PRÓLOGO — Vinte e Dois Dias
Do alto, o Hangar Ícaro parecia menos uma construção humana do que uma cicatriz sobre o cerrado. Trinta quilômetros a noroeste de Brasília, onde antes havia apenas capim dourado e formigueiros do tamanho de casas, agora se erguia uma cúpula de aço e vidro reforçado com quatro quilômetros de diâmetro, e dentro dela, suspensa sobre andaimes que pareciam teias de aranha vistas de longe, a Nave Aurora esperava.
Ninguém que a visse pela primeira vez conseguia, de fato, compreendê-la. Os números diziam pouco: dois mil e oitocentos metros de comprimento, dezoito Alas habitacionais, capacidade projetada para um milhão de almas. Era preciso vê-la de dentro, andar por seus corredores ainda cheirando a solda e tinta fresca, subir pelos elevadores que ligavam a Ala de Comando às docas de carga, atravessar os parques internos ainda sem grama, apenas terra revolvida esperando as primeiras mudas, para entender que aquilo não era uma máquina — era uma cidade que aprendera, por necessidade, a voar.
Os engenheiros mais velhos, os que tinham entrado no projeto ainda na fase de escavação da fundação, gostavam de contar, para os mais novos, a história do dia em que o casco principal fora soldado pela última vez, fechando o círculo entre a proa afilada e as doze docas de popa. Tinham comemorado com champanhe barato, ali mesmo, sentados no chão de metal, sem imaginar — como ninguém no complexo imaginava — o quão perto estavam de precisar daquele casco de verdade, e não apenas como símbolo de uma proeza de engenharia.
Passava das cinco da manhã quando as primeiras luzes do hangar começaram a se acender, setor por setor, como se o próprio edifício estivesse despertando de um sono incômodo. Era terça-feira. Faltavam, segundo o cronograma oficial do Projeto Horizonte, vinte e dois dias para o início do embarque em massa — o maior êxodo da história da espécie, comprimido em duas semanas de filas, triagens e despedidas que ninguém sabia direito como suportar.
Ninguém, exceto talvez os dois responsáveis por fazer aquele gigante voar, imaginava que o prazo real seria bem mais curto.
• • •
Em casa, no SQS 308, Rafael Antunes Guerra tomava café em pé, olhando pela janela da cozinha sem realmente ver o quintal. Era um homem de quarenta e quatro anos que carregava a idade nos ombros mais do que no rosto — a postura curvada de quem passara duas décadas debruçado sobre pranchetas e, depois, sobre telas. Físico de formação, engenheiro aeroespacial por necessidade e, havia sete anos, chefe absoluto do Projeto Horizonte, ele tinha o hábito de acordar já discutindo, em silêncio, com pessoas que não estavam no cômodo.
— Você vai comer alguma coisa de verdade ou só vai ficar com essa xícara na mão feito estátua? — perguntou Denise, entrando na cozinha já vestida para o trabalho, o cabelo preso às pressas.
— Estou comendo com os olhos — respondeu ele, sem se virar. — É mais rápido.
Ela riu, um riso cansado, o riso de dezenove anos de casamento e de um marido que havia, nos últimos tempos, se tornado uma espécie de hóspede ilustre na própria casa. Rafael sabia disso. Sabia que Lucas, o mais velho, já quase não lhe dirigia a palavra durante o café, ocupado demais decidindo se levaria ou não os livros de cálculo para a faculdade naquele dia em que talvez nem tivesse aula, porque as aulas andavam cada vez mais erráticas, canceladas sem aviso, como quase tudo naqueles últimos meses. Sabia que Sofia, aos quinze anos, tinha aprendido a interpretar seu silêncio à mesa como se fosse um boletim meteorológico — hoje tempo fechado, melhor não puxar assunto. E sabia, sobretudo, que Théo, de nove anos, ainda não tinha aprendido a se resignar a isso, e continuava, teimosamente, tentando.
Foi o caçula quem entrou correndo na cozinha, descalço, com um objeto trançado nas mãos.
— Pai. Pai, olha. Terminei ontem à noite.
Era uma pulseira de couro, feita com o material sobrando de um estojo de escola, os nós tortos e desiguais, evidentemente obra de um menino que ainda não tinha destreza nas mãos, mas tinha, em compensação, uma paciência de monge.
Rafael se ajoelhou — o corpo reclamou, como sempre reclamava ultimamente — e deixou o filho amarrar a pulseira em seu pulso esquerdo.
— Ficou torta — disse Théo, examinando o próprio trabalho com o rigor implacável dos artistas de nove anos.
— Ficou perfeita — corrigiu Rafael, e por um instante, só um instante, esqueceu o hangar, os testes de propulsão marcados para aquela tarde, a reunião de segurança das dez horas, e existiu apenas ali, com o filho, na cozinha.
O instante não durou. Passou o suficiente para Denise notar, com aquela mistura de ternura e mágoa que já não sabia mais separar uma da outra, e dizer baixinho, quando Théo saiu correndo para procurar os tênis:
— Ele vai sentir sua falta amanhã. Sabe disso, né? Vocês vão estar lá, no complexo, o mês inteiro, treinando gente pra embarcar, e ele vai ficar aqui contando os dias.
— Vinte e dois dias — disse Rafael, como se o número fosse um talismã. — Aí a gente embarca junto. A família toda. E ele vai ter uma nave inteira pra correr descalço.
Ele não sabia, evidentemente, que estava errado sobre o número. Ninguém sabia.
• • •
Do outro lado da cidade, na Asa Norte, Camila Duarte Salles enfrentava sua própria versão da manhã.
— A senhora prometeu que ia tomar o remédio da pressão antes do café, dona Iracema, não depois — dizia ela, de pé na porta do quarto da mãe, o tom mais de engenheira revisando um protocolo do que de filha.
— E eu prometi guardar segredo do namorado que você teve em 2019, e olha, ainda tô guardando — respondeu a mãe, sem tirar os olhos do jornal digital na mesa de cabeceira. — Cada uma cumpre as promessas no seu tempo, filha.
Camila riu, apesar de si mesma. Dona Iracema tinha setenta e dois anos e uma língua afiada que não se importava nem um pouco com o título de doutora da filha, nem com o fato de que aquela filha, àquela altura, era a segunda pessoa mais importante de todo o Projeto Horizonte — a mulher que, ao lado do chefe do projeto, entendia melhor do que qualquer outro ser humano vivo como fazer dois mil e oitocentos metros de metal saírem do chão.
Trinta e nove anos, solteira, sem filhos — fato que sua mãe lembrava a cada duas semanas, com a delicadeza de um trator — Camila tinha construído a vida em torno de equações e prazos, e não se arrependia disso, exceto em manhãs como aquela, quando via a mãe pequena demais dentro do próprio roupão, e se perguntava, com um aperto no peito que preferia não examinar de perto, quantas manhãs daquelas ainda lhe restavam.
— A senhora vai estar no complexo dia 14, junto com a Renata e a Paula, lembra? — disse ela, já vestindo o jaleco por cima da blusa. — Eu consegui os embarques pras três juntas. Vocês vão ficar na Ala 6, perto da minha.
— Eu vou é morrer de calor esperando numa fila com mais um milhão de brasileiro, isso sim — resmungou Dona Iracema, mas seus olhos, por trás dos óculos, brilhavam com algo que não era exatamente medo, nem exatamente esperança, mas as duas coisas ao mesmo tempo, torcidas como um cabo de aço.
Camila beijou o topo da cabeça da mãe, pegou a foto pequena — Iracema aos trinta anos, sorrindo numa praia que não existia mais em nenhum mapa confiável — e guardou-a, como fazia todos os dias, na carteira, no bolso de trás da calça. Um ritual sem explicação lógica, que ela jamais teria admitido a ninguém no complexo. Engenheiros não carregam amuletos. Engenheiras, evidentemente, carregam.
• • •
O atrito entre Rafael Guerra e Camila Salles não era segredo para ninguém no Hangar Ícaro. Os técnicos mais antigos já tinham até uma piada — diziam que a nave tinha dois sistemas de propulsão redundantes e um terceiro sistema, silencioso e infinitamente mais poderoso, chamado "a implicância entre o doutor e a doutora".
Naquela manhã, o atrito ganhou forma às nove e quarenta, na sala de controle da Ala de Comando, diante de um painel de simulação que mostrava, em vermelho pulsante, uma divergência nos cálculos de blindagem térmica do casco.
— Eu já disse, Rafael, os números da sua equipe estão otimistas demais — dizia Camila, os braços cruzados, o dedo batendo na tela. — Se a gente entrar na atmosfera superior com essa margem de segurança, no dia em que precisarmos de decolagem real, sem simulação, sem redundância dupla, a estrutura vai flexionar além do tolerável.
— E se a gente reforçar do jeito que você quer — respondeu Rafael, sem levantar a voz, o que de alguma forma irritava Camila ainda mais do que se ele gritasse —, perdemos quatrocentas toneladas de capacidade de carga, o que significa, na prática, doze mil pessoas a menos embarcando. Doze mil, Camila. Você está disposta a assinar embaixo dessa conta?
— Estou disposta a assinar embaixo de uma nave que não se despedaça no ar, sim.
— Ninguém aqui está propondo uma nave que se despedaça no ar. Estamos propondo margens calculadas por uma equipe de trinta engenheiros, revisadas três vezes, dentro dos parâmetros de segurança internacionais.
— Parâmetros escritos para naves que decolam de uma plataforma com tempo de sobra, Rafael. Não para o cenário que a gente pode vir a enfrentar.
Houve um silêncio. Era sempre naquele ponto exato da discussão — o cenário que a gente pode vir a enfrentar — que algo se fechava no rosto de Rafael, uma porta batendo em algum corredor interno. Ele não gostava de pensar no pior cenário. Tinha uma família que embarcaria em vinte e dois dias, e permitir-se imaginar o pior cenário era, para ele, uma forma de traição contra os próprios filhos.
— A gente segue o cronograma aprovado — disse ele, finalmente, com aquela autoridade tranquila que Camila lia, invariavelmente, como arrogância disfarçada de razão. — Se surgir alguma anomalia real, revisamos. Até lá, blindagem térmica permanece como está.
— "Se surgir alguma anomalia real" — repetiu ela, num tom que imitava, com crueldade cirúrgica, a cadência dele. — Você fala como se anomalias avisassem com antecedência, Rafael. Você é brilhante, todo mundo aqui sabe disso, inclusive eu, por mais que você ache que eu não reconheço. Mas brilhante não é a mesma coisa que infalível. E às vezes eu queria muito que você entendesse essa diferença antes que alguém precise aprender ela na marra.
Ela saiu da sala sem esperar resposta, os saltos baixos batendo secos no piso industrial, e Rafael ficou ali, olhando para o painel vermelho pulsante, pensando — como pensava sempre depois de discutir com ela — que Camila Salles era, sem dúvida, a segunda melhor engenheira que já conhecera na vida, e também, sem sombra de dúvida, a pessoa mais insuportavelmente teimosa com quem já tivera o desprazer de dividir um projeto.
Nenhum dos dois sabia, naquela manhã, o quanto aquela mesma teimosia — a dela, a dele — seria, em poucos dias, a única coisa entre a extinção completa da espécie humana e uma segunda chance.
• • •
Enquanto isso, quatro andares abaixo, numa sala sem janelas que a maioria dos funcionários do complexo nem sabia que existia, a geóloga Marisa Coutinho tentava, pela terceira vez naquela semana, obter uma reunião com o Conselho Diretor do Projeto Horizonte.
— As leituras da bacia do Paraná não fecham com o modelo oficial — insistia ela, para um assessor que mal escondia a impaciência. — Estamos vendo microtremores em regiões que deveriam estar geologicamente estáveis segundo os relatórios de dois anos atrás. Isso pode não significar nada. Mas também pode significar que a janela real de colapso está mais próxima do que os quarenta e cinco dias que constam no cronograma.
— Doutora Coutinho, a senhora sabe o que acontece se esse tipo de informação vazar antes da hora — respondeu o assessor, sem erguer os olhos dos próprios papéis. — Temos um milhão de pessoas se preparando psicologicamente para um embarque organizado em vinte e dois dias. Se a gente antecipa esse prazo sem cem por cento de certeza, e a certeza não se confirma, a gente perde o controle de uma logística que já está no limite. Motins. Colapso das filas de triagem. Gente tentando furar fila armada, doutora. A senhora quer isso?
— Eu quero estar errada — disse Marisa, baixinho. — Sinceramente, eu quero muito estar errada.
O assessor prometeu levar o relatório "à devida instância competente" — frase que, no vocabulário não-oficial do Complexo Horizonte, significava mais ou menos a mesma coisa que uma gaveta trancada. Marisa saiu da sala com a pasta debaixo do braço, e ninguém, nas poucas horas que ainda restavam — setenta e poucas, embora ela própria não soubesse disso —, voltou a lhe telefonar.
• • •
Na sala de monitoramento internacional, no terceiro subsolo do complexo, três telas permaneciam ligadas dia e noite, sintonizadas em canais que o público em geral não tinha acesso. Ali, uma equipe pequena acompanhava, com a mistura de fascínio e desespero de quem assiste a um incêndio na casa do vizinho sabendo que o próprio telhado também está pegando fogo, o andamento dos outros programas espaciais de sobrevivência ao redor do globo.
Os russos construíam a Kovcheg num cosmódromo isolado no Cazaquistão, um projeto mais modesto — poucos milhares de vagas, segundo os rumores, reservadas quase que exclusivamente para cientistas, militares e suas famílias, numa seleção que já vinha gerando protestos silenciosos, rapidamente abafados. Os chineses avançavam mais depressa que qualquer outra nação com a Fang Zhou, erguida em Sichuan com uma velocidade que intrigava os próprios engenheiros brasileiros — capacidade estimada em algumas dezenas de milhares de passageiros, números que a imprensa oficial de Pequim recusava-se a confirmar ou desmentir. A Índia apostava numa nave menor, batizada Prithvi, "Terra" em sânscrito, uma ironia que ninguém no complexo comentava em voz alta. E um consórcio de nações europeias, disperso entre bases na Guiana Francesa e no norte da Noruega, trabalhava na Noah-7 com um sigilo quase patológico — nem mesmo os aliados mais próximos sabiam ao certo quantas pessoas aquela nave levaria, nem para onde pretendiam ir.
Os americanos, por sua vez, mantinham o próprio programa envolto num sigilo que beirava a paranoia institucional: a nave Providence, erguida em local que jamais chegou a ser oficialmente divulgado, contava, segundo os poucos vazamentos que circulavam pelos corredores do Complexo Horizonte, com um banco de dados de candidatos a planetas habitáveis, compilado ao longo de décadas por telescópios orbitais que o público em geral desconhecia — uma vantagem que os americanos, sistematicamente, recusavam-se a compartilhar com qualquer outra nação, mesmo àquela altura, com o mundo inteiro contando os próprios dias.
— A gente devia estar compartilhando dados de rota com essa gente toda — comentou um dos analistas, uma noite, olhando para o mapa-múndi salpicado de pontos vermelhos que marcavam cada complexo de lançamento conhecido. — Se cada nação for procurar planeta sozinha, no escuro, é bilhões de quilômetros de espaço vazio sendo vasculhado sem coordenação nenhuma. É loucura.
— Loucura é a palavra certa para o mundo inteiro, essa semana — respondeu a colega, sem tirar os olhos da tela, e desligou o som daquele canal específico, porque não suportava mais ouvir os porta-vozes de cada governo repetindo, em oito idiomas diferentes, a mesma promessa vazia de que havia tempo de sobra.
• • •
A noite chegou ao Hangar Ícaro do mesmo jeito estranho que chegava todos os dias — não como escuridão, porque as luzes internas nunca se apagavam de fato, mas como uma mudança de ritmo, um esvaziamento gradual dos corredores enquanto os turnos se revezavam.
Rafael ainda estava lá, sozinho na ponte de comando da Nave Aurora, revisando pela enésima vez os protocolos de decolagem de emergência — um documento de duzentas e trinta páginas que ele próprio ajudara a escrever, e que nenhum ser humano, esperava sinceramente, jamais precisaria usar. Era um exercício quase supersticioso, aquele: revisar o protocolo de emergência como quem reza um terço, não porque acreditasse que precisaria dele, mas precisamente para garantir, através do ritual, que não precisaria.
Ouviu passos atrás de si e não precisou se virar para saber de quem eram. Havia meses que reconhecia o som específico dos saltos de Camila no metal do piso, um dado inútil que seu cérebro insistia em arquivar.
— Ainda bravo comigo? — perguntou ela, sem realmente perguntar, encostando-se ao batente da porta.
— Não estava bravo. Estava em desacordo. São coisas diferentes, embora você pareça ter dificuldade nessa distinção.
— E você parece ter dificuldade em admitir quando alguém discorda de você por um motivo válido, não por birra.
Ele se virou, finalmente, e por um segundo — só um segundo, que os dois prefeririam esquecer depois — algo no rosto cansado dela, na maneira como segurava os próprios cotovelos como quem tenta se manter inteira, o desarmou um pouco.
— Sua mãe embarca dia 14 — disse ele, mudando de assunto, ou talvez não mudando tanto assim. — Junto com as suas amigas. Vi o formulário.
— Embarca — confirmou Camila, surpresa que ele soubesse, mais surpresa ainda que tivesse guardado a informação. — E os seus três, junto com a Denise, no mesmo grupo que o meu.
— É. Vamos estar todos lá dentro, esse mundo inteirinho de gente que a gente ama, dividindo o mesmo ar reciclado pelos próximos... — ele hesitou — pelos próximos sei lá quantos anos, até acharmos um lugar pra pousar.
— Assustador — disse ela, e havia, pela primeira vez naquele dia, algo genuíno na palavra, sem ironia, sem farpa.
— Assustador — concordou ele.
Ficaram ali por um instante, dois adultos que discordavam sobre quase tudo, unidos apenas pelo peso partilhado de saber exatamente o tamanho da responsabilidade que carregavam nos ombros, e pela vertigem privada — que nenhum dos dois confessaria ao outro — de temer, cada um à sua maneira, que os vinte e dois dias no calendário fossem, de alguma forma incompreensível, uma mentira que o mundo ainda não tinha coragem de desmentir.
Lá fora, sob o cerrado escuro, os microtremores registrados por Marisa Coutinho continuavam, pacientes, inaudíveis, percorrendo falhas geológicas que nenhum relatório oficial jamais chegaria a atualizar a tempo.
O relógio do Projeto Horizonte marcava vinte e dois dias.
A Terra tinha, na verdade, pouco mais de setenta e duas horas.