseguiu me lançar um olhar e, com voz entrecortada pelo desespero, ordenou que eu jogasse minha faca para ele.
Minhas mãos tremiam. O couro da empunhadura escorregava sob meus dedos suados. Por um segundo que pareceu eterno, não soube o que fazer. Correr como os outros? Gritar? Fechar os olhos e esperar que tudo acabasse? Mas aquele olhar... aquele pedido silencioso vindo de um homem que jamais pediria ajuda, me obrigou a reagir.
Mas ao invés de lançá-la, como movido por forças que desconhecia em mim, fui em direção à fera e cravei a lâmina em seu dorso musculoso. O rugido que se seguiu pareceu sacudir a mata inteira. Com uma patada violenta, fui arremessado para trás como se meu corpo não tivesse peso. Caí de costas, o ar me escapando em um soluço seco. Nesse instante, ela largou meu padrasto e avançou em minha direção, os olhos flamejantes fixos nos meus, como se quisesse apagar minha existência do mundo.
Eu gritava sem perceber, minha garganta ardendo, chamando por ajuda. As aves silenciaram. Os insetos, antes incansáveis, pareciam ter sumido. Era como se a selva, diante do confronto, observasse em respeito ou em júbilo. Sabia que aquele era o meu fim.
Mas então, uma série de flechas cortou o ar e atingiu o corpo da onça em sequência. Virei o rosto na direção de onde vinham e vi os dois companheiros de Toriba a cerca de dez metros, disparando com precisão. Três flechas já cravavam o corpo do felino, que soltou outro rugido lancinante e, esquecendo de mim, partiu para cima deles, como um raio vivo movido por dor e fúria.
Eles não esperaram por ela. Vi os dois caçadores se lançarem em retirada pela mata, com a pantera negra em perseguição furiosa, deixando para trás um rastro de sangue, pelos e o corpo exausto de Toriba. Num piscar de olhos, a selva os engoliu. Não restava sinal deles, nem do felino monstruoso. Apenas silêncio e o cheiro de sangue pairando no ar.
Instintivamente, olhei para o ombro dilacerado pelas garras da onça. A dor latejava com fúria. Mas logo percebi outra pontada, desta vez na perna esquerda. Ao baixar os olhos, notei uma flecha cravada em minha canela. Havia sido atingido por “fogo amigo”. Cerrei os dentes, parti o cabo com um golpe seco e arranquei a flecha com as mãos, sem hesitar. Joguei-a sobre a grama, sem cerimônia. A dor foi estranhamente contida, como se o choque tivesse anestesiado a pele. A verdadeira tortura vinha do ombro, que agora se tornava grotesco sob a luz filtrada da floresta.
Tentei me erguer, mas minha perna falhou. Senti o calor do sangue escorrendo até o tornozelo e, por um momento, tudo girou. Respirei fundo, lutando contra o desmaio. A dor que me consumia e o medo que sentia me mantiveram acordado. A onça poderia retornar a qualquer instante para concluir o ataque.
Eu precisava tirar meu padrasto dali imediatamente. Arrastei-me até onde ele estava e vi que respirava com dificuldade. Seus olhos estavam semicerrados. Toquei sua mão e perguntei, com a voz entrecortada, se conseguiria se levantar. Mas ele não respondeu. A vida lhe escapava como areia entre os dedos.
Seu corpo exibia marcas profundas de garras. Mas era do pescoço que o sangue fluía em cascata, sem sinais de cessar. Balancei-o, chamei seu nome, supliquei por uma resposta. E então, subitamente, ele parou de respirar. Segundos depois, o sangue cessou. Por um instante, tudo ficou quieto. Foi nesse momento, diante do silêncio absoluto, que compreendi: Toriba estava morto.
Ergui os olhos ao céu e, segurando o crucifixo pendurado em meu pescoço, murmurei uma oração: pedi a Deus que acolhesse sua alma. Aquele cordão tinha valor sagrado para mim, não apenas pela fé, mas pela lembrança. Meu pai o havia me dado na única vez em que estivemos juntos. Foi ele quem o colocou cuidadosamente em meu pescoço, como se quisesse deixar um pouco de sua fé comigo. Eu era apenas uma criança naquela época, e não compreendia muito bem o simbolismo da cruz.
— Jesus morreu para que vivamos. Ele nunca vai te abandonar — disse ele.
Minha mãe, que se converteu ao cristianismo durante o tempo em que esteve com ele, foi quem me ensinou tudo o que sabia sobre a religião. Guardava uma Bíblia com cuidado e carinho, e frequentemente lia suas páginas para mim, como se cada versículo fosse também uma forma de proteger, guiar e amar. Eu a ouvia recitar os Salmos.
— O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos; unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.
Ela ofereceu um crucifixo a Toriba, que recusou o presente. Ainda assim, minha mãe pediu que ele o usasse, mesmo sem acreditar. E ele o fez, não por fé, mas para agradá-la.
Durante todos os dias em que estive perdido na imensidão da floresta, repeti o Salmo 23:4. Cada palavra era como um fio invisível me ligando à esperança, um escudo contra o medo que me assolava.
Foi minha mãe também quem me ensinou o idioma português, uma língua que ela aprendeu com os exploradores que acompanhavam meu pai, mas principalmente com ele próprio. Com o tempo, absorvi cada palavra, cada expressão, até dominar o português tão bem quanto o dialeto ancestral de minha própria tribo.
Justo ela, que durante o tempo em que esteve com meu pai mostrava certa resistência à religião dele, passou por uma transformação profunda após retornar à aldeia. Tornou-se uma cristã fervorosa, e a fé se tornou para ela um refúgio, uma força que a ajudava a lidar com as dificuldades e, sobretudo, com o luto.
A perda de meu avô, o antigo cacique da tribo, deixou um vazio imenso nela e em minhas tias. Em seu lugar, assumiu um novo líder, um homem pouco simpático à nossa família, distante e autoritário. Com sua chegada, o estilo de vida que havíamos tido até então, começou a declinar drasticamente.
Toriba era visto por todos como um forte candidato a suceder Itamar, nosso cacique, já velho e cansado pela passagem dos anos. Carregava respeito, sabedoria e coragem. Atributos raros que ecoavam entre os anciãos e os jovens da tribo. Quando ele assumisse a liderança, nossa vida mudaria: a minha, a de minha mãe, e a de todos os nossos familiares. Havia esperança em sua ascensão.
Mas agora, ele estava morto. E com sua partida, não apenas perdi meu padrasto, mas também o futuro que ele representava.
Fiquei ali por algum tempo. Não queria abandonar seu corpo, que se deixado ali, em pouco tempo seria devorado por formigas, aves de rapina, larvas e fungos. Na floresta, tudo retorna à terra. Tudo é alimento. Tudo é ciclo.
Mas o receio de que a onça retornasse me impeliu a partir. Então me levantei, claudicante, com o sangue seco cobrindo a pele e a alma pesando toneladas. Dei o primeiro passo para longe do corpo de Toriba, como quem arranca um pedaço do próprio coração. Cada som da mata parecia um alerta. O coração batia descompassado. Eu não fazia ideia de para onde deveria ir. Nenhum ponto de referência, nenhum indício do caminho de volta à aldeia. Cada passo era incerto, mas a necessidade de sobreviver impulsionava minha caminhada.
Durante o trajeto, avistei uma planta conhecida: sangue-de-dragão (Croton lechleri), brotando firme entre as raízes entrelaçadas. Suas propriedades eram valiosas: cicatrizante, antisséptica, anti-inflamatória. Uma verdadeira aliada contra infecções, sobretudo em ferimentos abertos. A seiva de coloração avermelhada, escorria como lágrima espessa ao menor corte no caule.
Esse conhecimento não era por acaso. Ainda menor, aprendi sobre plantas medicinais da região com o pajé, com meu avô, com os mais velhos da aldeia, mas principalmente com minha mãe.
— É como se a floresta sangrasse para curar os nossos próprios ferimentos — disse ela enquanto me mostrava o manejo da planta.
Pressionei a seiva da planta contra a ferida mais profunda. A ardência foi imediata, mas sabia que era sinal de limpeza. Segui adiante, mesmo mancando, mesmo cambaleando. A sede veio rápido. Logo nos primeiros passos, senti minha garganta arranhar de tanta secura, talvez efeito da perda de sangue. Percebi que, antes de qualquer coisa, precisava encontrar água.
Por sorte, não demorou até que eu avistasse uma cachoeira. A visão daquelas águas cristalinas me encheu de esperança. Me ajoelhei e bebi com voracidade.
Lembrei que a aldeia ficava em terras mais altas. Era algo que havia notado durante as caçadas, quando descíamos em busca de presas. Por isso, decidi escalar a cachoeira, acreditando que aquele curso d’água pudesse me conduzir até o pequeno igarapé que contorna a aldeia.
Comecei a subir com cuidado, mas uma rocha úmida e coberta por limo traiu meu passo. Escorreguei, bati a cabeça com força contra uma pedra e, envolto pela queda e pelo som abafado da correnteza, mergulhei na escuridão de um desmaio.
Curupira
Acordei com uma dor de cabeça lancinante, como se mil martelos ecoassem dentro de meu crânio. Pisquei os olhos repetidamente, tentando afastar a névoa que ainda envolvia minha mente. O ferimento no ombro latejava em compasso com meu pulso, enquanto um galo saliente marcava a queda anterior. Curiosamente, o ferimento causado pela flecha que atravessara minha perna não provocava dor aguda, apenas uma fisgada leve, incômoda, mas insuficiente para impedir meus movimentos. O ombro também parecia menos sensível; talvez os efeitos do sangue-de-dragão começassem a fazer efeito.
A noite já havia caído, e com ela veio o medo. O breu tomava a floresta com firmeza. Acendi uma fogueira à beira do pequeno lago formado pela força da queda d’água. As chamas dançavam refletidas na água, criando sombras fantasmagóricas entre as árvores.
Logo depois, a fome surgiu com urgência, como uma fera interna acordada pelo susto. Peguei um galho firme, afiei a ponta com minha faca e confeccionei uma lança improvisada. Enquanto afiava a ponta, veio à minha mente o momento em que meu padrasto havia me mostrado como fazer aquilo. As lágrimas desceram.
Fiquei de vigia por um tempo, esperando que algum animal se aproximasse para beber água. Mas o fogo afugentava tudo.
Resolvi agir. Entrei na água com uma tocha na mão esquerda e a lança na direita, tateando o fundo pedregoso com cautela. Os minutos se estendiam, até que um movimento sutil na superfície revelou uma presa. Arpoei o peixe com precisão, sentindo um alívio imediato, não só pela comida, mas por reafirmar que ainda tinha domínio sobre o próprio instinto. Naquele momento garanti meu jantar.
Era um pacu. A carne firme e o odor fresco imediatamente me trouxeram lembranças da aldeia. As noites em volta da fogueira com as risadas dos mais velhos contando histórias de caçadas lendárias. Eu teria aquilo de novo? Naquele momento, só havia incerteza.
O pacu me lembrou ainda da primeira vez em que pesquei, também ensinado por Toriba. Não lembro quantos anos tinha na ocasião, mas inda era bem pequeno. Meu padrasto colocou uma linha feita de cipó e um anzol artesanal forjado com espinho de tucum em minhas mãos e me mandou jogar na água. Pesquei um pequeno jaraqui, que se soltou antes que eu pudesse retirá-lo do rio.
Depois de comer o peixe, comecei a ouvir vozes vindas da mata próxima. O barulho constante da água caindo no lago abafava as palavras, impedindo-me de entender o que diziam. Meu coração acelerou. Imediatamente imaginei que fossem os companheiros de caçada de meu padrasto à minha procura. Gritei, dizendo que estava ali, implorando que viessem me buscar.
Mas as vozes não responderam. Seguiam em um tom baixo, como sussurros em meio ao farfalhar das folhas. Meu coração passou da euforia à dúvida. E se não fossem eles? E se não fossem seres humanos? Lembrei das palavras do pajé.
— Na mata, nem toda voz vem de boca viva. Algumas, pertencem aos encantados, aos que vagam entre os mundos — dizia ele.
Logo avistei uma labareda de fogo surgindo entre as árvores e fiquei mais aliviado, achando que fosse uma tocha carregada por Abaré ou Yandê, os amigos que haviam fugido após disparar flechas contra a onça-preta. Mas, à medida que a chama se aproximava, uma onda de horror me invadiu: não era uma tocha, e sim cabelos em chamas. Meu sangue gelou. Seja lá o que fosse aquilo, não consegui ver bem o seu rosto por causa da distância. Mas só podia ser o Curupira. Num impulso desesperado, atirei-me no lago e nadei até a outra margem. Em seguida, corri sem direção, até as pernas falharem. Ofegante, encontrei uma árvore enorme e oca, e me escondi em seu interior.
Na ânsia de escapar, deixei para trás meu tipiti, minha sacola indígena que continha todos os meus pertences, inclusive minha faca. Prometi a mim mesmo que voltaria no dia seguinte para recuperar minhas coisas, se conseguisse encontrar novamente a cachoeira. A exaustão bateu pesada e adormeci.
Ao amanhecer, os primeiros raios de sol atravessaram a cavidade da árvore e me despertaram. Para minha surpresa, meu tipiti estava ali, ao meu lado, como se tivesse sido magicamente transportado. Eu sabia que não o havia trazido comigo, ele havia ficado ao lado da fogueira. Conferi seu interior com mãos trêmulas: tudo estava lá, inclusive minha zarabatana, essencial para minha sobrevivência. Ao redor, avistei também a lança improvisada que usei para pescar. Nada fazia sentido. Olhei em volta procurando pegadas, sinais de que alguém tivesse me encontrado durante a noite. Nada. Nenhum rastro humano, nenhum som além do matinal canto das araras e o farfalhar do vento nas copas.
Naquele instante, senti que não estava só. E não era uma presença comum. Então um rosnado cortou o silêncio e minha espinha enregelou. Olhei para fora da árvore e avistei a onça-preta farejando o mato. Eu tinha certeza de que se tratava da mesma que havia matado meu padrasto, pois uma flecha ainda estava cravada em seu flanco direito. Ela havia captado meu cheiro e estava claramente me rastreando desde o dia anterior. Não demoraria a me encontrar.
Segurei firme a lança e me posicionei na entrada da cavidade, pronto para lutar. Ela finalmente me viu. Me encarou com olhos flamejantes e investiu. Por alguns instantes, a abertura estreita me deu vantagem. Consegui atingir sua cabeça com estocadas sucessivas, irritando-a. Tentei mirar nos olhos, mas ela era rápida demais. Numa das investidas, a ponta da lança entrou no céu da boca da fera. Ela fechou as mandíbulas e a quebrou com um estalo seco. Minha última defesa estava destruída. A morte parecia inevitável.
Mas então, um assovio agudo e estridente reverberou por toda a floresta. A onça hesitou. Confusa, olhou para o lado e seus olhos se arregalaram com uma expressão que beirava o pavor. Então, ela fugiu. Partiu em disparada. Desapareceu na mata com pressa e medo explícito. A criatura que me inspirava terror agora corria como uma criança diante do trovão, e eu entendi: havia algo mais assustador que ela à espreita.
Tomei coragem e espreitei para fora da árvore. Segui com os olhos a direção para onde a onça havia olhado antes de fugir. E então o vi. Um ser pequeno, do tamanho de uma criança, com pele avermelhada típica de queimadura de sol, cabelos cor de fogo e pés voltados para trás. Ao notar minha surpresa, soltou uma risada infantil.
E mesmo tendo ouvido sobre ele desde pequeno nas histórias do pajé e nos contos dos mais velhos, vê-lo ali, com meus próprios olhos, fez meu coração bater num ritmo descontrolado. Aquilo não era mais lenda. Era real. Não era como olhar para um predador, mas como encarar o próprio juízo da selva. Uma entidade que não agia por maldade, mas por equilíbrio.
— Você veio me matar? — perguntei a ele em minha língua nativa, com o coração acelerado pela dúvida e pelo medo.
— Por que eu faria isso? Você não desmatou, não matou e tampouco feriu qualquer animal por prazer — respondeu a criatura na mesma língua.
Sua voz era serena e contrastava com sua aparência sobrenatural e o brilho intenso que emanava de seus olhos.
— Como sabe que não fiz essas coisas? — questionei.
— Porque sei tudo o que se passa nessa mata. Você nunca feriu a floresta de forma alguma. Pelo menos até agora. Se tivesse feito, talvez eu estivesse aqui por outros motivos — explicou, sem alterar o tom da voz, como quem tem certeza do que diz.
— Você é o Curupira? — perguntei, quase num sussurro.
— Sim, sou — respondeu com firmeza, sem qualquer cerimônia.
— Vai me impedir de encontrar o caminho de volta? — insisti, temendo por minha sobrevivência.
— Já lhe disse que não vim para lhe castigar. Estou aqui mais para te educar. Se não percebeu, até te ajudei com a onça-preta. Ela sim, deseja a sua morte. Quando me revelei para você na cachoeira, fiz na intenção de que fugisse, não de mim, mas porque ela estava se aproximando rapidamente, seguindo seu rastro com precisão — acrescentou, revelando que sua aparição não fora um ato de ameaça, mas de proteção.
Naquele instante, compreendi que o reaparecimento de meu tipiti podia estar ligado a ele.
— Mas por que ela quer me matar? — perguntei, tentando entender as intenções da fera.
— Ela é a guardiã de um tesouro. Você e os outros três chagaram bem perto dele — explicou, como quem dá uma advertência sutil.
— Não vi tesouro nenhum — retruquei, confuso.
— Não viu, porque ele está enterrado. Oculto. Mas ela sabe onde está — disse, como se revelasse um segredo profundo da floresta.
— Mas só estávamos caçando. Queríamos levar alimento para a aldeia — justifiquei, sentindo-me incompreendido.
— Mas a onça não entendeu dessa maneira. Há muitos guardiões na mata. Alguns com propósitos em comum, outros nem tanto. Alguns são astutos; outros, impulsivos. Seres como eu... que transitam entre dois mundos. O material e o imaterial. Seu pai conheceu alguns deles — completou, lançando uma informação que me pegou de surpresa.
As palavras me atingiram como um trovão silencioso. A imagem de meu pai, que eu conhecia tão pouco, ganhou novas dimensões.
— Você conhece meu pai? — perguntei, com um nó na garganta.
— Segui ele por um tempo. Ele e o grupo que liderava. Observei seus passos para ver se ultrapassariam os limites. Mas não ultrapassaram. Foi melhor assim — contou, com um tom reflexivo, como quem fala de algo que ficou guardado por anos.
— Você conversou com eles, como está fazendo comigo? — indaguei, curioso.
— Não. Mas dei um belo susto neles em uma certa ocasião — disse, com um leve sorriso travesso, se divertindo ao recordar o episódio.
— O que você fez? — perguntei, intrigado.
— Permiti que me vissem por uma fração de segundo, deixando um rastro de perguntas que ecoam até hoje — respondeu, como se aquela breve aparição tivesse sido mais eloquente que qualquer palavra que ele pudesse ter dito na ocasião.
Pensei no impacto que aquilo teria causado neles. Entendi que, às vezes, o invisível se mostra apenas o suficiente para deixar marcas que duram para sempre.
— Pode me indicar o caminho da minha aldeia? — pedi, ainda esperançoso.
— Posso, mas não irei — disse ele com firmeza, como faria um pai que decide ensinar por meio da experiência.
— Por quê? — questionei, frustrado.
— Porque ainda não estou seguro sobre você. Quero observá-lo mais. Ver como se comporta. Agora preciso partir. Caçadores ultrapassaram os limites do aceitável no Tocantins. Tenho contas a acertar com eles — declarou, desviando o olhar para o horizonte, como quem ouve o chamado da próxima missão.
— Vai matá-los? — perguntei, com apreensão.
— Não. Eu nunca tiro a vida de ninguém diretamente. Mas posso impedi-los de reencontrar o caminho de casa... até que estejam arrependidos — respondeu, com uma serenidade que soava mais ameaçadora que qualquer rugido.
— E se não se arrependerem? — indaguei, com temor na voz.
— Passarão seus últimos momentos andando em círculos — concluiu, com uma firmeza arrepiante.
— Você irá aparecer pra mim de novo? — perguntei, hesitante, com a voz ainda embargada pelo medo.
— Torça para que não. Se eu o fizer, é porque você estará em apuros — respondeu ele, com um olhar sério e uma entonação que misturava aviso e cuidado.
Não entendi se aquelas palavras eram uma ameaça velada, ou um gesto de proteção. Mas mais adiante, essa dúvida seria sanada.
O pequeno ser então se virou e partiu mata adentro. Seu corpo se dissolvia lentamente entre as árvores, como se fosse absorvido pela própria floresta. Antes de desaparecer completamente, ele voltou a falar.
— Há mais do que um caminho até sua aldeia. E nem todos passam pela mata. Alguns passam por decisões. Faça as certas.
Fiquei parado por um tempo, digerindo tudo o que acabara de presenciar. Minha percepção do mundo havia mudado para sempre. A floresta já não era só morada de bichos e árvores, mas um lugar habitado por forças que transcendiam a lógica.
Notei que o caminho por onde o Curupira seguira estava coberto de pegadas invertidas. Os calcanhares apontavam para frente, os dedos para trás.
Minutos após sua partida, a fome voltou com força total. Um vazio consumia meu estômago. Saí em busca de frutas e, felizmente, encontrei murici, ajuru e araçá-boi nas proximidades. Permaneci ali pelo resto do dia, me alimentando aos poucos. Não havia água por perto, mas as frutas foram suficientes para manter meu corpo hidratado.
Caipora
Nas mesmas redondezas, deparei-me com duas plantas medicinais que conhecia bem: unha-de-gato e uxi-amarelo. Preparei um emplastro improvisado com elas e tratei meus ferimentos com cuidado. Uma tradição que aprendi desde cedo com os mais velhos da aldeia.
Apesar do alívio momentâneo, o receio da onça-preta continuava a me rondar como uma sombra. Sentia medo de que ela voltasse, mas também hesitava em abandonar aquele local, por causa do alimento. No fim das contas, o instinto falou mais alto: o medo da guardiã do tesouro venceu, e decidi me afastar antes que o céu escurecesse.
Caminhei até encontrar um igarapé. Ali, forjei outra lança com um galho resistente e fiquei de vigia, atento ao menor movimento. Menos de meia hora depois, consegui abater um caxinguelê. Era esquilo pequeno, mas que já serviria como primeiro sustento. Após devorá-lo, entrei no mangue próximo e peguei um caranguejo-uçá. Suas pinças se agitavam com fúria, tentando escapar de minhas mãos, mas eu as dominei com a calma de quem já fizera aquilo antes. A lama fria subia até as canelas, dificultando os passos, mas o esforço valia a pena: aquela captura era uma nova vitória contra a fome.
Ainda assim, aquilo não bastou. Eu estava em fase de crescimento e meu corpo exigia mais. Voltei ao mangue com uma tocha improvisada e identifiquei outros buracos na lama. Enfiei a mão em cada um, puxando os crustáceos e amarrando-os em um cipó. Mas no quinto buraco... a surpresa veio com a dor. Um caranguejo cravou a garra em meus dedos, e o grito que escapou foi involuntário. Para me livrar dele, encostei a chama da tocha em sua carapaça, obrigando-o a soltar minha mão. No fim, ele foi direto para a fogueira, junto com os demais.
Dormir de barriga cheia foi um alívio, mas os dedos latejavam intensamente. E ao amanhecer, uma forte dor de barriga tomou conta de mim. Tratei com carqueja, que encontrei por perto, fazendo uma infusão simples. A diarreia demorou a ceder, e somada aos meus ferimentos, roubou minha energia. Queria reencontrar o caminho de casa, mas o corpo não acompanhava o desejo. Meus passos eram lentos, pesados, e por vezes sentia vertigem ao tentar me erguer após colher algo do chão. O corpo suava frio. O cansaço era como uma corrente amarrada às pernas.
Passei o dia pescando no igarapé e assando peixe com calma. De fome, eu não morreria. A floresta é generosa com quem a respeita, e eu carregava o conhecimento necessário para colher seu sustento.
Com a chegada da noite, repeti o ritual de sempre: joguei cascas de árvore na fogueira para intensificar a fumaça. A névoa espessa se espalhava ao redor do local, afastando mosquitos e outros insetos indesejáveis. Além disso, esfreguei folhas e galhos de pimentinha-de-macaco (Xylopia aromatica) pelo corpo, confiando no cheiro picante para repelir as criaturas da floresta. O costume, aprendido com os anciãos da tribo, funcionava como uma barreira natural entre mim e os incômodos noturnos.
Mas havia um incômodo que nem a fumaça conseguia afastar: o medo constante de ser observado por olhos invisíveis. O tipo de vigilância que não vem de animal, mas de algo mais antigo, mais profundo. Algo que julgava minhas intenções.
Na manhã seguinte, já me sentindo um pouco melhor, comi o restante do peixe que havia assado no dia anterior e decidi seguir viagem. Não fazia ideia de qual direção tomar. O mundo ao meu redor era um labirinto verde sem trilhas evidentes. Então, em um impulso misturado de fé e lógica, joguei uma pedra pontuda para o alto, comprometido a seguir na direção em que ela apontasse ao cair.
Alguns minutos depois, avistei uma imponente castanheira-do-pará. Seus galhos robustos guardavam preciosidades, e sem hesitar, colhi uma boa quantidade de frutos. Comi ali mesmo, saboreando o gosto forte das castanhas, e guardei o restante em meu tipiti, prevendo os dias que ainda viriam pela frente.
Aquelas sementes, pequenas em aparência, mas carregadas de energia, me forneceram o vigor necessário para continuar a longa caminhada. Finalizei minha refeição com um bicho-preguiça, capturado sem grande esforço ao escalar uma árvore. Antes de abatê-lo, hesitei. Seus olhos calmos pareciam implorar por misericórdia. Mas minha fome não era simbólica. Era real. Pedi perdão ao animal, e só então o fiz.
Cerca de uma hora depois, surpreendi-me ao reconhecer o lugar exato onde a onça-preta atacara e matara meu padrasto, Toriba. Com o pouco senso de direção que me restava, não fazia sentido ter voltado àquele ponto. Mas lá estava eu, trêmulo, tomado pelo receio de que o felino surgisse novamente para proteger o tal tesouro escondido. Como se eu quisesse tomá-lo, o que definitivamente não era o caso. Tudo o que desejava naquele momento era retornar à minha aldeia.
Romance histórico
Amália
Rio de Janeiro, 1838. Amália nasceu escrava, mas carrega um segredo: é filha biológica de um homem branco que a amou em silêncio, sem nunca poder reconhecê-la. Vendida para a Fazenda Steiermark, encontra em seu novo senhor, Hans Kellner Pereira, um homem que enxerga nela muito mais do que uma escrava. Entre olhares discretos e uma paixão que desafia as convenções do Brasil Imperial, Amália e Hans descobrirão que a liberdade pode assumir muitas formas — e que algumas correntes não são feitas de ferro, mas de medo, tradição e silêncio.
Era 17 de abril de 1838. Manuel Nunes da Costa acordou antes do amanhecer, como era seu costume há décadas. Aos setenta e dois anos, cada movimento do corpo lhe custava um esforço que a juventude jamais conhecera. Acendeu a lamparina ao lado da cama e observou, pela janela, a escuridão que ainda cobria a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Engenho Novo. Em poucos dias, aquela vista não mais lhe pertenceria.
A decisão de vender a chácara e mudar-se para Sepetiba, onde o filho o aguardava, não fora sua. Antônio insistira por meses, argumentando que um homem de sua idade não deveria viver sozinho, cuidado apenas por escravos. Manuel sabia, porém, que havia outras razões por trás da insistência do filho. Razões que tinham nome e rosto: Amália.
Lavou o rosto na bacia de porcelana que Benedita trouxera para seu quarto na última noite que passaram juntos, tantos anos atrás. A lembrança da africana ainda lhe aquecia o peito com uma mistura de culpa e saudade. Fora após a morte de sua esposa que buscara consolo nos braços daquela mulher de olhos profundos como o oceano que ela atravessara acorrentada. E Amália nascera daquelas noites de solidão compartilhada.
Na cozinha, ela já o esperava. Sempre acordava antes dele, por mais cedo que fosse. A luz fraca da lamparina brincava nos contornos de seu rosto, e Manuel sentiu o coração apertar. Como negá-la? Os olhos amendoados, a cor da pele como mel dourado, os traços delicados — tudo nela gritava sua paternidade. Aos vinte e dois anos, Amália ainda se movia pela cozinha com a mesma leveza silenciosa que aprendera a cultivar desde criança. Antônio vira isso desde sempre, e o rancor crescera junto com a menina.
— Bom dia, senhor — cumprimentou Amália, servindo-lhe o leite adoçado com garapa e as frutas cristalizadas que ele apreciava.
Manuel comeu em silêncio, adiando o inevitável. Quando terminou, respirou fundo.
— Amália, sente-se aqui ao meu lado.
Ela obedeceu, as mãos cruzadas no colo, o corpo tenso de apreensão.
— Vendi você, Adolfo, Felizardo e a filha dele para o filho de um amigo meu, da Freguesia de São Gonçalo — começou ele, evitando seus olhos. — O pai dele, Joaquim Porto Pereira, morreu há nove anos. Foi meu amigo por décadas. Se há uma coisa que o filho herdou do velho foi a compaixão para com seus escravos. Foi por este motivo que escolhi Hans Kellner Pereira. Você porque... — hesitou — porque merece um lugar onde seja tratada com dignidade. Felizardo porque foi meu mais fiel companheiro por tantos anos. A menina por ser filha dele. E Adolfo... — fez uma pausa, percebendo o rubor que subiu ao rosto dela — para que você não fique longe do seu homem. Sim, eu sei. Há muito tempo que sei.
Amália mordeu o lábio inferior, lutando contra as lágrimas.
— Eu lhe agradeço imensamente pela sua preocupação, mas... eu ficaria mais feliz se nos levasse consigo para Sepetiba.
— Não posso fazer isso — a voz de Manuel endureceu, não pela raiva, mas pela dor de ter que recusar. — Meu filho Antônio não suporta sua presença. Ele sabe que você nasceu das noites que passei com sua mãe quando minha esposa faleceu. Sua cor não deixa dúvidas sobre quem é seu pai. E ele... ele não consegue perdoar isso.
As palavras pairaram entre eles como uma sentença irrevogável. Amália permaneceu imóvel, processando a confirmação que sempre soubera mas nunca ouvira: ele reconhecia ser seu pai, ainda que jamais pudesse assumi-la publicamente.
Manuel levantou-se com esforço, apoiando-se na mesa. Não podia prolongar aquilo. Já recebera o pagamento de Hans, já dera sua palavra, tendo ele mesmo viajado até São Gonçalo, semanas antes, para fechar o negócio pessoalmente com o rapaz. E, mais importante, não confiava em si mesmo para não ceder às lágrimas que sentiu arder nos olhos.
— O carro de boi virá buscá-los ao amanhecer depois de amanhã. Alzira será boa com você, eu me certifiquei disso. E Hans... Hans é diferente. Você verá.
Saiu da cozinha sem olhar para trás, o bastão batendo no chão de madeira a cada passo. Amália ficou ali sentada, observando a porta pela qual ele desaparecera. Pela primeira vez na vida, ele admitira. "Sua cor não deixa dúvidas sobre quem é seu pai."
As lágrimas finalmente caíram, molhando o turbante branco que cobria seus cabelos.
Os dois dias seguintes passaram em um borrão de preparativos e despedidas não ditas. Manuel evitou Amália, enterrando-se em papéis e contas. Ela cumpriu suas obrigações com eficiência mecânica, o coração pesado. À noite, encontrava-se com Adolfo atrás do celeiro, e ali, nos braços dele, permitia-se chorar.
— Vai dar tudo certo — sussurrava ele, acariciando seus cabelos. — Vamos ficar juntos. É isso que importa.
Mas Amália não tinha tanta certeza. As palavras finais de Alberto, o feitor vil que sempre a observara com olhos lascivos, ecoavam em sua mente: "Prepare-se para o que a espera naquela fazenda."
Na madrugada da partida, Amália despertou antes do sol nascer. Arrumou seus poucos pertences no baú — algumas mudas de roupa, o turbante que fora de sua mãe, um pedaço de tecido bordado que Manuel lhe dera anos atrás, único presente que guardara. Esperou ouvir passos no corredor, esperou que seu pai viesse se despedir.
Mas quando o carro de boi chegou e Alberto gritou seu nome, Manuel ainda não aparecera.
Felizardo e Adolfo carregaram seu baú. A pequena Rosa, filha de Felizardo de apenas oito anos, segurou sua mão com confiança. E Amália olhou uma última vez para a janela do quarto de Manuel.
A cortina se moveu. Por um instante, ela viu seu vulto ali, observando. Seus olhos se encontraram através da distância e da penumbra. Manuel levantou a mão, um gesto pequeno, quase imperceptível. Um adeus. Ou talvez um pedido de perdão.
Amália subiu no carro, o coração partido. Não chorou. Não na frente de Alberto, que a observava com um sorriso cruel.
— Adeus — disse ele, quando o carro começou a se mover. — Não vou dizer "adeus princesa" porque você perdeu seu reinado. Prepare-se para o que a espera naquela fazenda.
Um arrepio percorreu a espinha de Amália. Mas quando olhou para trás uma última vez, viu a cortina cair de volta no lugar. E soube que, de alguma forma torta e silenciosa, Manuel a amava. À sua maneira limitada, dentro das correntes que ele próprio forjara, ele a amava.
E isso, por ora, teria que ser suficiente.
O Mar e Novos Horizontes
A viagem foi longa e desconfortável. O carro de boi chacoalhava em cada buraco da estrada, e o sol de abril castigava sem piedade. Amália manteve-se em silêncio a maior parte do tempo, observando a paisagem que se transformava ao redor. Pequenas chácaras davam lugar a casas mais modestas, depois a áreas mais urbanizadas à medida que se aproximavam do centro do Rio de Janeiro.
Adolfo tentou algumas vezes puxar conversa, mas a presença de Felizardo e da pequena Rosa o inibia. O velho escravo, que servira Manuel por quatro décadas, mantinha o olhar fixo no horizonte, os pensamentos impossíveis de decifrar. Rosa, por sua vez, parecia a única genuinamente animada, apontando para tudo que via com a curiosidade de uma criança que raramente saía da chácara.
— Olha, pai! Quantas pessoas! — exclamou ela quando passaram por uma rua mais movimentada.
— São muitas mesmo, pequena — respondeu Felizardo com suavidade, passando a mão nos cabelos crespos da filha.
Quando chegaram ao Paço Imperial, Amália prendeu a respiração. Ali, estendendo-se até onde seus olhos alcançavam, estava o mar. Sua mãe falara dele tantas vezes — o oceano que ela atravessara em correntes, mas que também significava liberdade, imensidão, possibilidades infinitas. As águas cintilavam sob o sol, e Amália sentiu algo se expandir dentro de seu peito.
— É ainda mais bonito do que imaginei — murmurou.
Adolfo aproximou-se dela, fingindo ajustar a carga.
— Um dia vamos nos banhar nessas águas juntos — sussurrou ele. — Prometo.
Ela lhe lançou um olhar de aviso, mas não conseguiu conter um pequeno sorriso. A esperança, descobriu, era difícil de matar completamente.
O porto fervilhava de atividade. Escravos carregavam sacos e caixotes, comerciantes gritavam ofertas, marinheiros preparavam embarcações. O condutor do carro os guiou até uma das barcas a vapor que faziam a travessia para Niterói. Implementadas havia apenas três anos, essas embarcações modernas eram motivo de orgulho para a cidade.
A travessia da baía foi a experiência mais extraordinária da vida de Amália. O vento salgado açoitava seu rosto, trazendo consigo o cheiro do mar e da liberdade. Ela observou as ondas, os peixes que ocasionalmente saltavam, as aves marinhas que planavam sobre as águas. Por alguns momentos, esqueceu-se de sua condição, de seu destino incerto, de tudo exceto daquela vastidão azul.
— O que está pensando? — perguntou Adolfo, posicionando-se ao seu lado no parapeito.
— Que o mar não pertence a ninguém — respondeu ela. — Que essas águas são livres de uma forma que nós nunca seremos.
Ele não respondeu. Não havia resposta possível.
Do outro lado da baía, uma charrete os aguardava. O novo condutor era um homem taciturno que mal lhes dirigiu a palavra. A estrada para São Gonçalo era mais rústica, serpenteando entre morros e áreas de mata fechada. Passaram por engenhos de açúcar, pequenas capelas, outras fazendas.
Foram quase duas horas de viagem até que avistassem a entrada da Fazenda Steiermark. O portão de madeira trabalhada ostentava o nome em letras de ferro, e além dele estendia-se uma propriedade que parecia não ter fim. Campos cultivados, pastos com gado, um córrego que cortava a paisagem, e ao longe, no alto de uma colina suave, a casa grande — uma construção imponente de dois andares, com varandas amplas e janelas numerosas.
À beira do córrego, algumas escravas lavavam panelas e roupas. Elas pararam o trabalho para observar os recém-chegados, cochichando entre si. Amália sentiu o peso de seus olhares avaliativos.
A charrete parou em frente à casa grande. Imediatamente, uma figura imponente surgiu da porta principal — uma mulher negra, corpulenta, de seios fartos e postura autoritária. Seus olhos percorreram o grupo com a precisão de quem avalia mercadoria.
— Vamos, vamos... vamos descer daí... que moleza! — ordenou ela com voz forte. — Ah, aqui irão aprender a ser mais ativos. Nesta fazenda não tem moleza não.
Amália desceu com dificuldade, as pernas dormentes após tantas horas sentada.
— Estamos famintos — disse ela, surpreendendo-se com a própria coragem. — Não comemos nada o dia todo. Nem o desjejum. Estou a ponto de desmaiar.
A mulher a examinou de cima a baixo, uma sobrancelha erguida.
— Patrãozinho mandou deixar um prato à mesa servido para a senhorita — disse ela com uma ponta de ironia na palavra "senhorita". — Já está frio e não vou mandar esquentar. Vocês demoraram muito para chegar. — Virou-se para os outros. — O capataz vai mostrar a vocês onde irão comer.
Um homem negro alto, de aparência séria mas não cruel, surgiu e acenou para Adolfo, Felizardo e Rosa. Eles hesitaram, olhando para Amália.
— Vão — disse ela, tentando soar confiante. — Nos vemos depois.
A governanta — pois era óbvio que se tratava dela — pegou Amália pelo braço com firmeza, não com violência, mas com autoridade inquestionável.
— Venha. E tire essa cara de assustada. Aqui ninguém vai te comer.
A casa por dentro era ainda mais impressionante que por fora. Pisos de madeira encerada, móveis de jacarandá, cortinas de veludo nas janelas. Amália nunca vira tanta riqueza concentrada. A chácara de Manuel era confortável, mas aquilo... aquilo era opulência.
Na copa, um prato a esperava — arroz, feijão, carne assada, legumes cozidos. Sua barriga roncou ao ver a comida. Sentou-se e começou a comer com voracidade mal disfarçada, consciente dos olhos da governanta sobre ela.
— Devagar, menina. Vai passar mal — aconselhou a mulher, mas havia um toque de amusamento em sua voz.
Amália tentou desacelerar, mas a fome era demais. Quando terminou, uma sonolência profunda a tomou — parte pelo cansaço da viagem, parte pela barriga cheia após um dia inteiro em jejum.
Foi então que ouviu vozes lá fora. Vozes masculinas. Uma delas agradecer, outra responder.
— O senhor está me aguardando?
— Sim. E o que o senhor deseja?
— Receber meu pagamento, senhor.
Houve uma breve negociação, seguida de passos que se aproximavam da casa. Amália endireitou-se na cadeira, o coração acelerado. Sabia que era ele. Seu novo dono. O homem que determinaria como seria o resto de sua vida.
A porta se abriu, e Hans Kellner Pereira entrou na copa.
Primeiras Impressões
Hans Kellner Pereira não era o que Amália esperava.
Tinha cerca de trinta anos, talvez alguns a mais, com cabelos loiros que lembravam ouro ao sol e olhos de um azul tão claro que pareciam quase translúcidos. A barba loira, bem aparada mas rala, não disfarçava o rosto jovem e os traços regulares. Era alto — tão alto quanto Manuel — mas não tinha a magreza do velho. Seus ombros eram largos, o corpo bem proporcionado sob o traje impecavelmente cortado: calças de linho bege, camisa branca com discretos bordados, colete cinza e paletó azul-marinho.
Mas o que mais surpreendeu Amália foi seu sorriso. Quando seus olhos pousaram sobre ela, ele sorriu — um sorriso genuíno, caloroso, que chegou aos olhos e os fez brilhar com algo que parecia... bondade?
— Você deve ser a famosa Amália — disse ele, removendo o chapéu e revelando completamente os cabelos louros que refletiam a luz da tarde. — Me foi muito bem recomendada pelo senhor Manuel, sabia? Gostou da comida?
Amália levantou-se imediatamente, abaixando o olhar como fora ensinada a fazer.
— Sim, meu senhor.
— Deseja comer mais?
— Não, meu senhor.
Hans aproximou-se, e ela percebeu que ele cheirava a algo fresco e limpo — água de colônia misturada com o cheiro de cavalo e ar livre. Não era desagradável. Muito pelo contrário.
— Você é ainda mais bonita do que ele me descreveu — disse Hans, e algo no tom de sua voz fez Amália levantar os olhos, surpresa. Não havia lascívia ali, apenas... apreciação. Como quem admira uma obra de arte. — Sabia que ele foi amigo íntimo de meu falecido pai? Cresci ouvindo histórias sobre as aventuras dos dois em Portugal, antes de meu pai seguir para Viena, onde conheceu minha mãe, Margarethe, e de os dois, já casados, virem para o Brasil. Foi ele quem batizou estas terras de Steiermark, em homenagem à província natal dela --- um jeito de fazê-la sentir-se em casa, tão longe da Áustria.
— Sim, meu senhor.
Hans riu, um som baixo e agradável.
— Não precisa terminar todas as frases com "meu senhor". Aqui não nos atemos a muitas formalidades. Alzira — ele gesticulou para a governanta, que observava tudo com olhos atentos — irá lhe mostrar os trabalhos que ficará incumbida diariamente nesta casa. Qualquer observação ou reclamação que tenha a fazer, venha diretamente a mim. Combinado?
Amália piscou, processando. Diretamente a ele? Escravos não se dirigiam aos senhores com reclamações. Escravos obedeciam e sofriam em silêncio.
— Sim... — hesitou, depois acrescentou, testando — senhor Hans.
Ele sorriu novamente, aprovando.
Romance contemporâneo
Crystal
Crystal Vasconcelos tinha nove anos quando uma complicação da meningite roubou sua visão. A vida de Fabrício Salles muda no dia em que a conhece num playground na Barra da Tijuca — e o que começa como um encontro casual se transforma num amor construído sobre confiança, muito além da aparência. Mas quando um avanço da medicina devolve a Crystal a possibilidade de enxergar, o casal enfrenta uma pergunta que jamais imaginou precisar responder: será que um amor que nasceu sem depender da visão permanecerá o mesmo?
Dizem que existem dois tipos de amor: o que nasce pelos olhos e o que nasce apesar deles. Esta é a história de um amor que nasceu do segundo jeito, cresceu como poucos, e um dia, sem avisar, teve que aprender a nascer de novo — desta vez, pelos olhos também. Antes de contar como Fabrício e Crystal se conheceram, é preciso voltar dez anos no tempo, a uma noite de junho, quando uma menina de nove anos perdeu para sempre a única coisa que, até então, nunca soubera valorizar: a luz.
Crystal Vasconcelos era uma criança comum. Gostava de pular corda na garagem do prédio, de desenhar cavalos tortos com giz de cera e de brigar com o irmão mais velho por causa do controle remoto da televisão. Tinha os olhos mais claros da família, um tom de azul tão cristalino que a avó, ainda na maternidade, disse que aquela menina parecia ter engolido um pedaço de céu. Foi por causa desses olhos que o pai, Osvaldo, decidiu registrá-la como Crystal, ignorando as reclamações da cunhada de que nome estrangeiro não pegava bem em certidão de nascimento brasileira.
Na sexta-feira em que tudo mudou, Crystal acordou com dor de cabeça. Regina, a mãe, achou que fosse coisa de criança que dormiu mal, deu um comprimido e mandou para a escola. À tarde, a dor tinha virado febre. À noite, a febre tinha virado delírio. Osvaldo dirigiu como nunca havia dirigido na vida, cortando sinais vermelhos com a filha desacordada no colo da mãe, no banco de trás, enquanto Regina repetia baixinho, feito reza, o nome da menina.
O diagnóstico veio depois de dois dias de exames, líquor, tomografias e médicos sussurrando em corredores: meningite viral. Um tipo raro, agressivo, que tinha decidido atacar exatamente onde deixaria a marca mais cruel — o nervo óptico dos dois olhos. Quando a febre finalmente cedeu e Crystal abriu os olhos de novo, ela sorriu para a mãe, aliviada por ter acordado. Regina precisou sair do quarto para chorar no corredor, porque só ela e o marido, até aquele momento, sabiam de uma coisa que a filha ainda não sabia: Crystal tinha acabado de acordar para a escuridão.
— Mamãe, apaga essa luz, por favor, minha cabeça ainda dói — foi o que ela disse, sem entender que a luz já estava apagada para ela havia horas.
Os médicos foram sinceros, do jeito duro que a medicina às vezes precisa ser. Uma complicação raríssima da meningite havia provocado uma neurite óptica bilateral irreversível. O processo inflamatório destruíra as fibras dos dois nervos ópticos que levavam a imagem dos olhos até o cérebro. Os olhos em si continuavam intactos, saudáveis, bonitos como sempre foram — por isso, para quem olhasse para Crystal, era impossível adivinhar que aquele azul de cristal não enxergava mais nada. O problema não estava na vidraça, e sim no fio que levava a luz lá para dentro. E aquele fio, disseram, com toda a tecnologia disponível naquele ano, não havia tratamento capaz de restaurar aqueles nervos.
Foram meses difíceis. Crystal esbarrava em móveis que jurava conhecer de cor, chorava escondida no banheiro para não preocupar os pais, e um dia perguntou ao irmão, com uma calma que doeu mais do que qualquer choro, se as pessoas paravam de ser bonitas quando ficavam cegas. Ele não soube responder. Só a abraçou, e os dois ficaram ali, sentados no chão do quarto dela, por um tempo que nenhum relógio marcou.
Mas Crystal era teimosa — teimosia que puxou do pai — e teimosia, com o tempo, quando bem direcionada, vira força. Aprendeu braile antes dos outros da sua turma na escola especial. Aprendeu a reconhecer as pessoas pelo som dos passos, pelo cheiro do perfume, pela temperatura da voz. Aprendeu, sobretudo, a desconfiar de qualquer elogio, porque cedo descobriu que existiam pessoas que se aproximavam por pena, e pena era a única coisa no mundo que ela recusava com unhas e dentes.
Os anos passaram do jeito que anos passam: devagar quando se está por dentro deles, rápido demais quando se olha para trás. A menina de nove anos que aprendeu a viver no escuro se tornou uma moça de dezenove, com um talento inesperado para o piano — as mãos, dizia a professora, tinham memória própria — e um jeito de rir que continuava sendo, segundo todos que a conheciam, a coisa mais bonita daquele prédio na Barra da Tijuca. Uma moça que já havia se acostumado à ideia de que o amor, se um dia chegasse até ela, teria que chegar sem pedir licença aos olhos.
O que ninguém sabia — nem ela, nem os pais, nem o rapaz que ainda nem havia se mudado para o bloco vizinho — era que a vida, generosa e cruel na mesma medida, estava prestes a lhe dar duas coisas raras demais para caber numa vida só: um amor verdadeiro, e, anos mais tarde, a luz de volta. E que entre uma coisa e outra haveria de existir uma prova que nenhum manual de casamento ensina a enfrentar — a prova de amar alguém antes mesmo de saber o rosto dele, e a prova, ainda mais difícil, de continuar amando depois de finalmente vê-lo.
Esta é a história de Fabrício e Crystal. Uma história que começa num playground comum, de um prédio comum, num fim de tarde comum — e que prova, capítulo após capítulo, que não existe nada de comum no amor que decide ficar, mesmo quando o mundo dá todos os motivos para ir embora.
O Primeiro Encontro
O caminhão de mudança ainda estava estacionado na garagem quando Fabrício decidiu que já tinha carregado caixas suficientes para o dia. Subiu ao apartamento, pegou uma toalha, e desceu de novo, dessa vez sem pressa nenhuma, rumo à área de lazer do condomínio. Precisava conhecer o novo endereço com calma, sem a supervisão da mãe gritando "cuidado com o abajur" a cada dois minutos.
— Vai dar uma volta, meu filho? — perguntou Denise, vendo o filho atravessar a sala coberta de caixas.
— Vou espiar o prédio, mãe. Já ajudei o suficiente por hoje.
— Você ajudou meia hora. O resto quem carregou foi seu pai e o Nestor.
— Meia hora de qualidade, mãe. Qualidade.
Sérgio Salles, o pai, riu de dentro do quarto principal, onde tentava decidir em que parede entraria a cama de casal.
— Deixa ele ir, Denise. Esse prédio tem uma das melhores áreas de lazer da Barra. Vamos morar aqui o resto da vida, ele tem tempo de sobra pra carregar caixa.
Fabrício não precisou ouvir duas vezes. Desceu pelo elevador social, atravessou o hall decorado com plantas artificiais bem cuidadas demais para serem reais, e saiu para o quintal do condomínio — um gramado generoso, piscina, quadra poliesportiva, um espaço gourmet ainda vazio àquela hora, e, num canto sombreado por duas sibipirunas, um playground de madeira que parecia ter sido tirado de revista de decoração.
Era um fim de tarde de abril, o sol já perdendo força, o calor da Barra da Tijuca finalmente dando trégua. Fabrício se sentou num banco de frente para a piscina, imaginando como seria acordar todos os dias enxergando aquele gramado verde pela janela, quando ouviu uma risada de criança e, junto dela, uma voz de mulher, calma e divertida.
— Alice, se você jogar areia mais uma vez na escorregador eu vou contar pra sua mãe que você não quis tomar banho hoje.
— Eu tomei banho, tia Crystal!
— Tia emprestada, você quer dizer. E além disso, eu sei quando você está mentindo. Sua voz muda.
Fabrício olhou na direção da voz e viu, sentada num banco próximo ao playground, uma moça loira, talvez da idade dele, ou um pouco mais nova, com um vestido leve e os cabelos presos displicentemente. Ao lado dela, encostada no banco, havia uma bengala branca, dobrada em três partes. A menina, uma criança de uns seis anos, corria entre os brinquedos, e a moça acompanhava cada movimento pelo som, virando o rosto exatamente na direção de onde vinha o barulho, como se enxergasse através dos ouvidos.
Ele entendeu, então, num segundo, duas coisas ao mesmo tempo: que aquela moça era cega, e que ele não conseguia parar de olhar para ela.
Ficou ali, hesitando, se aquilo seria intrometido ou não, até que a menina, num movimento brusco, tropeçou na borda de madeira do playground e caiu sentada, sem se machucar, mas assustada o suficiente para gritar.
— Alice! — Crystal já estava de pé, com a mão estendida à frente, tateando o ar em direção ao som do choro, mas ainda longe demais para alcançar a menina.
Fabrício levantou no mesmo instante e chegou primeiro, pegando a criança no colo antes que o choro virasse escândalo.
— Ei, campeã, calma. Você só caiu de bunda na areia, olha, nem doeu tanto assim.
A menina, surpresa com a voz estranha, parou de chorar na hora, mais por curiosidade do que por consolo.
— Quem é você?
— Sou o Fabrício. Acabei de me mudar pra cá.
Crystal, que tinha alcançado os dois logo depois, esticou os braços, e Fabrício, sem precisar de instrução, colocou a menina gentilmente nas mãos dela.
— Alice, você está bem? — perguntou Crystal, apalpando rapidamente os bracinhos e o rosto da menina, verificando se havia algum arranhão.
— Estou. Um moço me pegou.
— Um moço muito rápido, pelo visto — disse Crystal, virando o rosto na direção de Fabrício, sem mirar exatamente nos olhos dele, mas perto o suficiente para parecer que sim. — Obrigada. Eu ia demorar mais alguns segundos pra chegar até ela.
— Imagina. Só fiz o que qualquer um faria.
— Nem todo mundo faria. Muita gente ia ficar olhando, sem saber se ajuda ou não, com medo de fazer feio.
— Eu sou movido a impulso, não a medo — respondeu ele, sorrindo, embora soubesse que ela não pudesse ver o sorriso. — Fabrício Salles. Acabei de me mudar pro sétimo andar, bloco dois.
— Crystal Vasconcelos. Moro no décimo, bloco um, desde que nasci, praticamente.
— Crystal. Bonito nome.
— Diz todo mundo. Foi por causa dos meus olhos, minha avó achava que eram cor de cristal. Ironia do destino, né? Batizaram uma menina que ainda enxergava com o nome dos próprios olhos, e hoje os olhos continuam do mesmo jeito, só que não servem mais pra nada.
Ela falou aquilo sem tristeza na voz, quase como uma piada que já tinha contado tantas vezes que perdera a capacidade de doer. Fabrício, no entanto, sentiu um aperto estranho no peito, uma mistura de admiração e vontade de dizer algo à altura, mas nada lhe veio à cabeça além da verdade.
— Bom, eu não sei que cor exatamente é cristal, mas seus olhos são muito bonitos. Isso eu posso garantir.
— Você está falando isso porque descobriu que eu não vou saber se está mentindo.
— Estou falando porque é verdade, e porque, além disso, você ia descobrir que eu estava mentindo. Aposto que você percebe mentira de longe.
Crystal riu, uma risada curta, surpresa, como se não esperasse aquela resposta.
— Percebo, sim. É quase um superpoder. Perco a visão, ganho um detector de mentiras embutido.
A menina, entediada com a conversa de adultos, já tinha voltado a correr para o escorregador, e Crystal, atenta ao som dos passinhos se afastando, gritou sem alterar muito o tom:
— Alice, fica perto, viu? Não sai do meu alcance de ouvido.
— Tá bom, tia!
Fabrício se sentou de novo no banco, e, sem perguntar, Crystal se sentou ao lado, guiando-se pela voz dele para calcular a distância certa.
— Posso te fazer uma pergunta que talvez seja chata? — disse ele.
— Pode. Já ouvi de tudo.
— Você mora aqui desde que nasceu. Como é isso, morar num lugar a vida inteira e conhecer ele só... de ouvido, de cheiro, de toque?
Ela não pareceu incomodada com a pergunta. Pelo contrário, virou o rosto na direção dele com um interesse genuíno.
— Não nasci cega. Fiquei cega aos nove anos, por causa de uma doença. Antes disso eu enxergava tudo isso aqui — fez um gesto amplo com a mão, indicando o playground, a piscina, o prédio inteiro. — Então, de certa forma, eu tenho um mapa guardado na cabeça de como era esse lugar, e todo dia eu atualizo esse mapa com o que ouço, o que sinto debaixo dos pés, o cheiro da grama depois que cortam. É como morar em duas versões do mesmo prédio ao mesmo tempo. Uma que eu vi, e uma que eu imagino que continua sendo mais ou menos igual.
— Isso é... — Fabrício procurou a palavra certa e não achou nenhuma que não soasse piegas. — Isso é incrível, sinceramente.
— É cansativo, às vezes. Mas a gente se acostuma. — Ela deu de ombros, um gesto leve, sem drama. — E você, o que faz? Além de salvar crianças caídas em playground, digo.
— Estudo Administração, na PUC. E trabalho meio período na imobiliária do meu pai, ali perto, na Avenida das Américas. Foi ele que insistiu pra gente comprar apartamento nesse prédio, disse que ia valorizar.
— E vai?
— Já valorizou. Acabei de conhecer uma vizinha interessante.
Crystal riu de novo, dessa vez balançando a cabeça, como quem reconhece um cantada e decide, só por educação, não repreender.
— Você é rápido, hein, Fabrício Salles.
— Só quando vale a pena.
Ficaram ali mais alguns minutos, conversando sobre coisas pequenas — o calor daquele mês de abril, o barulho da obra do prédio vizinho, o quanto Alice era elétrica demais para uma criança de seis anos — até que uma mulher, visivelmente a mãe da menina, apareceu no portão da área de lazer, chamando pela filha.
— Preciso ir — disse Crystal, se levantando e apanhando a bengala com um movimento automático, quase invisível de tão treinado. — Foi um prazer te conhecer, vizinho novo.
— O prazer foi todo meu. Posso... te ver de novo por aqui?
— Moro aqui, lembra? É bem provável.
— Não é isso que eu quis dizer.
Ela sorriu, um sorriso que ela mesma pareceu tentar disfarçar e não conseguiu.
— Eu sei o que você quis dizer. Vou pensar no assunto.
E foi embora, guiando-se pela bengala com uma segurança que impressionou Fabrício mais do que qualquer coisa que tivesse visto naquele dia — mais até do que o próprio apartamento novo, com sua vista para o mar que os pais haviam pagado tão caro para ter. Ele ficou parado no meio do playground vazio, o barulho da cidade voltando aos poucos ao seu redor, pensando que talvez, só talvez, aquela mudança fosse a melhor decisão que a família já tinha tomado.
Quando subiu para o apartamento, ainda em caixas, a mãe percebeu algo diferente no rosto do filho.
— O que foi? Você está com uma cara de bobo.
— Nada, mãe. Só conheci uma vizinha.
— Só isso?
— Só isso — mentiu ele, sabendo, pela primeira vez na vida, o que era sentir um frio na barriga por causa de alguém que ele mal conhecia.
Não sabia ainda o nome exato daquilo que sentia. Sabia apenas que, de alguma forma, precisava descer de novo àquele playground no dia seguinte, e no outro, e em todos os outros que fossem necessários.
A Primeira Visita
No dia seguinte, Fabrício desceu ao playground às cinco da tarde, o mesmo horário do encontro anterior, com a discrição de quem finge que está ali por acaso. Crystal não apareceu. No terceiro dia, também não. Ele já estava convencido de que tinha imaginado alguma intimidade que não existia, quando, na quinta tarde, ouviu a voz dela antes de vê-la, conversando com o porteiro no hall de entrada da área de lazer.
— Seu Nestor, hoje a Alice não vem, a mãe dela viajou. Vim só tomar um ar.
— A senhorita sempre é bem-vinda, Dona Crystal.
Fabrício, que estava sentado no mesmo banco de sempre fingindo mexer no celular, sentiu o coração acelerar de um jeito que achou até ridículo para um rapaz de vinte anos.
— Achei que tinha sumido do mapa — disse ele, assim que ela se aproximou o suficiente para ouvir.
— Fabrício? — Ela sorriu, reconhecendo a voz imediatamente. — Não sumi. Fiquei enrolada com uma prova de teoria musical. Estou fazendo um curso de piano por um método adaptado, e essa semana foi punição total.
— Piano. Não sabia. Toca bem?
— Modéstia à parte, toco muito bem. Quer ouvir?
— Agora?
— Não aqui, satanás, eu não ando com piano debaixo do braço. Lá em casa. Se você tiver coragem de subir e aguentar meus pais te interrogando.
Foi assim, sem cerimônia, que Fabrício recebeu o primeiro convite para conhecer o apartamento dos Vasconcelos, no décimo andar do bloco um. Subiram juntos, ele guiando-a pelo cotovelo com um cuidado que ela mesma corrigiu no elevador.
— Não precisa segurar tão forte, eu não vou fugir.
— Desculpa. Não sei bem qual é o jeito certo de ajudar.
— O jeito certo é deixar eu segurar o seu braço, não o contrário. Assim.
Ela pousou a mão levemente no antebraço dele, e Fabrício passou o resto do trajeto tentando andar no ritmo mais natural possível, com medo de tropeçar e estragar tudo.
A porta do apartamento foi aberta por Regina, uma mulher elegante, de cabelos claros presos num coque simples, que olhou para o rapaz ao lado da filha com uma curiosidade que não escondia nenhuma desconfiança.
— Mãe, esse é o Fabrício. Se mudou pro prédio semana passada.
— Muito prazer, Fabrício — disse Regina, estendendo a mão. — Crystal comentou que conheceu um vizinho novo, mas não disse que ia trazer o vizinho novo pra dentro de casa no mesmo mês.
— Mãe...
— Estou brincando, filha. Entrem, entrem. Osvaldo, vem aqui ver quem chegou!
Osvaldo Vasconcelos apareceu do escritório, um homem de porte firme, olhar direto, que apertou a mão de Fabrício com força suficiente para deixar claro, sem dizer uma palavra, que estava avaliando cada detalhe daquele cumprimento.
— Fabrício Salles. Filho do Sérgio Salles, da imobiliária?
— Isso mesmo, senhor. O senhor conhece meu pai?
— Conheço de nome. Ele vendeu dois apartamentos aqui no condomínio ano passado, se não me engano. Homem sério, pelo que dizem no prédio.
— É, sim, senhor. Bem exigente com honestidade. Diz que corretor que engana cliente uma vez perde reputação pra sempre.
Osvaldo assentiu, satisfeito com a resposta, e Fabrício entendeu, ali mesmo, que tinha acabado de passar no primeiro dos muitos testes silenciosos que ainda viriam.
Crystal foi até o piano de cauda que ocupava um canto generoso da sala — instrumento que Fabrício reparou ser bem mais do que um simples hobby de adolescente — e tocou uma peça curta, algo suave e melancólico que ele não soube identificar, mas que o deixou em silêncio absoluto até a última nota.
— E então? — perguntou ela, virando o rosto na direção da plateia.
— Eu não tenho nem palavra pra isso. Foi lindo.
— Ele parece sincero, mãe. Geralmente as pessoas exageram no elogio só porque sabem que eu não vou ver a cara de dúvida delas.
— Eu não consigo mentir bem, é praticamente um defeito de fábrica — disse Fabrício, e Regina riu, pela primeira vez desde que ele havia entrado.
A partir daquele dia, as visitas se tornaram rotina. Fabrício descobriu que conseguia arrumar desculpas para subir ao décimo andar quase todos os dias: levava um bolo que a mãe tinha feito, emprestava um livro em áudio que baixara para Crystal, ou simplesmente aparecia depois da faculdade, alegando que só queria "dar um oi". Osvaldo, que a princípio observava tudo com o rigor de quem media cada visita como quem mede um contrato, foi, aos poucos, relaxando a postura.
— Você sabe que ela já teve quem se aproximasse por pena, né? — disse ele, numa tarde em que os dois ficaram sozinhos na varanda, enquanto Crystal e Regina resolviam algo na cozinha. — Rapazes que achavam bonito namorar uma cega, sei lá, achavam que isso mostrava que tinham bom coração. Duraram pouco.
— Eu não sinto pena da Crystal, seu Osvaldo. Sinto o contrário. Às vezes acho que ela é mais capaz do que eu em várias coisas.
— É por isso que estou deixando você subir todo santo dia. Se eu achasse que era pena, já tinha te barrado na portaria fazem duas semanas.
Fabrício riu, mas guardou aquela frase com o peso que ela merecia. Sabia que Osvaldo, discreto como era, tinha acabado de lhe dar uma espécie de bênção provisória.
Regina, por sua vez, era mais cautelosa. Não porque duvidasse do caráter do rapaz — bastava ver como a filha se iluminava quando ouvia os passos dele no corredor —, mas porque conhecia, mais do que o marido, o tamanho da dor que uma decepção poderia causar numa filha que já tinha sofrido tanto. Uma noite, enquanto lavavam a louça juntas, perguntou, sem rodeios:
— Você gosta mesmo dele, ou só gosta da ideia de ter alguém?
— Mãe, eu não sou tão desesperada assim.
— Não estou dizendo que é. Estou perguntando. Porque eu vejo você sorrindo de um jeito que não sorria há anos, e isso me deixa feliz e apavorada ao mesmo tempo.
Crystal secou as mãos na toalha, pensativa.
— Eu gosto de como ele fala comigo, mãe. Ele não fala mais devagar, não simplifica as frases, não segura minha mão sem eu pedir. Ele trata minha cegueira como um detalhe, não como o assunto principal. Isso é raro. Isso é... isso é bom.
Regina abraçou a filha por trás, o queixo apoiado no ombro dela.
— Então eu só peço uma coisa: tome cuidado com o seu coração, minha filha. Não porque eu desconfie dele. Porque eu sei o tamanho do que você é capaz de sentir, e quero que, se um dia doer, pelo menos você saiba que valeu a pena ter sentido.
Foi quase uma autorização disfarçada de aviso, e Crystal entendeu exatamente assim.
Nas semanas seguintes, Fabrício se tornou uma presença tão constante no apartamento dos Vasconcelos que Nestor, o porteiro, parou de anunciar sua chegada pelo interfone — simplesmente liberava a passagem, comentando com um sorriso que "o namorado da Crystal" tinha subido de novo. Ninguém, nem mesmo os dois, tinha oficializado nada ainda, mas todo o prédio, com aquela sensibilidade que só porteiro e vizinho de longa data possuem, já sabia o que estava para acontecer.
Numa dessas tardes, sentado ao lado dela no sofá, enquanto Regina cochilava na poltrona e um documentário tocava baixinho na televisão — mais para Crystal ouvir do que para alguém assistir —, Fabrício se pegou observando o perfil dela com uma atenção quase estudiosa: o jeito que a luz da tarde batia nos cabelos loiros, o modo como ela virava o rosto discretamente na direção de qualquer som novo, como se o mundo inteiro precisasse ser continuamente reconquistado pelos ouvidos.
— Você está me encarando — disse ela, de repente, sem abrir mais os olhos do que já estavam.
— Como você sabe disso?
— Sinto o silêncio mudar de jeito quando alguém está olhando pra mim com atenção. É diferente do silêncio de quem está distraído.
— Isso é assustador e incrível ao mesmo tempo.
— Bem-vindo à minha vida. E então, o que você estava pensando, encarando desse jeito?
Fabrício hesitou, mas decidiu, pela primeira vez desde que a conhecera, dizer exatamente o que sentia, sem calcular a resposta.
— Estava pensando que, faz duas semanas que a gente se conhece, e eu já não consigo imaginar um dia sem vir aqui te ver.
Crystal ficou em silêncio por um instante longo demais para ser confortável, e Fabrício já se arrependia da confissão quando ela finalmente respondeu, num sussurro que só ele podia ouvir.
— Eu também não consigo mais.
Foi a primeira vez, desde o dia do playground, que nenhum dos dois tentou disfarçar o que estava, claramente, deixando de ser apenas amizade.
Muito Além dos Olhos
Foi numa tarde de sábado, quando os pais de Crystal saíram para um almoço de aniversário de um primo distante, que Fabrício teve, pela primeira vez, a casa dos Vasconcelos praticamente só para os dois — com exceção da governanta, Dona Eunice, que fingia estar ocupada na cozinha, mas de vez em quando espiava a sala com a discrição de quem já tinha recebido instruções de Osvaldo para "ficar de olho, mas sem parecer".
Crystal preparava um suco de maracujá com uma destreza que impressionou Fabrício mais do que ele esperava. Cortava a fruta com precisão, media os ingredientes por peso e som — o líquido batendo no copo em um determinado tom indicava que estava quase cheio —, e organizava tudo de volta no lugar exato de onde havia tirado.
— Posso te ajudar? — perguntou ele, meio inútil, parado no batente da cozinha.
— Pode. Fica quieto e me deixa terminar sem tropeçar em você.
Ele riu e obedeceu, sentando-se num banco alto perto da bancada.
— Você faz tudo isso tão naturalmente que às vezes eu esqueço.
— Esquece o quê?
— Que você não enxerga.
Crystal parou o que estava fazendo por um segundo, o copo na mão, um sorriso pequeno se formando no canto da boca.
— Isso é o maior elogio que alguém já me fez, sabia? A maioria das pessoas faz questão de lembrar o tempo todo. Fala mais alto comigo, como se eu também fosse surda. Ou pergunta se eu preciso de ajuda pra tudo, até pra pegar um copo d'água.
— Eu percebi isso. No início até fiquei com medo de fazer igual, de errar de algum jeito.
Thriller policial
Efeito Spark
Daniel Cole é o investigador mais brilhante do FBI — capaz de enxergar conexões invisíveis onde todos veem apenas caos. O apelido, Spark, o acompanha em cada caso que parecia insolúvel. Mas quando um inimigo extraordinariamente inteligente começa a estudar cada movimento de sua unidade, Cole deixa de ser o caçador. Pela primeira vez, ele se torna a presa — e seu maior talento pode se transformar em sua maior vulnerabilidade.
Cedar Falls, Illinois, não aparecia em mapa nenhum que valesse a pena dobrar duas vezes. Tinha uma rua principal, uma igreja branca de tábuas, um posto de gasolina que fechava às nove e um lago raso demais para afogar qualquer coisa maior que um cão. Foi ali, numa manhã de outubro fria o bastante para embaçar os vidros das viaturas, que o Agente Especial Daniel Cole desceu de um carro alugado e caminhou até a delegacia com as mãos nos bolsos do sobretudo, como se estivesse chegando para uma reunião qualquer, e não para o terceiro dia de buscas por três adolescentes desaparecidas.
Ele tinha vinte e nove anos, um distintivo emitido havia treze meses e nenhuma vitória de peso no currículo. O FBI o mandara porque ninguém mais estava livre e porque, no papel, seu histórico acadêmico impressionava: mestrado em estatística aplicada, uma tese sobre modelos de previsão que ninguém no Bureau tinha lido além do resumo. O chefe de polícia de Cedar Falls, um homem chamado Route Delaney, olhou para ele por cima de uma xícara de café requentado e perguntou se Washington tinha mandado um contador para resolver o desaparecimento de três garotas.
Cole não respondeu à provocação. Perguntou onde estava o quadro.
Não havia quadro. Havia uma mesa cheia de fotografias reveladas em uma hora, mapas rabiscados a caneta, depoimentos datilografados em papel carbono, tudo espalhado sem ordem alguma sobre um balcão de fórmica na sala dos fundos. Cole passou a tarde inteira organizando aquilo sozinho, sem pedir ajuda, prendendo cada fotografia com fita adesiva numa parede que raspou a tinta ao arrancar um mapa de caça e pesca colado ali havia uma década. Os policiais locais o observaram como quem observa um homem falando sozinho na rua — com pena e um certo nervosismo.
Na segunda noite, ele pediu para ficar sozinho na sala.
Delaney riu. Disse que aquilo não era um filme, que ele não precisava de silêncio místico para fazer o trabalho, que investigação de verdade se fazia batendo em portas, não olhando para paredes. Cole esperou a risada passar e repetiu o pedido, dessa vez sem nenhuma inflexão na voz, o que de alguma forma era mais inquietante do que se tivesse insistido com raiva. Ele disse que precisava de portas fechadas, luz baixa e nenhum som de rádio, telefone ou conversa por pelo menos três horas. Disse que não sabia explicar por que funcionava daquele jeito, só sabia que funcionava.
Delaney cedeu porque já não tinha mais nada a perder, e porque a alternativa era ligar para o pai da terceira garota e dizer, pela segunda vez naquela semana, que não havia notícias.
Cole trancou a porta por dentro.
• • •
Do lado de fora, dois policiais e uma secretária passaram a noite alternando turnos junto à porta, sem saber ao certo o que estavam vigiando. Por volta da meia-noite, um deles jurou ter ouvido Cole conversando sozinho, uma cadência baixa e contínua, quase um zumbido, que parava e recomeçava em intervalos irregulares. Por volta das duas da manhã, o silêncio ficou tão completo que a secretária bateu na porta só para ter certeza de que ele ainda estava vivo lá dentro. Ele não respondeu. Ela bateu de novo. Nada.
Delaney chegou às cinco e meia, furioso, disposto a arrombar a porta se fosse preciso, convencido de que tinha cometido um erro grave ao deixar um estranho se trancar sozinho com as únicas provas que tinham. Ele já tinha a mão no cinto, procurando a chave reserva, quando a porta se abriu por dentro.
Cole estava com a gravata torta e os olhos vermelhos, mas havia algo nele que não estava lá na tarde anterior — uma espécie de aceleração contida, como um motor girando um pouco alto demais em ponto morto. Ele não cumprimentou ninguém. Apontou direto para uma fotografia na parede, uma imagem desbotada do grupo de escoteiros da cidade tirada dois verões atrás, com um homem de meia-idade sorrindo ao centro, a mão pousada no ombro de uma das garotas desaparecidas.
— O escoteiro-chefe — disse Cole. — Vejam a sombra dele na foto do lago, tirada na quinta-feira anterior ao primeiro desaparecimento. E comparem com a marca de pneu na foto da trilha norte. É o mesmo veículo, mesmo ângulo de estacionamento, três semanas de diferença. Ele não estava caçando cervos. Estava escolhendo.
Delaney olhou para as duas fotografias lado a lado, coisas que tinham passado pelas mãos de seis policiais diferentes nos últimos três dias sem que ninguém enxergasse nada além de duas imagens desconexas. Levou a equipe inteira quarenta minutos para confirmar o que Cole já sabia havia horas: uma cabana isolada a quinze quilômetros da represa, registrada em nome da mãe do escoteiro-chefe, morta havia dois anos. As três garotas foram encontradas com vida naquela tarde, desidratadas, amarradas, mas vivas. O homem foi preso sem disparar um tiro, paralisado pela velocidade com que o cerco se fechou sobre ele.
• • •
Foi uma repórter de rádio local, uma mulher chamada Denise Okafor que cobria o caso havia três dias sem dormir direito, quem cunhou a frase que acabaria seguindo Daniel Cole pelo resto da carreira. Ao vê-lo sair da delegacia depois de uma entrevista coletiva improvisada, ainda com aquele brilho estranho nos olhos, aquela urgência contida de quem processa informação rápido demais para o próprio corpo acompanhar, ela anotou no caderno uma frase que usaria na reportagem daquela noite: "o agente parece uma central elétrica que acabou de disparar uma faísca". A frase foi cortada pela edição. Sobrou uma palavra, na legenda de uma fotografia: Spark.
A palavra pegou. Dentro de um ano, jornais maiores a usavam sem aspas, como se fosse um título oficial. Dentro de três, quase ninguém no país que acompanhava crimes de capa de revista lembrava que "Daniel Cole" era o nome que constava na carteira funcional. Ele nunca gostou do apelido, nunca o corrigiu em público e nunca, em nenhuma entrevista, explicou de verdade o que acontecia do outro lado daquela porta trancada. Dizia sempre a mesma coisa, com pequenas variações: que olhava, que esperava, que alguma coisa se organizava sozinha quando ele parava de forçar.
O que ele nunca contou a ninguém — nem a Delaney, nem a Okafor, nem, anos depois, a nenhum psicólogo do Bureau destacado para avaliá-lo — era a sensação exata daquelas horas fechado a sós com um quadro de fotografias. Não era transe, não era instinto, não era sorte. Era mais parecido com o que sentia quando menino, debruçado sobre problemas de matemática que os professores achavam avançados demais para a idade dele: um momento em que os números paravam de ser símbolos soltos e viravam, de repente, uma frase inteira, óbvia, que ele não conseguia entender como não tinha visto antes. Só que agora os números eram pessoas. E a frase, quando finalmente se formava, quase sempre significava que alguém ia para a cadeia — ou que alguém já estava morto havia dias e ele só não sabia ainda dizer onde.
Treze anos depois de Cedar Falls, Daniel Cole comandava uma unidade federal em Chicago com seu nome — ou melhor, com o apelido que a imprensa lhe deu — praticamente virado marca registrada. A sala onde ele se trancava já não tinha balcão de fórmica nem parede raspada às pressas; tinha vidro fumê, isolamento acústico e uma placa na porta que ninguém precisava ler em voz alta para saber o que significava. Continuava, porém, exigindo a mesma coisa que exigira naquela primeira noite: silêncio absoluto, porta fechada, ninguém entrando enquanto ele não saísse.
O resto desta história começa numa dessas manhãs, com um corpo encontrado num escritório trancado por dentro, e com Daniel Cole entrando numa sala pela enésima vez, sem imaginar ainda o quanto aquele ano em particular custaria a ele.
O Escritório Trancado
O corpo de Aaron Feld foi encontrado às sete e quarenta da manhã por uma faxineira que trabalhava no décimo oitavo andar de um prédio de vidro no Loop havia onze anos e nunca tinha visto nada além de copos de café esquecidos e cabos de notebook enrolados errado. Feld era o fundador e diretor-executivo da Kestrel Analytics, uma startup de previsão de mercado que valia, no papel, alguns milhões de dólares que ninguém tinha certeza de onde vinham. Estava sentado à própria mesa, uma arma ao lado da mão direita, um ferimento de bala na têmpora e a porta da sala trancada por dentro com uma tranca instalada havia menos de um mês, segundo o zelador do prédio.
A polícia de Chicago chegou primeiro e, em menos de duas horas, já tinha uma palavra provisória rabiscada no relatório: suicídio. A Unidade de Crimes Críticos foi chamada só porque um dos investidores da Kestrel era cunhado de um congressista, e ninguém no departamento queria assinar sozinho um laudo que pudesse voltar para atormentá-los seis meses depois numa audiência.
Daniel Cole chegou ao prédio às nove, sem pressa, como sempre, com Laura Bennett um passo atrás dele carregando o estojo de campo e Tommy Ruiz ainda terminando de amarrar o cadarço no elevador. Marcus Whitfield já estava lá, tinha chegado direto de outro compromisso, conversando baixo com um detetive da polícia local que Cole reconheceu de vista, mas não de nome.
— Suicídio com a porta trancada por dentro e a chave do lado de dentro da fechadura — disse Marcus, sem esconder o ceticismo na voz. — Só falta alguém escrever "mistério" na parede.
Cole não respondeu de imediato. Ficou parado no batente da porta por um tempo mais longo do que qualquer policial ali achava necessário, olhando não para o corpo, mas para os objetos ao redor dele: um copo de café pela metade, um laptop aberto numa planilha de números que não significavam nada para ninguém além de um analista financeiro, uma janela panorâmica fechada por dentro com trava de segurança intacta.
— A arma é dele? — perguntou, finalmente.
— Registrada no nome dele, sim — respondeu o detetive local. — Comprada há oito meses. Alegou que era por segurança, depois de umas ameaças on-line de investidores insatisfeitos.
Laura já estava agachada perto da mesa, examinando o ângulo do ferimento com uma lanterna de bolso. — O ângulo de entrada é estranho para um disparo autoinfligido nessa posição — disse ela, sem olhar para trás. — Não impossível. Só estranho.
— Estranho é a palavra do dia — murmurou Tommy, ainda no batente, olhando ao redor com aquela mistura de fascínio e nervosismo que nunca conseguia esconder direito nos primeiros minutos de uma cena nova.
• • •
Priya Nair chegou ao meio-dia com os resultados preliminares da perícia digital: o notebook de Feld tinha sido acessado da própria conta dele às seis da manhã, uma hora em que, segundo a portaria do prédio, ele ainda não tinha entrado no edifício. Alguém usara as credenciais dele remotamente, ou alguém estivera na sala antes das sete e quarenta e apagara os rastros da própria entrada.
— Isso não prova assassinato — disse Marcus, cauteloso, sentado à mesa de reuniões improvisada que a equipe montara num escritório vazio dois andares abaixo. — Prova que alguém mexeu no computador dele. Pode ter sido ele mesmo, de outro lugar, testando alguma coisa.
— Pode — concordou Cole. — Ou pode ser exatamente o tipo de detalhe que separa uma cena de crime verdadeira de uma cena de crime encenada. Quero o quadro montado até as três.
Ninguém questionou o pedido. Isso já não acontecia fazia anos, não com essa equipe. Tommy foi o primeiro a se mover, puxando fotografias impressas de uma pasta e organizando-as sobre a mesa com um cuidado quase religioso, como se a ordem em que as colocasse pudesse, de alguma forma, ajudar. Laura trouxe os laudos preliminares. Priya trouxe os registros de acesso, os e-mails da última semana de Feld, um histórico de transferências bancárias que ninguém na Kestrel parecia disposto a explicar com clareza.
Do lado de fora da sala, dois detetives da polícia de Chicago observavam a movimentação com a testa franzida. Um deles, mais velho, cruzou os braços e falou baixo o suficiente para achar que ninguém mais ouviria.
— É sempre assim. Eles trazem o federal, o federal tranca a porta, e depois de um tempo sai com um nome, como se tivesse puxado da cartola. Um dia isso vai dar errado na frente de todo mundo, e eu quero estar lá pra ver.
O comentário chegou aos ouvidos de Cole através de Priya, que contou meio sem graça, meio como aviso. Ele apenas assentiu, sem reação visível, e voltou a organizar as fotografias na parede com a mesma calma de sempre. Fazia anos que tinha parado de gastar energia respondendo a comentários assim. Não porque não doíssem — em algum lugar, ainda doíam — mas porque respondê-los nunca resolvia um caso, e resolver casos era a única coisa que, no fim, calava qualquer boca.
• • •
Às três da tarde, Cole pediu a sala.
Era sempre a mesma sequência, e a equipe já a conhecia de cor: ele pedia que levassem tudo o que tinham para uma sala fechada, sem janelas para o corredor, e pedia para ficar sozinho. Dessa vez foi uma sala de reuniões da própria Kestrel, com persianas que Tommy fechou antes de sair, e uma porta que Laura trancou por fora, por precaução, embora soubesse que Cole jamais pediria ajuda de dentro, aconteça o que acontecer.
— Quanto tempo, dessa vez? — perguntou Marcus, já de costas, caminhando para buscar café.
— Não sei — respondeu Laura, encostando-se na parede ao lado da porta, os braços cruzados. — Nunca sabemos.
Passaram-se duas horas e quarenta minutos. Do lado de fora, o clima na sala de operações improvisada era de expectativa contida, todo mundo fingindo trabalhar em outra coisa enquanto, na verdade, olhava o relógio a cada dez minutos. Um detetive de Chicago, o mesmo que tinha feito o comentário sarcástico mais cedo, perguntou a Priya, sem disfarçar o desdém, se aquilo era procedimento oficial do Bureau ou "coisa de reality show".
— É procedimento dele — respondeu Priya, sem levantar os olhos do laptop. — E funciona em noventa e um por cento dos casos em que ele faz isso. Eu já contei.
O detetive não respondeu. Ficou só olhando para a porta fechada, como todos os outros.
Quando Cole finalmente saiu, tinha o mesmo brilho contido nos olhos que a repórter de Cedar Falls descrevera treze anos antes — aquela urgência de quem está prestes a transbordar de informação e precisa organizá-la em frases antes que a ordem se perca. Foi direto ao quadro, sem cumprimentar ninguém, e apontou para três fotografias específicas: o copo de café pela metade, a planilha aberta no laptop e um recibo de estacionamento encontrado na lixeira do escritório de Feld.
— O copo de café está pela metade e ainda estava morno quando a perícia chegou às oito e vinte — disse ele. — Café não fica morno por uma hora e meia num escritório com ar-condicionado ligado. Foi servido pouco antes da faxineira encontrar o corpo. Feld não fez esse café sozinho: a cafeteira da copa está com a data de última limpeza automática registrada, e ela roda às cinco da manhã, antes de qualquer funcionário chegar. Alguém trouxe o café de fora, num copo idêntico ao da cafeteira do andar de baixo, o do escritório da Meridian Capital.
Fantasia & aventura
Dimensão Sinistra — O Planeta Katáris
Marcos Antônio — o "Bicudo" — e seu grupo de amigos inseparáveis vivem uma adolescência comum, até o dia em que um vórtice os arranca da sala de aula e os lança num mundo hostil e desconhecido. Entre povoados tomados por zumbis, aranhas gigantes, canibais aquáticos, uma tribo de yetis e o temível Harakit, os cinco precisam sobreviver usando só a coragem e a amizade que os une, enquanto tentam encontrar um caminho de volta para casa.
Meu nome é Marcos Antônio, mas nos corredores do Colégio Caminho do Conhecimento, eu era mais conhecido como “Bicudo”. O apelido surgiu de um momento engraçado do sexto ano, mas isso é uma história para uma oura hora. Naquele dia específico, eu estava sentado na terceira fileira da sala de aula, tentando absorver cada palavra que saía da boca do professor de Física. Ele estava explicando a teoria da relatividade, mas a concentração era uma tarefa difícil.
No fundo da sala, Eduardo, ou como nós o chamávamos, “Animal”, estava fazendo um tremendo barulho. Ele tinha esse hábito peculiar de bater na mesa com seu caderno, criando uma espécie de ritmo que só fazia sentido para ele. Era como se ele estivesse tentando compor uma sinfonia de distração. “Animal” era um dos três Eduardos em nossa turma, mas sem dúvida, o mais barulhento deles.
Carlos Eduardo, outro dos três Eduardos, estava sentado atrás de mim. Ele era o oposto do “Animal”. Reservado. Naquele dia, como de costume, ele estava discutindo com Marcel, que era o tipo de pessoa que adorava um bom debate. Não importava o tópico, ele sempre tinha uma opinião e estava pronto para defendê-la.
A dinâmica da sala de aula era uma mistura de caos e ordem, uma sinfonia de personalidades distintas. E no meio de tudo isso, eu, “Bicudo”, estava precisando de um pouco de silêncio, para entender a teoria da relatividade.
Mas, no final das contas, essa era a beleza daquele colégio, um lugar onde cada um de nós podia ser exatamente quem éramos, sem medo de julgamento. E, de alguma forma, todos nós encontramos uma maneira de coexistir, aprender e crescer juntos.
Marcel, com sua estatura alta e magra, era uma figura imponente. Sua pele de ébano, um lembrete orgulhoso de sua herança afrodescendente. Ele estava servindo o exército naquela época, uma responsabilidade que ele carregava com grande dignidade. Era o aluno mais velho da turma, com dezoito anos, e sua maturidade era evidente em sua postura e comportamento.
Carlos Eduardo, por outro lado, era de estatura média, parrudo e muito branco. Ele tinha um temperamento explosivo, que poderia ser assustador para aqueles que não o conheciam bem. Mas, para nós, seus amigos, sabíamos que por trás dessa fachada havia um coração de ouro. Eu sempre agradeci por ele ser meu amigo e não o contrário.
Lúcio, moreno claro e tão parrudo quanto Carlos Eduardo, era o extrovertido do grupo. Ele tinha uma energia contagiante que iluminava qualquer ambiente. Mas, apesar de sua natureza amigável, Lúcio não era de levar desaforo para casa. Ele sabia se defender quando necessário.
Quanto a mim, Marcos Antônio, ou “Bicudo”, eu era o baixinho e gordinho do grupo. Na época, eu tinha dezesseis anos, um ano a menos que Lúcio e Carlos Eduardo. Mas, apesar de ser o mais jovem, eu nunca me senti menos importante. Nós éramos uma equipe, cada um com suas peculiaridades, mas unidos por uma amizade inabalável. E assim, continuamos navegando juntos pelas águas turbulentas do segundo grau, hoje em dia chamado de ensino médio, no Colégio Caminho do Conhecimento.
Para ilustrar melhor a personalidade de cada um de nós, permita-me compartilhar uma história que ocorreu alguns dias antes. Lúcio chegou um pouco atrasado na aula. Ele estava ofegante e parecia ter passado por uma provação. Quando perguntamos o que havia acontecido, ele nos contou que tinha sido vítima de uma tentativa de assalto em uma ponte próxima.
Três assaltantes haviam abordado Lúcio, exigindo sua carteira e relógio. Mas Lúcio não entregaria nada sem lutar. Ele se “embolou” com os três, resultando em alguns arranhões, mas conseguiu escapar sem perder seus pertences. Ele estava possesso, mas aliviado.
Carlos Eduardo, ao ouvir a história, levantou-se de um pulo. Seu rosto estava vermelho de raiva e ele exigiu que Lúcio nos mostrasse onde o incidente havia ocorrido. Sem hesitar, todos nós corremos para o local, prontos para enfrentar os marginais. No entanto, quando chegamos lá, não encontramos ninguém.
Embora estivéssemos aliviados por não ter de entrar em um confronto corporal, tenho certeza de que teria sido um combate tremendo se tivéssemos encontrado os assaltantes. Cada um de nós, à sua maneira, estava pronto para defender um ao outro. Essa história, embora assustadora, serviu para fortalecer ainda mais nossa amizade e nos mostrou o quão longe estávamos dispostos a ir para nos defender uns aos outros.
Numa certa ocasião, em um barzinho aconchegante ao lado do colégio, durante um intervalo das aulas, uma conversa memorável aconteceu. Lúcio virou-se para Carlos Eduardo e disse:
- “Cadú”, tenho que admitir, você é um dos caras mais corajosos que eu já conheci. Sua audácia é algo que me impressiona. Mas preciso te dar um alerta… se você continuar sendo tão “casca grossa”, agindo sem medir as consequências de suas ações, pode acabar encurtando sua vida, meu camarada.
Carlos Eduardo, com seu jeito desafiador, respondeu com um sorriso maroto:
- Que nada, Lúcio… covarde é que morre cedo. Estou brincando. É, você tem razão. Mas eu nunca vou deixar de ser quem eu sou. Vamos ver no que é que vai dar.
A personalidade extrema de Carlos Eduardo era algo que sempre me marcou. Uma cena em particular se destaca em minha memória. Em uma ocasião, pegamos um ônibus lotado para ir a um shopping na Penha. Eu, Carlos Eduardo e a namorada dele, apertados entre os passageiros. Alguns caras que tinham acabado de entrar começaram a tirar sarro da cara do “Cadú”. Ele, com seu temperamento explosivo, não deixou barato. A confusão começou ali mesmo, dentro do ônibus em movimento. Tinha gente se jogando pela janela para escapar da briga. Eu mesmo, quase fui um.
Mais tarde, na escola, Lúcio olhou para o rosto machucado de Carlos Eduardo e, para minha surpresa, começou a gargalhar. Era uma risada contagiante, que aliviava a tensão do momento. Falando neles dois, havia uma coincidência interessante. Eles nasceram exatamente no mesmo dia, mês e ano.
Eu já conhecia Carlos Eduardo antes do início das aulas, mas não tinha muita intimidade com ele. Marcel também conhecia Lúcio de vista, pois moravam na mesma rua. Depois que se tornaram amigos na sala de aula, Lúcio passou a ir à escola de carona no Gol de Marcel, um carro popular na época.
Mas vamos recapitular. Como eu dizia antes, “Animal” estava fazendo um tremendo barulho, “agredindo” sua própria mesa. O som ensurdecedor de suas batidas ecoava pelas paredes da sala de aula, criando uma atmosfera de caos controlado, naquela quinta-feira, dia 20 de outubro de 1988. Então, aconteceu o inimaginável na sala da turma 1102 do Colégio Caminho do Conhecimento. O barulho que nosso colega de classe fazia foi interrompido por um assovio estridente, que cortou o ar como uma lâmina afiada. As expressões de surpresa e pavor tomaram conta dos rostos de todos ali presentes. O que aconteceu a seguir foi algo que nenhum de nós poderia ter previsto.
Espantosamente, o teto da sala de aula se abriu como se fosse feito de papel, mostrando o céu noturno. As estrelas ficaram turvas, como se vistas através de um vidro embaçado. Uma gargalhada intensa e sinistra ressoou pelo ar, enviando calafrios pela espinha de todos os presentes.
Então, sem aviso, um vórtice se formou onde, há poucos minutos, ficava o tranquilo terraço do colégio. Com uma força violenta e implacável, toda a turma 1102 foi sugada para dentro dele. O mundo ao redor de nós girava em um turbilhão de cores e sons, enquanto éramos puxados para dentro do desconhecido.
Acordei abruptamente, como se tivesse sido arrancado de um sonho profundo. Uma dor lancinante atravessou meu corpo. Parecia que um raio havia me atingido. A dor intensa que senti foi como um choque elétrico, uma corrente de energia que percorreu cada fibra do meu ser. A realidade rapidamente se impôs, fria e implacável ao abrir meus olhos. Algo que parecia ser impossível ou, no mínimo, inacreditável, havia acontecido.
Eu podia sentir o frio do chão sob meu corpo, a umidade do ar em meus pulmões. Eu podia ouvir o som distante de pássaros cantando, o sussurro das folhas nas árvores. E eu podia ver, através da névoa da dor, o mundo ao meu redor. Eu estava sozinho, completamente sozinho, em um lugar desconhecido. E eu sabia, com uma certeza que me fez estremecer, que algo terrível havia acontecido. Algo que mudaria minha vida para sempre. A realidade, por mais dura e cruel que seja, é algo que não podemos evitar.
E assim, com a dor ainda pulsando em meu corpo, eu me levantei. Segundos depois, ouvi um ruído vindo de trás de mim e me virei assustado. Uma criatura que lembrava um lobisomem com pelos de coloração verde e castanhos, de olhos vermelhos, com grandes presas e olhar penetrante, saiu de trás de uma moita. O animal parecia surpreso e, ao mesmo tempo, ameaçador. Nós estávamos no meio de uma floresta.
Tentei me afastar lentamente, sem tirar os olhos da estranha criatura, que tinha uns dois metros de altura e orelhas pontudas. Quando percebeu que eu comecei a me arrastar para longe dele, o animal começou a rosnar para mim. Me desesperei. Ele se aproximou de mim, me analisando. Parei de me afastar, com medo de que isso o irritasse.
Me encarando diretamente, o estranho animal aumentava o ritmo dos passos até que, repentinamente e sem aviso, saltou em minha direção, abrindo a boca, ensandecido. Agi por puro instinto de sobrevivência. Sequer raciocinei. Escalei a árvore que estava ao meu lado com toda a rapidez que pude, com a mandíbula daquele monstro a centímetros da minha perna. Só parei quando estava a uns dez metros do chão.
Olhei pra baixo e vi o sedento animal arranhando aquela estranha árvore, sem conseguir escalá-la. Continuei subindo até chegar ao topo, de onde tive uma boa visão de tudo ao redor. Foi então que vi alguém se movimentando entre a vegetação a uns duzentos metros da árvore onde eu me encontrava. Percebi que era Marcel. Um pouco mais adiante, avistei outros colegas da escola e Marcel acabou por se unir a eles. Então começaram a falar entre si, em voz alta.
Tornei a olhar para a criatura, temendo que ela os ouvisse, mas já era tarde. Ela os ouviu, se abaixou furtivamente por entre as plantas e começou a se arrastar na direção deles. Gritei com todas as minhas forças para alerta-los, mas meus gritos só os deixaram mais confusos. Eles nem sequer correram. Ficaram parados onde estavam, tentando entender o que estava acontecendo.
O maldito animal então saltou de dentro da vegetação, abocanhando Marcel pelo pescoço e o arrastando, enquanto os outros finalmente corriam, apavorados. A criatura adentrou a mata carregando Marcel entre os dentes como se este pesasse alguns poucos quilos. Nunca mais voltamos a ver nosso amigo.
Quando consegui alcançar o grupo, que ainda estava perplexo com o acontecimento, fui informado que Carlos Eduardo, numa explosão de fúria, se atirou floresta adentro em perseguição ao estranho animal. Ninguém tentou impedi-lo. Ficamos todos ali, apavorados, esperando que outros alunos aparecessem e que “Cadú” retornasse, tentando entender o que nos tinha acontecido, até que começou a anoitecer.
Começou também a fazer muito frio, nos obrigando a acender uma fogueira. Márcia, que era fumante, nos facilitou trazendo um isqueiro. Das poucas mulheres da turma 1102, Márcia era a mais apegada ao nosso grupo. Era alegre e descontraída e com um Q.I. bem abaixo dos seus 17 anos de idade. Era a primeira vez que eu a via chorar. Se aproximou de mim, deitou a cabeça no meu ombro e desabafou. Ela estava assustada e não sabia o que fazer, assim como todos os outros alunos. Tentei confortá-la da melhor maneira que pude. Naquele momento, precisávamos uns dos outros. Márcia, com os olhos arregalados de medo e confusão, olhou para mim e disse:
- Não acredito que “aquilo” matou o Marcel. Onde nós estamos? Como viemos parar nesse lugar? Não acredito que estamos no Brasil. Tudo aqui é muito diferente.
Eu respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas para explicar a situação inacreditável em que nos encontrávamos.
- A coisa parece mais complicada do que a gente imagina, Márcia. De fato, nós não estamos no Brasil. Nós nem estamos no planeta Terra.
Ela me olhou incrédula, como se eu tivesse perdido a razão.
- Que loucura é essa? Estamos em outro planeta? Fomos sequestrados por alienígenas?
Eu dei de ombros, tão confuso quanto ela.
- Nessa altura do campeonato, eu nem disso duvidaria.
Foi então que notei o ferimento na perna de Márcia. Ela tinha uma ferida enorme na perna direita. Tive pena dela, mas não imaginava o que fazer para ajudá-la. Lúcio também percebeu o machucado.
- Marcinha… é melhor desinfetar esse machucado. Sei que vai doer muito e poderá deixar uma cicatriz desagradável, mas é melhor eu pegar um desses galhos em brasa e cauterizar isso antes que infeccione.
Lúcio, sempre prático, foi pegar um dos gravetos na fogueira. Eu apenas acenei com a cabeça, concordando com ele. Não havia muito mais que pudéssemos fazer naquele momento. A sobrevivência era nossa prioridade.
Ao perceber a intenção de Lúcio, Márcia, que já estava em um estado de choro incontrolável, passou a soluçar em desespero total. Seus olhos, inchados e vermelhos, refletiam o medo e a angústia que ela sentia. Eu me virei para Lúcio, implorando para que ele reconsiderasse.
- Lúcio, ela não vai aguentar, cara - eu disse, apontando para ela. - Olha só o estado emocional dela. Ela está à beira de um colapso.
Lúcio, com uma expressão séria no rosto, olhou para Márcia e depois para mim. Ele sabia que eu estava certo, mas também sabia que era um risco deixar a ferida aberta daquela maneira, exposta a microrganismos.
- Eu sei. - Ele disse, suspirando pesadamente. - Mas é melhor fazer isso agora do que esperar pela infecção. Tá legal… daqui a pouco eu procuro um pouco de água limpa, para pelo menos lavar o machucado. Se é que existe isso por aqui.
Ele se virou para Luiz, que estava sentado em um canto, observando a cena com uma expressão preocupada.
- Luiz, você que é o representante da nossa turma, se lembra de quantos alunos estavam presentes?
Luiz, surpreso por ser chamado, levantou-se e começou a procurar algo em seu bolso. Depois de alguns segundos, retirou um pedaço de papel amassado.
- Eu passei a relação de chamada e a guardei no bolso. Aqui está ela. Trinta e cinco! Trinta e cinco alunos confirmados.
Eu peguei a lista de Luiz e comecei a contar os nomes. A realidade da situação começou a pesar sobre nós.
- Então trinta e seis pessoas, contando com o professor Mauro, foram sugadas naquele vendaval, ou seja lá o que for, aquilo que nos arrancou do colégio - eu disse, olhando para os outros. - Me faz um favor, Luiz… conte quantos de nós estão aqui neste momento.
Enquanto Luiz começava a contar, todos nós esperamos, temendo a resposta. A realidade de nossa situação estava começando a se instalar, e todos nós sabíamos que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Aline foi a primeira a ser chamada e confirmou sua presença com um “estou aqui”, quase inaudível.
O Mapa
Luiz, um jovem de estatura baixa e corpo franzino, sempre teve uma expressão de assustado, mesmo antes do ocorrido. Era uma característica marcante dele, quase como uma marca registrada. Sua pele era tão branca quanto a de Carlos Eduardo, dando-lhe um ar ainda mais frágil. Ele ajudava seu pai, um torneiro mecânico, em sua oficina de reformas. Luiz e Lúcio se conheciam há muito tempo, pois cresceram em ruas próximas, compartilhando muitas memórias de infância.
Após alguns minutos de contagem, Luiz retornou com uma expressão sombria. Ele anunciou que havia vinte e dois alunos ali, contando consigo mesmo. Rapidamente, fizemos as contas e chegamos à conclusão de que nove pessoas estavam desaparecidas, porque sabíamos que três de nós haviam morrido na queda, Marcel fora atacado e provavelmente devorado pelo estranho animal, e Carlos Eduardo se encontrava desaparecido após perseguir a criatura.
- Temos de procurar pelos outros, “Bicudo” - disse Lúcio.
- Vamos deixar isso para amanhã de manhã. - Respondi, tentando manter a calma. - Um daqueles animais pode aparecer. De dia corremos menos perigo.
Lúcio assentiu, compreendendo a lógica por trás das minhas palavras.
- Você está certo - ele concordou. - Será que Carlos Eduardo conseguiu salvar Marcel?
- Lúcio, seja realista. - Respondi, tentando prepará-lo para a dura realidade. - Você viu a maneira como aquilo mordeu o pescoço dele. Ele não pode ter sobrevivido.
Lúcio baixou a cabeça, aceitando a verdade dolorosa.
- É verdade. - Ele murmurou. - Só nos resta torcer para que o “Cadú” esteja bem.
Para aqueles que não estão familiarizados, “Cadú” é o apelido de Carlos Eduardo. Marcelo, Luis Cláudio e Felipe, infelizmente, haviam morrido na queda. Eles foram encontrados logo após o fenômeno ter ocorrido, tendo caído fatalmente sobre rochas.
Por pura sorte, eu escapei sem quebrar nenhum osso. Acredito que os galhos da árvore que estava ao meu lado quando acordei, amorteceram minha queda. Carlinhos, no entanto, não teve a mesma sorte. Ele quebrou a perna na queda.
Lúcio, que parecia ter assumido uma postura natural de liderança, tinha dois ferimentos no rosto, sendo um na testa, acima do olho direito e o outro na maçã do rosto, abaixo do olho direito. Segundo ele, o mesmo galho que salvou sua vida, amortecendo sua queda, quase o cegou.
Havia outros feridos entre nós, a maioria sem gravidade. Muitos de nós passaram a noite toda chorando, o som de seus soluços ecoando na escuridão. Alberto, o CDF da turma, se aproximou da fogueira e nos pediu a todos para não nos dispersarmos, caso a criatura retornasse. Ele sugeriu que subíssemos nas árvores para nos proteger, uma vez que já tinha ficado evidente que aquela coisa não sabia escalar árvores.
Já estava começando a clarear quando, surpreendentemente, Carlos Eduardo apareceu em nosso acampamento improvisado. Nós o cercamos de imediato, atônitos, querendo saber o que havia acontecido. Seu retorno inesperado trouxe um misto de alívio e ansiedade, pois todos queríamos saber se Marcel tinha escapado da morte.
- Não consegui alcançar o monstro - disse Carlos Eduardo, com um olhar distante. - Ele fou muito rápido, mesmo carregando o Marcel. Quando percebi que a perseguição era inútil, parei, exausto, e acabei desmaiando. Quando acordei, vi a fumaça ao longe e segui na direção dela, até que encontrei vocês.
Houve um silêncio momentâneo, quebrado apenas pelo crepitar da fogueira. Todos nós estávamos aliviados por ter Carlos Eduardo de volta, mas a confirmação da morte de Marcel pesava sobre nós.
- Estamos felizes em te ter de volta, cara - disse Lúcio, quebrando o silêncio. Ele e Carlos Eduardo eram quase como irmãos, sempre juntos, sempre apoiando um ao outro.
Carlos Eduardo assentiu, agradecendo silenciosamente o apoio de Lúcio.
- Enquanto eu vinha para cá, passei pelo corpo do Eduardo Farias - continuou “Cadú”, sua voz tremendo ligeiramente. - Acho que ele quebrou o pescoço na queda. Também vi o Antônio. Estava morto, mas não acho que foi na queda. Seu abdómen estava aberto. Parece que um animal o encontrou.
A notícia de mais mortes caiu sobre nós como uma pedra, pesando em nossos corações. Sabíamos que a situação era grave, mas cada perda tornava a realidade ainda mais dura. Cada nome mencionado era um amigo, um colega de classe, uma vida perdida. E cada um de nós sabia que poderíamos ser os próximos.
Fantasia
O Príncipe e a Profecia
Na noite em que Cassiano nasce, o Reino de Aravel celebra a chegada de seu herdeiro — até a bruxa Ágata das Brumas anunciar uma profecia sombria: o príncipe morrerá em batalha. Desesperado, o rei Baldemar tenta protegê-lo de tudo que possa conduzi-lo à guerra, mas uma profecia não precisa de uma espada para começar a moldar uma vida. À medida que cresce, Cassiano desafia as restrições do pai, dividido entre o medo de morrer e uma atração cada vez maior pelo combate. Em um reino marcado por intrigas, honra e ameaças de guerra, ele terá que descobrir: é possível mudar o destino, ou algumas histórias já estão escritas antes mesmo de começarem?
Todo reino tem uma história que conta aos filhos antes de dormir. Esta é a de Aravel — e ela começa, como quase tudo o que vale a pena temer, com um nascimento.
Dizem que o Reino de Aravel foi erguido sobre penhascos brancos porque seus primeiros reis desconfiavam da terra e confiavam apenas na pedra. Dizem também que, nas noites de inverno mais cerradas, ainda se pode ouvir o mar batendo lá embaixo, contra a base dos rochedos, como se quisesse lembrar a Solvara — a capital, o castelo, a coroa inteira — de que nada construído por mãos humanas é, de fato, inabalável. Foi nessa cidade de torres claras e telhados de ardósia que nasceu, numa noite de outono em que a lua cheia mal conseguia furar as nuvens, o único filho do rei Baldemar e da rainha Ismênia. Chamaram-no Cassiano.
Não é incomum que o nascimento de um herdeiro seja recebido com sinos, com fogueiras acesas nas muralhas, com vinho distribuído nas praças até mesmo aos que roubam pão. Em Aravel não foi diferente. Durante três dias os moinhos pararam de moer para que os moleiros pudessem dançar; durante três noites os fornos da cidade baixa assaram mais pão doce do que em qualquer festa de colheita; e durante três dias inteiros o velho sineiro da Catedral de Santa Wilhelmina jurou, entre uma badalada e outra, que jamais em sua vida tocara sinos tão felizes.
Mas há em Aravel — e havia muito antes de Baldemar, muito antes até da própria Solvara — um costume mais antigo que qualquer festa, e mais silencioso que qualquer sino. Diz esse costume que nenhum herdeiro do trono deve dormir sua primeira noite no mundo sem que a bruxa da Floresta das Brumas venha vê-lo. Não para curá-lo de nada, pois a criança em geral já nasce inteira. Não para protegê-lo do frio, pois isso as amas já sabem fazer. Ela vem para dizer, em voz alta, diante da corte reunida, o que o menino ou a menina será.
Ninguém em Solvara se lembrava de um tempo em que esse costume não existisse, e poucos ousavam sequer perguntar de onde vinha. Sabia-se apenas que a Floresta das Brumas ficava a um dia de cavalgada ao norte da cidade, onde a névoa não se desfazia nem ao meio-dia, e que ali, havia gerações, moravam mulheres que o povo chamava de bruxas por falta de palavra melhor. A que morava lá agora — magra, de cabelos brancos entrelaçados com fios de prata verdadeira, dizia-se, embora ninguém tivesse coragem de puxar um fio para conferir — chamava-se Ágata.
Ágata das Brumas, como a conheciam mesmo os que nunca a haviam visto. Serviu ao avô de Baldemar, serviu ao próprio Baldemar quando este nasceu, e agora, convocada por um mensageiro que cavalgou a noite inteira sob a lua encoberta, vinha servir também ao filho dele. Não se sabia sua idade. Sabia-se apenas que ela nunca parecia diferente do que já fora na lembrança de qualquer um, como se o tempo, por respeito ou por medo, tivesse decidido não deixar marcas visíveis nela — só nos outros.
Ela chegou aos portões de Solvara ao entardecer do terceiro dia, montada não em um cavalo, mas caminhando ao lado de uma mula parda tão velha quanto paciente, com um cajado de teixo na mão direita e, na esquerda, nada além de um lenço encardido que usava, de vez em quando, para limpar os óculos que ninguém sabia dizer se eram feitiço ou simples vaidade. Os guardas, que haviam sido instruídos a recebê-la com todas as honras, curvaram-se mesmo assim um pouco mais do que a etiqueta exigia. Ninguém curva a cabeça diante de uma bruxa por educação. Curva por prudência.
O rei Baldemar a esperava no grande salão, de pé junto ao trono vazio — pois não é hábito sentar-se nele em ocasiões de tanta emoção —, com a rainha Ismênia ao lado, ainda pálida do parto mas recusando-se a ficar deitada num dia como aquele. Nos braços dela, envolto em um cobertor bordado com o brasão de Aravel — um leão branco sob três estrelas —, dormia Cassiano, alheio a tudo, como só um recém-nascido sabe estar alheio ao peso do mundo que o espera.
— Ágata das Brumas — disse Baldemar, e sua voz, treinada em anos de discursos e decretos, tremeu apenas um pouco. — Seja bem-vinda a Solvara mais uma vez.
— Majestade — respondeu ela, com uma reverência tão breve que quase não existiu. — Ouço que o reino tem um novo príncipe.
— Tem. E temos esperado por sua visita como se espera pela primavera depois de um inverno comprido.
Ágata sorriu, ou fez algo parecido com um sorriso — um movimento nos cantos da boca que podia ser gentileza ou podia ser cansaço, e ninguém no salão soube dizer qual das duas coisas era mais assustadora. Caminhou devagar até a rainha, e a corte inteira — os duques, os condes, os bispos de mitra dourada, os embaixadores de Vessalar que haviam vindo para as celebrações, os criados que se apertavam junto às portas para ver o que jamais veriam de novo — prendeu a respiração.
— Posso? — perguntou a bruxa, e a rainha, sem palavras, apenas inclinou os braços para que ela visse melhor o rosto do menino.
O que se segue é contado de tantas formas diferentes, em tantas versões nas tabernas e nos livros de história e nas canções de ninar que se cantam ainda hoje em Aravel, que seria impossível dizer com certeza absoluta cada palavra exata que Ágata das Brumas pronunciou naquela noite. Mas todas as versões concordam nisto: ela olhou para o rosto adormecido de Cassiano por mais tempo do que qualquer pessoa jamais olhara para um recém-nascido, e quando finalmente ergueu os olhos, não havia mais sorriso algum em seu rosto.
— Há uma coisa que devo dizer — falou ela, e sua voz, que até então soara como a de qualquer anciã cansada da estrada, ganhou um timbre diferente, mais fundo, como se não saísse apenas da garganta, mas de algum lugar mais antigo dentro dela. — E gostaria, por tudo o que ainda resta de bondade em mim, de não precisar dizê-la.
O salão, que já estava em silêncio, encontrou um silêncio ainda mais profundo — o tipo de silêncio que só existe quando cem pessoas decidem, ao mesmo tempo, prender não apenas a respiração, mas também os próprios pensamentos.
— Este menino — continuou Ágata, e ergueu um dedo fino na direção do cobertor bordado, sem tocar nele — vai morrer em batalha.
Ninguém se moveu. É preciso dizer isso com clareza, porque é a parte que as canções sempre erram: ninguém gritou, ninguém desmaiou, ninguém correu para arrancar o bebê dos braços da bruxa. O choque, quando é grande o suficiente, não produz movimento. Produz apenas uma imobilidade absoluta, como se o próprio ar do salão tivesse engrossado.
Foi o rei Baldemar quem quebrou o silêncio primeiro, e sua voz, desta vez, não tremeu — porque a raiva, ao contrário do medo, costuma vir com firmeza emprestada.
— Retire o que disse.
— Não posso, Majestade.
— Você é uma convidada desta corte, e eu posso mandar cortarem sua língua antes que a segunda palavra saia de sua boca.
— Pode — concordou Ágata, sem recuar um único passo. — E ainda assim o que eu disse já foi dito, e o que está dito não se desfaz cortando a boca que o disse. As palavras, uma vez soltas no mundo, majestade, não obedecem mais a quem as soltou.
A rainha Ismênia, que até aquele momento parecia de pedra, apertou o filho contra o peito com uma força que fez o bebê, finalmente, remexer-se e soltar um choro fino e indignado — o primeiro som de protesto de Cassiano contra o mundo que acabara de conhecer, embora ninguém ali tivesse dúvida de que não seria o último.
— Explique-se — disse a rainha, e havia nela uma dureza que a corte não conhecia, a dureza específica das mães. — Você não vem aqui para dizer meias palavras e desaparecer na névoa como sempre faz. Explique-se, bruxa.
Ágata olhou para ela por um longo momento, e algo em seu rosto — talvez fosse pena, talvez fosse apenas o reconhecimento de uma dor que já vira antes, em outras rainhas, em outros salões, séculos atrás — pareceu suavizar-se.
— Não vim aqui para amaldiçoar seu filho — disse ela, mais devagar agora. — Vim aqui, como sempre venho, para dizer o que vejo. E o que vejo desde que nasci enxergando é isto: certas coisas, no tecido do mundo, já estão tecidas antes mesmo de a lançadeira passar. Eu não escrevo o destino de ninguém, Majestade. Eu apenas sei ler o que já foi escrito antes de mim, por mãos que nem eu conheço.
— Então diga-nos como evitar — exigiu Baldemar, e agora havia nele algo que soava quase como súplica, escondido atrás da ordem. — Diga-nos o que fazer. Trancaremos o menino numa torre. Ele nunca verá uma espada. Nunca sairá dos muros de Solvara. Diga-nos o preço, bruxa, e nós o pagaremos.
Foi aí que Ágata das Brumas disse a segunda coisa que a corte de Aravel jamais esqueceria, e que — mais do que a própria profecia — moldaria tudo o que estava por vir.
— O destino, Majestade, não é um caminho que se possa evitar desviando os pés. É antes como o fim de um rio: podeis represá-lo, podeis desviá-lo por cem vales diferentes, podeis fazê-lo demorar cem anos a mais para chegar ao mar — mas ele chega ao mar. Sempre chega ao mar. O que vocês fizerem a partir de hoje não vai decidir se, mas vai decidir como. E, devo dizer, é provável que decida também quando.
— Então diga-nos o como — disse a rainha, com os olhos marejados mas a voz firme. — Ao menos isso. Se não podemos impedir, ao menos deixe-nos entender.
Ágata sacudiu a cabeça devagar.
— Isso, Majestade, eu não vejo. Vejo apenas o fim de um rio, não cada curva que ele faz para chegar lá. Sei que este menino morrerá em batalha. Não sei em qual batalha, nem em que ano, nem se será velho ou jovem quando isso acontecer. Isso — e aqui ela olhou diretamente para Baldemar, como se quisesse gravar a frase na pedra dos penhascos — isso depende do que ele mesmo fizer de sua vida. O fim do rio está escrito. O curso, não.
Um murmúrio finalmente percorreu o salão — baixo, contido, mas real, como o primeiro vento antes de uma tempestade. Os duques trocaram olhares. Os bispos benzeram-se. O embaixador de Vessalar — então um jovem diplomata que, anos mais tarde, herdaria o trono de seu próprio reino —, e que testemunharia aquela noite e a contaria, anos depois, à própria filha, Isadora, sem saber que um dia ela se casaria com o menino da profecia, apenas baixou a cabeça em silêncio.
O rei Baldemar desceu os três degraus que separavam o estrado do trono do resto do salão — algo que um rei raramente faz diante da própria corte, pois reis, em geral, preferem que o mundo suba até eles — e parou diante de Ágata, olhos nos olhos, ainda que ela fosse mais baixa que ele em quase uma cabeça.
— Você entra em meu castelo, no dia mais feliz da minha vida, e me diz que meu único filho está condenado a morrer com uma lâmina no peito — disse ele, baixinho agora, quase um sussurro, mas um sussurro que todos no salão ainda conseguiam ouvir, porque o silêncio continuava absoluto. — E espera que eu a deixe partir em paz?
— Não espero nada, Majestade — respondeu Ágata, sem baixar os olhos. — Vim porque o costume manda que eu venha, e porque mentir sobre o que vejo seria uma crueldade maior do que dizer a verdade. Um dia, talvez, o senhor entenda que eu não trouxe uma sentença de morte para este castelo. Todos os homens que já nasceram, majestade, receberam a mesma sentença no instante em que nasceram. Eu apenas disse a este, cedo demais talvez, uma parte do como.
— Isso é conforto? — perguntou a rainha, com uma risada amarga e sem humor algum. — Dizer-nos que todos morrem é conforto?
— Não, Majestade. Não é conforto nenhum. Não vim trazer conforto. Vim porque foi para isso que fui chamada.
Houve um longo silêncio depois disso — tão longo que o pequeno Cassiano, agora acalmado de novo nos braços da mãe, voltou a dormir, como se seu próprio destino fosse a coisa menos urgente daquele salão, o que, para ele, naquele instante, realmente era.
Foi a rainha Ismênia quem finalmente falou de novo, e sua pergunta, feita em voz baixa, seria repetida por historiadores e trovadores pelos séculos seguintes como a pergunta central de toda a vida de Cassiano, embora ninguém ali, naquela noite, pudesse imaginar o quanto ela seria certeira.
— Se ele se tornar o melhor espadachim que este reino já viu — perguntou a rainha —, se ninguém jamais conseguir feri-lo em combate, se ele for tão hábil que nenhuma lâmina no mundo chegue perto de sua pele... isso muda alguma coisa?
Ágata das Brumas ficou em silêncio por um bom tempo antes de responder, e quando respondeu, fê-lo olhando não para a rainha, mas para o bebê nos braços dela, como se estivesse, de algum modo estranho, respondendo diretamente a ele.
— Eu não sei, Majestade — disse ela, e pela primeira vez naquela noite havia algo em sua voz que soava genuinamente incerto, quase humano demais para uma bruxa. — O destino de um rio não pergunta se a água que o compõe é forte ou fraca, rápida ou lenta. Ele apenas chega ao mar. Mas devo confessar: em todos os meus anos, nunca vi um homem tentar comprar seu destino com a própria perfeição. Talvez funcione. Talvez seja exatamente esse esforço que o leve, mais depressa, ao lugar de onde tentava fugir. Não sei dizer. Isso, Majestades, não está escrito para mim ler. Está escrito apenas para ele viver.
Foi essa frase — não sei dizer, isso está escrito apenas para ele viver — que a rainha Ismênia repetiria ao filho, anos mais tarde, tantas vezes que ele a saberia de cor antes mesmo de entender o que significava.
Ágata das Brumas partiu de Solvara naquela mesma noite, recusando pousada, recusando ouro, recusando até o cavalo de boa raça que o rei lhe ofereceu para substituir a mula velha. Caminhou de volta para os portões da cidade sob um céu que finalmente se limpara o suficiente para deixar a lua cheia banhar as ruas de branco, e os guardas que a viram partir jurariam depois que, por um instante, antes de desaparecer na escuridão da estrada norte, ela parou, virou-se para trás, e olhou uma última vez para as torres do castelo — não com malícia, disseram eles, mas com algo mais parecido com tristeza.
No salão, muito depois de a bruxa ter partido, muito depois de os duques e os bispos e os embaixadores terem sido dispensados em silêncio para suas câmaras, o rei Baldemar ainda estava de pé junto à janela, olhando para a escuridão do norte, onde a Floresta das Brumas se escondia atrás de colinas que ele, agora, veria para sempre como uma ameaça e não mais como paisagem.
— Vamos protegê-lo — disse ele, sem se virar, à rainha que se aproximara em silêncio. — Vamos protegê-lo de cada espada, de cada guerra, de cada campo de batalha que este mundo tiver a oferecer. Se o destino quer um guerreiro morto, que espere. Que espere cem anos, se for preciso.
A rainha Ismênia não respondeu de imediato. Olhou para o filho, que dormia entre eles no berço trazido às pressas para o salão, tão pequeno que o cobertor bordado com o leão branco e as três estrelas parecia, ainda, grande demais para ele.
— O rio chega ao mar, Baldemar — disse ela por fim, repetindo as palavras da bruxa com uma voz que já não tinha raiva, apenas um cansaço antigo, o cansaço de quem acabara de entender algo que levaria a vida inteira para aceitar de verdade. — A pergunta não é se vamos conseguir represá-lo. A pergunta é o que ele vai fazer com cada curva do caminho até lá.
Nenhum dos dois sabia, naquela noite, o quanto aquela frase se provaria verdadeira. Não sabiam que o menino cresceria obcecado por espadas não por amor a elas, mas por medo; não sabiam que ele mesmo, um dia, cavalgaria até a Floresta das Brumas para fazer à bruxa a mesma pergunta que a mãe fizera naquela noite, e receberia, quase palavra por palavra, a mesma resposta; não sabiam que ele passaria décadas fugindo de cada batalha que o mundo lhe oferecesse, apenas para descobrir, tarde demais para voltar atrás, que a fuga em si havia sido o caminho mais direto até a própria profecia.
Não sabiam, sobretudo, que quando finalmente a espada encontrasse Cassiano — não a espada que ele empunharia, mas o momento em que a guerra, afinal, o encontraria de verdade —, ele não sentiria o horror que temiam sentir por ele. Sentiria, para seu próprio espanto e vergonha, algo perigosamente parecido com alívio. E depois, mais perigoso ainda: algo parecido com prazer.
Mas isso, como diria a própria Ágata das Brumas se alguém tivesse a coragem de perguntar, ainda estava escrito apenas para ele viver — não para ninguém mais, naquela noite ou em qualquer outra, adivinhar.
O que se sabe, o que ficou registrado nos anais de Aravel e cantado depois em cada taverna do reino, é isto apenas: numa noite de outono, sob uma lua que custou a aparecer, nasceu um príncipe chamado Cassiano, e antes mesmo de completar um dia de vida, já sabia — embora não pudesse, é claro, compreender — que sua história teria um fim conhecido muito antes de seu começo. O que ninguém sabia, nem mesmo a bruxa que trouxera a notícia através da névoa, era o que aconteceria em todas as páginas entre aquela primeira noite e a última.
Fantasia épica
Um Mundo Chamado Valdóvia
Em um mundo iluminado por dois sóis, a princesa Daelyth é sequestrada por Thaloryn, que carrega uma antiga dívida contra a família real de Kardênia. Sem os lendários Campeões do Reino disponíveis, a rainha Mara toma uma decisão desesperada: desce às masmorras reais e oferece liberdade a catorze prisioneiros — guerreiros, mercenários, magos, elfos, orcs e felinos-humanos — em troca do resgate da princesa. Unidos por uma promessa de liberdade, mas separados por passados que não podem ser esquecidos, eles descobrem que a missão é muito maior do que parecia. Em Valdóvia, onde magia, lealdade e vingança se encontram, uma princesa sequestrada pode ser só o começo.
A comitiva deixou Velmoria ao amanhecer, e o capitão Bastian sabia, antes mesmo de o portão do reino vizinho se fechar atrás deles, que aquele era o tipo de manhã que os anciãos costumavam chamar de enganosa — clara demais, tranquila demais, do tipo que não promete nada além de si mesma e por isso engana quem confia nela.
A cerimônia havia corrido bem. Um tratado renovado, um brinde erguido por dois reinos que preferiam a paz ao desgaste da fronteira, e a presença da princesa Daelyth — que não assinara nada, não discursara sobre nada, apenas existira ali com a serenidade protocolar que a função exigia — fora suficiente para que Velmoria entendesse o gesto pelo que era: um sinal de boa vontade de Kardênia, e não uma ameaça vestida de visita. Por isso a escolta fora reduzida. Doze homens, onde numa jornada de estado qualquer outra teria ido acompanhada de sessenta. Era assim que se fazia diplomacia entre reinos que não queriam parecer estar se armando um contra o outro: enviava-se a princesa, e enviava-se poucos homens para protegê-la, como quem diz sem precisar dizer que a confiança era mútua.
Bastian havia questionado a decisão, uma vez, semanas antes, diante da rainha Mara. Ela o ouvira até o fim, como sempre fazia, e depois dissera que o risco de parecer desconfiada de um aliado era, naquele momento da história de Kardênia, maior do que o risco de doze homens não serem suficientes para nada. Bastian aceitara a ordem porque era soldado, e soldados aceitam ordens mesmo quando o corpo lhes diz outra coisa. Mas o corpo dele vinha dizendo outra coisa havia semanas, e naquela manhã de retorno, cavalgando ao lado da carruagem aberta onde Daelyth viajava porque preferia ver a estrada a se esconder dela, o corpo de Bastian dizia isso com mais insistência do que nunca.
— Está tudo bem, capitão? — perguntara a princesa, que percebia esse tipo de coisa com uma atenção que não condizia com o resto da sua reputação de figura discreta e comedida da corte.
— Está tudo bem, Alteza — mentira ele, porque era o que se dizia a uma princesa numa manhã de sol, e porque não tinha nada concreto para apontar além de um incômodo sem nome.
O incômodo tinha nome. Só que nenhum dos doze homens daquela escolta sabia disso.
• • •
Havia, na corte de Kardênia, uma pessoa que não era quem dizia ser. Havia sido assim durante anos — tempo suficiente para que a mentira deixasse de parecer mentira até para quem a vivia, tempo suficiente para aprender os hábitos do reino com a paciência de quem não tem pressa porque serve a alguém que também não tem. Essa pessoa sabia da cerimônia de Velmoria antes de a data ser anunciada aos súditos. Sabia do tamanho da escolta antes de os doze homens serem escolhidos. E sabia, sobretudo, uma coisa que a maioria dos conselheiros de Mara jamais teria pensado em calcular: que o trajeto de volta era mais vulnerável do que o de ida.
Na ida, a escolta estava completa, alerta, ainda carregando o peso formal da partida. Na chegada a Velmoria, havia testemunhas demais — guardas do reino anfitrião, curiosos, a cerimônia em si — para que qualquer coisa acontecesse sem que o mundo inteiro soubesse no mesmo dia. Mas na volta, depois da cerimônia, com o dever cumprido e o corpo relaxando um grau que a mente ainda não permitia, num trecho de estrada que cortava por uma passagem entre duas cadeias de colinas cobertas de pinheiros — um lugar sem saída alternativa, sem aldeias próximas, sem testemunhas — havia uma janela. Estreita. Mas real.
Thaloryn não precisou dizer a Carióden o que fazer com ela. Bastava dizer onde e quando.
• • •
O ataque começou sem aviso, o que era, em si, o primeiro sinal de que não era um ataque comum. Bandidos gritam. Fazem barulho, exibem-se, tentam intimidar antes de agir, porque a maioria dos assaltos depende de que a vítima se renda ao medo antes de a violência precisar ser de fato empregada. O que caiu sobre a comitiva de Bastian naquela passagem entre as colinas não gritou nada.
Foram cinco. Carióden à frente, com aquele rosto de felino que os poucos que sobreviveram ao encontro descreveriam depois com a voz embargada, incapazes de explicar exatamente o que havia de errado nele além do fato de que se movia rápido demais para algo daquele tamanho. Atrás dele, Helvyr, impassível como as pedras que pisava, com uma lâmina em cada mão reptiliana. Vortally, silencioso do jeito que só um homem de mais de dois metros consegue ser silencioso, como se o próprio ar se afastasse do caminho dele por precaução. Skryphor, cuja lâmina não tremia. E Valérya, cujo primeiro golpe já estava desferido antes que qualquer um dos doze homens da escolta tivesse completado o gesto de sacar a própria arma.
Bastian teve tempo de gritar uma ordem. Não teve tempo de ver se ela foi obedecida.
O que se seguiu não foi uma batalha, no sentido em que a palavra costuma ser usada. Uma batalha tem incerteza, tem um momento em que o resultado ainda não está decidido e os dois lados lutam para inclinar a balança. Aquilo não teve isso. Aquilo foi uma demonstração, com a precisão fria de gente que já havia feito exatamente aquilo antes, tantas vezes que a coreografia da morte se tornara rotina. Dois homens da escolta caíram nos primeiros segundos. Um terceiro tentou correr de volta para dar o alarme e não conseguiu dar dez passos. Bastian lutou — lutou com toda a habilidade que quinze anos de serviço lhe haviam dado — e durou mais do que a maioria, o que não significava muito diante de Carióden, que o derrubou com um golpe medido, calculado para ferir e não para matar, e seguiu adiante como se o capitão já não importasse mais.
Era esse o detalhe que ninguém entenderia até muito depois, quando as peças da intenção de Thaloryn começassem a se encaixar.
Nem todos morreram.
Alguns foram deixados feridos, deliberadamente incapacitados mas vivos, largados na estrada com ferimentos que doeriam durante semanas mas que não os matariam se recebessem ajuda a tempo. Não era misericórdia. Bastian entenderia isso mais tarde, quando conseguisse pensar com clareza o suficiente para entender qualquer coisa: era mensagem. Thaloryn não queria que Mara apenas soubesse o que havia acontecido. Queria que ela sentisse a forma exata daquele poder — o poder de matar todos e escolher não matar, o poder de deixar vivos os suficientes para contar a história e ainda assim garantir que a história contada fosse exatamente a que ele desejava que fosse contada. Crueldade opcional, demonstrada pela ausência dela. Era a linguagem mais antiga do domínio absoluto, e Thaloryn a falava com fluência.
Daelyth via tudo isso da carruagem, e não tinha, naquele momento, nenhuma ideia do que era capaz de fazer a respeito.
Isso mudaria. Mas não naquele dia.
• • •
Ela não gritou. Isso surpreenderia depois quem ouvisse o relato — que uma princesa capturada diante dos corpos da própria escolta não tivesse gritado nem uma vez —, mas Daelyth havia aprendido, ao longo de uma vida inteira sendo observada, uma forma particular de silêncio que não era coragem exatamente, mas que se parecia com ela o suficiente para servir ao mesmo propósito. Ficou olhando Bastian caído na estrada, respirando, vivo, e arquivou esse detalhe em algum lugar da mente antes de Carióden a levantar da carruagem com uma delicadeza que era, de todas as coisas que aconteceram naquela manhã, a mais perturbadora.
— Não vou lutar — disse ela, porque era verdade, e porque dizer aquilo em voz alta parecia, de alguma forma torta, a última coisa que ainda estava sob seu controle.
Carióden não respondeu. Não precisava.
A viagem até o castelo levou dois dias, e Daelyth os passou em silêncio, observando uma paisagem que ia ficando mais cinzenta a cada légua percorrida para oeste — como se a própria terra soubesse a quem pertencia aquele território e tivesse desistido de discutir o assunto havia muito tempo.
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O castelo a recebeu sem mais violência, o que era, por si só, uma forma diferente de violência.
Thaloryn a esperava nos portões — não porque precisasse recebê-la pessoalmente, mas porque quis que ela visse, desde o primeiro instante, que aquilo não seria o que ela esperava. Nada de correntes. Nada de masmorra. Ele a conduziu por corredores de pedra negra até aposentos que eram, sob qualquer critério razoável, confortáveis: uma cama larga, tapeçarias antigas, uma varanda com vista para as montanhas ao longe. Havia comida esperando, da melhor que o castelo podia oferecer. Havia até, sobre uma mesa de madeira escura, alguns livros — escolhidos, ela perceberia depois, com um cuidado que revelava que alguém havia estudado seus gostos antes daquele dia.
— Não é uma prisioneira — disse Thaloryn, na única frase que dirigiu a ela naquela primeira noite, com a voz neutra de quem constata um fato e não pede desculpas nem oferece explicações. — É uma convidada cuja partida ainda não foi autorizada.
E saiu, deixando a porta destrancada.
Daelyth ficou ali, sozinha, numa sacada com vista para um território que não era o dela, entendendo aos poucos que a ausência de correntes não era gentileza. Era outra coisa. Uma forma de cativeiro que não precisava de grades porque usava a incerteza como muro — a incerteza sobre o que ele queria, sobre quanto tempo aquilo duraria, sobre o que aconteceria com ela se tentasse ir embora pela porta que ele havia deixado, com toda intenção, aberta.
Não sabia, ainda, que era uma mística de nível oito. Ou sabia, e havia passado a vida inteira escolhendo não usar o que sentia crescer dentro dela, por medo do que aquilo significaria se algum dia escapasse do controle.
Isso também mudaria. Mas ainda faltava muito para esse dia.
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Os sobreviventes chegaram aos portões de Kardênia ao entardecer do terceiro dia, num carroção que um lavrador encontrara parado na estrada e cuja carga ele levara ao reino mais próximo sem saber exatamente o que estava transportando até ouvir os gemidos vindos de dentro. Bastian estava entre eles, com um ferimento que o deixaria mancando pelo resto da vida e uma culpa que o deixaria acordado por muito mais tempo do que isso.
Os guardas da muralha viram o carroção se aproximar, viram os uniformes rasgados e manchados, e um deles — muito jovem, ainda sem experiência suficiente para saber controlar a própria voz diante do que via — gritou um nome que ecoou pelas ruas de Kardênia antes mesmo de o carroção cruzar o portão.
O nome era Daelyth. E não vinha acompanhado dela.
Kardênia
Mara estava assinando um decreto sobre taxas portuárias quando o grito atravessou o palácio.
Não foi o grito em si que a fez largar a pena — rainhas aprendem, cedo, a ignorar ruídos que não lhes dizem respeito diretamente, e um grito nas ruas de Kardênia raramente subia até a sala onde ela trabalhava. Foi o silêncio que veio depois. O tipo de silêncio que se instala quando uma notícia se espalha rápido demais para que as pessoas continuem falando sobre qualquer outra coisa, e que Mara sentiu através das paredes do palácio antes mesmo de um mensageiro bater à sua porta.
Quando o mensageiro finalmente entrou — um rapaz que ela reconheceu vagamente como um dos escrivães da guarda, e que claramente havia corrido o trajeto inteiro desde o portão —, não precisou dizer nada. O rosto dele já tinha dito.
— Onde ela está — perguntou Mara, e não era uma pergunta sobre localização. Era uma pergunta que continha, dentro de si, uma dúzia de outras perguntas menores que ela não tinha coragem de formular na ordem certa.
— Não sabemos, Majestade. O capitão Bastian está na enfermaria. Ele... — o rapaz hesitou, e Mara entendeu, pela hesitação, que o que vinha a seguir seria pior do que qualquer coisa que ela houvesse imaginado no trajeto entre a sala do decreto e aquela porta. — Ele disse que foi Thaloryn.
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Kardênia era, havia gerações, o tipo de reino que outros reinos citavam como exemplo de administração sensata. Ficava na costa, onde dois braços de mar se encontravam formando uma baía natural que tornava o comércio uma coisa quase automática, e a riqueza que vinha dos navios havia sido convertida, sob o governo de Mara, em algo mais duradouro do que ouro guardado em cofres: estradas, escolas de ofício, um sistema de justiça que — não sem falhas, mas com honestidade suficiente para ser notável — tentava tratar igual quem chegava igual e diferente quem chegava diferente. Mara governava havia doze anos com uma eficiência que os súditos descreviam, quando queriam ser gentis, como fria, e que ela própria preferia chamar de necessária. Um reino não sobrevivia de sentimento. Sobrevivia de decisões tomadas a tempo, e de uma rainha disposta a tomá-las mesmo quando doíam.
Ela não nascera rainha. Nascera filha de um mercador de tecidos de um bairro médio da capital, e havia chegado ao trono pelo caminho mais improvável — não por conquista, não por linhagem, mas por ter sido, durante três anos, a pessoa em quem o rei Théodor mais confiava para administrar os assuntos que ele próprio não tinha paciência para resolver. O amor viera depois da confiança, o que Mara sempre considerou a ordem correta das coisas, ainda que rara. Théodor a desposara contra o conselho de meia corte e a favor do coração inteiro do povo, que já a conhecia das ruas antes de conhecê-la do trono, e durante os anos que se seguiram Kardênia prosperara sob os dois de um jeito que fazia os historiadores da época discutirem, sem nunca chegar a um consenso, qual dos dois merecia mais crédito.
Daelyth não era filha de sangue de Mara. Era filha de Théodor com sua primeira esposa, morta ao dar à luz, e Mara a criara desde os quatro anos de idade com uma dedicação que nunca precisou do argumento do sangue para se justificar. Havia gente na corte, nos primeiros anos, que fazia questão de mencionar a diferença — madrasta, diziam, com a entonação específica que a palavra carrega nos contos que se contam a crianças, prenunciando crueldade. Mara nunca corrigira essas pessoas em voz alta. Corrigira com o tempo, com a paciência de quem sabe que certas verdades só convencem quando demonstradas repetidamente, ano após ano, até que a palavra madrasta parasse de fazer sentido para qualquer um que observasse os dois juntas.
Théodor morrera há seis anos. Não em batalha, não por veneno, não por nenhuma das mortes dramáticas que os reis costumam merecer nas histórias — morrera de uma enfermidade do pulmão que o consumira ao longo de um inverno inteiro, lentamente, dando a todos tempo demais para se despedir e nenhum tempo para aceitar. Mara assumira o trono sozinha, porque era o que Kardênia precisava e porque não havia mais ninguém que pudesse fazê-lo com a mesma proximidade dos assuntos do reino, e Daelyth, então com oito anos, tornara-se sua responsabilidade única.
As duas nunca haviam falado sobre isso em termos exatos, mas ambas sabiam: o que as unia não era mais a memória de Théodor. Era uma a outra.
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Sobre Thaloryn, havia menos certezas do que qualquer conselheiro real gostaria de admitir.
Sabia-se que governava, havia mais de trinta anos, um território a oeste de Kardênia — um domínio que começara pequeno, uma fortaleza isolada nas terras áridas além das montanhas, e que havia crescido lentamente, absorvendo vilarejos, depois cidades pequenas, depois territórios inteiros que os reinos vizinhos preferiam ceder a enfrentar. Ninguém sabia ao certo sua origem. Havia lendas — de que fora um feiticeiro exilado de uma ordem antiga por praticar magias que a própria ordem considerava proibidas, de que fora um general reptiliano de um império há muito esquecido que se recusara a aceitar a queda do que servira —, mas lendas eram, no fim das contas, apenas o que se conta quando a verdade não está disponível, e a verdade sobre Thaloryn permanecia trancada atrás dos muros de pedra negra de seu castelo, junto com tudo o mais que ele decidia guardar.
O que se sabia com certeza era isto: vinte anos antes, quando o domínio de Thaloryn ainda crescia com a fome de quem testa até onde os vizinhos deixarão, ele avançara sobre uma faixa de território fronteiriço que Kardênia reivindicava havia gerações — não por cobiça de terra fértil, que aquela faixa não tinha, mas pelo acesso a uma passagem de montanha que controlava o comércio de três reinos menores. Théodor, então um rei jovem que ainda não havia se tornado o administrador cauteloso que Mara conhecera anos depois, reunira uma aliança de quatro reinos e marchara pessoalmente contra as forças de Thaloryn na única grande batalha campal que a história registrava entre os dois lados.
Kardênia vencera. Não com facilidade, e não sem perdas que Théodor carregaria pelo resto da vida em forma de cicatrizes e de um silêncio específico que caía sobre ele sempre que alguém mencionava aquela campanha em sua presença — mas vencera, e o preço que impusera a Thaloryn não fora apenas a retirada. Fora uma humilhação calculada: um tratado que o forçava a devolver a passagem de montanha, a pagar tributo por uma década, e — o detalhe que os poucos que conheciam a história completa consideravam a verdadeira ferida — um duelo pessoal, exigido por Théodor como condição para poupar a vida dos oficiais capturados de Thaloryn, do qual Thaloryn saíra vivo, mas visivelmente derrotado diante dos próprios homens, o corpo marcado por um golpe que as escamas jamais esconderiam completamente.
Um rei mortal não esquece isso. Um ser como Thaloryn, cuja vida já se estendia então por séculos e continuaria por séculos depois, tinha ainda menos motivos para esquecer.
Ele nunca atacara Kardênia diretamente depois disso. Os anos seguintes foram de um silêncio tenso ao longo da fronteira, o tipo de paz que não é bem paz, apenas a ausência temporária de guerra enquanto ambos os lados calculam o próximo movimento. E então, antes que qualquer novo movimento fosse feito, Théodor adoecera, e morrera, e a dívida que Thaloryn carregava contra ele — pessoal, específica, distinta de qualquer disputa territorial — ficara sem quem a cobrasse.
Uma dívida não paga não desaparece. Apenas espera.
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Mara soube de tudo isso — não pela primeira vez, mas com um peso novo, o peso específico de quem finalmente entende que uma história antiga acabara de alcançá-la pessoalmente — na noite seguinte à chegada dos sobreviventes, sentada ao lado da cama onde o capitão Bastian se recuperava, ouvindo dele o relato completo pela terceira vez, como se repeti-lo pudesse revelar algum detalhe que mudasse o que havia acontecido.
— Ele não pediu resgate — disse Bastian, e essa era a parte que mais atormentava Mara, mais do que a violência em si, mais do que os nomes dos dois homens que não haviam sobrevivido. — Não houve exigência nenhuma, Majestade. Nenhuma mensagem. Só... ele a levou. Como se resgate fosse um conceito abaixo dele.
Mara já sabia, àquela altura, que não se tratava de dinheiro, nem de território, nem de nenhuma das moedas normais com que reis negociavam uns com os outros. Théodor estava morto havia seis anos e não podia mais pagar dívida nenhuma. Mas havia deixado, sem saber, algo que Thaloryn podia alcançar em seu lugar — e Mara, sentada ao lado da cama de um homem que carregaria aquela noite pelo resto da vida, entendeu com uma clareza fria e definitiva que sua filha não fora levada por acaso, nem por conveniência estratégica.
Fora levada porque era a única coisa que restava de Théodor ao alcance de Thaloryn.
Havia, além disso — e isso Mara só descobriria depois, através de fragmentos que seus próprios espiões trariam ao longo das semanas seguintes, remontados como um mosaico que nunca ficaria completo — uma segunda razão, mais fria ainda do que a vingança pessoal. Thaloryn sabia, de alguma forma que ninguém em Kardênia conseguia explicar, o que Daelyth era. Não apenas filha de um rei morto. Uma mística de nível oito, numa escala em que a maioria dos praticantes de magia de todo o continente jamais ultrapassava o nível quatro ou cinco ao longo de vidas inteiras de estudo. Um poder daquela magnitude, dobrado à vontade de alguém como Thaloryn, não era apenas uma vingança satisfeita.
Era uma arma.
Mara não sabia, naquela primeira noite, que Daelyth mesma desconhecia — ou fingia desconhecer, com uma consistência que enganava a todos, inclusive a si mesma — a extensão do que carregava dentro de si. Isso ela também descobriria depois.
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Ficção científica · space opera
A Grande Guerra Interplanetária
Aos dezoito anos, Hélio de Souza levava uma vida simples em Cordeiro, no interior do Rio de Janeiro — até ser abduzido por uma armada alienígena disposta a apagar sua identidade e transformá-lo em soldado escravizado. Resgatado no último instante por uma nave da Aliança da Liberdade, Hélio decide aprender a lutar sob a orientação de seus novos aliados. Quando a Armada Conquistadora começa a construir uma gigantesca estação capaz de transformar milhões de seres em soldados, ele se vê no centro de uma guerra que não escolheu — e destruir a estação é apenas o começo. De um campo de milho no interior do Rio de Janeiro aos confins do espaço, começa a jornada de um homem comum transformado em soldado de uma guerra interplanetária.
O céu sobre Cordeiro nunca parecera tão vasto. Hélio caminhava entre as fileiras de milho da fazenda de sua família, sentindo a terra úmida sob suas botas gastas. Aos dezoito anos, conhecia cada palmo daquelas terras — as mesmas que seu avô havia cultivado, as mesmas que um dia seriam suas. O vento noturno sussurrava entre as folhas, criando uma sinfonia rural que ele conhecia desde criança.
Era uma noite de lua nova. As estrelas brilhavam com intensidade incomum, como se o universo inteiro estivesse observando aquele pequeno município do interior do Rio de Janeiro. Hélio parou no meio da plantação e olhou para cima, imaginando o que existia além daqueles pontos de luz. Seu pai sempre dizia que sonhar demais fazia o homem esquecer da terra sob seus pés. Mas Hélio não conseguia evitar.
Foi quando o silêncio veio.
Não um silêncio comum — mas a ausência absoluta de som. Os grilos calaram, o vento parou, até mesmo seu próprio coração parecia ter pausado. E então, a luz. Uma luz prateada que desceu do céu como um julgamento divino, envolvendo Hélio em um cilindro luminoso que o arrancou do chão.
Ele tentou gritar, mas nenhum som escapou. Seu corpo flutuava, impotente, em direção a algo que sua mente se recusava a compreender. Uma estrutura metálica gigantesca pairava sobre a fazenda, com contornos que desafiavam a geometria. A última coisa que Hélio viu antes de desmaiar foi o campo de milho ficando cada vez menor embaixo dele, sua casa transformando-se em um ponto minúsculo, e Cordeiro desaparecendo na escuridão da Terra.
A dor veio primeiro. Uma dor aguda na nuca, como se agulhas estivessem sendo inseridas em seu cérebro. Hélio abriu os olhos e encontrou um teto metálico alienígena sobre si, percorrido por veias de luz pulsante. O ar tinha um cheiro estéril, quimicamente puro de uma forma que fazia seus pulmões arderem.
Ele estava deitado em uma superfície dura e fria. Quando tentou se mover, descobriu que seus pulsos e tornozelos estavam presos por algum tipo de campo de força invisível. O pânico tomou conta dele. Onde estava? O que estava acontecendo?
— Socorro! — gritou, e sua voz ecoou pelo ambiente desconhecido. — Alguém! Por favor!
Uma porta se abriu com um silvo pneumático, e eles entraram.
Não eram como nos filmes. Esses seres eram altos, com quase três metros de altura, cobertos por uma armadura biomecânica que parecia fundida à própria pele cinza-esverdeada. Seus rostos eram angulosos, com olhos completamente negros que não piscavam. Não tinham bocas visíveis, mas Hélio podia sentir suas intenções — frias, calculistas, desprovidas de empatia.
Um deles aproximou-se, estendendo algo que se assemelhava a uma garra com múltiplas articulações. Na ponta, um dispositivo pulsava com luz vermelha. Hélio se debateu inutilmente contra suas prisões invisíveis.
— O que vocês querem de mim? — sua voz saiu embargada pelo medo.
Os alienígenas não responderam. O dispositivo foi pressionado contra seu peito, e Hélio sentiu algo sendo injetado em seu corpo — não um líquido, mas informação. Dados despejados diretamente em sua mente. Imagens de guerras distantes, de planetas incendiados, de milhares de seres como ele sendo transformados em soldados. A Armada Conquistadora não pedia permissão. Simplesmente tomava o que precisava.
Hélio compreendeu com horror absoluto: ele seria reprogramado, sua humanidade extraída, transformado em uma arma viva para lutar guerras que não eram suas, por um império que via a vida como mero recurso a ser explorado.
— Não... — sussurrou, sentindo sua consciência começar a escorregar. — Por favor, não...
Foi quando o mundo explodiu.
O som foi ensurdecedor. A nave inteira tremeu como se tivesse sido atingida por um meteoro. Alarmes tocaram em frequências que machucavam os ouvidos. As luzes vermelhas de emergência inundaram o ambiente. Os alienígenas que o seguravam congelaram por um instante, suas cabeças se virando em uníssono para a porta.
Outra explosão. Mais próxima desta vez.
As contenções de Hélio se desativaram abruptamente, e ele caiu da mesa metálica, batendo com força no chão. Seu corpo ainda estava entorpecido pela injeção, mas a adrenalina começava a queimar em suas veias. Ele rolou para trás de uma coluna metálica enquanto a porta da sala era arrombada com violência.
O que entrou não era como os captores de Hélio.
Eram diversos — tantas formas, tantos tamanhos. Uma criatura reptiliana com escamas azuis brilhantes, empunhando um rifle que disparava feixes de energia púrpura. Um ser humanoide envolvido em algo que parecia água líquida mantida em forma de armadura. Uma entidade com seis braços e exoesqueleto cristalino, movendo-se com velocidade impossível.
A batalha foi brutal e rápida. Os Conquistadores responderam ao fogo, mas estavam em desvantagem. Hélio viu um dos seus captores ser partido ao meio por uma lâmina de luz. Outro foi desintegrado por uma arma que transformou seu corpo em partículas de poeira. O cheiro de ozônio e carne queimada encheu o ar.
— Terráqueo! — uma voz grave rugiu em português perfeito, embora carregada com harmônicos alienígenas. — Você consegue se mover?
Hélio olhou para cima e viu o ser reptiliano avançando em sua direção, seus olhos dourados fixos nele. Por um momento irracional, Hélio pensou que poderia ser outra armadilha. Mas então viu algo nos olhos da criatura que reconheceu: urgência, preocupação — emoção genuína.
— Eu... acho que sim — respondeu, forçando-se a ficar de pé.
— Então corra! Agora!
Hélio não precisou que repetissem. Seus pés encontraram força do nada, e ele correu. Correu através de corredores metálicos enquanto explosões faziam a nave tremer. Correu passando por cadáveres de ambos os lados do conflito. Correu seguindo o ser reptiliano e seus companheiros, sem saber para onde estava indo, sem saber se sobreviveria aos próximos cinco minutos.
Eles chegaram a uma câmara de hangar onde uma nave menor aguardava, seu casco marcado por cicatrizes de batalhas antigas. Outros sobreviventes já estavam embarcando — alguns feridos, todos urgentes.
— Entre! — ordenou o reptiliano, empurrando Hélio para dentro.
— Mas eu não... eu não entendo o que está acontecendo! — Hélio protestou enquanto era praticamente jogado para dentro da nave.
— Entenderá. Se sobrevivermos.
A porta se fechou. Os motores rugiram. E a nave de resgate disparou para fora da Armada Conquistadora no exato momento em que uma série de explosões em cadeia começou a despedaçar o vaso captor de dentro para fora.
Hélio foi jogado contra uma parede enquanto a nave acelerava. Através de uma pequena janela, ele viu a Terra — seu lar, sua família, tudo que conhecia — tornando-se uma esfera azul e branca cada vez menor. Em segundos, tornou-se apenas um ponto. Em minutos, desapareceu completamente.
Hélio caiu de joelhos e chorou. Não sabia que jamais voltaria para casa.
Terror · fantasia sombria
O Lobisomem do Ártico
No extremo norte do mundo, onde o gelo domina a paisagem e a noite parece não ter fim, existe uma antiga lenda sobre Amarok, um caçador amaldiçoado a se transformar numa fera insaciável. Até que os ataques começam novamente: famílias inteiras são encontradas brutalmente assassinadas dentro de seus próprios iglus, com marcas que ninguém consegue explicar. Nuka, o mais experiente caçador de Nuvuk, decide enfrentar o que quer que esteja aterrorizando sua comunidade. Ferido durante o confronto, retorna à aldeia acreditando ter encerrado a ameaça — mas algo mudou nele. Enquanto luta contra dores inexplicáveis, lapsos de memória e acontecimentos que não consegue compreender, Nuka precisa descobrir a verdade antes que se torne, ele mesmo, a próxima lenda contada junto ao fogo.
Antes que houvesse nomes para as coisas, dizem os velhos de Nuvuk, já havia fome no gelo. E onde há fome há também aquilo que a fome cria quando não encontra o que comer.
Nas noites em que o vento parava — e no Ártico o vento parar é sempre um mau presságio, porque o vento parado é o vento que está prestes a se lançar com toda a força que vinha guardando —, era costume das famílias se reunirem no maior iglu da aldeia, onde o fogo era mantido mais alto e mais generoso, e ali uma anciã contava a mesma história que sua própria avó lhe contara, e que a avó de sua avó contara antes dela, numa corrente de vozes que ia se perdendo gelo adentro, até um tempo em que ninguém mais se lembrava com clareza.
As crianças se apertavam sob as peles, os olhos arregalados, fingindo não ter medo. Os cães, do lado de fora, latiam baixo para as sombras que o luar desenhava sobre a neve, e ninguém prestava atenção neles, porque cães sempre latem para sombras. Essa seria, mais tarde, a primeira lição que muitos aprenderiam tarde demais: que os cães quase nunca latem para nada.
A anciã começava sempre da mesma forma.
— Muito antes de seus avós nascerem, quando o gelo ainda estava aprendendo a forma que tem hoje, vivia entre os nossos um caçador chamado Amarok.
Amarok, diziam, não era um homem mau. Era, ao contrário, o melhor entre os bons — o caçador mais generoso que a aldeia já conhecera, aquele que voltava do gelo com mais foca do que sua própria família podia comer e distribuía o excedente pelos iglus dos velhos e das viúvas antes mesmo de pensar em si. Amarok tinha esposa e tinha filhos, e tinha, sobretudo, uma fome estranha, uma fome que nenhuma quantidade de carne parecia satisfazer — não fome do corpo, mas fome de outra espécie, a fome de quem sente que o mundo lhe deve algo que o mundo nunca vai pagar.
Numa noite de lua cheia, no auge do inverno mais cruel que os anciãos daquele tempo conseguiam recordar, Amarok saiu para caçar sozinho, contra o conselho de todos. As focas haviam sumido, os caribus haviam migrado para além do horizonte, e a aldeia começava a sentir os primeiros dentes da fome de verdade — aquela que esvazia o rosto das crianças e apaga o brilho dos olhos dos velhos. Amarok jurou que voltaria com comida ou não voltaria de forma alguma.
Ele encontrou, no meio do gelo, uma loba. Não uma loba comum — os que contam a história sempre insistem nesse detalhe —, mas uma criatura branca como o próprio inverno, de olhos que pareciam conter dentro de si toda a fome que já existiu e toda a fome que ainda vai existir. A loba não fugiu dele, como fariam os animais comuns. Sentou-se na neve e esperou, como se soubesse que ele viria, como se o tivesse esperado durante gerações.
Amarok, desesperado, ergueu sua lança.
A loba falou.
Ninguém que conta essa história sabe explicar exatamente o que ela disse, porque as palavras não sobreviveram à travessia de boca em boca ao longo de tantos invernos. Mas o sentido, esse permaneceu, transmitido como se fosse ele próprio a coisa mais importante a preservar: a loba ofereceu a Amarok um trato. Ela lhe daria a força de nunca mais sentir fome, a força de caçar qualquer coisa, em qualquer noite, sem jamais falhar. Em troca, pedia apenas que ele carregasse, junto com essa força, uma parte dela mesma — uma sombra viva, guardada dentro do peito, que despertaria todas as noites, crescendo ainda mais forte sempre que a lua se mostrasse inteira no céu.
Há quem conte, nas versões mais completas da história — as que só os anciãos mais velhos ainda se davam ao trabalho de repetir por inteiro —, que Amarok hesitou antes de responder. Que olhou para trás, na direção de onde viera, como se pudesse enxergar através do gelo e da distância o próprio iglu, a fumaça fina subindo da abertura de ventilação, os filhos adormecidos sob as peles. E que pensou, naquele instante, que um trato feito por amor não podia ser um trato ruim. Essa é a parte da história que a anciã sempre repetia duas vezes, olhando direto nos olhos das crianças mais velhas, as que já tinham idade de caçar sozinhas: nenhum homem que aceita o trato da loba branca pensa que está fazendo algo errado. Todos pensam que estão salvando alguém. É assim que a sombra escolhe — não pelos fracos de caráter, não pelos cruéis, mas pelos que amam demais para dizer não a uma promessa de força.
Amarok, pensando em sua aldeia faminta, aceitou.
Na primeira noite depois daquele encontro, mal o sol se pôs, ele sentiu o próprio corpo se voltar contra si — os ossos se reorganizando com estalos que pareciam gelo rachando sob o peso de um trenó carregado, a pele se abrindo para dar espaço a um pelo branco e grosso, as mãos se curvando em garras, a mandíbula se estendendo para frente até que não sobrasse mais rosto de homem algum. E quando a transformação terminou, o que restava de Amarok — se é que ainda restava algo — não reconheceu esposa, não reconheceu filhos, não reconheceu vizinho. Reconhecia apenas a fome, e a fome não escolhe entre estranhos e amados.
Pela manhã, Amarok acordou nu na neve, longe de seu iglu, sem lembrança de nada além de sonhos confusos com sangue e corrida. Voltou para casa e encontrou o que a fome havia deixado para trás.
A partir daquela noite — dizem os anciãos, e nisso todas as versões da história concordam, por mais que discordem em tudo o mais — Amarok nunca mais foi inteiramente homem, nem inteiramente loba. Vagou pelo gelo por muitas vidas, sempre voltando à forma humana quando o sol se erguia, sempre se perdendo na forma da fera assim que a noite caía, e a cada noite uma aldeia diferente aprendia, da pior maneira possível, que o pior monstro nunca é aquele que vem de fora. É aquele que já dormiu ao seu lado.
Dizem também — e essa parte a anciã contava mais baixo, quase em sussurro, como quem tem vergonha de repetir algo tão triste — que Amarok, nos dias em que era ainda homem, sabia. Não os detalhes, não os rostos, não os nomes das vítimas. Mas sabia, do jeito que se sabe uma verdade que o corpo guarda antes de a mente aceitar, que algo terrível acontecia toda noite e ele acordava exausto demais, gelado demais, com terra e neve sob as unhas que não deveriam estar ali. Ele nunca contou a ninguém. Tinha medo, dizem, de que a esposa deixasse de olhá-lo como olhava; medo de que os filhos, ainda pequenos, sentissem nele o mesmo cheiro que os cães da aldeia sentiam e passassem a fugir de seu colo. Então ficou calado. E o silêncio, como a própria anciã sempre lembrava às crianças, foi o que deu tempo para a sombra crescer até que não sobrasse mais nada para salvar.
Contam os mais velhos que Amarok, no fim, não foi morto por lança nem por arpão, mas por uma flecha disparada pelo próprio filho, que já era um homem crescido e que havia jurado, depois de perder a mãe e os irmãos, encontrar a fera que assombrava as noites e dar fim a ela nem que isso lhe custasse a última gota de sangue de seu povo em suas veias. E quando a flecha atravessou o peito da criatura e ela caiu na neve, o filho viu, diante de si, não uma fera, mas o rosto do próprio pai, envelhecido, em paz pela primeira vez em muitos invernos.
— E é por isso — a anciã sempre terminava, baixando a voz até que as crianças precisassem prender a respiração para ouvir — que dizemos, quando o vento para de repente e os cães latem para o nada, que Amarok ainda anda por aí. Não o mesmo Amarok, porque aquele já descansa sob o gelo há muito tempo. Mas a sombra que a loba branca oferece, ela nunca desapareceu. Ela apenas espera. Espera o próximo caçador desesperado o bastante, ou orgulhoso o bastante, ou simplesmente azarado o bastante, para tocar naquilo que não deveria ser tocado.
Os pais, ouvindo de longe, raramente interrompiam a anciã. Muitos já tinham ouvido a mesma história tantas vezes que poderiam recitá-la palavra por palavra, mas havia algo no ritual — no fogo baixo, no vento contra o gelo, nas vozes das crianças sussurrando entre si para fingir coragem — que fazia valer a pena ouvir de novo. Talvez fosse porque toda história contada junto ao fogo, no Ártico, carregava um segundo propósito além do entretenimento: ensinar, sem parecer ensinar, as regras que mantinham todos vivos. Não durma longe da aldeia sem necessidade. Não confie cegamente num animal que não teme o homem. Preste atenção quando os cães latem para o nada, porque os cães quase nunca latem para o nada. E, acima de tudo, se alguma coisa parecer errada com alguém que você ama — um silêncio novo, um olhar diferente, manhãs que não se explicam —, pergunte. Pergunte antes que seja tarde demais para a pergunta importar.
Havia sempre, nesse ponto da história, uma criança que perguntava — havia sempre uma criança que perguntava — como reconhecer, então, quando a sombra escolhera alguém. E a anciã sempre respondia da mesma maneira, com os olhos fixos no fogo, como se ali, nas chamas, ainda pudesse ver o rosto branco da loba que começara tudo.
— Vocês saberão. As manhãs dele deixarão de fazer sentido. Ele vai acordar em lugares onde não se lembra de ter ido dormir. Vai encontrar sangue onde não deveria haver sangue. E vai fazer o que fazem todos os homens de bom coração diante de algo que não conseguem entender: vai ficar calado. Vai ter vergonha. Vai ter medo de que pensem que ele enlouqueceu. E esse silêncio, crianças — esse silêncio é a segunda parte da maldição, e talvez seja pior do que a primeira, porque é o silêncio que dá tempo para a sombra crescer.
Havia ainda uma última pergunta que as crianças mais corajosas ousavam fazer, sempre no fim, sempre com a voz mais baixa do que gostariam de admitir: se a sombra era tão paciente, tão antiga, tão disposta a esperar mil invernos por um único caçador desesperado, por que raios ela se importava em oferecer alguma escolha? Por que não simplesmente tomar quem quisesse, sem trato, sem oferta, sem a fingida gentileza de perguntar primeiro?
A anciã nunca tinha uma resposta pronta para essa. Olhava para o fogo por um longo momento, como se a pergunta também a incomodasse depois de tantos anos contando a mesma história, e então dizia, quase para si mesma:
— Talvez porque um trato aceito doa mais do que um roubo. Talvez a sombra goste da dor de ter escolhido. Ou talvez — e isso era o que mais assustava as crianças, mais do que qualquer descrição de garras ou presas — talvez ela simplesmente respeite os bons demais para forçá-los. Prefere esperar que eles próprios abram a porta.
Essa história foi contada em Nuvuk por gerações, e por gerações não passou de história — o tipo de coisa que se conta para explicar por que não se deve caçar sozinho à noite, por que não se deve confiar cegamente em animal nenhum que não foge de um homem armado, por que os cães, quando latem para o nada, talvez não estejam latindo para o nada.
Ninguém mais se lembrava dela com todos os detalhes quando os ataques começaram outra vez. Restavam apenas fragmentos — um nome, Amarok, que os mais velhos ainda usavam como quem usa uma praga antiga, sem lembrar bem seu significado; um hábito de evitar longas caçadas solitárias depois do anoitecer, mantido mais por costume do que por crença; e a vaga sensação, compartilhada por quase todos que cresceram ouvindo aquela voz junto ao fogo, de que existia no mundo alguma coisa maior e mais paciente do que os ursos e os lobos que se podia caçar e comer.
Aappaq, que se tornaria o xamã de Nuvuk, foi uma daquelas crianças que ouviram a história tantas vezes que já não sabia dizer se acreditava nela ou se ela simplesmente vivia dentro dele, como vivem as canções que se aprende antes de aprender a falar. Ele a repetiria, décadas depois, a outra geração de crianças assustadas — e entre elas estaria uma menina de nome Naja, sentada no colo da mãe, os olhos fixos no mesmo fogo que sua avó e a avó de sua avó haviam fitado antes dela.
Mas isso ainda estava por vir.
Aappaq costumava acrescentar, quando já era ele quem contava a história junto ao fogo, um detalhe que sua própria avó lhe jurara ser verdadeiro: que a sombra da loba branca nunca desaparece de fato quando o hospedeiro morre. Ela apenas volta a dormir, à espera de outro corpo, outro coração desesperado o bastante para tocar naquilo que não deveria ser tocado. Podiam se passar dez invernos, ou cem, ou mil — não importava. O gelo tem paciência que nenhum homem consegue igualar, e a sombra aprendeu essa paciência com o próprio gelo.
— É por isso — Aappaq dizia às crianças, décadas depois de ouvir as mesmas palavras da boca de sua avó — que não se deve caçar sozinho depois que o sol se põe. Não porque a noite em si seja mais perigosa do que sempre foi. Mas porque é na escuridão que a sombra se move, todas as noites, sem esperar por coisa alguma — e ela está sempre à espreita, procurando por alguém que esteja sozinho demais para perceber.
Naquele inverno em particular — o inverno em que esta história de verdade começa —, a lenda de Amarok era apenas isso: uma lenda, contada para adormecer crianças assustadas com o vento. Ninguém em Nuvuk suspeitava que a sombra da loba branca, adormecida havia tantas gerações que quase todos haviam deixado de temê-la, estava prestes a escolher, mais uma vez, um caçador em quem reconhecesse a mesma fome antiga: desespero demais, orgulho demais, ou apenas o azar de estar no lugar errado na hora errada.
Ninguém suspeitava que dessa vez ela escolheria o melhor de todos.
• • •
Na margem norte da aldeia, onde o gelo se torna tão espesso que ruge como coisa viva ao se mover, um homem chamado Nuka dormia sozinho em seu iglu, sem saber que, a poucos dias de distância, uma família seria encontrada esfolada dentro de seu próprio lar — e que seria ele, o caçador mais habilidoso daquelas redondezas, quem sairia para vingá-la.
Ele não sabia, ainda, que estava prestes a se tornar, ao mesmo tempo, o herói e o monstro da história que sua própria filha um dia contaria — se sobrevivesse para contá-la.
O vento, do lado de fora, havia parado.
E em algum lugar na escuridão, muito longe de qualquer fogo, muito longe de qualquer voz contando histórias antigas para acalmar o medo das crianças, alguma coisa branca ergueu a cabeça na direção da lua, farejando o ar gelado como quem reconhece, depois de muito tempo, um cheiro que não esperava sentir de novo.
O cheiro de um caçador solitário demais para ter quem o avise.
Nuka não era, de fato, um homem sem ninguém. Tinha Naja, sua filha, cujo iglu ficava perto o bastante do dele para que os dois pudessem ouvir, em noites de vento fraco, o latido um do outro. Tinha os cães, tinha o respeito da aldeia, tinha as lembranças de Aviaq, sua esposa, que uma febre havia levado embora anos antes de uma forma muito mais simples e muito mais cruel do que qualquer lenda — nenhum monstro, nenhuma garra, apenas o corpo humano cedendo a um mal que nenhum remédio da aldeia pôde deter. Tinha, em suma, tudo aquilo que um homem precisa para não se sentir sozinho.
Mas havia, nas semanas em que a fera ainda dormia nas franjas da tundra, uma solidão diferente se aproximando — o tipo de solidão que não se mede pela quantidade de gente ao redor, mas pela quantidade de coisas que um homem carrega e não pode dividir com ninguém. E essa, a história prestes a começar provaria, é a pior solidão de todas: não estar sozinho no mundo, mas estar sozinho dentro da própria pele.
O vento, que havia parado, começou a soprar de novo — devagar no início, quase um sussurro contra o gelo, como se algo, em algum lugar muito distante, tivesse acabado de acordar e estivesse apenas testando o ar antes de decidir para onde ir.
O que vem por aí
Futuros lançamentos
Histórias já escritas, ainda amadurecendo antes de chegar às suas mãos.
Guerreiros do Mundo Distante
Livro 1 — Hivewind
Em Fase de Revisão e Diagramação
Crônicas de Lunna
A Queda de Vandelfa
Em Fase de Revisão e Diagramação
Crônicas de Lunna
As Sylvarianas
Em Fase de Revisão e Diagramação
Crônicas de Lunna
Gênios em Guerra
Em Fase de Revisão e Diagramação
Crônicas de Lunna
O Concílio vs Daark
Em Fase de Revisão e Diagramação
Crônicas de Lunna
Surge o Cavaleiro Sombrio
Em Fase de Revisão e Diagramação
Lunna
Livro 1 — Rumores de Guerra
Em Fase de Revisão e Diagramação
Lunna
Livro 2 — O Despertar das Sombras
Em Fase de Revisão e Diagramação
Lunna
Livro 3 — O Ceifador Ressurge
Em Fase de Revisão e Diagramação
Lunna
Livro 4 — O Cavaleiro Sombrio
Em Fase de Revisão e Diagramação
Lunna
Livro 5 — O Ataque da Matilha
Em Fase de Revisão e Diagramação
Lunna
Livro 6 — O Retorno de Daeminikus
Em Fase de Revisão e Diagramação
Um Mundo Chamado Valdóvia
Livro 2 — Despertar em Valdóvia
Em Fase de Revisão e Diagramação
Gelo Flamejante
Em Fase de Revisão e Diagramação
Histórias Inimagináveis
Em Fase de Revisão e Diagramação
Ninjutsu — A Arte de Matar
Em Fase de Revisão e Diagramação
Nobreza na Alma
Em Fase de Revisão e Diagramação
O Caçador de Psicopatas
Em Fase de Revisão e Diagramação
O Caçador de Relíquias
Em Fase de Revisão e Diagramação
O Combatente do Futuro
Em Fase de Revisão e Diagramação
O Derradeiro Refúgio
Em Fase de Revisão e Diagramação
O Lenhador
Em Fase de Revisão e Diagramação
O que Restou de Nós
Em Fase de Revisão e Diagramação
Recuo Perpétuo
Em Fase de Revisão e Diagramação
Tudo o que Pude Lembrar
Em Fase de Revisão e Diagramação
Vivendo entre os Mortos
Em Fase de Revisão e Diagramação
Sobre o autor
André L. F. Nunes
Olá, meu nome é André Lúcio de Faria Nunes. Nasci no Rio de Janeiro e, desde muito cedo, a literatura, a natureza, a música, o cinema e o espírito de aventura passaram a fazer parte da minha vida.
Minha relação com a escrita começou ainda na infância, quando eu criava e desenhava minhas próprias histórias em quadrinhos. Aos 17 anos, escrevi meu primeiro livro, Dimensão Sinistra — Livro 1 — O Planeta Katáris, dando início a uma trajetória que nunca mais abandonei: desde 1989, mantenho a meta de concluir dois livros por ano.
Sou autodidata, filho de um microempresário e de uma engenheira química. Como autor, gosto de explorar diferentes possibilidades da literatura, transitando por aventura, suspense, mitologia, comédia, romance, fábula, crime, terror, ficção científica, folclore, mistério, drama e fantasia — muitas vezes misturando vários desses elementos numa mesma história, porque acredito que ela não precisa estar limitada a um único gênero. Em cada uma delas, busco criar histórias envolventes, repletas de ação e personagens marcantes, capazes de transportar o leitor para lugares e situações extraordinárias.
Essa paixão pela aventura também está diretamente ligada à minha vida fora da literatura: sou administrador do grupo de trilhas e excursões Aventureiros do Rio, atividade que me mantém em contato constante com a natureza, com viagens e com o espírito de exploração que sempre fez parte da minha personalidade. Não por acaso, o leitor vai perceber essa influência em alguns dos meus livros — muitas situações, ambientes, personagens e ideias nascem, direta ou indiretamente, desse universo que vivencio há muitos anos.
Minha paixão pela Amazônia vai além disso. Já viajei pela região e tive contato direto com a floresta — experiências que se tornaram fonte de inspiração para os cenários, costumes, personagens e atmosferas da série Trágica Aventura na Amazônia, onde procuro unir ficção, aventura, sobrevivência, cultura amazônica e suspense. A Amazônia ocupa um lugar especial na minha vida e continua despertando minha curiosidade e minha imaginação.
Também sou fotógrafo amador e gosto de registrar paisagens, lugares e momentos das minhas viagens e expedições — muitas dessas experiências acabam se transformando em ideias para novas histórias. Para mim, viajar, observar, fotografar e escrever são formas diferentes de explorar o mundo e alimentar a imaginação.
Cada livro que escrevo representa uma nova experiência, uma nova descoberta, uma oportunidade de levar o leitor comigo para um lugar diferente. Depois de tantos anos escrevendo, continuo acreditando que cada história é uma viagem — e que o leitor deve sentir que está fazendo parte dela.
Convido você a mergulhar em minhas palavras, explorar minhas histórias e deixar-se levar por elas. Boa leitura — e que cada página lhe traga prazer, emoção, aventura e inspiração.